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terça-feira, 14 de julho de 2020

"Letra para cantar" - Poema de Félix Lope de Vega


Philip Richard Morris (1836-1902), Audrey, 1888



Letra para cantar


Não serem, Lucinda, estrelas
as tuas pupilas belas,
bem pode ser;
mas que em sua claridade
não haja alguma deidade,
não pode ser.

Que a boca celestial
não seja o próprio coral,
bem pode ser;
mas que não exceda a rosa
em ser vermelha e cheirosa,
não pode ser.

Que não seja o branco peito
de cristais ou neve feito,
bem pode ser;
mas que não vença em brancura
os cristais e a neve pura,
não pode ser.

Que não seja um anjo, o colo
da Fênix, o próprio Apolo,
bem pode ser;
porém que de anjo não tenha
o que com anjo convenha,
não pode ser.

Não teres flores nas veias
nem de lírios as mãos cheias,
bem pode ser;
mas que nelas não se vejam
quantas graças se desejam,
não pode ser. 


Félix Lope de Vega (1562-1635)
Tradução de Anderson Braga Horta


sábado, 20 de junho de 2020

"Primavera" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Philip Richard Morris, A young girl collecting blackberries from a hedgerow



Primavera


Primavera que Maio viu passar
Num bosque de bailados e segredos
Embalando no anseio dos teus dedos
Aquela misteriosa maravilha
Que à transparência das paisagens brilha.


Sophia de Mello Breyner Andresen



quinta-feira, 18 de junho de 2020

"Uma gargalhada de rapariga soa do ar da estrada" - Poema de Alberto Caeiro


Philip Richard Morris (1836-1902), The Arrival of Spring



Uma Gargalhada de Rapariga


Uma gargalhada de rapariga soa do ar da estrada.
Riu do que disse quem não vejo.
Lembro-me já que ouvi.
Mas se me falarem agora de uma gargalhada de rapariga da estrada,
Direi: não, os montes, as terras ao sol, o sol, a casa aqui,
E eu que só oiço o ruído calado do sangue que há na minha vida dos dois lados da cabeça. 

12-4-1919

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa


domingo, 3 de maio de 2020

"Com a altura da idade a casa se acrescenta" - Poema de Fernando Echevarría



Philip Richard Morris (1836-1902), Home, Sweet Home



Com a altura da idade a casa se acrescenta


Com a altura da idade a casa se acrescenta.
Não é que aumente a quantidade ao espaço.
Mas, sendo mais longínquos, o desapego pensa
maior distância quando se fica a olhá-lo.
Ou, se quiserem, uma realeza
se instala à volta dessa altura de anos,
de forma a que os objectos apareçam
na luz de quase já nem os amarmos.
Então a casa distende-se na intensa
inteligência de estarmos
a ver as coisas amarem-se a si mesmas.
Ou com a forma a difundir seu espaço.
 in "Figuras" (1987)

terça-feira, 10 de setembro de 2019

"Tenho mil irmãs para amar sem palavras" - Poema de José Luís Peixoto


Philip Richard Morris (1836-1902), "Sisters", Date unknown



Tenho mil irmãs para amar sem palavras


Tenho mil irmãs para amar sem palavras.
Tenho aquela irmã que caminha encostada
às paredes e sem voz, tenho aquela irmã de
esperança, tenho aquela irmã que desfaz o
rosto quando chora. Tenho irmãs cobertas
pelo mármore de estátuas, refletidas pela
água dos lagos. Tenho irmãs espalhadas por
jardins. Tenho mil irmãs que nasceram
antes de mim para que, quando eu nascesse,
tivesse uma cama de veludo. Agradeço com
amor a cada uma das minhas irmãs. São mil
e cada uma tem um rosto a envelhecer. As
minhas mil irmãs são mil mães que tenho.
Os olhos das minhas irmãs seguem-me com
bondade e, quando não me compreendem,
é porque eu próprio não me compreendo.
Tenho mil irmãs a esperar-me sempre, com
silêncio para ouvir-me e para proteger-me
no inverno. Tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola e tenho aquela irmã que é uma
menina que sai de casa cedo para chegar cedo
à escola. Tenho irmãs como música, como
música. Tenho mil irmãs feitas de branco.
Eu sou o irmão de todas elas. Sou o guardião
permanente e incansável do seu sossego.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.
Eu tenho de ser feliz pelas minhas irmãs.


José Luís Peixoto
in Gaveta de Papéis
(Daqui)



quarta-feira, 4 de setembro de 2019

"Pensei que eras meu inimigo" - Poema de Bella Akhmadulina


 
Philip Richard Morris (1836-1902), A fond farewell



Pensei que eras meu inimigo


Pensei que eras meu inimigo,
a minha grande infelicidade.
Mas inimigo não és – só um mentiroso
e são vãs as tuas manobras.

Diante do carrossel
eu joguei cara ou coroa.
Queria, com essa moeda,
saber se te amo ou não.

Meu lenço ficou caído
no chão, no jardim Aleksándrov.
Aqueci as mãos; mas todos souberam
o que eu pensava – e que também mentia.

As mentiras devem estar voando
à minha volta como corvos.
Mas da próxima vez que te despedires
não verás, em meus olhos, nem azul nem negro.

Ah, continua vivendo, não fique triste.
Por mim está tudo bem.
Mas como tudo isso é inútil,
como é tudo absurdo!
Você indo para um lado,
eu indo para outro.


Bella Akhmadulina

Tradução de Lauro Machado Coelho