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terça-feira, 2 de junho de 2026

"A criança que pensa em fadas" - Poema de Alberto Caeiro



Lewis Jesse Bridgman (American engraver, illustrator and writer,
1857–1931), 'The Little People of the Garden', 1922.


A criança que pensa em fadas


A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

1-10-1917


Alberto Caeiro, "Poemas Inconjuntos",
Poemas Completos de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa.
(Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.)
Lisboa: Presença, 1994.
 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

"Oriana" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 
John Atkinson Grimshaw (English artist, 1836-1893), Spirit of Night, 1879.



Oriana

 
Era uma vez uma fada chamada Oriana.

Era uma fada boa e era muito bonita. Vivia livre, alegre e feliz dançando nos campos, nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias.

Um dia a Rainha das Fadas chamou-a e disse-lhe:

– Oriana, vem comigo.

E voaram as duas por cima de planícies, lagos e montanhas. Até que chegaram a um país onde havia uma grande floresta.

– Oriana – disse a Rainha das Fadas – entrego-te esta floresta. Todos os homens, animais e plantas que aqui vivem, de hoje em diante ficam à tua guarda. Tu és a fada desta floresta. Promete-me que nunca a hás de abandonar.

Oriana disse:

– Prometo.

E daí em diante Oriana ficou a morar na floresta. De noite dormia dentro do tronco dum carvalho. De manhã acordava muito cedo, acordava ainda antes das flores e dos pássaros. O seu relógio era o primeiro raio de Sol. Porque tinha muito que fazer. Na floresta todas precisavam dela. Era ela que prevenia os coelhos e os veados da chegada dos caçadores. Era ela que tomava conta dos onze filhos do moleiro. Era ela que libertava os pássaros que tinham nas ratoeiras.

À noite, quando todos dormiam, Oriana ia para os prados dançar com as outras fadas. Ou então voava sozinha por cima da floresta e, abrindo as suas asas, ficava parada, suspensa no ar entra a terra e o céu. À roda da floresta haviam campos e montanhas adormecidas e cheios de silêncio. Ao longe viam-se as luzes de uma cidade debruçada sobre o rio. De dia e vista de perto a cidade era escura, feia e triste. Mas à noite a cidade brilhava cheia de luzes verdes, roxas, amarelas, azuis, vermelhas e lilases, como se nela houvesse uma festa. Pareciam feitas de opalas, de rubis, de brilhantes, de esmeraldas e safiras.


Sophia de Mello Breyner Andresenn (1919-2004),
in "A Fada Oriana", 1958.
 
 

"A Fada Oriana" de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Ilustração: Teresa Calem. Editor: Porto Editora.
Edição: outubro de 2012.

 
SINOPSE

Dizia Sophia que as fadas são seres da natureza. Queria com isto lembrar que elas nascem da nossa capacidade de atribuir vida, vontade e intenções ao mundo da natureza.
Em A Fada Oriana, encontramos o dom da proteção sobre os seres mais frágeis que vivem numa floresta, encontramos as tão humanas oscilações entre a solidariedade, o sentido da responsabilidade, o egoísmo e a vaidade. Encontramos, como é próprio de muitos contos tradicionais e para a infância, as peripécias de uma luta entre o bem e o mal. 

sábado, 10 de abril de 2021

"Do seu longínquo reino cor-de-rosa" - Poema de Fernando Pessoa



Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), The Cradle, 1872, Musée d'Orsay.


Do seu longínquo reino cor-de-rosa
 

Do seu longínquo reino cor-de-rosa,
Voando pela noite silenciosa,
A fada das crianças vem, luzindo.
Papoulas a coroam, e, cobrindo
Seu corpo todo, a tornam misteriosa.

À criança que dorme chega leve,
E, pondo-lhe na fronte a mão de neve,
Os seus cabelos de ouro acaricia —
E sonhos lindos, como ninguém teve,
A sentir a criança principia.

E todos os brinquedos se transformam
Em coisas vivas, e um cortejo formam:
Cavalos e soldados e bonecas,
Ursos e pretos, que vêm, vão e tornam,
E palhaços que tocam em rabecas...

E há figuras pequenas e engraçadas
Que brincam e dão saltos e passadas...
Mas vem o dia, e, leve e graciosa,
Pé ante pé, volta a melhor das fadas
Ao seu longínquo reino cor-de-rosa. 

1932

Fernando Pessoa
, 
Poesias Inéditas, 1930-1935.
 

 
Mary Cassatt (American painter, 1844
1926), 
Susan Comforting the Baby No. 1, c. 1881.


Criança, era outro...
 
Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi? 

s.d.

Fernando Pessoa,
Poesias Inéditas, 1930-1935.


sábado, 7 de outubro de 2017

"As Fadas" - Poema de Antero de Quental



William Henry Margetson (British painter and illustrator, 1861–1940),
'Cinderella and the Fairy Godmother', Date unknown


As Fadas  
 
 
As fadas… eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar…
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar…

Algumas em fonte fria
Escondem-se, enquanto é dia,
Saem só ao escurecer…
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder…

O vestir… são tais riquezas,
Que rainhas, nem princesas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu…

Quando a noite é clara e amena
E a lua vai mais serena,
Qualquer as pode espreitar,
Fazendo roda, ocupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flores
Ficam-se horas sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes de algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos batizados reais.

Morgana é muito enganosa;
Às vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir…
Ora festiva, ora grave,
E voa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titânia, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja glória
Enche as páginas da história
Dos reinos de el-rei Merlim?

Umas têm mando nos ares;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquela vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha de condão.

O que elas querem, num pronto,
Fez-se ali! parece um conto…
Mesmo de fadas… eu sei!
São condões, que dão à gente
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre criancinha
Se quis ser sua madrinha,
Uma fada… ai, que feliz!
São palácios, num momento…
Beleza, que é um portento…
Riqueza, que nem se diz…

Ou então, prendas, talento,
Ciência, discernimento,
Graças, chiste, discrição…
Vê-se o pobre inocentinho
Feito um sábio, um adivinho,
Que aos mais sábios vai à mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não há de rir,
Querem elas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes há de mentir.

Quem as ofende cautela!
A mais risonha, a mais bela,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga agressiva,
É serpente que ali está!

E têm vinganças terríveis!
Semeiam coisas horríveis,
Que nascem logo no chão…
Línguas de fogo, que estalam!
Sapos com asas, que falam!
Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente…
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer…
É-se morcego ou veado…
E anda-se assim encantado,
Enquanto a fada quiser!

Por isso quem por estradas
For, de noite, e vir as fadas
Nos altos, mirando o céu,
Deve com jeito falar-lhes,
Muito cortês e tirar-lhes
Até ao chão o chapéu.

Porque a fortuna da gente
Está às vezes somente
Numa palavra que diz.
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes já deitado,
Mas sem sono, inda acordado
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um belo dia,
Me quisesse a mim fadar…

O que seria? Um tesoiro?
Um reino? Um vestido de oiro?
Ou um leito de marfim? 
Ou um palácio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quisesse,
Pedir também que me desse
Um condão, para falar
A língua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos…
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraçando
Comigo (podia ser?)
Me tocasse co’a varinha
E fosse minha madrinha,
Mesmo a dormir, sem a ver…

E que amanhã acordasse
E me achasse… eu sei! me achasse
Feito um príncipe, um emir!…
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando…
Deixa-me já, já dormir! 


in "Tesouro Poético da Infância"

"Tesouro Poético da Infância"
é uma antologia poética destinada às crianças, organizada e prefaciada por Antero de Quental. Na "Advertência", onde revela a influência das ideias pedagógicas de João de Deus, Antero afirma ter intentado favorecer "a formação do caráter moral" das crianças, expondo uma conceção da poesia como "ideal percebido instintivamente", "o veículo da doutrina e a linguagem própria das cousas ideais". Entre os textos selecionados, figuram composições de João de Deus, Castilho, Tomás Ribeiro, Gonçalves Crespo, Mendes Leal, Bulhão Pato e o próprio Antero, bem como vários romances populares.
(daqui)
 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

"Algo existe" - Poema de Emily Dickinson



'A Fairy Resting Among Flowers' by Amelia Jane Murray or Lady Oswald
 (Victorian fairy artist from the Isle of Man, 18001896)


Algo existe


Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene. 

Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende. 

Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo - 

E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trémulo
E subtil, de mim se escape. 


Emily Dickinson
,
in '75 Poemas de Emily Dickinson', 1999.
Tradução de Lúcia Olinto




Emily Dickinson nasceu em 10 de dezembro de 1830, na pequena cidade de Amherst, perto de Boston, no estado de Massachusetts, uma das regiões de raízes mais puritanas e conservadoras dos Estados Unidos, e morreu no mesmo local em 15 de maio de 1886. 
 
Tendo vivido e produzido à margem dos círculos literários de seu tempo, solteira por convicção e auto-exilada dentro de casa por mais de vinte anos, Emily Dickinson não chegou a publicar os seus versos, por não se submeter aos rígidos padrões de discrição e singeleza que se esperava então de uma mulher.
Sua voz era uma voz estranha em meio às tímidas dicções poéticas da época, e por essa razão ela teve de encarar em vida a rejeição de seu labor poético. 
 
Ao arrumar o quarto de Emily depois que ela morreu, a sua irmã Lavinia encontrou uma gaveta cheia de papéis em desordem. Eram cadernos e folhas soltas com uma grande quantidade de poemas inéditos. Disposta a divulgar a obra da irmã, Lavinia entrou em contacto com um medíocre crítico literário, Thomas Higginson, que durante trinta anos renegou todos os versos que Emily lhe submetera, e uma obscura escritora, Mabel Todd, que por cinco anos havia frequentado a casa da poeta sem nunca chegar sequer a vê-la. 
 
Dessa improvável união de forças surgiu a publicação póstuma de alguns de seus poemas, seguida em pouco tempo de diversas outras edições, em vista da excecional acolhida que tiveram. 
Em 1955, o crítico e biógrafo Thomas H. Johnson reuniu numa edição definitiva todos os seus 1.775 poemas. 
Daí em diante a obra de Emily Dickinson passou a ser reverenciada por uma crescente legião de críticos e leitores exigentes. 
 
Sua escrita poética, ambígua, irónica, fragmentada, aberta a várias possibilidades de interpretação, antecipa, sob muitos aspetos, os movimentos modernistas que se sucederiam depois de sua morte. 
Essa instigante poesia, nascida na solidão e no anonimato mas impregnada dos mais profundos valores humanos, dá hoje a Emily Dickinson um merecido e imorredouro lugar no cânon literário universal.

Seus versos constam da coletânea "The Complete Poems of Emily Dickinson", editada por Thomas H. Johnson, Cambridge, Mass (EUA), 1955.



Amelia Jane Murray or Lady Oswald 


Não digas


Não digas: “O mundo é belo”
Quando foi que viste o mundo? 

Não digas: “O amor é triste”.
Que é que tu conheces do amor? 

Não digas: “A vida é rápida”.
Como foi que mediste a vida? 

Não digas: “Eu sofro”.
Que é que dentro de ti és tu? 

Que foi que te ensinaram
Que era sofrer? 


Cecília Meireles
, 'Cântico VIII'
in 'Cânticos', 1982 
 

sábado, 3 de março de 2012

"Maria" e "O Divino" - Poemas de Rainer Maria Rilke e Johann Wolfgang von Goethe


 
Salvador Dalí (Spanish surrealist artist, 1904–1989),
Maria conferens in corde suo (Matthew 1:23), 1964–67.


Maria


Não tivesses tu simplicidade, como poderia
acontecer-te o que agora a noite enche de luz?
Vê, o Deus que sobre os povos em ira ardia
torna-se manso e em ti ao mundo vem Jesus.

Terias imaginado maior esse Menino?

O que é a grandeza? Através de toda a medida
pela qual Ele passa, se traça o Seu vertical destino.
Nem mesmo um astro tem uma rota assim erguida.
Vês, estes reis são grandes, imponentes,

diante de ti depositam presentes

que tomam por tesouros sem par,
e talvez te assombre a oferenda que aí está:
mas para as pregas dos teus panos dirige teu olhar,
vê como Ele tudo supera já.

Todo o âmbar que se envia para a distância

Todas as joias de ouro e especiaria do ar,
que turvando-se nos sentidos se vêm envolver:
tudo isto rapidamente veio a terminar,
e por fim todos se vieram a arrepender.

Mas, hás de ver, Ele enche de alegria toda a ânsia.


Rainer Maria Rilke, 'A Vida de Maria' 
(Tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado),
Lisboa: Portugália Editora, 2008, p. 67.



 
Amelia Jane Murray or Lady Oswald (Victorian fairy artist, 1800
1896),
'Fada' (Ilustração) 


O Divino 


Nobre seja o homem, 
Caridoso e bom! 
Pois isso apenas 
É que o distingue 
De todos os seres 
Que conhecemos. 

Glória aos incógnitos 
Mais altos seres 
Que pressentimos! 
Que o homem se lhes iguale! 
Seu exemplo nos ensine 
A crer naqueles! 

Pois insensível 
É a natureza: 
O sol espalha luz 
Sobre maus e bons, 
E ao criminoso 
Brilham como ao santo 
A lua e as estrelas. 

Vento e torrentes, 
Trovão e saraiva 
Rugem seu caminho 
E agarram, 
Velozes passando, 
Um após outro. 

Tal a sorte às cegas 
Lança mãos à turba 
E agarra os cabelos 
Do menino inocente 
Ou a fronte calva 
Do velho culpado. 

Por eternas leis, 
Grandes e de bronze, 
Temos todos nós 
De fechar os círculos 
Da nossa existência. 

Mas somente o homem 
Pode o impossível: 
Só ele distingue, 
Escolhe e julga; 
E pode ao instante 
Dar duração. 

Só ele é que pode 
Premiar o bom, 
Castigar o mau, 
Curar e salvar, 
Unir com proveito 
Tudo o que erra e divaga. 

E nós veneramos 
Os Imortais 
Como se homens fossem, 
Em grande fizessem 
O que em pequeno o melhor de nós 
Faz ou deseja. 

Que o homem nobre 
Seja caridoso e bom! 
Incansável crie 
O útil, o justo, 
E nos seja exemplo 
Dos Seres pressentidos.


 Tradução de Paulo Quintela 



Amelia Jane Murray or Lady Oswald, 'Fada' (Ilustração)


"Orar não é pedir. Orar é a respiração da alma. Como o corpo que se lava não fica sujo, 
sem oração se torna impuro."

Mahatma Gandhi
[Advogado, estadista, líder espiritual e ativista indiano, 1869–1948] 
 

Fritz Zuber-Buhler, 'The Spirit Of The Morning', c. 1896


"Existe uma única estrada e somente uma, e essa é a estrada que eu amo. Eu a escolhi. 
Quando trilho nessa estrada as esperanças brotam, e, o sorriso se abre em meu rosto. 
Dessa estrada nunca, jamais fugirei." 
[Daisaku Ikeda (Tóquio, Japão, 2 de janeiro de 1928) é um filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista japonês. Foi galardoado em 2007 com o Prémio Mundial do Humanismo pela Academia do Humanismo da Macedónia.]



Charles Edward Perugini (Italian-born English painter, 1839–1918),
Cupid, 1890
 

"Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo,
 a alma está de joelhos." 
 
Victor Hugo
[Escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo, ativista e político francês, 1802–1885]