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segunda-feira, 5 de junho de 2023

"Ruínas" - Poema de Guerra Junqueiro


Cristiano Banti  (Italian painter, 1824–1904), Galileo Facing the Roman Inquisition, 1857
 
[Galileu ante o Santo Ofício. A condenação de Galileu por heresia marca o divórcio definitivo entre o pensamento científico e o religioso. Nascia a ciência moderna.(daqui)]



Ruínas

 I
 
E é triste ver assim ir desfolhando,
Vê-las levadas na amplidão do ar,
As ilusões que andámos levantando
Sobre o peito das mães, o eterno altar.

Nem sabe a gente já como, nem quando,
Há de a nossa alma um dia descansar!
Que as almas vão perdidas, vão boiando
Nesta corrente elétrica do mar!...

Ó ciência, minha amante, ó sonho belo!
És fria como a folha dum cutelo...
Nunca o teu lábio conheceu piedade!

Mas caia embora o velho paraíso,
Caia a fé, caia Deus! sendo preciso,
Em nome do Direito e da Verdade.

II 

Morreu-me a luz da crença — alva cecém,
Pálida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da razão.

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herói antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacável, a rígida ciência
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo. 


Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'
 

Joseph-Nicolas Robert-Fleury (French painter, 1797–1890), Galileo before the Holy Office, 1847
 
[Galileu Galilei foi condenado pela Inquisição em 1633 por contrariar as Escrituras Sagradas, passando o resto dos seus dias em prisão domiciliária.(daqui)]

 
 
Matemático, astrónomo e físico italiano, Galileu Galilei nasceu a 15 de fevereiro de 1564, em Pisa, e morreu a 8 de janeiro de 1642, em Arcetri, uma localidade perto de Florença.
É considerado o fundador do método experimental. Descobriu a lei da aceleração uniforme da queda dos corpos e a lei do isocronismo das pequenas oscilações do pêndulo, entre outras, tendo conseguido traduzi-las matematicamente. Publicou a obra Tratado das Esferas.
Tendo ouvido falar da invenção do telescópio, Galileu desenvolveu um método de ajuste de lentes que lhe permitiu construir e usar esse instrumento na observação astronómica.
Graças a essa adaptação, constatou que a superfície da Lua não era plana, como se supunha, mas irregular, observou que a Via Láctea era composta de estrelas, e descobriu e nomeou os satélites de Júpiter.
As observações que publicou em Siderius Nuncius foram muito criticadas pelos astrónomos ligados às ideias de Cláudio Ptolomeu.
Galileu abraçou publicamente a teoria copernicana de um universo heliocêntrico e de uma Terra móvel, o que lhe valeu numerosas críticas, nomeadamente por tais noções serem contrárias àquelas presentes na Bíblia.
Por esse motivo, Galileu foi julgado e condenado em 1633, e teve de abjurar perante a Inquisição. (daqui)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

"Lisbon revisited" - Poema de Álvaro de Campos



Lisboa, Portugal, pintura de Yasuhiro Rengeji (Pintor japonês contemporâneo).



Lisbon revisited 
(1923)


Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!


Álvaro de Campos, in Poesias
Heterónimo de Fernando Pessoa, 
(1888-1935)


Lisboa, Portugal, de Yasuhiro Rengeji
 

Lisboa, Portugal, de Yasuhiro Rengeji


"Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. - É a única."

(Albert Schweitzer
 

Terreiro do Paço, Lisboa em 1650, por Dirk Stoop.


"Não podes ensinar nada a um homem; 
podes apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo."

(Galileu Galilei)


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"Os Sapos" e "O Sapo" - Poemas de Manuel Bandeira e Ferreira Gullar



 (Anfíbio

[Os anfíbios, que significa «ambas vidas» ou «em ambos meios») constituem uma classe de animais vertebrados, pecilotérmicos que não possuem bolsa amniótica agrupados na classe Amphibia. A característica mais marcante dos seres vivos da classe é o seu ciclo de vida dividido em duas fases: uma aquática e outra terrestre, apesar de haver exceções. Estão identificadas cerca de seis mil espécies vivas de anfíbios cadastradas no Amphibian Species of the World.]


Os Sapos


Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra. 

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!" 

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado. 

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos. 

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio. 

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma. 

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..." 

Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei" - "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!" 

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- "A grande arte é como
Lavor de joalheiro. 

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quando é vário,
Canta no martelo." 

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!" 

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa; 

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No porão profundo
E solitário, é 

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...


Manuel Bandeira

[Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.
 
Manuel Bandeira publica em 1919 o seu segundo livro de poemas intitulado Carnaval. Nessa obra já faz uso do verso livre. Por isso, os modernistas viram em Manuel Bandeira um precursor do movimento Modernista. Em Carnaval temos ainda o início da libertação das formas fixas e a opção pela liberdade formal, que se tornaria uma das marcas registadas de sua poesia.
 
Considera-se que Bandeira faça parte da geração de 22 da literatura moderna brasileira, sendo seu poema Os Sapos o abre-alas da Semana de Arte Moderna de 1922. Juntamente com escritores como João Cabral de Melo Neto, Paulo Freire, Gilberto Freyre, Nélson Rodrigues, Carlos Pena Filho e Osman Lins, entre outros, representa a produção literária do estado de Pernambuco.]


  (Anfíbio)


O Sapo

 
Aqui estou eu: o Sapo, 
Bom de pulo e bom de papo. 
Falo mais que João do Pulo, 
Pulo mais que João do Papo. 
Por cautela, falo pouco, 
Pra evitar de ficar rouco. 
Mas, na verdade, coaxo. 
Sou quem toca o contra-baixo 
em nossa orquestra de sapos, 
pois com os sons de nossos papos 
fazemos nosso concerto: 
um som fechado, outro aberto, 
um que parece trombone, 
outro flauta ou xilofone. 
Tocamos em qualquer festa.


Ferreira Gullar

[Ferreira Gullar (1930-2016), pseudónimo de José de Ribamar Ferreira, foi um poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro. Abriu caminho para a "Poesia Concreta" com o livro "A Luta Corporal". Organizou e liderou o movimento literário "Neoconcreto". Recebeu o Prémio Camões, em 2010. Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.]


 (Anfíbio
 

"Digamos que existem dois tipos de mentes poéticas: uma apta a inventar fábulas e outra disposta a crer nelas."

(Galileu Galilei)
 
 
Sapo-comum (Bufo bufo) (daqui)
 
  • Características distintivas: maior anuro da fauna portuguesa; íris avermelhada; glândulas parótidas muitos evidentes, dispostas de forma oblíqua.
  • Dimensões Adultas: 6-15 cm; máx. 22 cm
  • Dimorfismo sexual: Pouco acentuado
  • Alimentação em fase adulta: Carnívoro, Insectívoro
  • Local de postura: Habitat lêntico
  • Modo de postura: Ovos em Cordões
  • Período de actividade: Nocturno (daqui)

Sapo-comum (Bufo bufo) (daqui) 
 

- Sapo -
 
 
Animal do filo dos cordados, da classe dos Anfíbios, da ordem dos anuros, da família dos Bufonídeos, que se distribui por cerca de trezentas espécies. 
 
Os sapos são anfíbios anuros com a pele muito verrugosa. Os olhos possuem pupila horizontal, e são amarelos ou vermelho alaranjados. O corpo é largo e a cabeça estreita com duas glândulas mais desenvolvidas atrás dos olhos, as paratóides. Os dedos dos pés estão ligados por uma membrana interdigital, pelo menos, até metade do seu comprimento. Os machos possuem sacos vocais externos. A pele verrugosa dos sapos é rica em glândulas que elaboram um veneno leitoso, por vezes, muito tóxico. 
 
O sapo-comum (Bufo bufo) é essencialmente terrestre, mas preferindo sempre lugares húmidos. Durante o dia abriga-se sobre as pedras ou em buracos, próximo dos cursos de água. Alimenta-se de vermes, insetos, moluscos e também pequenos mamíferos, que são capturados pela língua ao amanhecer ou ao crepúsculo. Esta dieta é útil para os jardineiros por comer vários tipos de animais que prejudicam as plantas. Os bufonídeos estão distribuídos por todas as regiões da Terra, com exceção da Austrália, Nova-Guiné e Madagáscar. O sapo-comum (Bufo bufo) está distribuído mais ou menos uniformemente por todo o território português.

A reprodução dos sapos ocorre geralmente no fim do inverno ou no início da primavera, geralmente um cursos de água pouco profundos ou em charcos. Cada macho cruza-se geralmente com várias fêmeas, agarrando-as pelas axilas. Cada fêmea pode pôr de dois mil a sete mil ovos, em dois longos cordões. Os ovos são muito pequenos e são completamente negros. O emparelhamento do macho e da fêmea pode demorar de oito a quinze dias. Os ovos eclodem entre os doze e os dezoito dias depois da postura. Este período é dependente da temperatura da água. 
 
Os sapos são, em geral, solitários e noturnos na vida adulta. Hibernam no inverno na vasa ou em terreno seco. Um sapo adulto macho mede de sete a doze centímetros de comprimento e uma fêmea entre dez ou dezoito centímetros. (Daqui)