Mostrar mensagens com a etiqueta Oliveira Tavares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Oliveira Tavares. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de outubro de 2014

"Carta à Minha Filha" - Poema de Ana Luísa Amaral


 


Carta à Minha Filha 


Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas - é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.

E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

in 'Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)'


Pintura de Oliveira Tavares


"Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos."

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Primeiro Amor" - Poema de Adília Lopes


Pintura de Oliveira Tavares
 


Primeiro Amor

Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado Os pestíferos de Jaffa
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele assim fina
devia ter uma letra muito melhor do que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita


Adília Lopes


Adília Lopes


Adília Lopes, pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poetisa, cronista e tradutora portuguesa.

"Adília Lopes e Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira são uma e a mesma pessoa. São eu. Como uma papoila é poppy. E muitos outros nomes que eu não sei. A Adília Lopes é água no estado gasoso, a Maria José é a mesma água no estado sólido. Eu sou uma mulher, sou portuguesa, sou lisboeta, sou poetisa, sou linguista (todos somos), sou física, sou bibliotecária, sou documentalista, sou míope, nasci a 20 de Abril de 1960, sou solteira, não tenho filhos, sou católica, tenho os olhos castanhos, meço 1,56 m, neste momento peso 80 Kg, uso o cabelo curto desde 1981, o cabelo é castanho escuro com muitos cabelos brancos.(…) É claro que o poeta é sempre o idiota da família, o maluquinho."

Adilia Lopes (Daqui)


Galeria de Oliveira Tavares
Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


"Quero tornar-me aquilo que sou: uma criança feita de luz."

(Katherine Mansfield)


Katherine Mansfield em 1912


Katherine Mansfield, pseudónimo de Kathleen Mansfield Beauchamp (Wellington, Nova Zelândia; 14 de outubro de 1888 - Fontainebleau, França, 9 de janeiro de 1923) foi uma proeminente escritora neozelandesa de histórias curtas.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

"Conheço esse Sentimento" - Poema de Rosa Lobato de Faria


Oliveira Tavares, Olhar


Conheço esse Sentimento 


Conheço esse sentimento
que é como a cerejeira
quando está carregada de frutos:
excessivo peso para os ramos da alma.

Conheço esse sentimento
que é o da orla da praia
lambida pela espuma da maré:
quando o mar se retira
as conchas são pequenas saudades
que doem no coração da areia.

Conheço esse sentimento
que é o dos cabelos do salgueiro
revoltos pelas mãos ágeis da tempestade:
na hora quieta do amanhecer
pendem-lhe tristemente os braços
vazios do amado corpo do vento.

Conheço esse sentimento
que passa nos teus olhos e nos meus
quando de mãos dadas
ouvimos o Requiem de Mozart
ou visitamos a nave de Alcobaça.

Pedro e Inês
a praia e a maré
o salgueiro e o vento
a verdade e o sonho
o amor e a morte
o pó das cerejeiras
tu.
e eu.


Rosa Lobato Faria,
 in 'Dispersos'


Rosa Lobato de Faria


Rosa Lobato de Faria, atriz, escritora e autora de canções, nasceu a 20 de abril de 1932, em Lisboa, mas ficou com muitas ligações ao Alentejo devido a laços familiares. Faleceu a 2 de fevereiro de 2010, aos 77 anos. Foi empregada numa loja de eletrodomésticos antes de se dedicar à representação no teatro e em diversos programas de televisão.

A estreia no cinema ocorreu em 1973 em Perdido por Cem..., seguindo-se na Sétima Arte interpretações em Paisagem Sem Barcos (1983), Jogo de Mão (1984), O Barão de Altamira (1986), O Vestido Cor de Fogo (1986), Aqui na Terra (1993), Tráfico (1998) e A Mulher Que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos da América (2003).

Rosa Lobato de Faria fez sucesso como atriz de teatro, cinema e televisão e como autora de canções. Quatro das suas letras venceram o Festival da Canção e foram à Eurovisão, e duas marcaram presença no Festival da OTI. No Festival Eurovisão estiveram presentes as músicas "Amor de Água Fresca", interpretada por Dina em 1992, "Chamar a Música", cantada por Sara Tavares, em 1994, "Baunilha e Chocolate", com voz de Tó Cruz, em 1995, e "Antes do Adeus", por Celia Lawson, em 1997. Ganhou ainda por duas vezes o prémio da Grande Marcha Popular de Lisboa, nas únicas vezes em que concorreu.

Rosa Lobato de Faria escreveu o argumento de duas telenovelas Passerelle (1987) , a meias com Ana Zanatti, para a RTP e Telhados de Vidro (1994), para a TVI. Escreveu também o guião de quatro séries de televisão, três da RTP- Nem o Pai Morre... (1987), Pisca-Pisca (1988) e Tudo ao Molho e Fé em Deus (1994)-, e uma da TVI, Trapos e Companhia (1995). Colaborou também em diversos programas do humorista Herman José, mais recentemente, protagonizou as séries humorísticas A Minha Sogra é uma Bruxa (2003) e Aqui Não Há Quem Viva (2006).

Já com uma longa carreira noutras áreas culturais, em 1995 estreia-se na escrita de romances com O Pranto de Lúcifer, seguindo-se, sucessivamente, Os Pássaros de Seda (1996), Os Três Casamentos de Camilla S. (1997), Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999), A Trança de Inês (2001), O Sétimo Véu (2003), Os Linhos da Avó (2004), A Flor do Sal (2005), A Alma Trocada (2007), A Estrela de Gonçalo Enes (2008) e As Esquinas do Tempo (2008).

Com O Prenúncio das Águas, Rosa Lobato de Faria ganhou o Prémio Máxima de Literatura em 2000. Tem obras traduzidas em alemão e francês. Mas, para além do romance, a autora também publicou poesia, como a antologia Poemas Escolhidos e Dispersos (1997) e A Gaveta de Baixo (1999), um longo poema acompanhado por aguarelas de Oliveira Tavares, e Os Melhores Poemas Para Crescer (2007).

Em finais de 2002, estreou no teatro a peça Sete Anos, a primeira escrita por Rosa Lobato de Faria. Paralelamente a todas estas atividades, deu aulas de dicção na Universidade e ensinou Poesia Portuguesa num curso de formação de atores.


Rosa Lobato de Faria. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-07]


Oliveira Tavares, Sem Titulo, Acrilico s/tela 60x73cm


Oliveira Tavares

OLIVEIRA TAVARES nasceu em Lisboa em 1961. Viveu e trabalhou em Bruxelas e Paris. Reside actualmente na Ericeira, Portugal. Frequentou o curso de Engenharia do Instituto Superior Técnico de Lisboa, o Curso de Desenho no A.R.C.O. e o Curso de História de Arte na Sociedade Nacional de Belas-Artes. Workshop de Gravura com Bartolomeu Cid dos Santos – Casa das Artes – Tavira. Membro da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Quando se contempla um quadro de Oliveira Tavares, a nossa atenção concentra-se nas personagens provenientes de imagens mais antigas, de Velasquez a Vermeer. Mas um segundo olhar revela-os, muitas vezes, transformados, transfigurados, atéreos. Depois, o nosso olhar vai ainda mais longe e aparece então uma pintura abstracta, geométrica ou gestual. A partir de agora, a cor evidencia-se, com as suas pulsações particulares. Não se trata, por consequência, de uma pintura histórica, mas de uma pintura de recordação. Uma lembrança profundamente enraizada no presente, nas novas possibilidades de expressão descobertas no séc. XX. (Daqui)


Oliveira Tavares, Abraço


Edgardo Xavier, Crítico de artes plásticas, A.I.C.A / Portugal, Estoril, 2002

"Tão disciplinada como a linguagem estética dos clássicos e tão apta a reflectir as pulsões de um artista livre e emocionado, esta pintura remete-nos para a polivalência humana em todo o seu esplendor. Exercício de apropriação de um real que se desdobra e domina, os trabalhos de Oliveira Tavares surpreendem o observador com o inesperado convívio de formas que se avultam ou diluem no magma dos seus registos.

Importa referir que é na diversidade de impulsos, cores, texturas e na multiplicidade de ritmos propiciatórios que as distintas partes da obra se articulam, como se de um puzzle se tratasse ou como se houvesse intenção de pôr em paralelo as porções heterogéneas do todo. O resultado tem a ver com o sucesso da procura de grafismos ou de elementos que estabeleçam o equilíbrio e sejam capazes de transmitir harmonia. Radica nesta dinâmica o principal da pesquisa a que se vem dedicando este artista plástico desde o seu início.

Muitas destas presenças são-nos familiares. Corpos, cabeças, rostos e mãos pertencem a outros enquadramentos e, na origem, narram histórias diferentes. Aqui são como que evocações do afecto, elegias ou meras referências que operam como pontos de partida para um novo e actual discurso, espécie de repto a que o autor responde com a sua própria caligrafia pictórica. Adequando as imagens previamente seleccionadas ao clima que pretende comunicar, aceitando-as na sua força peculiar ou alterando o sentido da sua integração no presente contexto, o pintor interage com o mote para aceder a uma criatividade pessoal.

A virtude primordial desta linguagem reside, quanto a nós, no facto de coexistirem, no mesmo espaço, pelo menos duas atitudes opostas. Com efeito, oscilando entre o rigor inerente à reprodução fiel e a inquieta divagação que culmina no equilíbrio destes contrários, Oliveira Tavares a si mesmo se retrata e justifica. Ei-lo, consequentemente, em sua riqueza de sensibilidades e técnicas, seu temperamento, seu amor pela figuração e a sua apetência pela liberdade, de tradução muitas vezes gestual.

A Arte também se entende como um vasto repositório de informação e, num tal contexto, estas telas afirmam a ductilidade integradora deste caminhar de séculos em busca da unidade virtual para que tendem o passado, o presente e o futuro sempre que, ultrapassando os preconceitos, concluimos pertencer ao mesmo universo de valores. São meramente formais as diferenças quando se coloca o homem na origem e no destino do acto criador!

O cromatismo intenso que percorre as áreas dos poucos planos envolventes e a utilização de vocábulos para ler, estar ou significar, acabam por assumir plasticidades ricas que abrem para uma multiplicidade de leituras esta pintura intemporal. A obra surge-nos, assim, como algo que se irá fruindo, com crescente profundidade, como função da simples persistência do olhar."


Ilustração do Livro “A Gaveta de Baixo”, de Rosa Lobato de Faria 




"A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem."