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segunda-feira, 17 de julho de 2023

"Despedida a uma paisagem" - Poema de Wisława Szymborska


 
Manuel Ferreira (Arquiteto e artista português, 1927-2017), Vista de rio com azenha, 1955
 
 

 Despedida a uma paisagem
(Fim e Começo - 1993)


Não reprovo a primavera
por começar de novo.
Não a culpo pelo facto
de cumprir a cada ano
a sua obrigação.

Entendo que a minha tristeza
não deterá o verde.
Uma folha de relva, se oscila,
é só ao vento.
Não me causa dor saber
que os amieiros sobre as águas
têm de novo com que sussurrar.

Reconheço que
– como se você ainda vivesse –
a margem de certo lago
segue bela como era.
Não tenho rancor
da vista pela vista
da baía resplandecente de sol.

Consigo até imaginar
outros, não nós,
sentados neste instante
no tronco de bétula caído.

Respeito o direito deles
ao sussurro, ao riso
e a um silêncio feliz.
Presumo até
que estejam apaixonados
e que ele a enlace
com um braço vivo.

Algo novo esvoejante
farfalha na folhagem.
Meu desejo sincero
é que eles o ouçam.
Nenhuma mudança exijo
das ondas costeiras,
ora ligeiras ora lânguidas,
e que não obedecem a mim.

Nada reclamo
das águas profundas junto ao bosque,
ora esmeralda,
ora safira,
ora negras.

Só uma coisa não aceito.
A minha volta para lá.
O privilégio da presença –
renuncio a ele.
Sobrevivi a você
só o bastante
para pensar de longe.


Wisława Szymborska, in "Para o meu coração num domingo",
Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski.
São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2020.
 

domingo, 9 de julho de 2023

"Para o meu coração num domingo" - Poema de Wisława Szymborska


Georges Clairin (French Orientalist painter and illustrator, 1843–1919),
Portrait of Sarah Bernhardt, 1876, Musée du Petit Palais.



Para o meu coração num domingo
(Muito Divertido - 1967)
 

Te agradeço, coração meu,
por não se queixar, por se afanar
sem elogios, sem recompensa,
num desvio inato.

Você tem setenta méritos por minuto.
Cada contração tua
é como o lançar de uma canoa
no mar aberto
numa viagem ao redor do mundo.
Te agradeço, coração meu,
porque sem cessar
você me retira do todo,
separada até no sonho.

Você cuida para que eu não sonhe demais
com o voo
para o qual não é preciso ter asas.
Te agradeço, coração meu,
por eu ter acordado de novo
e embora seja domingo,
dia de descanso,
sob as costelas
você seguir o ritmo normal da semana.


Wisława Szymborska, in "Para o meu coração num domingo",
Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski
São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2020.


sábado, 1 de julho de 2023

"Um pouco sobre a alma" - Poema de Wisława Szymborska


 
Um pouco sobre a alma
(Instante - 2002)

 
Às vezes temos uma alma.
Ninguém a tem o tempo todo
e para sempre.

Dia após dia,
ano após ano
podem se passar sem ela.

Às vezes ela só se aninha
por mais tempo
nos enlevos e medos da infância.
Às vezes só no espanto
de estarmos velhos.

Raramente nos assiste
em tarefas maçantes
como mover armários,
carregar malas
ou percorrer uma distância com o sapato apertado.

Quando é para preencher formulários
ou picar carne,
costuma tirar folga.

De mil conversas nossas
participa de uma,
e mesmo assim nem sempre,
pois prefere o silêncio.

Quando nosso corpo começa a doer e doer,
sai de fininho do seu plantão.

É difícil de contentar:
não lhe agrada nos ver na multidão,
nem nossa luta por uma vantagem qualquer,
nem o matraquear dos negócios.

A alegria e a tristeza
para ela não são dois sentimentos diversos
Somente quando estão unidos
se faz presente em nós.

Podemos contar com ela
quando não temos certeza de nada
e temos curiosidade de tudo.

Dos objetos materiais,
gosta dos relógios com pêndulo
e dos espelhos, que trabalham com zelo
mesmo quando ninguém está olhando.

Não revela de onde vem
nem quando vai sumir de novo,
mas está claro que espera tais perguntas.

Parece que,
assim como ela nos é necessária,
também nós
para algo lhe somos necessários.


Wisława Szymborska, in "Para o meu coração num domingo",
Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski
São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2020.
 
 
Wisława Szymborska, "Para o meu coração num domingo"
 Companhia das Letras, 2020. 
 
 
 Resumo
 
Em agosto de 2020, no Brasil, foi lançada a terceira coletânea de poemas da escritora polaca, Wislawa Szymborska. O livro "Para o meu coração num domingo" conta com 85 poemas, traduzidos e escolhidos por Regina Przybycień e Gabriel Borowski. A editora responsável é a Companhia das Letras, que publicou também as duas coletâneas anteriores: "Poemas" e "Um amor feliz". 

Depois dos festejados "Poemas" (2011) e "Um amor feliz" (2016), "Para o meu coração num domingo" reúne 85 poemas (extraídos de "Chamado por Yeti", "Sal", "Muito divertido", "Todo o caso", "Um grande número", "Gente na ponte", "Fim e começo", "Instante," "Dois pontos", "Aqui e Chega") da voz que encantou o mundo com seus versos afiados, que misturam rigor formal, pitadas de ironia e tom levemente coloquial. 
No poema que dá título ao livro, Wislawa Szymborska anuncia: “Você tem setenta méritos por minuto./ Cada contração tua/ é como o lançar de uma canoa/ no mar aberto/ numa viagem ao redor do mundo”.
Com organização e tradução de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, este conjunto de poemas trata de experiências quotidianas, amor, sonhos, morte, filosofia, mitologia, história e antropologia, sempre com o olhar curioso, generoso e bem-humorado de uma das poetas mais extraordinárias do século XX. 

Wisława Szymborska nasceu em 1923, em Kórnik, na Polónia e morreu em 2012, em Cracóvia. Em 1931, mudou-se com a família para Cracóvia, onde estudou literatura e sociologia. Estreou-se com o poema Szukam słowa [À procura de uma palavra] publicado num dos jornais de Cracóvia, “Dziennik Polski”. Ao longo da vida, publicou doze pequenas coletâneas de poemas. Uma coletânea incompleta foi publicada postumamente. Venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1996. Os seus poemas foram traduzidos para cerca de 40 línguas. (daqui)
 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

"Possibilidades" - Poema de Wisława Szymborska



Edward Percy Moran
(American artist known for his scenes of American history, 
1862–1935), Young Girl and Dog, 1890.
 
 
 
 Possibilidades

 
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.


Wisława Szymborska
, in Poemas
Tradução de Regina Przybycien

 
 
Edward Percy Moran, A Fair Puritan, c. 1897
 

“Todos os poemas nascem do amor; até aqueles que transmitem o mal têm no fundo uma forma de amor para com o mundo”.
 
(Prémio Nobel de Literatura de 1996)
 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

"As três palavras mais estranhas" - Poema de Wisława Szymborska


Werner Holmberg (Finnish painter, 1830–1860), Landscape from Kuru in Morning Light, 1858,
 
 

As três palavras mais estranhas


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.


Wisława Szymborska
, "Instante".

In Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien.
São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
 
 
Wisława Szymborska
(Photo credit: Polish News Agency PAP)
 

Poetisa e mulher de letras polaca, Wisława Szymborska nasceu a 2 de julho de 1923 em Bnin, nas cercanias de Kórnik. Acompanhou a família na sua mudança para Cracóvia em 1931.
Após um período difícil para a Polónia, invadida pelos alemães em 1939, a paz trouxe um novo alento a Szymborska, que, em 1945, não só pôde ingressar na Universidade de Jagelão, em Cracóvia, como estudante de Literatura Polaca e Sociologia, como também se estreou como poetisa, ao publicar o seu trecho "Szukam Slowa" num jornal proeminente.
Concluiu o seu primeiro livro em 1948, uma coletânea de poemas que não chegou a ser publicada, já que o regime comunista caracterizou o trabalho como demasiadamente burguês. Alterando o seu discurso, politizando-o, conseguiu dedilhar as tramas da censura, e publicou Dlagtego Zyjemy (1952, Por Isso Vivemos).
Contribuindo regularmente para a imprensa, Szymborska foi editora de poesia e colunista no semanário literário de Cracóvia, o Zycle Literackie, entre 1953 e 1981. Traduziu também várias obras de poesia francesa, mas continuou no entanto a compor poesia, aparecendo com obras como Wolanie Do Yeti (1957, Apelo ao Yeti), em que se demarca dos ideais socialistas, e que lhe garante renome a nível internacional, e Sól (1962, Sal), em que exprime um certo pessimismo quanto ao futuro da humanidade, aliado a uma certa esperança nos poderes da imaginação, único meio para atingir uma parte da felicidade. De mencionar também as obras Wiersze Wybrane (1964), Sto Pociech (1967), Ludzie Na Moscie (1986) e Koniec I Poczatec (1993). Chwila surgiu em 2002, quando a poetisa contava já setenta e nove anos de idade. Alguns dos seus artigos periódicos foram compilados em Lektury Nadobowiazkowe (1973-81).
Laureada com inúmeros prémios literários, entre os quais se destacam o Goethe, em 1991, o Herder, em 1995 e, de maior relevo, o Prémio Nobel da Literatura em 1996, Szymborska recebeu um doutoramento em Honoris Causa pela Universidade de Poznán em 1995. (Daqui)
 
 
 

"De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico. São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável. Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres." 

Vergílio Ferreira, em "Escrever" (póstumo), 2001



"Escrever" - Edição de Helder Godinho
Bertrand Editora / Lisboa, 2001
. (daqui)


Resumo 
 
 
"Escrever" é o último livro que Vergílio Ferreira (1916-1996) escreveu, e a segunda obra póstuma do autor de "Aparição". A sua edição, crítica, esteve a cargo de Helder Godinho (1947-2020), professor e estudioso da obra do escritor, e coordenador da equipa responsável pelo seu espólio.
Vergílio Ferreira trabalhou neste livro até ao dia que antecedeu a sua morte, e nele repensa os seus grandes temas de sempre, atualizando-os: a matéria da escrita e da arte, o corpo, a velhice e a doença, a morte, o abismo para onde, na sua opinião, a civilização caminha (não deixando de lado uma matéria que ultimamente tanto se discute: o poder perverso da televisão). São fragmentos, pensamentos, reflexões, por vezes escritos quase como um poema em prosa, ou mais filosóficos e mais próximos daqueles que desenvolveu em "Espaço Invisível V".
Sobre o livro, no qual trabalhou dois anos, Helder Godinho disse ao jornal Público: "Este livro é o retomar de alguma problemática [dos seus grandes temas] mas atualizada, na relação direta que ele mantém com o que vai acontecendo, com a contemporaneidade. "Escrever" é o retomar de velhas preocupações, mas adaptadas ao que se está a viver e, por outro lado, o reforço do drama da morte que se aproxima. É um homem que está doente e que sabe que está velho - e isso aparece em "Escrever" com uma força que não aparece em mais nenhum livro. As entradas sobre a velhice são imensas e algumas já são escritas com algum distanciamento." (Daqui)
 
 

Werner Holmberg, Autumn Morning, 1856, Turku Museum of Art, Turku, Finland.

 
“Que é que me diz à evocação a montanha onde nasci? Os uivos do vento numa noite de tempestade, a neve do início genesíaco. Mas o mar diz-me da constante inquietação e só a montanha me lembra o estável e o eterno. Massa enorme, nascida do ventre da Terra, está ali repousada sobre o seu ser, feita da substância da eternidade. Assim ao contemplá-la eu próprio repouso sobre mim, esvaziado do que me oprime ou inquieta, transmudando-me ao que nela há de estável e denso e alastrado aos poderes cósmicos. Como tudo o que é imenso dissolve-me a pequenez ou equilibra-a no que a transcende como se transposta à sua grandeza que me reabsorve em si e me dissipa a minha própria individualidade. Que é que me fala à evocação da montanha que perdi? Não sei. Talvez apenas a humildade do meu ser que se desvanece.”
 
 
Werner Holmberg, Finnish Lake Landscape, 1854, Finnish National Gallery
 
 
“Para que percorres inutilmente o céu inteiro à procura da tua estrela? Põe-na lá.” 
 
 
 
Werner Holmberg, German Landscape, 1855, Pori Art Museum
 
 
 "Sê alegre apenas depois de dares a volta à vida toda. E regressares então a uma flor, ao sol num muro, a um verme no chão. A profunda alegria não é a do começo mas a do fim."
 
Vergílio Ferreira, em "Escrever"
 
 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

"Repenso o mundo" - Poema de Wisława Szymborska

 

Henri-Edmond Cross (French painter, 1856–1910), Landscape with Stars, c. 1905-1908,
Watercolor on paper, 24,4 x 32 cm. Metropolitan Museum of Art, New York City
 


Repenso o mundo


Repenso o mundo, segunda edição,
segunda edição corrigida,
aos idiotas o riso,
aos tristes o pranto,
aos carecas o pente,
aos cães botas.

Eis um capítulo:
A Fala dos Bichos e das Plantas,
com um glossário próprio
para cada espécie.
Mesmo um simples bom-dia
trocado com um peixe,
a ti, ao peixe, a todos
na vida fortalece.

Essa há muito pressentida,
de súbito revelada,
improvisação da mata.
Essa épica das corujas!
Esses aforismos do ouriço
compostos quando imaginamos
que, ora, está só adormecido!

O tempo (capítulo dois)
tem direito de se meter
em tudo, coisa boa ou má.
Porém — ele que pulveriza montanhas
remove oceanos e está
presente na órbita das estrelas,
não terá o menor poder
sobre os amantes, tão nus
tão abraçados, com o coração alvoroçado
como um pardal na mão pousado.

A velhice é uma moral
só na vida de um marginal.
Ah, então todos são jovens!
O sofrimento (capítulo três)
não insulta o corpo.
A morte
chega com o sono.

E vais sonhar
que nem é preciso respirar,
que o silêncio sem ar
não é uma música má,
pequeno como uma fagulha,
a um toque te apagarás.

Morrer, só assim. Dor mais dolorosa
tiveste segurando nas mãos uma rosa
e terror maior sentiste ao som
de uma pétala caindo no chão.

O mundo, só assim. Só assim
viver. E morrer só esse tanto.
E todo o resto — é como Bach
tocado por um instante
num serrote.
 
 
Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien
São Paulo : Companhia das Letras, 2011
 
 
 Henri-Edmond Cross, Les cyprès à Cagnes, 1908, Huile sur toile, 81 x 100 cm,  
Musée d'Orsay, Paris
 
  
"Um homem pode fracassar muitas vezes, mas só é um fracassado quando começa a culpar outra pessoa."

(John Burroughs)
 
 
 Henri-Edmond Cross, L'Air du soir, c. 1893, Huile sur toile, 116 x 166 cm, 
 

terça-feira, 18 de junho de 2019

"Gato num apartamento vazio" - Poema de Wislawa Szymborska



Patrick William Adam (Scottish painter, c. 1852/4–1929),
'Orange and Blue, the Library at Ardilea', 1911.


Gato num apartamento vazio


Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
e no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.

Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.

Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.

Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.

Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direção a ele
como que contrariado,
devarinho, com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios.
 Pelo menos ao princípio.
Patrick William Adam, 'The library at Tyninghame', 1925


"O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba receber." - Artur da Távola

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

"Poça de água" - Poema de Wisława Szymborska

                                                                                                     
Charles Courtney Curran (American impressionist painter, 1861–1942),
 Children Fishing, 1897, Private collection

Poça de água



Recordo bem este medo da infância.
Evitava as poças, sobretudo as novas, após a chuva.
Afinal, uma delas poderia não ter fundo,
ainda que parecesse igual às outras.

Ponho o pé e, de súbito, afundar-me-ei,
voando para baixo,
cada vez mais baixo,
rumo às nuvens refletidas
ou talvez mais além.

Depois a poça secar-se-á,
fechar-se-á por cima de mim,
e eu para sempre trancada — onde —
ficarei com um grito não repercutido à superfície.

Só mais tarde compreendi que
nem todas as más aventuras
cabem nas regras do mundo
e mesmo que o quisessem,
não poderiam acontecer.


Wislawa Szymborska



Charles Courtney Curran, Children by the Seashore, 1896,
 Private collection


"Todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso. A pele suave desses tempos em que se corria com as pernas arqueadas soltando uma espécie de luz pela respiração. Ríamos a correr para os braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois eram essas as nossas proporções."


Afonso Cruz,  O Pintor Debaixo do Lava-Loiças


Charles Courtney Curran, Children at the Shore, Date unknown


Tão pequena
E desbotada de chuva
A casa da infância!...


Paulo Franchetti, Haicais


domingo, 18 de novembro de 2018

"Bem cedo" - Poema de Wisława Szymborska



Alfred Sisley (French-Born British Impressionist landscape painter, 1839–1899),
'Early Snow at Louveciennes', c. 1871
–1872.


Bem cedo


Ainda durmo,
mas enquanto isso as coisas acontecem.
A janela embranquece,
a escuridão se acinzenta,
o quarto emerge de um espaço indefinido,
listas pálidas e instáveis buscam apoio.
Na fila, sem pressa,
pois isso é uma cerimónia,
amanhecem as superfícies do teto e das paredes,
as formas se destacam
umas das outras,
as da esquerda das da direita.
As distâncias entre os objetos vibram,
as primeiras luzes cintilam
no copo, na maçaneta.
As coisas deixam de ser impressões, já existem,
como o que ontem foi deslocado,
o que caiu no chão
e o que está contido nas molduras.
Apenas os detalhes continuam invisíveis.
Mas atenção, atenção, atenção,
tudo indica que as cores estão retornando
e mesmo a mínima coisa recebe de volta sua matiz,
acompanhada de uma ponta de sombra.
Raramente isso me surpreende, mas deveria.
Normalmente eu acordo, testemunha atrasada,
o milagre finalizado,
o dia definido
e a aurora magistralmente transformada em manhã.

domingo, 11 de novembro de 2018

"Fotografia do 11 de Setembro" - Poema de Wisława Szymborska


As torres gémeas incendiaram atrás de um dos marcos emblemáticos de Nova Iorque, o Empire State Building, 
a 11 de setembro de 2001. Fotografia por Marty Lederhandler, AP
(daqui)


Fotografia do 11 de Setembro


Pularam dos andares em chamas –
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles –
descrever este voo
e não acrescentar o último verso.

 (daqui)

Wisława Szymborska
(Prémio Nobel de Literatura de 1996)