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terça-feira, 15 de setembro de 2020

"A Cerimónia" - Poema de Ana Luísa Amaral



George RomneyThe children of Granville Leveson-Gower, 1st Marquess of Stafford,
(Lady Susanna Stewart, Marchioness of Stafford and her four children), 1776–7,

Abbot Hall Art Gallery, Kendal.



A Cerimónia


Sagrei-os, aos meus filhos.
Fiz o que era esperado de mim,
mas a minha lembrança era do avesso,
para o futuro,
e estava toda nas rosas
que o tempo haveria de trazer,
em forma das guerras do meu país.
Dessas guerras me lembro,
mas nunca cheguei a ver a guerra
que a ambição e os sonhos lhes doaram.

Sagrei-os na minha mente,
antecipando o gesto de outra
que teria o meu nome.

Nesse dia, de manhã cedo,
era ainda escuro, e no quarto,
mesmo descerradas as cortinas,
quase não entrava a luz.
As aias ajudaram-me a vestir, e eu,
como sempre acontecia depois de acordar
e enquanto não chegavam as horas do dever,
lembrei-me do meu pai, do meu país,
dos seus campos muito verdes atravessados
por rebanhos, da chuva do meu país,
tão contínua como as minhas saudades.
Quando acabei as recordações
e o choro de silêncio,
chamei-os na minha mente.

A todos ofereci prendas.
Ao primeiro dei um ceptro
enfeitado de papel e de palavras,
ao segundo, uma espada
de aço brilhante,
ao terceiro, o gosto pelo mundo,
e ao último contei-lhe o caminho de
água verde e espuma alta
por onde eu tinha chegado;
mostrei-lhe o mar,
ao longo das muitas tardes
em que eu própria sonhava
com as margens que havia deixado
para trás.

Se pudesse sentar-me novamente
junto àquela janela,
a espada brilhante que dei a esse meu segundo filho
tê-la-ia transformado em arado,
ou em pequena lamparina,
porque, ao dar-lhe a espada,
dei-lhe também o resto de matar e de morrer.

Antes lhe tivesse dito vezes sem conta como é belo o mundo
e poder falar dentro dele.
Ou antes lhe tivesse mostrado só o mar,
como fiz com esse filho
junto de quem me cansava
das saudades da minha terra.

Uma prenda, porém, me é boa na memória:
a do papel e das palavras. Dispensaria o ceptro,
mas era ele que segurava palavras e papel.
Dessa prenda não me arrependo,
e quase me regozijo um pouco
por aquilo que fiz nessa manhã fria e escura
em que os chamei aos quatro
para junto da minha mente
e do meu coração.
Mas o que fizeram de mim,
naquele dia há tantos anos, quando, quase menina,
me ajudaram a subir para o bote
e depois para o navio
que me haveria de levar a uma terra que eu não conhecia,
a uma língua que não era a minha língua?

Onde ficaram as minhas tardes molhadas de chuva?
E a memória que de mim ficou,
porque não fala ela dos meus campos verdes
e das sombras dos rebanhos que os atravessavam?
Porque me nega essa memória
as rosas que, em futuro,
e ditas como guerra,
haveriam de dizimar tanta da minha gente?

Por que outra noite trocaram
o meu escuro? 


Ana Luísa Amaral,

Vozes, Dom Quixote, 2011



George Romney Self-portrait, 1784


"Sabedoria é viver conforme o dia."

(Provérbio)

terça-feira, 25 de agosto de 2020

"Madalena" - Poema de António Gomes Leal


George Romney, A Madalena (Lady Hamilton as The Magdalene), c. 1790



Madalena


Descai o sol nos olivais do monte.
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Um rouxinol suspira num loureiro.
- É nessa hora do ocaso, meiga e terna,
Em que o sol busca o mar como um boieiro
que vem beber à boca da cisterna.

Passam Jesus e os seus. - Sião, Ramá
as nostálgicas filhas de David
dizem, na sombra, baixo: «Quem será
este suave e místico Rabi?»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Da Galileia ao Monte de Carmelo,
as judias, da sombra no mistério,
dizem, baixo: «Que príncipe tão belo
parece ser este Rabi tão sério!»

- Ele é mais louro do que um Sol levante,
mais meigo e casto que a mansa ave!
Ele é mais belo que um rei distante!
- «Quem será pois este Rabi suave?»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Madalena em Betânia, desatando
seu cabelo, qual fúlgido lençol,
limpa os pés do Rabi, humilde, olhando
seus olhos cheios de domínio e Sol.

Lança-lhe aos pés um bálsamo correndo,
que Judas diz: do desperdício o cúmulo.
- Mas o Rabi suave vai dizendo:
«Triste mulher! Ungiu-me para o túmulo!»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

O lavrador, na tarde sossegada,
dos mistérios cismando sobre a origem,
vai andando e dizendo, sob a enxada:
- «Quem será o Rabi pálido e virgem?»

O pescador trigueiro das baías,
deitando a rede diz olhando o rio:
- «Quando virá o lúcido Messias?
- Quem é este Rabi louro e sombrio?»

O discípulo e apóstolo, cavado
dos jejuns, a cismar sobre a doutrina,
vai andando e dizendo: - «o Céu calado
pode criar a encarnação divina?...»

Pode o verbo ser carne? O Todo e o tudo
tornar-se a Parte? um ramo de David!
Ó Céu largo, ó Céu triste, belo e mudo!
Quem é pois, quem é pois, nosso Rabi?»

- Mas Madalena, num amargo choro,
limpa os pés do Rabi, cheia d'amor,
com seus longos cabelos feitos de ouro,
e, baixinho, soluça: - «É meu senhor!»

O Sol morreu nos olivais do Monte.
Rompe o virgem luar. - Às largas eiras
vão-se indo as filhas de Jacob, da fonte,
com seu rítmico andar entre as palmeiras.

1913 

António Gomes Leal (1848-1921)
In Gomes Leal - História de Jesus, José Carlos Seabra Pereira
(ed,), Assírio & Alvim, Lisboa: 1998 (2ª.), pp.96-98