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terça-feira, 13 de maio de 2025

"A Cidade e a Aldeia" - Poema de Abílio Mesquita


Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961), 
Aldeia portuguesa, 1938.
 
 
A cidade e a aldeia

 
Cidade - Quem és tu, assim tão simples?
 
Aldeia - E tu, quem és a final?
 
Cidade - A nobreza da Cidade.
 
Aldeia - Aldeia de Portugal.

Cidade - Tenho lindas pedrarias,
Joias mil de muitas cores...
 
Aldeia - E eu tenho maior riqueza
Nas minhas tão lindas flores...
 
Cidade - Tenho risos, alegrias
Divertimentos constantes.

Aldeia - Tenho a música dos ninhos
 E canções inebriantes.

Cidade
- Tenho luz de noite a jorros,
E não me levas a palma.
 
Aldeia - Tenho o Sol durante o dia,
De noite a luz da minha alma...
 
Cidade - Vivo em palácios vistosos
Que abundam pela Cidade.
 
Aldeia - E eu num casebre pequeno,
Que o Sol beija com vaidade!
 
Cidade - A História fala de mim,
Porque tenho algum valor...
 
Aldeia - Também tenho a minha História,
Escrita com o meu suor.
 
Cidade - Tenho o luxo que tu vês
Próprio da minha grandeza.

Aldeia - E eu o luxo e a vaidade de gostar da singeleza!
 
Cidade - Sou mais rica do que tu,
Que nada tens afinal!
 
Aldeia - Tenho aqui dentro do peito:
A alma de Portugal!
 
 
Abílio de Mesquita, in Livro de Leitura para a 4ª classe
Ed. Educação Nacional, Porto, s/ d. p. 86.
 
 
Francisco Smith, Largo de aldeia (Petite place au Portugal), 1954.


"Viver no campo tornou-me uma pessoa muito menos cínica e sombria do que resulta manter-me distante de um determinado modo de pensar instituído. Não é necessariamente um olhar do campo, é o debate com a possibilidade de um outro tipo de inteligência e de abordagem literária da existência humana só possível num cenário deste género."

Joel Neto, Entrevista Diário de Notícias, 12 Fev. de 2017



Francisco Smith, Encosta do Castelo de São Jorge, Lisboa, s.d.
 

"Se me pedirem para reduzir ao essencial a diferença entre o campo e a cidade, então aí está ela: o efeito que tem em nós uma sirene no horizonte. Na cidade, é apenas uma sirene. Aqui, há uma boa hipótese de se tratar de alguém que conhecemos, talvez até de alguém que estimamos."

Joel Neto, em "A Vida no Campo"
 
 
Francisco Smith, Praça em Lisboa (Place à Lisbonne), s.d.


"Deus fez o campo, e o homem fez a cidade."

"God made the country, and man made the town."

William Cowper, in The Task, 1785. 
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

"Entre a cidade Sim e a cidade Não" - Poema de Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko


Carlos Botelho, Nova York, Rua 53, 1939.


Entre a cidade Sim e a cidade Não


Sou um comboio rápido
que há muitos anos vai e vem
entre a cidade Sim
e a cidade Não.
Os meus nervos estão tensos
como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim.

Tudo está morto e assustado na cidade Não.
É como um embrulho feito de tristeza.
Dentro dela todas as coisas franzem a testa.
Há medo nos olhos de todos os retratos.
De manhã enceram com bílis o soalho.
Os sofás são de falsidade, as paredes de miséria.
Nunca te darão nessa cidade um bom conselho,
nem um ramo de flores, nem um simples aceno.
As máquinas de escrever batem, com cópia,
a resposta:
"Não-não-não... não-não-não... não-não-não..."
E quando enfim se apagam as luzes
os fantasmas iniciam o seu lúgubre bailado.
Nunca, ainda que rebentes, arranjarás bilhete
para fugir da negra cidade. Não.

Ah, mas a vida na cidade Sim é um canto de ave.
Não tem paredes a cidade, é como um ninho.
As estrelas dizem que as acolhas nos teus braços.
E sem vergonha seus lábios pedem teus lábios,
num brando murmúrio: "São tudo tolices..."
A flor provocante implora que a cortes,
os rebanhos oferecem o leite com seus mugidos,
ninguém tem ponta de medo.
E aonde queiras ir te levam num instante comboios,
barcos, aviões,
e com um rumor antigo vai a água murmurando:
"Sim-sim-sim... sim-sim-sim... sim-sim-sim..."
Mas às vezes é certo que aborrece
ser-me dado, afinal, tudo sem esforço
nesta cidade Sim, deslumbrante de cor.

É melhor ir e vir até ao fim da minha vida
entre a cidade Sim
e a cidade Não!
É melhor ter os nervos tensos como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim! 


 Trad. de J. Seabra-Dinis


Carlos Botelho, Noturno - Nova Iorque, 1940.
 

"Ter uma vida tranquila é um objetivo difícil." 

"A life of ease a difficult pursuit."
 
William Cowper, "Retirement" in: The works of William Cowper: His life and letters -
 vol. 6, Página 210, de William Cowper, William Hayley, John William Cunningham, 
Thomas Shuttleworth Grimshawe - Saunders & Otley, 1835.