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terça-feira, 19 de maio de 2026

"A escada da vida" - Poema de Eugénio de Castro

 

Guillaume Seignac (French painter, 1870-1929), 'The red rose', 1924
 
 
A escada da vida
 
 
Encontrou-se a Caridade
Com o Orgulho, certo dia:
Subia o orgulho uma escada,
E a Caridade descia.

Ela humilde, ele arrogante,
No patamar dessa escada
Os dois, cruzando-se, viram
Uma rosinha pisada.

Emproado, o Orgulho, vendo-a,
Deu-lhe nova pisadela;
De joelhos, a Caridade
Deitou-se aos beijos a ela.

Mas nobres passos se ouviram
De som divino e tremendo:
O Orgulho seguiu subindo,
E a Caridade descendo...

E a voz de Deus, entretanto,
Disse, bramindo e sorrindo,
– «Tu, que sobes, vais descendo!»
– «Tu, que desces, vais subindo!»


Eugénio de Castro
in "Cravos de papel", 1922. 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

"Ouve vou dizer-te" - Poema de Abel Neves

 
 
Guillaume Seignac (French painter, 1870–1929), 'The cherry girl' 


Ouve vou dizer-te



Ouve vou dizer-te
abre com os dedos uma cereja
daquelas de fazer brinco quando a brisa é boa
tira-lhe o caroço
verás como isso é arrancar o coração do tempo
o carmesim do suco
é o choro e o riso
dos que se amam impacientes e belos


Abel Neves
,
in “Resumo - a poesia em 2012”  
Documenta/Fnac - 2013
 
 
Livro: "Resumo - a poesia em 2012" (daqui)
 

"Quero fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejeiras."

Pablo Neruda (1904–1973), em final do Poema 14 do livro:
"Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada", 1924
 (daqui)
 
 

William Frederick Yeames (British painter, 1835–1918), 'Ripe Cherry'


"As palavras são como as cerejas, atrás de umas vêm as outras."

Provérbio
 
 

Hans Zatzka (Austrian painter, 1859
1945/9), 'Roses and Cherries'


Poema

A vida é uma cereja
A morte um caroço
O amor uma cerejeira.

Jacques Prévert, Poemas,
São Paulo: Nova Fronteira, 2000, p. 65.

segunda-feira, 15 de março de 2021

"Ria, Rosa, Ria" e "Mascarada" - Poemas de Manuel Bandeira

 
 
 

Ria, Rosa, Ria

                        (A Guimarães Rosa)

Acaba a Alegria
Dizendo-nos: – Ria!
Velha companheira,
Boa conselheira!

Por isso me rio
De mim para mim.
Rio, rio, rio!
E digo-lhes: – Ria,
Rosa, noite e dia!
No calor, no frio,
Ria, ria! Ria,
Como lhe aconselha
Essa doce velha
Cheirando a alecrim,
A alegre Alegria! 
 
 
Guillaume Seignac, Pierrot's Embrace, c. 1900 – óleo sobre tela
 

Mascarada
 
           Você me conhece?
                                              (Frase dos mascarados de antigamente)

– Você me conhece?
– Não conheço não.
– Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores…
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
– Não conheço não.

– Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visão!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo
Do que eu te dizia…
Era a minha fala
Canto e persuasão…
Pois não me conheces?
– Não conheço não.
– Choraste em meus braços
– Não me lembro não.

– Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!

Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?

– Não conheço não.
Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição. 
 
 

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

"Via-Láctea" - 7 Sonetos (VIII a XIV) de Olavo Bilac


Guillaume Seignac (1870-1924), Young Woman of Pompeii on a Terrace,
 Private collection 


Sonetos

VIII

Em que céus mais azuis, mais puros ares,
Voa pomba mais pura? Em que sombria
Moita mais nívea flor acaricia,
A noite, a luz dos límpidos luares?

Vives assim, como a corrente fria,
 Que, intemerata, aos trémulos olhares
 Das estrelas e à sombra dos palmares,
 Corta o seio das matas, erradia.
 
 E envolvida de tua virgindade,
 De teu pudor na cândida armadura,
 Foges o amor, guardando a castidade,
 
 - Como as montanhas, nos espaços francos
 Erguendo os altos píncaros, a alvura
  Guardam da neve que lhes cobre os flancos.
 
 IX
 
 De outras sei que se mostram menos frias,
Amando menos do que amar pareces.
 Usam todas de lágrimas e preces:
 Tu de acerbas risadas e ironias.
 
 De modo tal minha atenção desvias,
 Com tal perícia meu engano teces,
 Que, se gelado o coração tivesses,
 Certo, querida, mais ardor terias.
 
 Olho-te: cega ao meu olhar te fazes...
 Falo-te - e com que fogo a voz levanto! - Em vão...
 Finges-te surda às minhas frases..
 
 Surda: e nem ouves meu amargo pranto!
 Cega: e nem vês a nova dor que trazes
 À dor antiga que doía tanto!
 
 X 
 
Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
 Teu grande amor que e teu maior segredo!
 Que terias perdido, se, mais cedo,
 Todo o afeto que sentes se mostrasse?
 
 Basta de enganos! Mostra-me sem medo
 Aos homens, afrontando-os face a face:
 Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.
 
 Olha: não posso mais! Ando tão cheio
 Deste amor, que minh'alma se consome
 De te exaltar aos olhos do universo.
 
 Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
 E, fatigado de calar teu nome,
 Quase o revelo no final de um verso.
 
 XI 
 
Todos esses louvores, bem o viste,
 Não conseguiram demudar-me o aspecto:
 Só me turbou esse louvor discreto
 Que no volver dos olhos traduziste...
 
Inda bem que entendeste o meu afeto
 E, através destas rimas, pressentiste
 Meu coração que palpitava, triste,
 E o mal que havia dentro em mim secreto.
 
 Ai de mim, se de lágrimas inúteis
 Estes versos banhasse, ambicionando
 Das néscias turbas os aplausos fúteis!
 
 Dou-me por pago, se um olhar lhes deres:
 Fi-los pensando em ti, fi-los pensando
 Na mais pura de todas as mulheres.
 
 XII
 
 Sonhei que me esperavas. E, sonhando,
 Saí, ansioso por te ver: corria... 
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
 Soube logo o lugar para onde eu ia. 
 
E tudo me falou, tudo! Escutando
 Meus passos, através da ramaria, 
Dos despertados pássaros o bando:
 "Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.
 
 Disse o luar: "Espera! que eu te sigo:
 Quero também beijar as faces dela!"
 E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!"
 
 E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
 "Como és feliz! como és feliz, amigo, 
Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!"
 
XIII
 
 "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
 Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
 Que, para ouvi-las, muita vez desperto
 E abro as janelas, pálido de espanto...
 
 E conversamos toda a noite, enquanto
 A via-láctea, como um pálio aberto,
 Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
 Inda as procuro pelo céu deserto.
 
 Direis agora: "Tresloucado amigo!
 Que conversas com elas? Que sentido
 Tem o que dizem, quando estão contigo?"
 
 E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
 Pois só quem ama pode ter ouvido
 Capaz de ouvir e de entender estrelas".
 
 XIV
 
 Viver não pude sem que o fel provasse
 Desse outro amor que nos perverte e engana:
 Porque homem sou, e homem não há que passe
 Virgem de todo pela vida humana.
 
 Por que tanta serpente atra e profana
 Dentro d'alma deixei que se aninhasse?
 Por que, abrasado de uma sede insana,
 A impuros lábios entreguei a face?
 
 Depois dos lábios sôfregos e ardentes,
 Senti - duro castigo aos meus desejos
 - O gume fino de perversos dentes... 
 
E não posso das faces poluídas
 Apagar os vestígios desses beijos
 E os sangrentos sinais dessas feridas!  
 
 
 in "Via- Láctea", 1888