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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"Que se passa?" - Poema de João Camilo



Joseph Lorusso (American painter, b. 1966), 'Sunday Afternoon'


Que se passa?


Claro que não, de maneira nenhuma.
Estava sentada ao meu lado, o desejo
agitava-lhe o ventre, ela semicerrava
os olhos. De maneira nenhuma, assim não,
ainda não. Debrucei-me sobre o seu rosto
e beijei-a. Pousei a cabeça no seu peito
e esperei pelas suas mãos. Continuava,
lento, a ir devagar ao encontro do desejo.
Não tinha pressa. Ela apertava-me
contra si silenciosamente, parecia
dormir e repousava o seu corpo como
se a morte ou uma hibernação o tivessem
ocupado. A televisão passava um filme
de John Ford. Ela ergueu-se subitamente,
afastou-me. Que se passa, perguntei-lhe,
surpreendido. Nada, respondeu ela, mas não é
o filme de John Ford que acaba de começar?
Não o quero perder. De acordo, pensei eu.
Levantei-me, fui sentar-me na cadeira do outro
lado da sala. Acendi um cigarro. Lá fora
caíra a noite há muito tempo. Mas quem
tinha vontade de pensar no que se passava
lá fora? Um filme de John Ford, repeti em voz
baixa. Apaguei o cigarro e concentrei-me
na aventura irreal, nas cores magníficas do deserto.


João Camilo,
in 'Nunca Mais se Apagam as Imagens', de 1996.



Joseph Lorusso (American painter, b. 1966)
 

"Existe algo mais importante que a lógica: a imaginação. 
Se a ideia é boa, atire a lógica pela janela."

(Alfred Hitchcock)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

"À Flor da Pele" - Poema de João Camilo



Joseph Lorusso (American painter, b. 1966), 'Dreamy Eyes'


À Flor da Pele


Acende o cigarro, rapariga. E olha para a
rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte. 


João Camilo,
in Revista 'Inimigo Rumor', nº 13, 2002. 
Editora 7 Letras, Rio de Janeiro
 


João Camilo dos Santos (daqui)
 

Poeta e ensaísta, de nome completo João Camilo dos Santos, nasceu em 1943. É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e doutorado pela Université de Haute Bretagne, com uma tese sobre a arte do romance em Carlos de Oliveira. 
Leitor de Português nas universidades de Oslo, Rennes, Aix-en-Provence e professor convidado na Universidade de Grenoble, é atualmente professor catedrático de Português da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, onde dirige um Centro de Estudos Portugueses.
A sua poesia fixa com discreta ironia pequenas micronarrativas e imagens do quotidiano, não hesitando em converter em tema e linguagem poética motivos comuns. (daqui)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

"Teus Olhos" - Poema de Florbela Espanca



Joseph Lorusso (American painter, b. 1966), 'Kisses in the Rain'


Teus Olhos


Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...

Berço vindo do Céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...
 

Florbela Espanca,
in 'Charneca em Flor', 1931,
Coimbra: Livraria Gonçalves.



Joseph Lorusso (American painter, b. 1966), 'Smitten'



"Quanto mais forte é um caráter, menos sujeito está à inconstância."

(Stendhal)

[Marie Henri Beyle, (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 - Paris, 23 de março de 1842), mais conhecido como Stendhal, foi um novelista e escritor francês. Seu estilo, ao contrário do excesso de ornamentos, valorizava o perfil psicológico dos personagens, a interpretação de seus atos, sentimentos e paixões.]

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"No Balcão" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Joseph Lorusso (American painter, b. 1966)


No Balcão


 
O cafezinho está mais caro?
Sabe melhor o cafezinho?
De diâmetro aumentou a xícara?
A colherzinha não é mais de prata
(se algum dia foi), e um sorriso
de boas-vindas nos acolhe
sob os bigodes do gerente?
É mais café o cafezinho,
mais quente, inspira mais piadas
a seus costumeiros clientes?
Tem um pó mais fino, o adoçante
não mata mais que o ciclamato,
e há no açúcar um princípio
de tornar o dia contente
quando o céu da boca relembra
o cafezinho em pé tomado?
O cafezinho contém mesmo
café do bom, que a velha casa
de nosso avô servia a todos,
e repetiam todos, uai?
Não. Simplesmente, meus amigos,
o cafezinho está mais caro.


Carlos Drummond de Andrade
, de 'Lira Pedestre';
in 'Amar se aprende amando', 1985 


Céline Dion - A New Day Has Come