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sábado, 9 de agosto de 2025

"Navegações Doentes" - Poema de Ana Luísa Amaral

 

  
Julius LeBlanc Stewart (American artist, 1855–1919), Disappointment:
Portrait of Sarah Bernhardt
(French stage actress, 1844–1923), 1882.


[“Disappointment” is an oil on panel painting by the American realism artist, Julius LeBlanc Stewart, from 1882. Stewart is most known for his artwork depicting the Belle Époque period in Paris, when prosperity, wealth, and peace allowed the arts to flourish.
In this painting, a woman is sitting on a chair at home. An envelope lies open on the floor. A letter is resting on her knees, visible against the fabric of her dress as it makes its way to the floor. In her left hand, she delicately holds a teacup. She looks off to her right, lost in thought. The woman has obviously just received some very disappointing news. 
This is thought to be a portrait of the famous French stage actress, Sarah Bernhardt. Bernhardt was 38 years old at the time and at the height of her fame. She was a muse and model for many artists of her day, including Alfred Stevens, Jules Bastien-Lepage, Georges Clairin, and Alphonse Mucha. Bernhardt became famous during the beginning of the Belle Époque period in the 1870s. She made the transition from stage to early film seamlessly. Sarah Bernhardt was commonly referred to as “the most famous actress the world has ever known”.]
 (daqui)


Navegações Doentes


Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo

os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino

tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos


Ana Luísa Amaral 

(Poetisa portuguesa, tradutora e professora, 1956–2022) 

 

domingo, 9 de julho de 2023

"Para o meu coração num domingo" - Poema de Wisława Szymborska


Georges Clairin (French Orientalist painter and illustrator, 1843–1919),
Portrait of Sarah Bernhardt, 1876, Musée du Petit Palais.



Para o meu coração num domingo
(Muito Divertido - 1967)
 

Te agradeço, coração meu,
por não se queixar, por se afanar
sem elogios, sem recompensa,
num desvio inato.

Você tem setenta méritos por minuto.
Cada contração tua
é como o lançar de uma canoa
no mar aberto
numa viagem ao redor do mundo.
Te agradeço, coração meu,
porque sem cessar
você me retira do todo,
separada até no sonho.

Você cuida para que eu não sonhe demais
com o voo
para o qual não é preciso ter asas.
Te agradeço, coração meu,
por eu ter acordado de novo
e embora seja domingo,
dia de descanso,
sob as costelas
você seguir o ritmo normal da semana.


Wisława Szymborska, in "Para o meu coração num domingo",
Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski
São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2020.


segunda-feira, 15 de maio de 2023

"Atriz" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Louise Abbéma (French painter, sculptor and designer of the Belle Époque, 1853–1927), 
 La dame avec les fleurs, 1883, Oil on canvas, 97.8 x 130.3 cm.
 

 
Atriz
 
 
 A morte emendou a gramática.
Morreram Cacilda Becker.
Não era uma só. Era tantas.
Professorinha pobre de Pirassununga
Cleópatra e Antígona
Maria Stuart
Mary Tyrone
Marta, de Albee
Margarida Gauthier e Alma Winemiller
Hannah Jelkes a solteirona
a velha senhora Clara Zahanassian
adorável Júlia
outras muitas, modernas e futuras
irreveladas.
Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo
e um mendigo esperando infinitamente Godot.
Era principalmente a voz de martelo sensível
martelando e doendo e descascando
a casca podre da vida
para mostrar o miolo de sombra
a verdade de cada um nos mitos cénicos.
Era uma pessoa e era um teatro.
Morrem mil Cacildas em Cacilda.
 
 
 
Cacilda Becker no Rio, em 1941, primeiro ano da carreira. (daqui)
 

Cacilda Becker Yáconis  (Pirassununga, 6 de abril de 1921 – São Paulo, 14 de junho de 1969) foi uma atriz brasileira.
 
Protagonista de vários espetáculos do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e fundadora da companhia que leva seu nome, Cacilda Becker interpreta personagens antagónicos, transitando da farsa à tragédia, do clássico ao moderno. Estende seu papel para a atuação política, enfrentando a censura contra a classe artística do Brasil.

Ainda menina, estuda dança e trabalha para manter a casa. Aos 20 anos, no início da década de 1940, atua no Teatro do Estudante do Brasil (TEB), em 3.200 Metros de Altitude, do dramaturgo francês Julien Luchaire (1876-1962), e em Dias Felizes, do também francês Claude-André Puget (1905-1975). No mesmo ano, une-se à Companhia de Comédias Íntimas, do ator e diretor Raul Roulien (1905-2000), participando de uma série de espetáculos, como Trio em Lá Menor, do dramaturgo Raimundo Magalhães Júnior (1907-1981).

Ingressa no Grupo Universitário de Teatro (GUT) em 1943, e, no ano seguinte, compõe a Companhia de Comédias de Bibi Ferreira (1922-2019). Em 1945, volta ao GUT, onde atua em Farsa de Inês Pereira e do Escudeiro, do dramaturgo português Gil Vicente (1465-1536). Colabora ainda com a companhia Os Comediantes, e transita entre diferentes companhias enquanto exerce outras funções ligadas à interpretação e à escrita na Rádio Tupi e na Rádio América, durante grande parte da década de 1940.

Em 1947, muda-se para o Rio de Janeiro para atuar no filme Luz dos Meus Olhos, dirigido por José Carlos Burle (1910-1983) e filmado pelos estúdios da companhia Atlântida. Nessa produção, Cacilda repete sua forma de atuação do teatro, proporcionando uma interpretação suave e natural a sua personagem Suzana. Volta a São Paulo depois de sua estreia cinematográfica, e, em 1948, é a primeira profissional contratada do TBC, onde permanece até 1955, estando presente em quase todas as montagens do período.

Sua primeira consagração acontece no Teatro das Segundas-Feiras. A peça Pega Fogo (1950), do escritor francês Jules Renard (1864-1910), inicialmente formando um programa triplo ao lado de outros dois textos, torna-se um grande sucesso. Sua interpretação do personagem Poil de Carotte lhe vale uma boa crítica do francês Michel Simon, quando o espetáculo se apresenta no Teatro das Nações, em Paris. O crítico compara Cacilda Becker ao ator britânico Charlie Chaplin (1899-1977) e ao francês Jean Louis Barrault (1910-1994), e, depois de dizer que ela rompe sua pretensa frieza de especialista fazendo-o chorar, procura a origem da emoção no "rosto emaciado" [...]", nos "gestos pletóricos de garoto infeliz e arrogante", e afirma: "Poil de Carotte não pode ter mais, para mim e para muitos outros, de agora em diante, outro rosto senão o seu".

Em 1953, volta ao cinema em Floradas na Serra, do diretor de cinema italiano Luciano Salce (1922-1989), sendo sua atuação natural novamente destaque entre a crítica da época. Em 1955, é antagonista de sua irmã, a também atriz Cleyde Yáconis (1923-2013), em Maria Stuart, do poeta e filósofo alemão Friedrich von Schiller (1759-1805), dirigida pelo polonês Zbigniew Ziembinski (1908-1978).
Na televisão, Cacilda viaja por São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, apresentando peças de Teatro pela TV Cultura, em 1956, e o programa de teleteatro Teatro Cacilda Becker pela TV Record, em 1958.

No mesmo ano, funda o grupo Teatro Cacilda Becker (TCB) ao lado de Cleyde Yáconis, do ator Walmor Chagas (1930-2013), de Ziembinski e do ator e fotógrafo alemão Fredi Kleemann (1927-1954), onde desempenha sua carreira durante 22 anos, com espetáculos como A visita da Velha Senhora (1962), do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990). Em 1965, é premiada com medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT) como melhor atriz do ano pelas peças A Noite do Iguana, do americano Tennessee Williams (1911-1983), e O Preço de um Homem, do francês Steve Passeur (1899-1966).

Em 1968, volta a atuar na televisão, com o Teatro Cacilda Becker, na TV Bandeirantes, mas é demitida no mesmo ano sob a alegação de que suas interpretações são subversivas, efeito da ditadura militar (1964-1985). Neste momento, Cacilda passa a ter um papel militante nas causas da classe artística. A atriz assume a presidência da Comissão Estadual de Teatro de São Paulo, lugar que enfrenta a repressão em defesa dos direitos dos artistas e produtores. Ao lado de Augusto Boal (1931-2009), diretor de Primeira Feira Paulista de Opinião (1968), defende a encenação do espetáculo na íntegra, ignorando os cortes realizados pela censura. Sua convicção faz com que os censores e agentes federais presentes no teatro acatem sua decisão e assistam ao espetáculo.

Durante a apresentação do espetáculo Esperando Godot, que encenava com o marido, Walmor Chagas, na capital paulista, em 6 de maio de 1969, Cacilda sofreu um derrame cerebral e foi levada para o hospital, ainda com as roupas de sua personagem. Morreu após 38 dias de coma e foi sepultada no Cemitério do Araçá, com a presença de uma multidão de admiradores.

Cacilda Becker é considerada uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, sua atuação extrapola os palcos e chega ao rádio e à televisão, transitando entre diferentes modos de fazer e pensar a dramaturgia no Brasil. (daqui)


Louise Abbéma, Sarah Bernhardt hunting with hounds, ca. 1897. Oil on canvas.
 
 
Sarah Bernhardt  foi uma atriz francesa nascida a 23 de outubro de 1844, em Paris, e falecida a 26 de março de 1923, na mesma cidade, vítima de infeção renal. Foi considerada a maior atriz teatral do século XIX. Em 1862, estreou-se na Comédie-Française com Iphigénie e, dois anos depois, surgiu no Ódeon, onde começou a ganhar notoriedade. Representou por diversas vezes Shakespeare, inclusive em papéis masculinos. Entre 1882 e 1895, viajou por todo o mundo, tendo celebrizado a sua personagem Marguerite Gautier de A Dama das Camélias. Embora confidenciasse a amigos e a próximos que abominava cinema, estreou-se nestas lides em 1900, no papel masculino de Hamlet em Le Duel d'Hamlet. Em 1909, por ter detestado a sua atuação em La Tosca, ordenou que queimassem os negativos, o que fez com que o filme não estreasse comercialmente. Contribuiu para a credibilização do cinema mudo com participações em La Dame aux Camélias (1910), Les Amours de la Reine Élisabeth (1912), Camille (1912), Adrienne Lecouvreur (1913) e Jeanne Dore (1915). Em 1915, por complicações metabólicas, viu-se obrigada a amputar uma perna o que motivou o fim da sua carreira teatral. O seu último filme foi La Voyante (1923) com condições de rodagem muito peculiares: como a condição de saúde da atriz não lhe permitia sair do quarto de hotel em que se encontrava hospedada, a equipa de filmagem trouxe o material para o quarto, filmando a atriz em grandes planos sentada ou deitada na cama. Mas uma cólica renal fulminante provocou a morte da atriz, permanecendo assim o filme inacabado. (daqui)

 

Louise Abbéma, A Faithful Companion. Oil on canvas, 64.8 x 48.9 cm.
 
 
 
Belle Époque
 
A Belle Époque foi o período que decorreu na Europa entre 1890 e 1914, ano em que começou a Primeira Guerra Mundial. 
A expressão Belle Époque, contudo, só surgiu depois do conflito armado para designar um período considerado de expansão e progresso, nomeadamente a nível intelectual e artístico. Nesta época surgiram inovações tecnológicas como o telefone, o telégrafo sem fio, o cinema, o automóvel e o avião, que originaram novos modos de vida e de pensamento, com repercussões práticas no quotidiano.

Foi uma fase de grande desenvolvimento na Europa, favorecida pela existência de um longo período de paz. Países como a Alemanha, o Império Austro-Húngaro, a França, a Itália e o Reino Unido aproveitaram para se desenvolver a nível económico e tecnológico. Tratou-se de uma época de otimismo entre a população que passou a ter uma grande crença no futuro. Simultaneamente, os trabalhadores começaram a organizar sindicatos e partidos políticos, nomeadamente os socialistas.

Nas grandes cidades o ambiente mudou radicalmente, o que era visível nas principais avenidas, onde se multiplicavam os cafés, os cabarets, os ateliers, a galerias de arte e as salas de concertos, espaços frequentados pela média burguesia, que tinha cada vez mais posses. O núcleo da Belle Époque era Paris, na altura o centro cultural do mundo. 
 
Durante a Belle Époque surgiram três correntes artísticas a nível da pintura, o fauvismo (Matisse foi o seu maior representante), o cubismo (onde se destacou Picasso) e o impressionismo (com Claude Monet como iniciador). 
A nível literário a época ficou marcada pelo surgimento de novos géneros, como os romances policiais e de ficção científica, onde se destacaram os heróis solitários, como Arsène Lupin ou Fantômas, que se mascaravam e usavam armas modernas e inovadoras. 
Houve também grandes progressos a nível da química, da eletrónica e da siderurgia, assim como da medicina e da higiene, o que permitiu fazer baixar as taxas de mortalidade. 
 
Uma das formas encontradas para celebrar todos estes progressos, foi a organização da Exposição Universal de Paris, que teve lugar em 1900, nos Campos Elísios e nas margens do rio Sena.
A Belle Époque terminou com o eclodir da Primeira Guerra Mundial, nomeadamente porque as notáveis invenções daquele período passaram a ser utilizadas como tecnologia de armamento. (daqui)