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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

"Retrato" - Poema de Almeida Garrett



Alexander Roslin (Swedish painter, 1718-1793),
Double portrait of Roslin and his wife, 1767.



Retrato
(Num Álbum)



Ah! despreza o meu retrato
Que lhe eu queria aqui pôr!
Tem medo que lhe desfeie
O seu livro de primor? 
Pois saiba que por despique
Eu sei também ser pintor:
Com esta pena por pincel,
E a tinta do meu tinteiro,
Vou fazer o seu retrato
Aqui já de corpo inteiro.

Vamos a isto. – Sentada
Na cadeira moyen-âge,
O cabelo en châtelaines,
As mangas soltas. – É o traje.

Em longas pregas negras
Caía o veludo e arraste;
De si com desdém régio
Com o pezinho o afaste...

Nessa atitude! Está bem:
Agora mais um jeitinho;
A airosa cabeça a um lado
E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes,
Nem Daguerre lhos tira melhor.
Este é o ar, esta a pose, eu lho juro,
E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difícil:
Tirar feição por feição;
Entendê-las, que é o ponto,
E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são cor da noite,
Da noite em seu começar,
Quando inda é jovem, incerta,
E o dia vem de acabar;

Têm uma luz que vai longe,
Que faz gosto de queimar:
É uma espécie de lume
Que serve só de abrasar.

Na boca há um sorriso amável.
Amável é... mas queria
Saber se é todo bondade
Ou se meio é zombaria.

Ninguém mo diz? O retrato
Incompleto ficará,
Que nestas duas feições
Todo o ser, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho
É tudo o que nele fiz;
E o que lhe falta – que é muito,
Também o espelho o não diz.
 
 
Alexander Roslin (Swedish painter, 1718-1793), A portrait of Roslin's wife,
 Marie-Suzanne Giroust-Roslin, 1770.


"É instrutivo ver os vários retratos que fazem de nós pela vida fora. Com traços lisonjeiros ou desagradáveis, entram-nos sempre pelos olhos dentro como estranhos, a perturbar uma paz que tinha um rosto habitual, familiar, a que estávamos acostumados. À imagem tranquila, sobrepõem-se outras inquietantes que não servem no cartão de identidade, e, contudo, nos identificam publicamente mais até do que a que nele figura. É que não se trata de neutras fotografias. São perfis apaixonados, justos ou injustos, com as virtudes e os defeitos cruamente patenteados. Quem um dia nos lembrar, é por eles que nos lembra. Somos o que nós sabemos, e parecemos o que os outros dizem de nós."

Miguel Torga, Diário XV

domingo, 8 de janeiro de 2017

"Retrato" - Poema de Jerónimo Baía


Alexander Roslin (Swedish, 1718-1793), The artist Anne Vallayer-Coster, 1783



Retrato


Pintar o rosto de Márcia 
Com tal primor determino, 
Que seja logo seu rosto 
Pela pinta conhecido. 

Anda doido de prazer 
Seu cabelo por tão lindo, 
Pois mal lhe vai uma onda, 
Quando outra já lhe tem vindo.
Sua testa com seus arcos 
Do Turco Império castigo 
Vencido tem Solimão, 
Meias Luas tem vencido. 

Dormidos seus olhos são, 
Porém Planetas tão ricos 
Nunca já foram sonhados, 
Bem que sempre são dormidos. 

A dormir creio se lançam 
Por ter de mortais, e vivos 
Tão boa fama cobrado, 
Nome tão grande adquirido. 

Entre seus raios se mostra 
O grande nariz bornido, 
Por final que entre seus raios 
Prova o nariz de aquilino. 

Nas taças de suas faces 
Feitas do metal mais limpo, 
Como certos Reverendos, 
Mistura o branco com o tinto. 

As perlas dos dentes alvos, 
Os rubins dos beiços finos 
Tem desdentado o marfim, 
E a cor mais viva comido.
O passadiço da voz 
Nem é neve, nem é vidro, 
Nem mármore, nem marfim, 
Nem cristal, mas passadiço. 

Na maior força de Julho 
Creio que treme de frio, 
Pois tem como neve as mãos 
E os pés como neve frios. 

Que nelas há dois contrários 
Os meus olhos mo têm dito, 
Pois sendo uma fermosura 
São mais pequenas que os chispos. 

No maior rigor do Inverno, 
Na maior calma de Estio, 
Nem tem frio, nem tem calma, 
Nem tem calma, nem tem frio. 

Porque de Inverno, e Verão 
Sempre Primavera há sido, 
Pois sempre veste de Abril, 
E de Maio traz vestido. 

Este é de Márcia o retrato, 
E dirá quem o tem visto, 
Que com ela o seu retrato 
Se parece todo escrito. 

Mas se em coisa alguma erro 
Das que até aqui tenho dito, 
À vista do tal retrato 
Me retrato, e me desdigo. 


Jerónimo Baía
(c. 1620/30-1688)
in 'Fénix'