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sexta-feira, 23 de março de 2018

"Riso e pranto" - Poema de Augusto de Lima


Albert Edelfelt, Sorrow, 1894



Riso e pranto


Duas frações o grande todo humano
encerra: uma que ri, outra que chora.
Dúplice monstro, contrastando Jano,
tem numa face - a noite e noutra - a aurora.

Mas em seu seio eternamente mora,
como o pólipo no profundo oceano,
a dor que o riso mentiroso inflora,
a mesma dor que verte o pranto insano.

Basta que riso ou lágrima ressume
da contração de um músculo irritado,
temos amor, pesar, ódio ou ciúme.

Nem sempre o riso é uma expressão de agrado,
e às vezes quem mais chora se presume
feliz, por parecer mais desgraçado.


 em "Símbolos". 1892.


sábado, 24 de fevereiro de 2018

"Vida!" - Poema de Augusto de Lima


Ivan Kramskoi, Girl with a Cat, 1882



Vida!


Olha esta gota de água cristalina:
é tão leve, tão ténue e pequenina,
que a sede vegetal mais estimula,
e nem ao menos molha
do lírio o hastil, o cálice ou a folha,
em que, líquida pérola, trémula;
dir-se-ia um pingo de sidérea mágoa.
Tu, que já penetraste os oceanos
e devassas recônditos arcanos,
não a desprezes, olha-a:
que vês na gota cristalina de água?

Nela se espelham fulgidos, celestes
prismas, que a luz exterior difunde,
como em puro diamante lapidado.
Mas se o olhar limitado
de uma lente revestes,
porque a vista sagaz mais se profunde,
verás, então, do turbilhão da Vida,
surdirem novos seres, e estes seres
aumentando-se em linha indefinida,
de modo a não poderes
contar sequer seu número. Detém-te
e observa a formação vária, infinita
dos corpos, cujo frémito latente
um mesmo protoplasma anima e agita.

Mas não! O olhar perturba-se em vertigens
de febril paroxismo.
Nem procures saber-lhes as origens,
a esses entes anónimos, que viste.
Para o prescrutador olhar humano,
como no grande, existe
no infinito minúsculo – um abismo.
Homem, na gota de água há um oceano!


em "Contemporâneas", 1887.


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

"Os sentidos" - Poema de Augusto de Lima


Charles Courtney Curran, On the Heights, 1909



Os sentidos


Há uma correspondência que equilibra
todas as formas num consenso eterno:
dos sentidos humanos cada fibra
liga a nossa existência ao mundo externo.

Os olhos querem luz; flores, o olfato;
frutos, o paladar; o ouvido, harpejos;
macia polpa setinosa, o tato;
o coração, afeto; os lábios, beijos.

Há, porém, de outras laços um sistema,
que a natureza em nós conserva inerte:
para a ciência e a fé sempre é problema;
basta, no entanto, um toque que os desperte...

E como vós, ó sensações, outrora
adormecidas no organismo estáveis,
eles dormem também, presos embora
ao turbilhão das cousas impalpáveis.

Cérebro humano, criador da Psique,
centro radial do cosmos consciente,
para que ainda mais perfeita fique,
deixa que as formas Psique nua ostente!


Antônio Augusto de Lima,
em "Laudas inéditas"



Charles Courtney Curran, The Boulder, 1919


"Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado."

(James Baldwin)


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