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sábado, 15 de abril de 2017

"O Pai" - Poema de Pablo Neruda


Luděk Marold (1865-1898), Man sitting on a divan, c. 1898



O Pai


Terra de semente inculta e bravia, 
terra onde não há esteiros ou caminhos, 
sob o sol minha vida se alonga e estremece. 

Pai, nada podem teus olhos doces, 
como nada puderam as estrelas 
que me abrasam os olhos e as faces. 

Escureceu-me a vista o mal de amor 
e na doce fonte do meu sonho 
outra fonte tremida se reflete. 

Depois... Pergunta a Deus porque me deram 
o que me deram e porque depois 
conheci a solidão do céu e da terra. 

Olha, minha juventude foi um puro 
botão que ficou por rebentar e perde 
a sua doçura de seiva e de sangue. 

O sol que cai e cai eternamente 
cansou-se de a beijar... E o outono. 
Pai, nada podem teus olhos doces. 

Escutarei de noite as tuas palavras: 
... menino, meu menino... 

E na noite imensa 
com as feridas de ambos seguirei.


Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"O teu amor, bem sei" - Poema de António Franco Alexandre


Luděk Marold (Czech, 1865-1898), A kiss under the parasol



O teu amor, bem sei


o teu amor, bem sei, é uma palavra musical, 
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância, 
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos; 
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais, 
surpreende o vigor, a plenitude 
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço, 
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos, 
e o circuito das chamas recomeça. 

é um país subtil, o olho franco das mulheres, 
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento, 
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro, 
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas, 
viajar de navio de buenos aires a montevideu. 
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos 
na minuciosa tarde dos lábios, 
ágil pobreza. 

permanentemente floresce o horizonte em colinas, 
os animais olham por dentro, cheios de vazio, 
como um ladrão de pouca perícia a luz 
desfaz devagarmente os corpos. 
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida, 
para que seja 
alto e altivo o coração da coisas? até quando aguardarei, 
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse? 


in 'As Moradas 1 & 2', Lisboa: Assírio & Alvim.



David Teniers III (1638-1685), São Valentim a receber o Santo Rosário 



São Valentim


São Valentim é um santo reconhecido pela Igreja Católica e pelas Igrejas Orientais que dá nome ao "Dia dos Namorados" em muitos países, onde o celebram como "Dia de São Valentim". O nome refere-se a pelo menos três santos martirizados na Roma antiga.
O imperador Cláudio II, durante seu governo, proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objetivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio acreditava que os jovens, que não tivessem família, ou esposa, iam alistar-se com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentim e as cerimonias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega, Artérias, filha do carcereiro, a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram apaixonando-se e, milagrosamente, a jovem recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim foi decapitado em 14 de fevereiro de 270.
Entretanto, desde 1969 sua data não é mais celebrada oficialmente pela Igreja Católica em função da precariedade de comprovações históricas que levam em questão até mesmo a sua existência. (Daqui)



Cartão comemorativo do "Dia de São Valentim"
publicado em 1883 nos Estados Unidos.



Dia dos Namorados


O "Dia dos Namorados", em alguns países chamado "Dia de São Valentim" é uma data especial e comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais e namorados, em alguns lugares é o dia de demonstrar afeição entre amigos. Sendo comum a troca de cartões e presentes com simbolo de coração, tais como as tradicionais caixas de bombons. 
Em Portugal e em Angola, assim como em muitos outros países, comemora-se no dia 14 de fevereiro
No Brasil a data é comemorada no dia 12 de junho, véspera do dia de Santo António de Lisboa, conhecido pela fama de "Santo Casamenteiro". (Daqui)


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Canção de Batalha" - Poema de Guerra Junqueiro


Luděk Marold (Czech, 1865-1898), The Cabdriver, 1891
 


Canção de Batalha 


Que durmam, muito embora, os pálidos amantes,
Que andaram contemplando a Lua branca e fria...
Levantai-vos, heróis, e despertai, gigantes!
Já canta pelo azul sereno a cotovia 
E já rasga o arado as terras fumegantes...

Entra-nos pelo peito em borbotões joviais
Este sangue de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que somos nós? Ferreiros d'arsenais;
É bater, é bater com alma na bigorna
As estrofes de bronze, as lanças e os punhais!

Acendei a fornalha enorme – a Inspiração.
Dai-lhe lenha, – a Verdade, a Justiça, o Direito
E harmonia e pureza, e febre e indignação;
E p'ra que a lavareda irrompa, abri o peito
E atirai ao braseiro, ardendo, o coração!

Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio; embora!
O poeta é como o sol: o fogo que ele encerra
É quem espalha a luz nessa amplidão sonora...
Queimemo-nos a nós, iluminando a terra!
Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!" 


in 'Poesias Dispersas'


Luděk Marold (Czech, 1865-1898), Egg Market in Prague, 1888 


"O homem que busca a fama, a riqueza e casos amorosos é como uma criança que lambe mel na lâmina de uma faca. Ao lamber e provar a doçura do mel, a criança corre o risco de ter a língua ferida. É como o tolo que carrega uma tocha contra o vento forte; corre o risco de ter o rosto e as mãos queimados." - Sidarta Gautama