Mostrar mensagens com a etiqueta John Keats. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta John Keats. Mostrar todas as mensagens

domingo, 21 de maio de 2023

"Ode sobre a Indolência" - Poema de John Keats


Alfred  Glendening, Jr. (British painter, 1861-1907, son of British painter,
Alfred Augustus Glendening, Sr., 1840-1921), The first days of spring, 1896
 
 

Ode sobre a Indolência

I

Numa certa manhã eu vi as três as figuras,
   Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma,
Seguindo atrás da outra, mudas e seguras,
   Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma;
Como formas de mármore em alto-relevo
  Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face
   Do vaso; mas voltando ao ângulo anterior,
Mostraram-se mais uma vez como as descrevo,
 E eram-me tão estranhas como se as achasse
   Numa ânfora de Fídias um pesquisador.

II

Como é possível, Sombras, que eu não as conheça,
  Máscaras mudas que se movem para mim?
Que plano silencioso tinham na cabeça
  Para a minha indolência arrebatar assim?
Era a hora madura e eu já me comprazia
  Na abençoada nuvem de ócio do verão.
   Pesado o olhar, a pulsação quase parada,
Os prazeres sem cor e a vida já vazia.
  Ah! por que não desaparecem e se vão,
   E me deixam em paz, sozinho, com meu – nada?

III

Uma terceira vez romperam minha paz as
  Figuras mudas; cada qual por um momento
Me olhou de frente, e eu só queria era ter asas
  Para segui-las e saber do seu intento;
A primeira, uma bela moça, era o Amor;
  A segunda, de rosto pálido e sem viço
   E olhos cansados, a Ambição que a tudo via.
A última, a que eu mais amo, e a quem o desfavor
  Persegue, era uma jovem com ar insubmisso;
   Essa era o meu demónio – a Poesia.

IV

Foram-se as três e eu só queria asas ainda;
  Loucura! O que é o Amor? Quem sabe onde ele mora?
Quanto à Ambição! – é desprezível, porque vinda
  De um coração pequeno, a febre de uma hora;
À Poesia! – não doa uma só alegria, –
  Ao menos para mim, – de dia imersa em suas
   Cismas; à noite, no ópio do seu tédio imenso;
Pudesse eu ter uma era livre de agonia,
  Sem conhecer jamais a mutação das luas
   Nem ouvir nunca a voz penosa do bom-senso!

V

E uma vez mais vieram; – ah! por que razão?
  Meu sono se adornava de secretos sonhos,
Minha alma era uma relva, flores pelo chão,
  Com sombras sugestivas e raios risonhos;
A névoa da manhã não me trazia chuva;
  Nas pálpebras de maio, só lágrimas prestes;
   Calor, botões em flor, um tordo ia cantar,
E da janela aberta eu via a vide e a uva;
  Sombras, a hora do adeus chegou; em suas vestes
   Nenhuma lágrima desceu do meu olhar.

VI

Adeus, meus três fantasmas! Não há quem me faça
  Erguer esta cabeça da relva e das flores.
Não quero ser a ovelha-guia de uma farsa,
  Nem seguirei uma dieta de louvores.
Voltem a ser figuras-máscaras de urna.
  Adeus! deixem morrer de tédio a minha mente.
   Visões? Já tenho a minha provisão noturna,
E outras, mais ténues, para as horas matinais.
  Retirem-se, de vez, do meu ser indolente,
   Para as nuvens dos céus, e não voltem jamais. 


John Keats
, em "Byron e Keats – Entreversos".
 Campinas SP: Editora UNICAMP, 2009.
Tradução de Augusto de Campos


"Byron e Keats - Entreversos"
 
 
 Resumo

Byron era um artista do verso. Os XVII Cantos do Don Juan (1818-1823) contêm perto de 2 mil estrofes em oitava-rima, quase o dobro de Os Lusíadas. Cerca de 16 mil versos de elaboração complexa e rimário insólito. Radical, não cedeu à censura. Os primeiros cantos do D. Juan foram publicados anonimamente, tal era o risco de serem confiscados. A obra de Keats é aqui representada por quatro de suas Odes (1819), dois sonetos (1816-1818) e um fragmento do poema longo, Endymion (1817). O poeta tinha 20 e poucos anos quando escreveu essas maravilhas. Confrontadas aqui, as poéticas de Byron e de Keats reemergem solidarizadas como contradições heurísticas e dialéticas da linguagem poética. Discórdias aparentes, ao cabo concordantes e parentes." - Augusto de Campos

domingo, 30 de junho de 2019

"Procissão" - Poema de António Lopes Ribeiro


 

Procissão


Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.



João Villaret - "A Procissão", de António Lopes Ribeiro (RTP)
 


"Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo."



António Lopes Ribeiro (Daqui)

António Lopes Ribeiro, cineasta português, nasceu a 16 de abril de 1908, em Lisboa, e faleceu em abril de 1995. Estreou-se na crítica cinematográfica em 1925.
Com Chianca de Garcia, criou a revista Imagem, e mais tarde fundou e dirigiu Kino, bem como as duas séries de Animatógrafo.
Nas suas peças jornalísticas, mostrou-se desde muito cedo defensor do cinema sonoro.
Na realização, Lopes Ribeiro estreou-se em 1928 com o documentário Bailando ao Sol.
Grande parte da sua carreira, aliás, ao nível da curta-metragem, seria preenchida com produções de natureza documental, nas quais Lopes Ribeiro se tornaria uma espécie de cineasta do regime.
Mesmo em produções de outra natureza, como A Revolução de maio (1937) e Feitiço do Império (1940), a marca ideológica do Estado Novo permanece evidente. 
Em 1941, fundou as Produções António Lopes Ribeiro, que marcaram uma nova época no cinema português, na medida em que criaram condições consistentes para uma produção cinematográfica regular.
Assim, pôde Lopes Ribeiro rodar filmes dos mais conseguidos das décadas de 40 e 50 em Portugal, como a comédia O Pai Tirano (1941), protagonizada por Vasco Santana e Ribeirinho, Amor de Perdição (1943), com António Vilar e inspirado no romance homónimo de Camilo Castelo Branco, Frei Luís de Sousa (1950), uma adaptação do drama de Almeida Garrett protagonizada por Raul de Carvalho, João Villaret e Barreto Poeira, e O Primo Basílio (1959), inspirado na obra de Eça de Queiroz. 
As Produções A.L.R. estiveram ainda por trás da realização de películas bem conhecidas, como sejam Aniki-Bobó (1942), de Manoel de Oliveira, O Pátio das Cantigas (1942) e Camões (1946). 
Lopes Ribeiro foi também membro de diversos júris de festivais de cinema.
Entre 1961 e 1974, foi o apresentador, na RTP, do programa Museu de Cinema.
O último título que rodou foi a curta-metragem documental Dia de Portugal na Expo'70 (1970). 
Paralelamente à sua carreira de cineasta, foi empresário teatral (fundou em 1944, juntamente com o seu irmão Ribeirinho, a companhia Os Comediantes de Lisboa), poeta (compôs em 1956 a letra do famoso poema Procissão, declamado por João Villaret) e tradutor (em 1957, traduziu a peça Três Rapazes e Uma Rapariga, de Roger Ferdinand, protagonizada por Vasco Santana, Henrique Santana, João Perry e Raul Solnado).
Em 1984, surpreendeu o público português, quando surgiu como ator, interpretando um padre liberal na telenovela Chuva na Areia (1984), ao lado de Virgílio Teixeira, Mariana Rey Monteiro, Armando Cortez, José Viana, Carlos Wallenstein e Rogério Paulo. (daqui)


João Villaret  (Daqui)

João Villaret, ator e declamador de excecional talento nasceu a 10 de maio de 1913, em Lisboa, e faleceu a 21 de janeiro de 1961, na mesma cidade.
Depois de ter terminado o Liceu, dedicou-se ao teatro, tendo estado ligado à revitalização do teatro nacional.
Gradualmente, ganhou fama de declamador pelo que causou algum escândalo quando decidiu, em 1941, enveredar pelo teatro de revista, provando em êxitos sucessivos que era possível conciliar o género dramático e o de revista.
A mais popular de todas terá sido 'Tá Bem Ou Não 'Tá? (1947), onde popularizou o célebre Fado Falado, da autoria de Aníbal Nazaré e Nélson de Barros, que mais não era do que um recitativo sobre melodia de fado onde a letra em vez de ser cantada era declamada.
Este género de poesia ganhou enorme popularidade, especialmente depois de A Vida É Um Corridinho (1952) ou o famoso A Procissão (1956), da autoria de António Lopes Ribeiro, que viria, anos mais tarde a popularizar num seu programa televisivo.
Aliás, a poesia, especialmente a de Cesário Verde, era uma das suas grandes paixões, tendo ficado famosas as suas tertúlias no Café Brasileira do Rossio.
De entre as suas peças mais célebres, destacam-se A Recompensa (1937), de Ramada Curto, A Madrinha de Charley (1938), de Brandon Thomas, Leonor Teles (1939), Melodias de Lisboa (1955), da sua autoria, Não Faças Ondas (1956) e Esta Noite Choveu Prata (1959).
Das suas interpretações cinematográficas, destacam-se a sua personificação de D.João VI em Bocage (1936), um papel secundário, mas mordaz de mudo, em O Pai Tirano (1941), de Bobo, em Inês de Castro (1944), de D. João III, em Camões (1946) e aquela que terá sido a sua melhor interpretação de sempre em cinema, a de Telmo Pais, em Frei Luís de Sousa (1950).
O seu último papel foi o de Sebastião, em O Primo Basílio (1959). 
Doença prolongada obrigou-o a retirar-se dos palcos em 1960, tendo falecido no ano seguinte.
A sua morte causou manifestações de grande pesar em Lisboa, de tal forma que, durante muitos anos, os lisboetas celebraram o aniversário da sua morte com um recital de poemas no Cinema S. Jorge, onde a sua voz se ouvia num palco vazio iluminado apenas por um foco de luz.
Em sua homenagem, Raul Solnado fundou, em 1965, o Teatro Villaret. (daqui)


segunda-feira, 21 de março de 2016

"A Bela Dama Sem Piedade" - Poema de John Keats


Walter Crane, La belle Dame Sans Merci (1865)



A Bela Dama Sem Piedade 



Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas,
Sozinho, pálido e vagarosamente passando?
As sebes tem secado às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas?
Sua face mostra sofrimento e dor.
A toca do esquilo está farta,
E a colheita está feita.

Eu vejo uma flor em sua fronte,
Húmida de angústia e de febril orvalho,
E em sua face uma rosa sem brilho e frescor
Rapidamente desvanescendo também.

Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda… uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.

Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,
E braceletes também, e perfumes em volta;
Ela olhou para mim como se amasse,
E suspirou docemente.

Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,
E nada mais vi durante todo o dia,
Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava
Uma canção de fadas.

Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,
mel selvagem e orvalho da manhã,
E em uma estranha linguagem ela disse…
“Verdadeiramente eu te amo.”

Ela me levou para sua caverna de fada,
E lá ela chorou e soluçou dolorosamente,
E lá eu fechei seus selvagens olhos
Com quatro beijos.

Ela cantou docemente para que eu dormisse
E lá eu sonhei…Ah! tão sofridamente!
O último dos sonhos que eu sempre sonhei
Nesta fria borda da colina.

Eu vi pálidos reis e também príncipes,
Pálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;
Eles gritaram…”A Bela Dama sem Piedade
Tem você escravizado!”

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.

E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
Sozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.



tradução de Izabella Drumond


terça-feira, 10 de abril de 2012

"Se Tenho Medo" - Poema de John Keats


Escultura de Vladimir Kush, Always Together



Se Tenho Medo 


Se tenho medo de meus dias terminar
antes de a pena me aliviar o espírito, antes
de muito livro, em alta pilha, me encerrar
os grãos maduros como em silos transbordantes;
se vejo, nas feições da noite constelar,
enormes símbolos nublados de um romance
e penso que não viverei para copiar
as suas sombras com a mão maga de um relance;
quando sinto que nunca mais hei de te ver,
formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
do amor irrefletido! - então no litoral
do vasto mundo eu fico só, a meditar,
até ir Fama e Amor no nada naufragar. 


(1795-1821)


Retrato de John Keats por William Hilton,


"Oh, se eu ao menos pudesse ter uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos."

John Keats, in Carta a Benjamin Bailey



Pintura de Vladimir Kush


"No mesmo templo do deleite 
A velada Melancolia tem o seu santuário."

John Keats, in Ode on Melancholy


Retrato de John Keats por Joseph Severn, 1819


"O prazer visita-nos muitas vezes; mas a mágoa agarra-se cruelmente a nós."

John Keats, in Endymion


terça-feira, 20 de março de 2012

"O Palácio da Ventura" - Poema de Antero de Quental


"La Belle Dame sans Merci" ("A Bela Dama Impiedosa") é uma balada escrita pelo poeta inglês John Keats.



O Palácio da Ventura 


Sonho que sou um cavaleiro andante. 
Por desertos, por sóis, por noite escura, 
Paladino do amor, busco anelante 
O palácio encantado da Ventura! 

Mas já desmaio, exausto e vacilante, 
Quebrada a espada já, rota a armadura... 
E eis que súbito o avisto, fulgurante 
Na sua pompa e aérea formosura! 

Com grandes golpes bato à porta e brado: 
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... 
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! 

Abrem-se as portas d'ouro com fragor... 
Mas dentro encontro só, cheio de dor, 
Silêncio e escuridão - e nada mais! 


Antero de Quental, in "Sonetos" 



Pinturas de Frank Dicksee 

Sir Francis Bernard Dicksee (27 de novembro de 1853 - 17 de Outubro de 1928) foi um Inglês Vitoriano, pintor e ilustrador, mais conhecido por suas imagens de cenas dramáticas históricos e lendárias. Era também um pintor notável de retratos de mulheres elegantes.















Frank Dicksee

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"O Tempo seca o Amor" - Poema de Cecília Meireles


 


O Tempo seca o Amor


O tempo seca a beleza, 
seca o amor, seca as palavras. 
Deixa tudo solto, leve, 
desunido para sempre 
como as areias nas águas. 

O tempo seca a saudade, 
seca as lembranças e as lágrimas. 
Deixa algum retrato, apenas, 
vagando seco e vazio 
como estas conchas das praias. 

O tempo seca o desejo 
e suas velhas batalhas. 
Seca o frágil arabesco, 
vestígio do musgo humano, 
na densa turfa mortuária. 

Esperarei pelo tempo 
com suas conquistas áridas. 
Esperarei que te seque, 
não na terra, Amor-Perfeito, 
num tempo depois das almas. 


Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'


John Singer Sargent, Rosina Ferrara - Dans les Oliviers, 1878 


"Toda a beleza é alegria que permanece."

John Kreats, in Endymion


John Keats (Londres, 31 de outubro de 1795 - Roma, 23 de fevereiro de 1821) foi um poeta inglês. Foi o último dos poetas românticos do país, e, aos 25, o mais jovem a morrer. Juntamente com Lord Byron e Percy Bysshe Shelley, foi uma das principais figuras da segunda geração do movimento romântico, apesar de sua obra ter começado a ser publicada apenas quatro anos antes de sua morte. Durante sua vida, seus poemas não foram geralmente bem recebidos pelos críticos; sua reputação, no entanto, cresceu à medida que ele exerceu uma influência póstuma significativa em diversos poetas posteriores, como Alfred Tennyson e Wilfred Owen.
A poesia de Keats é caracterizada por um imaginário sensual, mais visível na sua série de odes. Atualmente seus poemas e cartas são consideradas entre as obras mais populares e analisadas na literatura inglesa(Daqui)


Vanessa Carlton - A Thousand Miles

domingo, 11 de setembro de 2011

“Lua Adversa” - Poema de Cecília Meireles


Pintura de Alexander Averin 


Lua Adversa


Tenho fases, como a lua, 
Fases de andar escondida, 
fases de vir para a rua... 
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha! 
Tenho fases de ser tua, 
tenho outras de ser sozinha. 

Fases que vão e que vêm, 
no secreto calendário 
que um astrólogo arbitrário 
inventou para meu uso. 

E roda a melancolia 
seu interminável fuso! 

Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...). 
No dia de alguém ser meu 
não é dia de eu ser sua... 
E, quando chega esse dia, 
o outro desapareceu... 


in 'Vaga Música' 


Pintura de Alexander Averin 


'Beleza é verdade, verdade é beleza' - isto é tudo o que conheceis sobre a Terra,
 e é tudo o que precisais conhecer.

in Ode on a Grecia Urn