quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"Traduzir-se" - Poema de Ferreira Gullar


Felix Nussbaum (German-Jewish surrealist painter, 19041944),
  'Portrait of an Unidentified Man', 1941 
 

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém,
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte delira

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte se espanta

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


in 'Na vertigem do dia', 1980

[Ferreira Gullar, pseudónimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, 10 de setembro de 1930) é um poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo. 
Neoconcretismo foi um movimento artístico surgido no Rio de Janeiro, Brasil, em fins da década de 1950, como reação ao concretismo  ortodoxo.]


Felix Nussbaum, 'Self-Portrait in Front of the Easel', 1943,
Jewish Museum, Paris, France



"Verdadeiramente bom só é o homem que nunca censura os outros pelos males que lhe acontecem." 

[Filósofo, escritor e poeta francês, 1871–1945]
 

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