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quarta-feira, 1 de julho de 2026

"Algumas reflexões sobre a mulher" - Poema de Eugénio de Andrade


 
William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916),
'I am Going to See Grandma' (aka 'Mrs. Chase and Child'), 1889,
San Antonio Museum of Art.



Algumas reflexões sobre a mulher


Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.


Eugénio de Andrade
(1923–2005),
 in "Coração do Dia", 1958.


 
William Merritt Chase
, 'Portrait Group (Dorothy, Helen, and Bob)', c. 1904.
Oil on canvas. North Carolina Museum of Art.

[By all accounts William Merritt Chase was a doting father. Though he painted many members of wealthy white society of his time, the artist took special delight in portraying his wife, their eight children, and the boisterous life of the Chase household. However, in this formal ensemble, all is decorous and well mannered. The children are clearly experienced models. Four-year-old Bob grips his father’s cane with authority.] (daqui)
 

 
William Merritt Chase, 'Afternoon by the Sea' (aka 'Gravesend Bay'), 1888,
  Private Collection.
 

E tu, sozinho e pensativo na tua dor,
procurarás a tua mãe, e nestes braços
esconderás o teu rosto;
no seio que nunca muda terás repouso. 


Giuseppe Giusti
(1809–1850),
trecho do poema 'Affetti d'una Madre'.
 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

"Árvore" - Poema de Carlos de Oliveira

 

 
William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916), 
'The Olive Grove', c. 1910.
 

Árvore

I

As raízes da árvore
rebentam
nesta página
inesperadamente,
por um motivo
obscuro
ou sem nenhum motivo,
invadem o poema
e estalam
monstruosas
buscando qualquer coisa
que está
em estratos
fundos,

II

talvez poços,
secretas
fontes primitivas,
depósitos, recessos
onde haja
um pouco de água
que as raízes
procuram
de página
em página
com a sua obsessão,
múltiplos filamentos
trespassando o papel,

III

seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:

como podem
crescer
de tal modo

IV

no poema,
se a árvore
foi dispersa
em pranchas de soalho,
em móveis e baús
que fecham
para sempre
coisas
tão esquecidas,
como podem
romper
de súbito impetuosas
na aridez
do livro

V

e perseguir-me
assim,
se a areia
donde vêm
já vitrificada
pelo tempo
oculta
a árvore que morreu:

procuram
instalar-se
no interior da linguagem
ou substituí-la
por uma
infiltração

VI

quase
mortalizante:
mas
de repente
como apareceram
as raízes sossegam
[que terão
encontrado?]
e retiram
com o mesmo fluxo
do mar que se retrai e deixa
atrás de si
silêncio:

VII

é então que vejo
no halo mais antigo
a árvore desolada,
os ramos em que poisam
as aves
doutros livros,
e pressinto
as raízes
através da sílica
onde a família dorme
com os ossos dispostos
nessa arquitetura
duvidosa
de símbolos

VIII

que chegaram
aqui
de mão em mão
para caberem todos
na constelação
exígua
que fulgura
ao canto do quarto:
o baú ponteado
como o céu
por tachas amarelas,
por estrelas
pregadas na madeira
da árvore.


Carlos de Oliveira (1921–1981),
in 'Micropaisagem', 1968,
Dom Quixote


 
 
'Micropaisagem' de Carlos de Oliveira;
Coleção: Cadernos de Poesia nº 1;
Editora: Dom Quixote, 1ª ed. 1968.
 
 
Micropaisagem

Incluído numa segunda fase da obra poética de Carlos de Oliveira, marcada por uma "procura intensificada da depuração e da concentração expressiva" (GUSMÃO, Manuel - A Poesia de Carlos de Oliveira (estudo e antologia), Lisboa, Ed. Comunicação, 1981, p. 68), tendência que se reflete no rigor de construção, no estilo mais elíptico e substantivo, mais "minucioso na escolha e ordenação das palavras" (id., ibi., p. 69), sendo que "a menor e regular dimensão dos poemas ou dos seus fragmentos-unidades internas, no caso dos poemas 'compostos', facilitam e produzem uma mais intensa tensão rítmica e expressiva interna", em Micropaisagem agudiza-se, se comparado com volumes anteriores, o carácter autorreferencial da poesia, ao mesmo tempo que a captação das imagens do mundo mineral tende a conduzir a um ocultamento do sujeito poético sob uma paisagem estagnada embora em milenar movimento: "Se o poema / analisasse / a própria oscilação / interior, / cristalizasse / um outro movimento / mais subtil, / o da estrutura / em que se geram / milénios depois / estas imaginárias / flores calcárias, / acharia / o seu micro-rigor" ("Estalactite", in Micropaisagem).

Equacionando a dinâmica lenta de sedimentação da realidade e a construção do poema, avulta neste volume a consciência de um trabalho de despojamento, de filtragem, imperioso para que, na sua forma final, o poema condense, com brevidade, um ritmo íntimo, um subterrâneo entrelaçar de sentidos, a sua nudez e essencialidade. (daqui)
 

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

"A uma lavadeira" - Poema de Gilka Machado



William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916),
Washing Day – A Backyard Reminiscence of Brooklyn, c. 1886.
Oil on wood panel, 38.7 x 47.3 cm, Private collection.
 

A uma lavadeira


Minha vizinha lavadeira,
mal nasce o sol, põe-se a cantar,
canta a manhã, a tarde inteira,
mais me parece uma rendeira
uivosos sons desfiando no ar.

De suas mãos o alvor é tanto
que, às vezes tenho a convicção
de que, talvez por um encanto
alvo se torne tudo quanto
os dedos seus tocando vão.

Quando ela vai ao coradouro
finas cambraias estender,
olhos azuis, cabelo louro,
tudo em seu corpo canta em coro
pela alegria de viver.

Se a lua sobre os silenciados
campos do luar abre os lençóis,
não mais, então, lhe ouço os trinados,
mas cuido ver, por sobre os prados,
dormir, sonhar a sua voz.

Debalde o espírito perscruta
de onde lhe vem esse poder
de sem possuir força bruta,
assim tornar clara, impoluta
roupa que às mãos lhe venha ter.

Não poderei, por mais que queira,
dado me fosse e dos desvãos
da minha dor tirara inteira
esta alma, ó linda lavadeira,
para o crisol de tuas mãos.

Ao teu labor, que assim perdura,
tenho este anseio singular:
pudesses tu, leda criatura,
lavar minha alma da amargura
e pô-la ao sol para secar. 


Gilka Machado, in Mulher Nua, 1922



Elin Danielson-Gambogi (Finnish painter, 1861–1919), Laundry Drying, 1896.


Lavadeiras

 
Lavadeiras de beira-rio.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.


Yeda Prates Bernis, in "Grão de arroz".
Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.
 
 

Alice Havers
(English painter and illustrator, 1850–1890), Washerwomen
 (Blanchisseuses: 'What, no soap?'), Walker Art Gallery.


"Deus nunca se faz de filósofo diante de uma lavadeira."


 
 
 
C. S. Lewis (1898–1963) fotografado em 1955
por Walter Stoneman (1876–1958).


 C. S. Lewis 

Escritor e estudioso britânico, Clive Staples Lewis nasceu a 29 de novembro de 1898, em Belfast, na Irlanda do Norte. Filho de um solicitador e de uma matemática que faleceu quando Lewis contava apenas nove anos de idade, viveu numa casa literalmente atulhada de livros, e na liberdade de os escolher.

Estudou em Hertfordshire e em Malvern, até que, com o início da Primeira Grande Guerra, tinha Lewis catorze anos, o pai decidiu educá-lo em casa.
Decidiu tornar-se ateu nesta época, em que a música de Wagner o havia influenciado significativamente.

Em 1917 alistou-se no exército, mas foi baleado acidentalmente nas costas algum tempo depois.
Durante o período de convalescença, conheceu a mãe de um amigo, Janie Moore (1872–1951), por quem se apaixonou mau grado a considerável diferença de idades, e com quem viveu até ela falecer em 1951.

Em 1919 não só publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de poesia com o título Spirits In Bondage, como ingressou na University College de Oxford, conseguindo o seu diploma quatro anos depois. Começou a lecionar Língua e Literatura Inglesas em Oxford no ano de 1925, e aí co-fundou uma tertúlia literária com J. R. R. Tolkien e Charles Williams, com o nome The Inklings. Deste convívio resultou sobretudo a sua reconversão ao Cristianismo.

Em 1926 publicou uma outra coletânea de poemas, Dymer, e no início da década de 30 começou a escrever livros de carácter religioso, como A Pilgrim's Regress (1933) e Allegory Of Love (1936), chegando ao ponto de utilizar os moldes da ficção científica para discutir questões de fé em Out Of Silent Planet (1938). A obra, parte da chamada 'Ransom Trilogy', seria continuada com a publicação de Perelandra (1943) e Tha Hideous Strengh (1945).

Em 1950 deu início às celebres The Chronicles Of Narnia, série fantástica vocacionada para um público infantojuvenil, e da qual apareceram sete episódios, sendo The Lion, The Witch And The Wardrobe (1950) o primeiro, e The Last Battle (1956) o último. Situadas no mundo imaginário de Narnia, as aventuras estão repletas de símbolos religiosos e espirituais, revelando a profundeza do pensamento de C. S. Lewis.

O autor faleceu em Oxford, Inglaterra no dia 22 de novembro de 1963. (daqui)

domingo, 30 de novembro de 2014

"Os Palhaços" - Poema de Guilherme de Azevedo


William Merritt Chase,"Keying Up" – The Court Jester,



Os Palhaços


Heróis da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
eu gosto de vocês,
porque amo as expansões dos grandes risos francos
e os gestos de entremez,

e prezo, sobretudo, as grandes ironias
das farsas joviais.
que em visagens cruéis, imperturbáveis, frias.
à turba arremessais!

Alegres histriões dos circos e das praças,
ah, sim, gosto de vos ver
nas grandes contorções, a rir, a dizer graças
de o povo enlouquecer,

ungidos pela luta heróica, descambada,
de giz e de carmim,
nas mímicas sem par, heróis da bofetada,
titãs do trampolim!

Correi, subi, voai num turbilhão fantástico
por entre as saudações
da turba que festeja o semideus elástico
nas grandes ascensões,

e no curso veloz, vertiginoso, aéreo,
fazei por disparar
na face trivial do mundo egoísta e sério
a gargalhada alvar!

Depois, mais perto ainda, a voltear no espaço,
pregai-lhe, se podeis,
um pontapé furtivo, ó lívidos palhaços,
luzentes como reis!

Eu rio sempre, ao ver aquela majestade,
os trágicos desdéns
com que nos divertis, cobertos de alvaiade,
a troco duns vinténs!

Mas rio ainda mais dos histriões burgueses,
cobertos de ouropéis,
que tomam neste mundo, em longos entremezes,
a sério os seus papéis.

São eles, almas vãs, consciências rebocadas,
que enfim merecem mais
o comentário atroz das rijas gargalhadas
que às vezes disparais!

Portanto, é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
nas cómicas funções,
até fazer morrer, em desmanchados gestos,
de riso as multidões!

E eu, que amo as expansões dos grandes risos francos
e os gestos de entremez,
deixai-me dizer isto, ó nobres saltimbancos:
eu gosto de vocês!


Guilherme de Azevedo, in 'A Alma Nova'


William Merritt Chase, Autorretrato, 1915-1916, óleo sobre tela, 
"A arte não é um espelho que mostra a realidade 'como ela é'. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata."

(Walter Kaufmann)


sábado, 25 de agosto de 2012

"Ode aos livros" - Poema de Pablo Neruda



Pierre-Auguste Renoir
(French Impressionist artist, 1841–1919),
'Two Young Girls Reading', 1874, Private Collection.


Ode aos livros
 

Nós
os poetas caminheiros
explorámos o mundo, a cada porta
recebeu-nos a vida,
participámos na luta terrestre.
A nossa vitória qual foi?
Um livro, um livro cheio
de contactos humanos,
de camisas, um livro
em solidão, com homens
e ferramentas, um livro
é a vitória. Vive e cai
como todos os frutos,
não só tem luz,
não só tem sombra,
apaga-se,
desfolha-se,
perde-se de rua em rua,
despenha-se na terra
Livro de versos
de amanhã, volta
outra vez a ter neve ou musgo
nas tuas páginas
para que os pés
ou os olhos vão gravando sinais:
descreve-nos
de novo o mundo, as fontes
entre a espessura,
os altos arvoredos,
os planetas polares,
e o homem
nos caminhos,
nos novos caminhos,
avançando
na selva, na água, no céu,
na mais nua solidão marinha,
o homem
descobrindo os últimos segredos,
o homem
regressando com um livro,
o caçador
tornando a casa com um livro,
o camponês
lavrando com um livro. 


Pablo Neruda (1904–1973)


- Leitura e Lazer -

Sir John Lavery (Irish painter, 1856
–1941), 'Summer'
(The Green Hammock)
, 1905.



Sir John Lavery (Irish painter, 1856–1941), 'Red Hammock', 1936.
 
 

William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher,
 1849–1916), 'Sunlight and Shadow', 1884. 



William Merritt Chase, 'The Open Air Breakfast' (also known as 'The Backyard, 
Breakfast Out of Doors'), 1888, Toledo Museum of Art.
 


William Chadwick
 (American impressionist painter, 1879–1962),
 'The Hammock', n.d. 



Winslow Homer 
(American painter, 1836–1910), Girl in a Hammock', 1873.



Valentine Cameron Prinsep
(Indian-born British artist, 1838
–1904),
'Sweet Repose', n.d.
 
 

Władysław Ślewiński (Polish painter, 1854–1918), 
'Sleeping woman with a cat', 1896. 



Emanuel Phillips Fox
(Australian impressionist painter, 1865
–1915),
'A Love Story', 1903, Art Gallery of Ballarat.
 


Joseph DeCamp
(American painter and educator, 1858–1923),
 'The Hammock', c. 1895.



James Tissot (French painter, illustrator, and caricaturist, 1836
–1902),
 'The Hammock', 1880. 



Robert Thegerström
(Swedish painter and graphic artist, 1857–1919),
'Laziness' (Lättja), 1887.



"Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso?"


Manoel de Barros
, em 'Exercícios de ser criança'