quinta-feira, 15 de outubro de 2026

"Chão de Outono" - Poema de Ana Margarida Borges




Andrea Johnson (American artist, b. 1954), "Sienna and Mo", n.d.



Chão de Outono


Da janela
Meço o Outono
Pela cor das folhas cobrindo meu chão
E há cheiro a castanhas
E a fruta madura
Outubro é lagar
Da tua doçura.

Que mãos preciosas tecem iguarias?
Tigelas douradas perfumam as casas
Sabem a marmelo e à minha infância
Que assim vai entrando
Com as suas asas

Macio é o Outono assim temperado
De açúcar e de pau de canela
Trazendo sabores e saberes ancestrais
E as vespas à volta pousando gulosas
Como o meu olhar atrás da janela
Bebendo o milagre das cores outonais

Cedo cai a noite e a nostalgia.
Instantes tão breves. Breve a ilusão
De um cabaz de Outono
Com travo a passado
Trazendo de novo
Uma velha canção

Quando dou por mim
Os frutos do estio
São gostosas geleias
Barradas no pão

No frio do inverno
Só mesmo o calor
Da tua mão


Ana Margarida Borges


Andrea Johnson,'Morning Cloaks and Grapevines', n.d.
 

Outono 

folha seca
sobre o travesseiro
acorda borboleta
 

Alice Ruiz
, Haikai,
 do livro 'Desorientais'
 
 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

"Dicionário" - Poema de José Paulo Paes

 


Jim Daly (American painter, born 1940), 'Bedtime Story'


Dicionário

 
A
Aulas: período de interrupção das férias.

B
Berro: o som produzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.

C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.

D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.

E
Excelente: lente muito boa.

F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.

G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta,
é um deus-nos-acuda.

H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.

I
Isca: cavalo de Troia para peixe.

J
Janela: porta de ladrão.

L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.

M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.

N
Nuvem: algodão que chove.

O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.

P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.

Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.

R

Rei: cara que ganhou coroa.

S

Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.

T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.

U

Urgente: gente com pressa

V
Vagalume: besouro guarda-noturno.

X
Xará: um outro que sou eu.

Z
Zebra: bicho que toma sol atrás das grades.


José Paulo Paes (1926–1998),
em 'Poesias para Brincar',
Editora Ática, 1990

[De acordo com o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990),
 as letras K, W e Y passam a pertencer ao alfabeto da língua portuguesa.]
 
 

Jim Daly, 'Favorite Reader', 1987



"Creio que uma forma de felicidade é a leitura."

Jorge Luis Borges
[Escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, 1899–1986]


terça-feira, 13 de outubro de 2026

"Nos olhos" - Poema de Roseana Murray



Samuel S. Carr (American pastoral and landscape painter, 1837–1908),
Children Playing on the Beach, 1879, oil on canvas, Clark Art Institute.



Nos olhos


Tanta coisa para guardar nos olhos,
Bicho-gente-paisagem,
tanto mar e montanha
e jardim, tanto amor,
tantas cores e o mundo
que passa como da janela
de um trem,
tanta coisa para guardar
nos olhos,
que às vezes transbordam
e com suas lágrimas
de riso, alegria ou dor,
se transformam em rio.


Roseana Murray, in "Vira Virou",
Ilustrações de Mariana Massarani,
ed. Nova Fronteira


 
Samuel S. Carr, Beach scene, c. 1879, Private collection.
 

"A arte é o lugar da liberdade perfeita." 


André Suarès

[Poeta e escritor francês, 1868–1948]
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

"Ninguém sabe o que é um poema" - Poema de Ricardo Azevedo



Regina Ohlweiler
(Artista brasileira, n. 1954), O primeiro voo do pássaro azul,
óleo sobre tela, 1990.

Ninguém sabe o que é um poema


Ninguém sabe o que é um poema
Se é solução ou problema
Se pretende ser um lema
Se imita o canto da ema

Ninguém sabe o que é um poema
Se vira e mexe é esquema
Se finge ou tem um dilema
Se às vezes vai ao cinema

Ninguém sabe o que é um poema
Se morde, xinga e blasfema
Se é perfume de alfazema
Se gosta de teorema

Ninguém sabe o que é um poema
Se é a seca em Borborema
Se é a praia em Ipanema
Se é a fome em Diadema

Ninguém sabe o que é um poema
Se mata como enfisema
Se prende feito uma algema
Ou se é medida extrema

Ninguém sabe o que é um poema
Se é só palavra sem tema
Se é uma arte suprema
Ou se é mero estratagema.


Ricardo Azevedo,
do livro "Ninguém sabe o que é um poema",
Ática, 2005.



"Ninguém sabe o que é um poema", escrito e ilustrado
por Ricardo Azevedo. 
Ática, 2005.
 
 
SINOPSE

O livro "Ninguém sabe o que é um poema" é uma antologia de poemas. Poemas são textos inventados por poetas. Poetas são sujeitinhos inconvenientes, cheios de vontades, que adoram fazer bagunça e mudar tudo de lugar. Mal eles chegam, já vão logo enfiando o dinheiro no aquário, o peixe na carteira, pianos na planície e capim na lapela.

A fim de bagunçar de verdade, aproveitam-se da inocência das palavras: vão bolinando as mais sonsas e as obrigam a dizer coisas estranhas e imprevistas. Para tanto, valem-se não apenas do significado imediato de cada termo, mas também de seu som, seu peso, sua cor e do ritmo que muitas vezes se insinua entre duas sílabas, duas respirações. Contrariando dessa forma os hábitos e convenções, parece que eles acordam a linguagem de uma espécie de sono, enriquecendo-a com novas possibilidades de sentido.

Ricardo Azevedo
, autor deste livro, pertence a essa classe de bagunceiros que não vieram para explicar coisa alguma, mas antes para partilhar suas inquietações. Inquietações sobre a natureza e a vida na cidade, sobre o amor e a violência, o amadurecimento pessoal, o mistério que são os outros e a própria poesia.

Seus temas podem variar, assim como as formas por ele escolhidas (versos em redondilha, decassílabos, alexandrinos, versos livres, quadrinhas populares, estrofes com rima, sem rima etc.), mas em toda a parte você pode testemunhar a disposição para tratar concretamente de coisas abstratas e vagas, como ideias, sentimentos e sensações. É isso que o leva, por exemplo, a se perguntar sobre “a largura do tédio, o peso da tristeza, o limite do sonho” (“Problemas de cálculo”, p. 58), a falar da violência em termos botânicos (“Pézim de violência”, p. 43) ou a mobilizar noções da física para transfigurar uma declaração de amor (“Confissão com fissura”, p. 19).

Em suma, são mais de trinta poemas repletos de humor, lirismo e reflexão o que se oferece nas próximas páginas para deleite e espanto do leitor. E se no final “ninguém sabe o que é um poema” é porque esse é um conhecimento pessoal e intransferível, uma aventura que ninguém pode viver em nosso nome. (daqui)
 

domingo, 11 de outubro de 2026

"Meu aniversário" - Poema de Pedro Bandeira

 


Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847–1935),
 'The Birthday Cake', c. 1891.


Meu aniversário


Hoje é meu aniversário,
é um dia sem igual!
Eu queria que hoje fosse
feriado nacional!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno",
Editora Moderna


 
Victor Gabriel Gilbert, 'Birthday party preparations', n.d.


São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.


Carlos Drummond de Andrade
,
Trecho do poema "O Tempo Passa? Não Passa"
in "Amar se Aprende Amando", 1985



Victor Gabriel Gilbert, 'Precaution', n.d.


Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

15-10-1929


Álvaro de Campos
, Trecho do poema "Aniversário", 
in "Poesias de Álvaro de Campos" - Fernando Pessoa.
Lisboa: Ática, 1944

 
 
Victor Gabriel Gilbert, 'Le panier des cerises', n.d.
 
 
Aniversário é uma festa
Pra te lembrar
Do que resta.


Millôr Fernandes, in "Hai-kais",
 Porto Alegre: L&PM Pocket, 2005
.

 

domingo, 4 de outubro de 2026

"A Liberdade o que é?" - Poema de José Jorge Letria

 

 
Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894–1978),
Young Love: Swinging, 1949, Part of the "Four Seasons" series.



A Liberdade o que é?


A liberdade
é um pássaro sem medo
a cantar dentro da boca.

A liberdade
é uma árvore
capaz de abraçar as estrelas.

A liberdade
é uma palavra límpida
no ramo mais alto da fala.

A liberdade
é um morango a dizer ao vermelho:
"Agora quero ser verde."

A liberdade
é um livro escrito com a tinta
de que são feitos os sonhos.

A liberdade
é a língua a soltar-se
para chamar a felicidade. 

A liberdade
é a rima esvoaçante
a beijar os namorados.

A liberdade
é a palavra nova
no ramo mais alto da fala.

A liberdade
é um livro sempre aberto
na página ainda por escrever.

A liberdade
é um quadro onde as tintas
sabem a fruta e a mar.

A liberdade
é um homem a escrever o livro
que conta o que ainda ninguém sabe.

A liberdade
é um trocadilho
para fazer rir um filho.

A liberdade
é um circo que torna livres
todos os bichos.

A liberdade
é um voz feita coro
para que todos possam cantar.

A liberdade
é uma onda imensa
a inundar a praia de gaivotas.

A liberdade
é uma letra apaixonada
por um número iluminado.

A liberdade
é um avô a gatinhar,
sem parar, atrás do neto.

A liberdade
é a poesia a matar em nós
a fome que temos de música.

A liberdade é azul
e tem meninos dentro
a sonhar e a brincar.

A liberdade
é um pequeno gesto
onde cabe tudo o resto.

A liberdade
é um ponto final
em tudo o que nos faz mal.

A liberdade
é a metade que falta
à nossa felicidade.

A liberdade
é um corvo a pintar de luz
o escuro da noite.

A liberdade
é um capitão a beijar
a alegria de um cravo.

A liberdade
é uma rua a desaguar,
ao luar, no infinito.

A liberdade
é um rio loucamente
apaixonado por uma cidade.

A liberdade
é um lágrima de súbito
transformada em diamante.

A liberdade
é ter tempo para dar
mais tempo aos outros.

A liberdade
é um menino
de todas as cores.

A liberdade
é uma andorinha
a desenhar a primavera.

A liberdade
é às vezes um verso
tão belo como o Universo.

A liberdade
é um poeta a dar nomes
aos sentimentos do mundo.

A liberdade
é um caracol
a brincar com o sol.

A liberdade
é um navio
de fio a pavio.

A liberdade
é um computador
a chorar de saudade.

A liberdade
é o dia, com fantasia,
de dar luz à noite.

A liberdade
é um comboio
a atravessar as nuvens.

A liberdade
é a última coisa
que se pode perder.

A liberdade
é o rumo que tem
a sabedoria do vento.

A liberdade
é um barco a sair
de dentro de uma garrafa.

A liberdade
é um guarda-chuva
a apanhar sol.

A liberdade
é uma borboleta
pousada no vidro dos dias.

A liberdade
é ter asas e saber
voar com elas, através das janelas.

A liberdade
é um malmequer
a perfumar a própria sombra.

A liberdade
é um poema a nascer
no meio das rosas.

A liberdade
podemos ser todos nós
com uma flor na voz.

A liberdade
é uma baía
onde mora a poesia.

A liberdade
é um desejo que nunca
ninguém conseguiu domar.

A liberdade
é um velho
para sempre criança.

A liberdade
é um vagar
que nunca teve pressa.

A liberdade
é um país sem medo
a tentar ser feliz.

A liberdade
é o sonho de uma noite
a durar a vida inteira.

A liberdade
é um peixe
com o luar nas escamas.

A liberdade
é a poesia
como pão para a boca.

A liberdade
é uma caneta a escrever, sozinha,
a própria vida.

A liberdade é
o último dos nomes
que um homem pode esquecer.

A liberdade é
a respiração de um pássaro
a confundir-de com o perfume da brisa.

A liberdade é
um lugar que não vem no mapa
e onde o vento se enamora.

A liberdade é
o nome que nos apetece dar
ao sonho quando abre portas.

A liberdade
é o nome que falta dar
àquilo que nos faz falta.

A liberdade
é um gato
apaixonado pela lua.

A liberdade é
um menino a imaginar
que é um rio a correr para o mar.

A liberdade
é uma pérola
que se transforma em pão.

A liberdade
é o rosto mais belo que alguém vê
quando deixa a escuridão para trás.


José Jorge Letria,  
"A Liberdade o que é?" 
 
 

"A Liberdade o que é?" de José Jorge Letria.
Ilustrações de Catarina França.
1ª ed. - Porto: Ambar, 2007.



SINOPSE

Compilação de textos poéticos muito breves (tercetos) subordinados a um mote comum – a definição da liberdade –, o livro de José Jorge Letria conduz o leitor numa viagem pelas diferentes formas – muitas metafóricas – de olhar e experimentar a liberdade, aqui recriada como uma das maiores conquistas da Humanidade.
 

 
Norman Rockwell, "On Top of the World", also known as "Boy on Weather Vane"
or "Boy on Weathercock", 1934. Oil on canvas, 27.94 × 22.86 cm.
Cover illustration for The Saturday Evening Post, October 20, 1934.
 
 
"Quando perdemos o direito de ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres."

"When we lose the right to be different we lose the right to be free." 

Charles Evans Hughes
, citado em "Friends' intelligencer".
[Advogado, político e jurista norte-americano, 1862–1948]

sábado, 3 de outubro de 2026

"Desejar Ser – 8" - Poema de Manoel de Barros

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886–1973), A Cuca, 1923


Desejar Ser – 8


Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.


Manoel de Barros, in "Livro Sobre Nada"
Ed. Record, 3a. ed., Rio de Janeiro, 1996;
in Poesia Completa, São Paulo: Leya, 2011.

 

Tarsila do Amaral, O Sapo, 1928


"A arte desafia a derrota pela sua própria existência, representando a celebração da vida, 
apesar de todas as tentativas para degradá-la e destruí-la." 
 
 Nadine Gordimer
[Escritora sul-africana, 1923–2014. Nobel de Literatura em 1991.]
 
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

"O Outono" - Poema de Olavo Bilac

 

Andrea Johnson (American artist, born 1954), 
'Bluebirds and Persimmons', 2014.


O Outono

IV

Coro das quatro estações:

Há tantos frutos nos ramos, 
De tantas formas e cores! 
Irmãs! Enquanto dançamos, 
Saíram frutos das flores! 

O outono:

Sou a sazão mais rica: 
A árvore frutifica 
Durante esta estação; 
No tempo da colheita, 
A gente satisfeita 
Saúda a Criação.

Concede a Natureza 
O prémio da riqueza 
Ao bom trabalhador, 
E enche, contente e ufana, 
De júbilo a choupana 
De cada lavrador.

Vede como do galho, 
Molhado inda de orvalho, 
Maduro o fruto cai… 
Interrompendo as danças, 
Aproveitai, crianças! 
Os frutos apanhai!

 Coro das quatro estações: 

Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs! Enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!


Olavo Bilac,
Outono, da série Quatro Estações,
em Poesias Infantis, 1904.



Andrea Johnson
, "Mo on Windowsill", n.d.


"Há uma quietude de outono nas cores."

"Es gibt eine Stille des Herbstes bis in die Farben hinein."


Hugo von Hofmannsthal (Escritor austríaco, 1874
–1929),
'Buch der Freunde' (Livro dos Amigos) - p. 35,
Insel-Verlag, Leipzig, 1922.



quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Raridade" - Poema de José Paulo Paes

 

 
William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete,
1881–1941), Macaw and Sunflowers, 86.0 x 76.0 cm.


Raridade


A arara
é uma ave rara
pois o homem não para
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode
voar pelo céu.

E se o homem não para
de caçar arara,
hoje uma ave rara,
ou a arara some
ou então muda seu nome
para arrara. 


José Paulo Paes (1926–1998),
do livro "Olha o bicho", 1989
 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

"Cabra-cega" - Poema de Roseana Murray


 
Albert Roosenboom (Belgian painter, 1845–1893), Playing blindfold on the beach
(Jogo da cabra-cega)
, oil on panel, 30 x 40 cm, private collection.



Cabra-cega 

 
Meninos e meninas correm 
pelo pátio, 
enquanto apenas um, 
ou uma, 
com um lenço amarrado nos olhos,
as mãos esticadas como se fossem 
aprisionar o vento,
busca um corpo em movimento, 
há que tocá-lo como um instrumento.
Sempre em fuga.
Um grito é a música. 


do livro "Brinquedos e Brincadeiras", 2014
 
 

Women playing blind man's buff (Jovens brincando de cabra-cega), 1803


Jogo da cabra-cega

Este jogo popular é já um clássico de gerações, e por muitas boas razões. Além de super divertido e estimular a atenção e os sentidos, permite ser jogado por vários amigos ao mesmo tempo, sendo ideal para dias de festa. O objetivo é que um jogador com os olhos vendados consiga agarrar e identificar um dos companheiros, através do toque e dentro de um espaço previamente definido. O jogador identificado passa a ser a “Cabra Cega”, e a dinâmica repete-se. 

Benefícios 

  • Cooperação/Oposição;
  • Desenvolvimento de habilidades motoras;
  • Capacidade de reação e de atenção;
  • Orientação espacial e perceção tátil e de olfato;
  • Desenvolvimento da perceção auditiva e eficiência cognitiva;
  • Tomada de decisão.
 
Descrição

  • Jogadores: no mínimo 4/5, de preferência com idade superior a 4/5 anos. Toda a família e amigos podem participar.
  • Material: um lenço ou venda para tapar os olhos.
  • Local: deve ser jogado em espaços interiores (casa/sala) ou exteriores (quintal, jardim, etc.).
  • Como se joga: depois de se escolher um lugar apropriado, em casa (sala) ou no exterior (quintal, jardim, etc.), os jogadores posicionam-se em círculo, seguram as mãos e escolhem por sorteio ou por outra forma de indicação a “cabra-cega” que ficará ao centro com os olhos vendados. Depois de dar três voltas sobre si mesma, a “cabra-cega” tentará agarrar algum dos outros jogadores que vão cantando “cabra-cega-cabra-cega”. O grupo poderá espalhar-se para impedir que a cabra agarre alguém. Quando conseguir identificar (adivinhar) algum jogador deve dizer o nome e trocar de lugar com ele. O importante é que a cabra-cega reconheça os seus amigos de jogo pelo tato (toque e contacto físico). 
Desenvolvido por Carlos Neto (daqui) 
  

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

"Vem de tudo" - Poema de Ricardo Azevedo



Florence Kate Upton
(American-born British cartoonist and author,
1873–1922), Little girl with a carrot man and tomato man, 1890s;
The Vege-men's revenge, children's book illustration.

[The Vege-Men's Revenge is a children's book, written by Bertha Upton (British writer, 1849–1912)
and illustrated by his daughter, Florence Kate Upton.]


Vem de tudo


Vem de uma voz lá de dentro
Brota feito luz no chão
É casa solta no vento
É verdade? Sim e não

Vem da infância tristonha
Vem da infância contente
Vem do jovem, vem do velho
Vem de toda e qualquer gente

Pode nascer da paisagem
Lá no campo ou na cidade
Das ruas, da natureza
Das flores, da sociedade

Ou brotar dentro de um quarto
Fechado com a luz acesa
Ou talvez sair da fruta
Morta num prato na mesa

Pode fazer feito o mar:
Molhar os olhos da gente
(Quero dizer que é capaz
De emocionar, de repente)

Vem de um dia de alegria
Vem do sangue, vem do corte
Vem de uma noite vazia
Vem do amor e vem da morte

Pode ser pura mentira
Pode ser mera verdade
Pode ser só fantasia
Pode ser realidade

Vem da raiva e da revolta
Do desejo de mudança
Vem de ver tanta injustiça
Vem da luta e da esperança

Vem de uma casa engraçada
De uma pedra no caminho
Vem do galo que não tece
Manhã nenhuma sozinho

Vem de um riso de criança
Vem do espanto sobretudo
Vem do sonho que não cansa
Vem de nada e vem de tudo

Vem porque a gente sente
Vem porque a gente tenta
Vem porque a gente sonha
Vem porque a gente inventa

É flor que não existia
Joia esculpida no nada
Estrela nova no céu
Fruta boa inesperada

Cresce no fundo da gente
Sai da vida noite e dia
Vem à toa ou do trabalho
De tudo nasce a poesia


Ricardo Azevedo,  
do livro "Aula de carnaval e outros poemas",
 Ática, 2006.


domingo, 27 de setembro de 2026

"O circo do contrário" - Poema de Pedro Bandeira

 


Ilustração de Regina Shadhan


O circo do contrário


Lá no circo do contrário,
o leão pega o chicote
e obriga o domador
a pular todo sem jeito
para cima do banquinho.

Lá no circo do contrário,
tem a bola colorida
que joga os malabaristas
para cima, para o alto,
sem deixar cair nenhum.

Lá no circo do contrário,
o espetáculo é maluco,
pois de dentro da cartola
o coelho tira o mágico!

Lá no circo do contrário,
os palhaços batem palmas
pois quem faz as palhaçadas
é um menino como eu!

Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna

♥♥♥

 
Ilustração de Regina Shadhan
 
 
"É divertido fazer o impossível." 

Walt Disney, citado em "Walt Disney's Disneyland",
Martin A. Sklar - Walt Disney Productions, 1965.


 
Ilustração de Regina Shadhan


"Eu prefiro entreter e esperar que as pessoas aprendam, 
do que ensinar e esperar que as pessoas se divirtam."

Walt Disney
 
 
 
Ilustração de Regina Shadhan
 

"O riso é atemporal. A imaginação não tem idade. E os sonhos são para sempre."

Walt Disney
 
 
 
 
"Eu tento construir um tipo de felicidade que se torne permanente."
 
Walt Disney

[Walt Disney (1901–1966) foi um cineasta norte-americano, que revolucionou o cinema de animação.
Utilizou novas técnicas e inventou novas personagens. Os primeiros desenhos animados do Rato Mickey apareceram em 1928. Mais tarde surgiram as longas metragens Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Fantasia (1940), Pinóquio (1940), Dumbo (1941) e Peter Pan (1953).
A Disneylândia foi fundada por Walt Disney em 1955
.] (daqui)


sábado, 26 de setembro de 2026

"Polvo" - Poema de José Jorge Letria



Jody Keen
(Australian artist), 'Octupus deep blue sea',
Acrylic, 50 x 40 cm. 


Polvo


Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Eu sei que não tem tentáculos a medir
e que sem sair do mesmo sítio
parece que está sempre a partir.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Eu sei que é veloz e inteligente
e que até usa para escrever
a mais negra tinta permanente.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Com o seu olhar penetrante,
agitando os braços todos
parece mesmo um gigante.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Se quiser tornar-se escritor
terá pela certa muito para contar
nas páginas feitas de algas
que cobrem as sereias no fundo do mar. 


José Jorge Letria,
em "O Alfabeto dos Bichos"
 
 
 
 O Alfabeto dos Bichos de José Jorge Letria (n. 1951),
Ilustrações de André Letria (n. 1973),
Oficina do Livro, 2005.
 

SINOPSE 


O Alfabeto dos Bichos de José Jorge Letria e André Letria

Idade recomendada: 6 a 9 anos

Da águia à zebra, sem esquecer o macaco, o tubarão e até o quivi, este livro ajuda as crianças a conhecer melhor uma série de animais, ao mesmo tempo que lhes relembra o alfabeto.
Os textos, pequenos poemas em rima a apresentar os diferentes bichos, são da autoria de José Jorge Letria e as ilustrações, duas para cada animal, do seu filho, André Letria. (daqui)
 
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Onde está o Gato? - Poema de Luísa Ducla Soares



Shawn Braley
(American illustrator, b. 1972), 'Magic carpet ride'
 

Onde está o Gato?


Os burros tocam viola.
Os ratos varrem a rua,
As meninas usam barba,
Eu vivo sempre na lua.

Os carapaus têm lã,
As galinhas têm espinhas,
As vacas coca-cola
E chocolates as vinhas.

Os gatos calçam sapatos,
Olha a trança das serpentes,
As moscas falam francês,
Os galos lavam os dentes.

As casas voam no ar,
As nuvens dormem no chão,
Os olhos fazem chichi
E crescem rosas na mão.

Miúdo que estás a ouvir-me,
Pois tens orelhas de rã,
Diz lá o que está errado
Ou faço queixa à mamã.


Luísa Ducla Soares, in Conto estrelas em ti;
17 poetas escrevem para a infância.



'Conto estrelas em ti' - 17 poetas escrevem para a infância.
Coordenação: José António Gomes; Ilustração: 
João Caetano 
Porto: Campo das Letras, 2000.

 

SINOPSE

Conto estrelas em ti
dezassete vozes,
dezassete modos
de escrever poesia
para crianças e jovens.

Autores: Albano Martins, Álvaro Magalhães, Ana Saldanha, António Mota, António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Francisco Duarte Mangas, João Pedro Mésseder, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Mário Castrim, Papiniano Carlos, Raul Malaquias Marques, Teresa Guedes, Vergílio Alberto Vieira e Violeta Figueiredo.
Coordenação: José António Gomes. 
 
 
 Ilustrações de Shawn Braley

Shawn Braley, 'Watchful'
 
 

Shawn Braley, 'Lean on me'
 
 

Shawn Braley, 'Best Friends'
 
 

Shawn Braley, 'Osmosi'
 
 

Shawn Braley, 'Thinking Outside the Box'


"A inteligência no gato é menosprezada."

"Intelligence in the cat is underrated."

Louis Wain,
in "The Quotable Feline"‎, de Jim Dratfield - Chronicle Books Llc, 1997.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Chegou o Outono" - Poema de Alice Gomes

 


Albert Anker (Swiss painter and illustrator, 1831–1910),
 "Under the Umbrella"
("Enfants allant à l'école sous un parapluie"), 1884.


Chegou o Outono


Chega o Outono!
As andorinhas
despedem-se das outras avezinhas
e vão pelos ares fora
vão-se embora
embora?
Não!
Que voltam, voltarão…
Quando a bela estação
da Primavera
que antecede ao Verão
oferecer melhor vida.
Não têm agasalhos nem comida,
vão para terras quentes
à procura do sol que as consola
Mas nós, crianças, 
nós, 
todos contentes
partimos para a escola.


Alice Gomes, in 'Bichinho Poeta', 1970;
in 'Poesia portuguesa para crianças - Antologia'