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domingo, 12 de janeiro de 2025

"Verso e Anverso" - Poema de Rui Knopfli



Nú Barreto
(Fotógrafo, pintor, ilustrador e aguarelista guineense, n. 1966),
 Estilhaços, 2015.


Verso e Anverso
 
 
Diria palavras altas como amor,
palavras lentas como ternura,
ou duráveis como amizade.

Desceu um véu de luto sobre o amarelo
esmaecido da savana, lá onde dormem
os corpos mutilados e onde cresta,
rente à terra, o sangue derramado.

Baixou sobre a serenidade das coisas
um sono obscuro e terrível.
Poluiu o teu sorriso, o meu desejo;
intercala os gestos e as vozes ciciadas.

Cerramos os olhos para a penumbra
donde brotam, nítidas, as imagens:
Há uma criança no fogo,
o pavor de um soluço estrangulado,
fulgurantes, rápidas chamas.

Direi palavras insuportáveis como morte.


Rui Knopfli, in "Memória Consentida:
20 anos de poesia 1959-1979"
, 1982.

 
Nú Barreto, Verrmelho (daqui)
 

"A arte é uma interpretação de sentimentos visionários com vocações perturbadoras das emoções" 
 
 Nú Barreto (daqui)
 
 
Nú Barreto (daqui)
 
O artista plástico Manuel Jerónimo Barreto da Costa Oliveira, conhecido como Nú Barreto, nasceu no ano 1966 em São Domingos, norte da Guiné-Bissau, país da Costa ocidental africana. Aos 21 anos parte para Paris, onde reside e trabalha. Considerado uma das principais figuras da senda africana contemporânea, suas obras constam de diversas coleções privadas e museus e já foi exibida em diversas exposições, individuais ou coletivas, mundo afora. Artista multidisciplinar apresenta sua arte de forma híbrida, combinado os mais diversos materiais e técnicas das diversas linguagens: desenho, fotografia, pintura e vídeo. Ele incorpora em sua estética a formas, símbolos e arquétipos das cores e motivos, com forte significado para denunciar a desumanização, a desvalorização do indivíduo, a miséria e o sofrimento que assola, não somente o continente africano, o mundo. (daqui)
 

terça-feira, 12 de maio de 2020

"Nossa irmã Lua" - Poema de Noémia de Sousa


Kadir Nelson, Illustration from "Heart and soul: Portraits of black American history." BBC (Ver 3:45)



Nossa irmã Lua


Não, não nos digam que a lua
não é nossa irmã.
Uma irmãzinha meiga que nos cubra
a todos com a quentura terna e gostosa
do seu carinho...
Que entorne toda a sua claridade
sobre as nossas tristes cabeças vergadas
e, como um feitiço forte e misterioso,
nos afugente as raivas fundas e dolorosas
de revoltados,
com a sua morna carícia de veludo...
Sua enorme mão,
luminosamente branca, consegue-nos tudo.
E sob o seu feitiço potente, serenamos.
E pouco a pouco, momento a momento,
sossegando vamos...
Fechando nossos olhos pacientes de esperar,
já podemos vogar no mar
parado dos nossos sonhos cansados...
E até podemos cantar!
Até podemos cantar o nosso lamento...
De olhos para dentro, para dentro de nós,
sentimo-nos novamente humanos,
somos nós novamente,
e não brutos e cegos animais aguilhoados...
Sim. Nós cantamos amorosamente
a lua amiga que é nossa irmã.
– Embora nos repitam que não,
nós o sentimos fundo no coração...
(que bem vemos
que no seu largo rosto de leite há sorrisos brandos de doçura
para nós, seus irmãos...)
Só não compreendemos
como é que, sendo tão branca a nossa irmã,
nos possa ser tão completamente crista,
se nós somos tão negros, tão negros,
como a noite mais solitária e mais desoladamente escura...


Noémia de Sousa


Poetisa Noémia de Sousa e tela do artista plástico e poeta moçambicano Malangatana 


Escritora moçambicana, Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares nasceu a 20 de setembro de 1926, em Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique, e faleceu a 4 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal. Poetisa que, numa espécie de postura predestinada, desembaraçando-se das normas tradicionais europeias, de 1949 a 1952 escreve dezenas de poemas, estando muitos deles dispersos pela imprensa moçambicana e estrangeira.

Com apenas 22 anos de idade, surge na senda literária moçambicana num impulso encantatório, gritando o seu verbo impetuoso, objetivo e generoso, vincado (bem fundo) na alma do seu povo, da sua cultura, da sua consciência social, revelando um talento invulgar e uma coragem impressionante. Mestiça, revela ser marcada por uma profunda experiência, em grande parte por via dessa mesma circunstância.

A sua poesia, desde logo, se mostrou "cheia" da "certeza radiosa" de uma esperança, a esperança dos humilhados, que é sempre a da sua libertação. Toda a sua produção é marcada pela presença constante das raízes profundamente africanas, abrindo os caminhos da exaltação da Mãe-África, da glorificação dos valores africanos, do protesto e da denúncia. Poesia de forte impacto social, acusatória, a sua linguagem recorre estilisticamente à ressonância verbal, ao encadeamento de significantes sonoros ásperos, à utilização de palavras que transportam o "grito inchado" de esperança.

Noémia de Sousa, como autêntica pioneira da Literatura Moçambicana (como assim sempre foi considerada) preconiza - no seu percurso literário - a revolução como único meio de modificar as estruturas sociais que assolam a terra moçambicana.
Sempre, e desde muito cedo, pretendeu que o seu povo avançasse uno, em coletivo, em direção a um futuro que alterasse os eixos em que se fundamentava a atitude do homem, mas sem nunca fazer a apologia da desumanização. Afirmava-se, acima de tudo, africana e apostava fortemente na divulgação dos valores culturais moçambicanos.

As propostas essenciais da sua expressão literária vão do desencanto quotidiano, de uma certa amargura, de uma certa raiva, até ao grito dorido, até ao orgulho racial, até ao protesto altivo que contém a pulsão danada contra cinco séculos de humilhação.

A grande base do texto de Noémia de Sousa está centrada na eterna dicotomia "nós/outros" - "nós", os perfeitamente africanos; os "outros", as gentes estranhas, os que chegaram a África, os colonizadores. Assim, estes são, sem dúvida, os dois grandes temas da poesia de Noémia de Sousa: se por um lado temos a contínua denúncia da total incompreensão por parte do colonizador, que apenas capta a superficialidade dos rituais, não compreendendo o âmago de África, demonstrando, desta forma, uma visão plenamente distorcida, por outro lado lança-nos em poemas de elogio aberto à raça negra, gritando bem alto e de forma plenamente percetível que a presença do colonizador em África é sinónimo de força que apenas veio denegrir a imagem daquela terra.

Noémia de Sousa fala do orgulho de pertencer a África por parte dos africanos. E por esse mesmo motivo vem afirmar que terão obrigatoriamente de ser os filhos a cantar essa sua mãe-terra (que tanto amam e sentem) - e cantar África tinha forçosamente que ser entendido por oposição à maneira de cantar do colonizador.

Nos seus poemas, o "eu" de Noémia de Sousa é entendido como um "coletivo", um povo inteiro que quer ter palavra - o povo moçambicano. Desta forma, a poetiza assume-se como porta-voz daquele povo que é o seu e, dirigindo-se à terra-mãe que os acolhe e protege, ora canta a sua vida, ora lhe pede perdão pela alienação demonstrada ao longo de tanto tempo, ora (mesmo) lhe promete a rápida e definitiva devolução do seu direito a uma vida própria, autêntica.

Apesar de breve, porém prolífera, passagem de Noémia de Sousa pelo panorama da literatura moçambicana, a qualidade dos seus textos não deixou, jamais, de ser reconhecida e admirada. Apesar de a escritora ter afirmado sempre que não valia a pena reunir os seus poemas num livro, foi lançada em 2001 uma coletânea da sua obra, intitulada Sangue Negro, em homenagem ao seu 75.º aniversário. (daqui)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

"O Meu Preço" - Poema de José Craveirinha


Gerard Sekoto (South Africa, 1913-1993), Yellow Houses, District Six, 1942


O Meu Preço


Eu cidadão anónimo
do País que mais amo sem dizer o nome
se é para me dar de corpo e alma
dou-me todo como daquela vez em Chaimite.
Dou-me em troca de mil crianças felizes
nenhum velho a pedir esmola
uma escola em cada bairro
salário justo nas oficinas
filas de camiões carregados de hortaliças
um exército de operários todos com serviço
um tesouro de belas raparigas maravilhando as praias
e ao vento da minha terra uma grande bandeira sem quinas.
Se é para me dar
dou-me de graça por conta disso.
Mas se é para me vender
vendo-me mas vendo-me muito caro.
Ao preço incondicional
de quanto me pode custar este poema.



 
Gerard Sekoto, Outside the Shop (Social Realism)