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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

"Vagabundo do mar" - Poema de Manuel da Fonseca


 
Moreira Aguiar (Pintor português, n. 1947), Sol e Chuva - Carcavelos, Cascais, 100x 60cm. 

 

Vagabundo do mar

 
Sou barco de vela e remos
ou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré… 
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia…
 Foi o vento que virou?
foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
 Sei lá.
 Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
 É, por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar. 
E agora,
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar. 


Manuel da Fonseca,
 in "Rosa dos ventos"

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

"Casa Velha" - Poema de Fernanda de Castro



 Moreira Aguiar (Pintor português, n. 1947), Óbidos, 70x50cm.
 


Casa Velha


Deixem a casa velha! Que os pedreiros
não lhe tirem as rugas nem as gelhas.
Que não limpem de urtigas os canteiros,
que lhe deixem ficar as velhas telhas.

Deixem a casa velha! Que a não sujem
com óleos e com tintas os pintores.
Que lhe deixem as nódoas de ferrugem,
os velhos musgos, as cansadas flores.

Que não fiquem debaixo do cimento
mais de cem anos de alegria e dor.
Não lhe pintem a chuva, o sol, o vento,
que a cor do tempo é assim: vaga e incolor.

Que tudo fique assim, parado e absorto,
no tempo sem limites, sempre igual.
Ah, não, por Deus! Como se faz a um morto,
não a sepultem sob terra e cal!

Não fechem as janelas mal fechadas,
ouçam da brisa o tímido lamento,
deixem que a vida e a morte, de mãos dadas,
vão com seu passo refletido e lento.

Não endireitem as paredes tortas
nem desatem, da aranha, os finos laços.
Abram ao vento as desmanchadas portas,
ouçam do tempo os invisíveis passos.

Deixem que durma, quieta, ao sol do Outono,
velada pela flor, o vento, a asa.
Será talvez o derradeiro sono…
Que importa? Morra em paz a velha casa.


Fernanda de Castro
, in "Asa no Espaço", 1955
 
 
 

"Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la."