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sábado, 13 de abril de 2013

"Amor como em casa" - Poema de Manuel António Pina



Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
White House at Night, 1890, Hermitage Museum, St. Petersburg,
painted six weeks before the artist's death.


Amor como em casa 


Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
não é nada comigo. Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar 
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no 
amor como em casa.


Manuel António Pina, "Ainda não é o fim nem o princípio do Mundo,
calma é apenas um pouco tarde"
, 1974 
 

Manuel António Pina

Jornalista e escritor, Manuel António Pina nasceu a 18 de novembro de 1943, no Sabugal, e faleceu a 19 de outubro de 2012, no Porto. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1971, exerceu a advocacia e foi técnico de publicidade. Abraçou a carreira de jornalista no Jornal de Notícias, onde passou a editor. A sua colaboração nos "media" também se distribui pela rádio e pela televisão. Autor de livros para a infância e juventude e de textos poéticos, a sua obra apresenta uma grande coesão estrutural e reflete uma grande criatividade, exige do leitor um profundo sentido crítico e descodificador. "Brincando" com as palavras e os conceitos, num verdadeiro trocadilho, Manuel António Pina faz da sua obra um permanente "jogo de imaginação", tal labirinto que obriga a um verdadeiro trabalho de desconstrução para se encontrar a saída.
Afirmou-se como uma das mais originais vozes poéticas na expressão pós-pessoana da fragmentação do eu, manifestando, sobretudo a partir de Nenhum Sítio, sob a influência de T. S. Elliot, Milton ou Jorge Luis Borges, uma tendência para a exploração das possibilidades filosóficas do poema, transportando a palavra poética "quer para a investigação do processo de conhecimento quer para a investigação do processo de existência literária" (cf. MARTINS, Manuel Frias - Sombras e Transparências da Literatura, Lisboa, INCM, 1983, p. 72).
Transmissora de valores, muita da sua obra infantil e juvenil é selecionada para fazer parte dos manuais escolares, sendo também integrada em antologias portuguesas e espanholas.
Os seus textos dramáticos são frequentemente representados por grupos e companhias de teatro de todo o país e a sua ficção tem constituído o suporte de alguns programas de entretenimento televisivo, de que é exemplo a série infantil de doze episódios Histórias com Pés e Cabeça, 1979/80.
Como escritor, é autor de vários títulos de poesia, novelas, textos dramáticos e ensaios, entre os quais: em poesia - Nenhum Sítio (1984), O Caminho de Casa (1988), Um Sítio Onde pousar a Cabeça (1991), Algo Parecido Com Isto da Mesma Substância (1992); Farewell Happy Fields (1993), Cuidados Intensivos (1994), Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança (1999), Le Noir (2000), Os Livros (2003); em novela - O Escuro (1997); em texto dramático - História com Reis, Rainhas, Bobos, Bombeiros e Galinhas (1984), A Guerra Do Tabuleiro de Xadrez (1985); no ensaio - Anikki - Bóbó (1997); anacrónica - O Anacronista (1994); e, finalmente, na literatura infantil - O País das Pessoas de Pernas para o Ar (1973), Gigões e Amantes (1978), O Têpluquê (1976), O Pássaro da Cabeça (1983), Os Dois Ladrões (1986), Os Piratas (1986), O Inventão (1987), O Tesouro (1993), O Meu Rio é de Ouro (1995), Uma Viagem Fantástica (1996), Morket (1999), Histórias que me contaste tu (1999), O Livro de Desmatemática e A Noite, obra posta em palco pela Companhia de Teatro Pé de Vento, com encenação de João Luís.
A sua obra tem merecido, frequentemente, destaque, tendo sido já homenageado com diversos prémios, como, por exemplo, o Prémio Literário da Casa da Imprensa, em 1978, por Aquele Que Quer Morrer; o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens e a Menção do Júri do Prémio Europeu Pier Paolo Vergerio da Universidade de Pádua, em 1988, por O Inventão; o Prémio do Centro Português de Teatro para a Infância e Juventude, em 1988, pelo conjunto da obra; o Prémio Nacional de Crónica Press Clube/Clube de Jornalistas, em 1993, pelas suas crónicas; o Prémio da Críticada Associação Portuguesa de Críticos Literários, em 2001, por Atropelamento e Fuga; e o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava e o Grande Prémio de Poesia da APE/CTT, ambos pela obra Os Livros, recebidos em 2005.

Manuel António Pina. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-04-13].
 

Música instrumental

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Arte Surrealista


René Magritte, Invenção Coletiva, 1934


O Surrealismo


O Surrealismo foi um movimento artístico e literário nascido em Paris na década de 1920, inserido no contexto das vanguardas que viriam a definir o modernismo no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais. Reúne artistas anteriormente ligados ao Dadaísmo ganhando dimensão mundial. Fortemente influenciado pelas teorias psicanalíticas do psicólogo Sigmund Freud (1856-1939), o surrealismo enfatiza o papel do inconsciente na atividade criativa. Um dos seus objetivos foi produzir uma arte que, segundo o movimento, estava sendo destruída pelo racionalismo. O poeta e crítico André Breton (1896-1966) é o principal líder e mentor deste movimento. 
A palavra surrealismo supõe-se ter sido criada em 1917 pelo poeta Guillaume Apollinaire (1886-1918), jovem artista ligado ao Cubismo, e autor da peça teatral As Mamas de Tirésias (1917), considerada uma precursora do movimento. 
Um dos principais manifestos do movimento é o Manifesto Surrealista de 1924. Além de Breton, seus representantes mais conhecidos são Antonin Artaud no teatro, Luis Buñuel no cinema e Max Ernst, René Magritte e Salvador Dalí no campo das artes plásticas.


 Joan Miró, O Carnaval de Arlequim


O Manifesto Surrealista foi lançado em Paris, em 1924, por André Breton (1896-1970), um ex-participante do Dadaísmo, que rompera com Tristan Tzara. É importante salientar que o Surrealismo é um movimento de vanguarda iniciado no período entre guerras, ou seja, foi criado sobre as cinzas da Primeira Guerra e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos. Entretanto, suas origens estão mais próximas do Expressionismo e da sondagem do mundo interior, em busca do homem primitivo, da liberação do inconsciente, da valorização do sonho, etc.
O Surrealismo conhece uma ruptura interna quando  André Breton faz uma opção pela arte revolucionária, influenciado que estava pelo marxismo. Muitos dos seguidores do movimento não admitiam o engajamento da arte, criando assim uma divisão entre os surrealistas comunistas e os não comunistas.


Salvador Dali, Lugubrious Game


Vida e obra dos 3 principais artistas do surrealismo


1. Salvador Dalí
Salvador Dalí

Salvador Dalí - é, sem dúvida, o mais conhecido dos artistas surrealistas. Estudou em Barcelona e depois em Madri, na Academia de San Fernando. Nessa época teve oportunidade de conhecer Lorca e Buñuel. Suas primeiras obras são influenciadas pelo cubismo de Gris e pela pintura metafísica de Giorgio De Chirico. Finalmente aderiu ao surrealismo, junto com seu amigo Luis Buñuel, cineasta. Em 1924 o pintor foi expulso da Academia e começou a se interessar pela psicanálise de Freud, de grande importância ao longo de toda a sua obra. Sua primeira viagem a Paris em 1927 foi fundamental para sua carreira. Fez amizade com Picasso e Breton e entusiasmou-se com a obra de Tanguy e o maneirista Arcimboldo. O filme O Cão Andaluz, que fez com Buñuel, data de 1929. Ele criou o conceito de “paranóia critica“ para referir-se à atitude de quem recusa a lógica que rege a vida comum das pessoas. Segundo ele, é preciso “contribuir para o total descrédito da realidade”.
No final dos anos 30 foi várias vezes para a Itália a fim de estudar os grandes mestres. Instalou seu ateliê em Roma, embora continuasse viajando. Depois de conhecer em Londres Sigmund Freud, fez uma viagem para a América, onde publicou sua biografia A Vida Secreta de Salvador Dali (1942). Ao voltar, estabeleceu-se definitivamente em Port Lligat com Gala, sua mulher, ex-mulher do poeta e amigo Paul Éluard.
Desde 1970 até sua morte dedicou-se ao desenho e à construção de seu museu. Além da pintura ele desenvolveu esculturas e desenho de jóias e móveis.


Salvador Dalí, As faces da guerra
 

Salvador Dalí, A Girafa


Salvador Dalí, A Metamorfose


Salvador Dalí, O Corpo


Salvador Dalí, Mae West (1934-35)


Salvador Dalí, Telefone lagosta, 1936


 2. Joan Miró 
Joan Miró, retrato


Joan Miró - Joan Miró i Ferrà (Barcelona, 20 de abril de 1893 — Palma de Maiorca, 25 de dezembro de 1983) foi um importante escultor e pintor surrealista catalão. 
Iniciou sua formação como pintor na escola de La Lonja, em Barcelona. Em 1912 entrou para a escola de arte de Francisco Gali, onde conheceu a obra dos impressionistas e fauvistas franceses. Nessa época, fez amizade com Picabia e pouco depois com Picasso e seus amigos cubistas, em cujo grupo militou durante algum tempo. Em 1919, depois de completar os seus estudos, visitou Paris, onde entrou em contacto com as tendências modernistas como os fauvismo e dadaísmo. 
 Em 1920 Miró instalou-se em Paris (embora no verão voltasse para Montroig), onde se formara um grupo de amigos pintores, entre os quais estavam Masson, Leiris, Artaud e Lial. Dois anos depois adquiriu forma La masía, obra fundamental em seu desenvolvimento estilístico posterior e na qual Miró demonstrou uma grande precisão gráfica.
No início dos anos 20, conheceu o fundador do movimento em que trabalharia toda a vida, André Breton, entre outros artistas surrealistas A partir daí sua pintura mudou radicalmente. Breton falava dela como o máximo do surrealismo e se permitiu destacar o artista como um dos grandes génios solitários do século XX e da história da arte. A pintura O Carnaval de Arlequim, 1924-25, e Maternidade, 1924, inauguraram uma linguagem cujos símbolos remetem a uma fantasia naïf, sem as profundezas das questões psicanalistas surrealistas. A famosa magia de Miró manifesta -se nessas telas de traços nítidos e formas sinceras na aparência, mas difíceis de serem elucidadas, embora se apresentem de forma amistosa ao observador. Participou na primeira exposição surrealista em 1925. 
Em 1928, viajou para a Holanda, tendo pintado as duas obras Interiores holandeses I e Interiores holandeses II. Em 1937, trabalhou em pinturas-mural e, anos depois, em 1941, concebeu a sua mais conhecida e radiante obra: Números e constelações em amor com uma mulher. 
Mais tarde, em 1944, iniciou-se em cerâmica e escultura nas quais extravasou suas inquietações pictóricas. Em suas obras, principalmente nas esculturas, utiliza materiais surpreendentes, como a sucata. 
No fim da sua vida reduziu os elementos de sua linguagem artística a pontos, linhas, alguns símbolos e reduziu a cor, passando a usar basicamente o branco e o preto, ficando esta ainda mais naïf.


Joan Miró, Bathing Woman, 1925
 

Joan Miró, Noitada Esnobe da Princesa
 

Joan Miró, Nocturne, 1940



Obras de Joan Miró - Música: Bond



 3. René Magritte
Cachimbo do artista com o passaporte do casal Magritte.


René François Ghislain Magritte, mais conhecido como René Magritte, nasceu na cidade de Lessines, na Bélgica, no dia 21 de novembro de 1898. Posteriormente ele se tornaria um dos mais significativos artistas plásticos do movimento surrealista belga, figurando junto ao pintor Paul Delvaux.
René Magritte era o filho mais novo do casal Léopold e Regina Magritte, e em 1912 perdeu a mãe, que neste ano se suicidou mergulhando no Rio Sambre, evento testemunhado pelo jovem Magritte. Mais tarde, em 1916, o artista é admitido na Académie Royale des Beaux-Arts, em Bruxelas, instituição na qual ele permanece por dois anos. Nesta ocasião o pintor passa a atuar como desenhista numa fábrica que produz papéis de parede, e tem seu primeiro encontro com Georgette Berger, sua esposa a partir de 1922.
Magritte trabalhou também como designer de cartazes e ofertas publicitárias até 1926, quando começou a se sobressair no movimento surrealista; neste período ele assina um acordo com a Galeria de Artes de Bruxelas. Desde então ele dedica-se de corpo e alma à pintura, e integra em seu currículo a criação de uma obra surrealista, Le jockey perdu, e um ano depois realiza sua primeira mostra de arte, a qual não é bem sucedida entre os críticos.


René Magritte (1926), O Jockey perdido

Uma marca significativa na obra de Magritte é sua suposta incoerência, tal como se apresenta na pintura Rape – palavra que, em português, significa ‘Estupro’; nela aparece um torso no lugar de um rosto.


René Magritte (1934), O Estupro, óleo sobre tela

Seu temperamento irrequieto se reflete em trabalhos como A Queda, no qual seus excêntricos homens caem do firmamento, trajando chapéu-coco e completamente tranquilos, um acontecimento que revela um pouco da existência humana. O artista exercitava o que se denomina de surrealismo realista ou ‘realismo mágico’. No início de sua carreira ele tentava reproduzir os trabalhos dos pintores vanguardistas, mas aos poucos se deu conta de sua ânsia por uma expressão mais poética e, neste momento, foi profundamente inspirado pela obra metafísica de Giorgio de Chirico.
Em 1927 Magritte foi para a capital francesa e passou a frequentar os meios surrealistas, quando conheceu André Breton, Paul Éluard e Marcel Duchamp, transformando-se em fiel companheiro dos poetas e do pintor francês. Ao concluir seu contrato com a Galerie la Centaure o artista voltou para Bruxelas e aí se demorou inclusive ao longo do período em que os alemães permaneceram nesta região.
Magritte conquista a oportunidade, em 1936, de expor sua obra em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Em 1965 ele volta novamente a mostrar seus trabalhos em uma mostra retrospectiva no Museu de Arte Moderna; e no ano de 1992 suas pinturas são apresentadas no Metropolitan Museum of Art.
Na década de 40 ele aventura-se em outros géneros, assimilando caracterísitcas impressionistas, mas estes trabalhos não são bem-sucedidos. O pintor morreu em 15 de agosto de 1967, vítima de câncer, e foi sepultado no Cemitério Schaarbeek, localizado em Bruxelas.


René Magritte (1927), O dorminhoco imprudente


René Magritte (1928), Os exercícios do acrobata, óleo sobre tela


René Magritte (1928), A máscara vazia
 

René Magritte (1934-35), A descoberta do fogo

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"Olhar e Sentir" - Poema de Júlio Pomar


Pablo Picasso, Garçon à la pipe, (Boy with a Pipe), 1905, Rose Period



Olhar e Sentir


Olhar e sentir
por dentro do corpo a massa de que é feito o avesso dele.
Ossos músculos nervos veias
tudo o que está no corpo e mundo é
a pintura contém e depõe na tela e
se acaso aí o pintor deixou reservas
nesse sem nada o avesso do mundo se
recolhe e mostra a face. 


in "TRATAdoDITOeFEITO" 


Autorretrato, Pablo Picasso


Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, ou simplesmente Pablo Picasso (Málaga, Espanha, 25 de outubro de 1881 — Mougins, França, 8 de abril de 1973), foi um pintor, escultor e desenhista espanhol, tendo também desenvolvido a poesia. 

Foi reconhecidamente um dos mestres da arte do século XX. É considerado um dos artistas mais famosos e versáteis de todo o mundo, tendo criado milhares de trabalhos, não somente pinturas, mas também esculturas e cerâmica, usando, enfim, todos os tipos de materiais. Ele também é conhecido como sendo o co-fundador do Cubismo, junto com Georges Braque.

Após iniciar como estudante de arte em Madrid, Picasso fez sua primeira viagem a Paris (1900), a capital artística da Europa. Lá morou com Max Jacob (jornalista e poeta), que o ajudou com a língua francesa. Max dormia de noite e Picasso durante o dia, ele costumava trabalhar à noite. Foi um período de extrema pobreza, frio e desespero. Muitos de seus desenhos tiveram que ser utilizados como material combustível para o aquecimento do quarto. 

Em 1901 com Soler, um amigo, funda uma revista Arte Joven, na cidade de Madrid. O primeiro número é todo ilustrado por ele. Foi a partir dessa data que Picasso passou a assinar os seus trabalhos simplesmente “Picasso”, anteriormente assinava “Pablo Ruiz y Picasso”. 

Na fase azul (1901 a 1905), Picasso pintou a solidão, a morte e o abandono. Quando se apaixonou por Fernande Olivier, suas pinturas mudaram de azul para rosa, inaugurando a fase rosa (1905 - 1906). Trabalhava durante a noite até o amanhecer. Em Paris, Picasso conheceu um seleto grupo de amigos célebres nos bairros de Montmartre e Montparnasse: André Breton, Guillaume Apollinaire e a escritora Gertrude Stein. 

Na fase rosa há abundância de tons de rosa e vermelho, caracterizada pela presença de acrobatas, dançarinos, arlequins, artistas de circo, o mundo do circo. No verão de 1906, durante uma estada em Andorra, sua obra entrou em uma nova fase marcada pela influência das artes gregas, ibérica e africana, era o protocubismo, o antecedente do cubismo. O célebre retrato de Gertrude Stein (1905 - 1906) revela um tratamento do rosto em forma de máscara. 

Em 1912, Picasso realizou sua primeira colagem, colou nas telas pedaços de jornais, papéis, tecidos, embalagens de cigarros. 

Apaixonou-se por Olga Koklova, uma bailarina. Casaram-se em 12 de julho de 1918. Neste período o artista já se tornara conhecido e era um artista da sociedade. Quando Olga engravidou, criou uma série de pinturas de mães com filhos. 


Picasso, Death of the Toreador, 1933


Entre o começo e o fim da Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), dedica-se também à escultura, gravação e cerâmica. Como gravador, domina as diversas técnicas: água-forte, água-tinta, ponta-seca, litogravura e gravura sobre linóleo colorido. Além disso, sua dedicação à arte escultórica era esporádica. Cabeça de Búfalo, Metamorfose é um grande exemplo de seu trabalho com esse meio. É considerado um dos pioneiros em realizar esculturas a partir de junção de diferentes materiais. 
Em 1943, Picasso conhece a pintora Françoise Gilot e tem dois filhos, Claude e Paloma e encontrou um pouco de paz e pintou Alegria de Viver. 


Pablo Picasso - Alegria de Viver


Em 1968, aos 87 anos, produziu em sete meses uma série de 347 gravuras recuperando os temas da juventude: o circo, as touradas, o teatro, as situações eróticas. Anos mais tarde, uma operação da próstata e da vesícula, além da visão deficiente, põe fim às suas atividades. Como uma honra especial a ele, no seu 90.º aniversário, são comemorados com exposição na grande galeria do Museu do Louvre. Torna-se assim o primeiro artista vivo a expor os seus trabalhos no famoso museu francês. Pablo Picasso morreu a 8 de abril de 1973 em Mougins, França, com 91 anos de idade. Encontra-se sepultado no Castelo de Vauvenargues, Aix-en-Provence, Provença-Alpes-Costa Azul, sul de França.


Pablo Picasso, Still Life with Lamp, 1944


Citações de Pablo Picasso
Picasso


"A inspiração existe, mas tem que te encontrar trabalhando." 

(Cambio 16: Edições 884-887, Informacion y Publicaciones, S. A., 1988)

Picasso


"Não se consegue convencer um rato de que um gato pode trazer boa sorte". 


Picasso



"Não se pode criar nada sem solidão". 

(Citado em Punta Europa: Volume 2, Edições 18-24 - página 154, Vicente Marrero Suárez - 1957)



Picasso


"A qualidade de um pintor depende da quantidade de passado que traz consigo." 


Picasso


"Paul Cézenne é o pai de todos nós". 

(Fonte: Site do UOL, num artigo referente aos 100 da morte de Cézanne, publicado no dia 26 de Janeiro de 2006.)


Picasso


"Quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira
 para aprender a desenhar como as crianças."

(Pablo Picasso citado em "Quando a Psicoterapia Trava - Página 69, Marina da Costa Manso Vasconcellos, Grupo Editorial Summus, 2007,)


Picasso


"A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade."


Picasso


"A pintura nunca é prosa. É poesia que se escreve com versos de rima plástica."


Picasso


"Pinto as coisas como as imagino e não como as vejo."


Picasso


"Uma ideia é um ponto de partida e nada mais. Logo que se começa a elaborá-la, 
é transformada pelo pensamento."


http://onlinepicassoraisonne.com/pabloruizpicasso.html


"O que já fiz não me interessa. Só penso no que ainda não fiz."


Picasso


A Walk in the Forest - Brian Crain

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Criança desconhecida e suja brincando à minha porta" - Poema de Alberto Caeiro



Donald Zolan (American painter, 1937–2009)



Criança desconhecida e suja brincando à minha porta


Criança desconhecida e suja brincando à minha porta, 
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos. 
Acho-te graça por nunca te ter visto antes, 
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança, 
Nem aqui vinhas. 
Brinca na poeira, brinca! 
Aprecio a tua presença só com os olhos. 
Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la, 
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez, 
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar. 

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas. 
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão, 
Sabes que te cabe na mão. 
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior? 
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta. 
 

Alberto Caeiro, "Poemas Inconjuntos",
Poemas Completos de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa.

[1ª publ. in "Poemas Inconjuntos". Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.]
 

Kenny G - Sentimental
 


"Não me interessa nenhuma religião cujos princípios não melhoram nem tomam em consideração
 as condições dos animais." 

 
 
"Abraham Lincoln portrait" (1809–1865), by George Peter Alexander Healy
(American portrait painter, 1813–1894), National Portrait Gallery,
Smithsonian Institution, Washington, D.C.


Abraham Lincoln, décimo sexto presidente dos Estados Unidos da América, nasceu a 12 de fevereiro de 1809 no Kentucky, América do Norte, no seio de uma humilde família, e morreu assassinado a 14 de abril de 1865, em Washington. 
Abraham Lincoln viveu também em Indiana com os seus pais, Thomas e Nancy Hanks Lincoln. Residiu depois em New Salem (Illinois), desta feita sozinho e trabalhando como empregado de balcão a partir de 1831. Ainda nesta localidade ganhou a vida como agente dos Correios, marcando todos os que o conheciam pela honestidade que lhe era intrínseca, e tornou-se deputado estatal (integrado no partido Whig) em 1834 e membro do Senado dez anos depois. 
Fez também serviço militar, chegando a participar na Black Hawk War no posto de capitão. Foi a partir da sua inserção no meio político que se dedicou ao estudo do Direito e em 1836 começou a exercer advocacia, tendo inclusivamente criado um escritório em Springfield, aquando da sua mudança para esta cidade (onde casou com Mary Todd, de quem teve quatro filhos), e sido associado de um outro, juntamente com William Herndon. A sua habilidade natural neste ramo e a itinerância que então caracterizava os tribunais do estado do Illinois contribuíram para o seu reconhecimento geral, pelo que se tornou membro da Câmara de Representantes em 1846 e do Congresso entre 1847 e 1849. 
O seu manifesto desacordo com a política do então presidente James Polk (sobretudo a propósito da Guerra do México) e, mais tarde, com a proposta de lei aprovando a escravidão no Nebraska e no Missouri elaborada pelo senador Stephen Douglas, aumentaram a sua notoriedade. 
Lincoln foi uma das personagens de destaque na formação do Partido Republicano dos Estados Unidos da América (1854), e assim estava aberto o caminho para que fosse apresentado como candidato a presidente dos Estados Unidos em 1860, pela assembleia nacional republicana. Contudo, havia bastantes oponentes ao seu governo, e quando se tornou efetivamente o 16.º presidente, em 1861, os onze estados sulistas que viriam a formar a Confederação dos Estados da América retiraram-se da Federação e declararam guerra, iniciando-se deste modo a guerra civil, conhecida como Guerra da Secessão (12/4/1861 - 1/4/1865). 
Como é sabido, foi a fação do Norte que saiu vencedora do conflito, Lincoln foi reeleito em 1864 e em 1865 a escravatura foi abolida nos EUA com a introdução das 13.ª e 14.ª emendas, havendo-se já procedido anteriormente à sua eliminação em alguns dos estados a partir do dia 22 de setembro de 1862 ("Proclamação de Emancipação"). 
Durante o seu primeiro mandato tornou possível a compra de terrenos governamentais na zona Oeste a um preço muito baixo, através do Homestead Act (1862), criou os bancos nacionais para suportarem um sistema financeiro sólido e propiciou uma renda de apoio às universidades agrícolas da cada estado (ele próprio vinha de uma família de agricultores, estando portanto sensível a este tipo de necessidades). 
Abraham Lincoln acabou por morrer assassinado no Teatro Ford pelo fundamentalista sulista John Wilkes Booth, no decorrer da peça de teatro "O nosso primo americano" a que o presidente assistia em Washington, treze dias depois da guerra civil ter terminado. (daqui)
 

sábado, 3 de dezembro de 2011

"Da mais alta janela da minha casa" - Poema de Alberto Caeiro


Da mais alta janela da minha casa


Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade. 

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto. 

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo. 

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão? 

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvores, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste. 

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. 

Passo e fico, como o Universo. 


Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos”
Heterónimo de Fernando Pessoa 


Richard Clayderman - Autumn Leaves


"Não há diferenças fundamentais entre o homem e os animais nas suas faculdades mentais... os animais, como os homens, demonstram sentir prazer, dor, felicidade e sofrimento." 

(Charles Darwin)


sábado, 26 de novembro de 2011

"Intimidade" - Poema de José Saramago



Pierre Cécile Puvis de Chavannes, (French painter, 1824
–1898),
'Fantasy', 1866, Ohara Museum of Art.


Intimidade 


No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde, 

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.


José Saramago,
in "Os Poemas Possíveis", 1966 


Kenny G - Silhouette


"Conhece-te a ti mesmo» - toda a sabedoria se encontra concentrada nesta frase. Auto-análise, depois ação - a escola da sabedoria. Quanto mais cedo descobrir os factos acerca da sua pessoa mais fácil será a jornada da vida. Para tirar o máximo de nós, temos de conhecer os recursos que possuímos e depois aperfeiçoá-los e utilizá-los. Pelo controle das emoções uma pessoa consegue superar quase todas as dificuldades que habitualmente estragam a vida. Sem olhar à profundidade dos seus sentimentos, à vastidão dos seus conhecimentos, o homem aparentemente completo não o é sem que tenha aperfeiçoado as suas tendências. Quem quiser melhorar os condicionalismos externos tem de começar por melhorar os internos. Quando as coisas não estão a correr bem há qualquer coisa em mim a dizer-me. Às vezes tenho de pensar muito para descobrir o erro e como corrigi-lo. Depois de resolver o problema sinto-me novamente bem. Isto prova que «O seu instinto leva-o mais longe que o seu intelecto." 

Alfred Armand Montapert, in 'A Suprema Filosofia do Homem'

domingo, 20 de novembro de 2011

"Terra - 24" - Poema de Fernando Namora



Carl Friedrich Moritz Müller (German painter, 1807–1865),
'Andreas Hofer's farewell', 1836



Terra - 24


António, é preciso partir!
o moleiro não fia,
a terra é estéril,
a arca vazia,
o gado minga e se fina!
António, é preciso partir!
A enxada sem uso,
o arado enferruja,
o menino quer o pão; a tua casa é fria!
É preciso emigrar!
O vento anda como doido – levará o azeite;
a chuva desaba noite e dia – inundará tudo;
e o lar vazio,
o gado definhando sem pasto,
a morte e o frio por todo o lado,
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António!
É preciso embarcar!
Badalão! Badalão! – o sino
já entoa a despedida.
Os juros crescem;
o dinheiro e o rico não têm coração.
E as décimas, António?
Ninguém perdoa – que mais para vender?
Foi-se o cordão,
foram-se os brincos,
foi-se tudo!
A fome espia o teu lar.
Para quê lutar com a secura da terra,
com a indiferença do céu,
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra,
com tudo!
Árida, árida a vida!
António, é preciso partir!
António partiu.
E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio.


Fernando Namora, in 'Terra' 


Yanni - Nostalgia

"Procuro-te" - Poema de Eugénio de Andrade


(Imagem retirada da internet) 



Procuro-te


Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 

Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido. 

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 

Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 


Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"


Yanni - Voyage

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"As Balas" - Poema de Manuel da Fonseca





As Balas 


Dá o Outono as uvas e o vinho 
Dos olivais o azeite nos é dado 
Dá a cama e a mesa o verde pinho 
As balas dão o sangue derramado 

Dá a chuva o Inverno criador 
Às sementes dá sulcos o arado 
No lar a lenha em chama dá calor 
As balas dão o sangue derramado 

Dá a Primavera o campo colorido 
Glória e coroa do mundo renovado 
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado 

Dá o Sol as searas pelo Verão 
O fermento ao trigo amassado 
No esbraseado forno dá o pão 
As balas dão o sangue derramado 

Dá cada dia ao homem novo alento 
De conquistar o bem que lhe é negado 
Dá a conquista um puro sentimento 
As balas dão o sangue derramado 

Do meditar, concluir, ir e fazer 
Dá sobre o mundo o homem atirado 
À paz de um mundo novo de viver 
As balas dão o sangue derramado 

Dá a certeza o querer e o concluir 
O que tanto nos nega o ódio armado 
Que a vida construir é destruir 
Balas que dão o sangue derramado 

Que as balas só dão sangue derramado 
Só roubo e fome e sangue derramado 
Só ruína e peste e sangue derramado 
Só crime e morte e sangue derramado. 


Manuel da Fonseca,
 in "Poemas para Adriano"


(Manuel Lopes Fonseca, mais conhecido como Manuel da Fonseca foi um escritor português (poeta, contista, romancista e cronista). Vulto destacado do Neorrealismo, nasceu a 15 de outubro de 1911, em Santiago do Cacém, e morreu a 11 de março de 1993, em Lisboa.)



Ernesto Cortazar - Moments of Solitude