Mostrar mensagens com a etiqueta Felix Nussbaum. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Felix Nussbaum. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de maio de 2025

"Poema à boca fechada" - José Saramago



Felix Nussbaum
(German-Jewish surrealist painter, 1904–1944),
 "The Refugee", 1939, Yad Vashem Art Collection. 

 

 Poema à boca fechada 


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago, in Os Poemas Possíveis, 1966.
  Editorial Caminho, Lisboa, 1981 (3ª edição). 

 

segunda-feira, 28 de abril de 2025

"Exatidão" - Poema de Jorge de Sena

 


Felix Nussbaum (German-Jewish surrealist painter, 1904–1944), 'Le secret', 1939.
 

Exatidão 
 

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá:
sentido do não-vivido
a que fica reduzido
o que, escolhido, não há.

Do imo do poder ser,
onde o não-sido se arrasta,
ouvi cadências crescer:
vaga música de ter,
na vida, quanto não basta -

quanto um sentido se entenda,
que nem verdade ou mentira.
(Que o que dele se aprenda
é como cobarde venda
para que a luz nos não fira.

Luz sem luz, brilho da treva
que tudo no fundo é;
e a certeza que se eleva
do fundo da própria treva,
de exata que seja, é.)

Levam justiça consigo
as palavras que dissermos.
Por quanto sentido antigo,
nelas ficou por castigo
o futuro que tivermos.

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá.
É justo, injusto - o escolhido?
Como quereis que, vivido,
ele não seja o que será? 


Jorge de Sena
, in 'Post-Scriptum'
 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"A Guerra" - Poema de David Mourão-Ferreira



Pieter Brueghel, o Velho (1525-1569), "A Triumph of Death", c. 1562, Museo del Prado, Madrid.


A Guerra


E tropeçavam todos nalgum vulto, 
quantos iam, febris, para morrer: 
era o passado, o seu passado — um vulto 
de esfinge ou de mulher. 

Caíam como heróis os que não o eram, 
pesados de infortúnio e solidão. 
(Arma secreta em cada coração: 
a tortura de tudo o que perderam.) 

Inimigos não tinham a não ser 
aquela nostalgia que era deles. 
Mas lutavam!, sonâmbulos, imbeles, 
só na esperança de ver, de ver e ter 
de novo aquele vulto 
— imponderável e oculto — 
de esfinge, ou de mulher. 


David Mourão-Ferreira,
in "Tempestade de Verão" 
 


Felix Nussbaum, "Triumph des Todes" (Die Gerippe spielen zum Tanz), 1944. 


"A História é um pesadelo do qual tentamos acordar."


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"O Inimigo" - Poema de Charles Baudelaire




O Inimigo


A mocidade foi-me um temporal bem triste, 
Onde raro brilhou a luz d'um claro dia; 
Tanta chuva caiu, que quase não existe 
Uma flor no jardim da minha fantasia. 

E agora, que alcancei o outono, alquebrantado, 
Que paciente labor não preciso — ai de mim! — 
Se quiser renovar o terreno encharcado, 
Cheio de boqueirões, que é hoje o meu jardim! 

E quem sabe se as flores ideais que ora cobiço 
Iriam encontrar no chão alagadiço 
O preciso alimento ao seu desabrochar? 

Corre o tempo veloz, num galope desfeito, 
E a Dor, a ingente Dor, que nos corrói o peito, 
Com nosso próprio sangue, a crescer, a medrar! 


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 
Tradução de Delfim Guimarães


Felix Nussbaum, 'Self-portrait', 1940


Felix Nussbaum (11 de Dezembro de 1904, Osnabrück - 2 de Agosto de 1944, Auschwitz) foi um pintor alemão de origem judaica, com várias obras que ilustram os horrores do Holocausto, do qual ele foi vítima. 
 
Estudou em Hamburgo e Berlim, arte, livre e aplicada (freie und angewandte Kunst). Nos anos 1920 e 30 as suas exposições em Berlim tiveram grande sucesso. Com a chegada ao poder dos Nazis em 1933, foi obrigado a viver no exílio, em Itália, França e finalmente na Bélgica (Bruxelas) com a sua mulher, a polaca Felka Platek, com quem casou em 1937. 
 
Com a ocupação pelos alemães e o regime de Vichy, foi internado num campo de concentração em França. Conseguiu no entanto fugir com a sua mulher e esconder-se na casa de um amigo, também um artista, em Bruxelas. Foi traído e denunciado em Junho de 1944 e imediatamente preso, juntamente com a sua mulher. Foi levado para campo de concentração de Malines (ou Mecheln) de onde foi levado para Auschwitz, onde foi assassinado em 2 de Agosto de 1944, presumivelmente com a sua mulher.
 
Em 1998 foi inaugurado em Osnabrueck o Museu Felix-Nussbaum (Felix-Nussbaum-Haus), no qual está exposta a totalidade das suas obras, mais de 160 quadros. Os planos do edifício couberam ao famoso arquitecto Daniel Libeskind.


Felix Nussbaum, 'Self-portrait with Jewish Identity Card', 1943


"Nada, na História, serve para ensinar aos Homens a possibilidade de viverem em paz.
 É o ensino oposto que dela se destaca - e se faz acreditar."


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"Traduzir-se" - Poema de Ferreira Gullar


Felix Nussbaum (German-Jewish surrealist painter, 1904-1944),
  'Portrait of an Unidentified Man', 1941 
 

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém,
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte delira

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte se espanta

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


in 'Na vertigem do dia', 1980


Ferreira Gullar, pseudónimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, 10 de setembro de 1930) é um poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo. 
Neoconcretismo foi um movimento artístico surgido no Rio de Janeiro, Brasil, em fins da década de 1950, como reação ao concretismo  ortodoxo.


Felix Nussbaum, 'Self-Portrait in Front of the Easel', 1943,
Jewish Museum, Paris, France



"Verdadeiramente bom só é o homem que nunca censura os outros pelos males que lhe acontecem." 

(Paul Valéry)
 

sábado, 24 de setembro de 2011

"Nem Sempre sou Igual" - Poema de Alberto Caeiro



Felix Nussbaum (German-Jewish surrealist painter, 1904–1944),
'Tríade', 1944


Nem sempre sou igual no que digo e escrevo

 
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cores da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés –
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...


Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXIX”
Heterónimo de Fernando Pessoa.


Genesis - In Too Deep


 
"Coloca a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; não te alies aos moralmente inferiores;
 não receies corrigir teus erros." 

Confúcio

[Pensador, professor e filósofo chinês, 551 a.C. – 479 a.C.]