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domingo, 4 de outubro de 2026

"A Liberdade o que é?" - Poema de José Jorge Letria

 

 
Norman Rockwell (American painter and illustrator, 1894–1978),
Young Love: Swinging, 1949, Part of the "Four Seasons" series.



A Liberdade o que é?


A liberdade
é um pássaro sem medo
a cantar dentro da boca.

A liberdade
é uma árvore
capaz de abraçar as estrelas.

A liberdade
é uma palavra límpida
no ramo mais alto da fala.

A liberdade
é um morango a dizer ao vermelho:
"Agora quero ser verde."

A liberdade
é um livro escrito com a tinta
de que são feitos os sonhos.

A liberdade
é a língua a soltar-se
para chamar a felicidade. 

A liberdade
é a rima esvoaçante
a beijar os namorados.

A liberdade
é a palavra nova
no ramo mais alto da fala.

A liberdade
é um livro sempre aberto
na página ainda por escrever.

A liberdade
é um quadro onde as tintas
sabem a fruta e a mar.

A liberdade
é um homem a escrever o livro
que conta o que ainda ninguém sabe.

A liberdade
é um trocadilho
para fazer rir um filho.

A liberdade
é um circo que torna livres
todos os bichos.

A liberdade
é um voz feita coro
para que todos possam cantar.

A liberdade
é uma onda imensa
a inundar a praia de gaivotas.

A liberdade
é uma letra apaixonada
por um número iluminado.

A liberdade
é um avô a gatinhar,
sem parar, atrás do neto.

A liberdade
é a poesia a matar em nós
a fome que temos de música.

A liberdade é azul
e tem meninos dentro
a sonhar e a brincar.

A liberdade
é um pequeno gesto
onde cabe tudo o resto.

A liberdade
é um ponto final
em tudo o que nos faz mal.

A liberdade
é a metade que falta
à nossa felicidade.

A liberdade
é um corvo a pintar de luz
o escuro da noite.

A liberdade
é um capitão a beijar
a alegria de um cravo.

A liberdade
é uma rua a desaguar,
ao luar, no infinito.

A liberdade
é um rio loucamente
apaixonado por uma cidade.

A liberdade
é um lágrima de súbito
transformada em diamante.

A liberdade
é ter tempo para dar
mais tempo aos outros.

A liberdade
é um menino
de todas as cores.

A liberdade
é uma andorinha
a desenhar a primavera.

A liberdade
é às vezes um verso
tão belo como o Universo.

A liberdade
é um poeta a dar nomes
aos sentimentos do mundo.

A liberdade
é um caracol
a brincar com o sol.

A liberdade
é um navio
de fio a pavio.

A liberdade
é um computador
a chorar de saudade.

A liberdade
é o dia, com fantasia,
de dar luz à noite.

A liberdade
é um comboio
a atravessar as nuvens.

A liberdade
é a última coisa
que se pode perder.

A liberdade
é o rumo que tem
a sabedoria do vento.

A liberdade
é um barco a sair
de dentro de uma garrafa.

A liberdade
é um guarda-chuva
a apanhar sol.

A liberdade
é uma borboleta
pousada no vidro dos dias.

A liberdade
é ter asas e saber
voar com elas, através das janelas.

A liberdade
é um malmequer
a perfumar a própria sombra.

A liberdade
é um poema a nascer
no meio das rosas.

A liberdade
podemos ser todos nós
com uma flor na voz.

A liberdade
é uma baía
onde mora a poesia.

A liberdade
é um desejo que nunca
ninguém conseguiu domar.

A liberdade
é um velho
para sempre criança.

A liberdade
é um vagar
que nunca teve pressa.

A liberdade
é um país sem medo
a tentar ser feliz.

A liberdade
é o sonho de uma noite
a durar a vida inteira.

A liberdade
é um peixe
com o luar nas escamas.

A liberdade
é a poesia
como pão para a boca.

A liberdade
é uma caneta a escrever, sozinha,
a própria vida.

A liberdade é
o último dos nomes
que um homem pode esquecer.

A liberdade é
a respiração de um pássaro
a confundir-de com o perfume da brisa.

A liberdade é
um lugar que não vem no mapa
e onde o vento se enamora.

A liberdade é
o nome que nos apetece dar
ao sonho quando abre portas.

A liberdade
é o nome que falta dar
àquilo que nos faz falta.

A liberdade
é um gato
apaixonado pela lua.

A liberdade é
um menino a imaginar
que é um rio a correr para o mar.

A liberdade
é uma pérola
que se transforma em pão.

A liberdade
é o rosto mais belo que alguém vê
quando deixa a escuridão para trás.


José Jorge Letria,  
"A Liberdade o que é?" 
 
 

"A Liberdade o que é?" de José Jorge Letria.
Ilustrações de Catarina França.
1ª ed. - Porto: Ambar, 2007.



SINOPSE

Compilação de textos poéticos muito breves (tercetos) subordinados a um mote comum – a definição da liberdade –, o livro de José Jorge Letria conduz o leitor numa viagem pelas diferentes formas – muitas metafóricas – de olhar e experimentar a liberdade, aqui recriada como uma das maiores conquistas da Humanidade.
 

 
Norman Rockwell, "On Top of the World", also known as "Boy on Weather Vane"
or "Boy on Weathercock", 1934. Oil on canvas, 27.94 × 22.86 cm.
Cover illustration for The Saturday Evening Post, October 20, 1934.
 
 
"Quando perdemos o direito de ser diferentes, perdemos o privilégio de ser livres."

"When we lose the right to be different we lose the right to be free." 

Charles Evans Hughes
, citado em "Friends' intelligencer".
[Advogado, político e jurista norte-americano, 1862–1948]

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

"Vem de tudo" - Poema de Ricardo Azevedo



Florence Kate Upton
(American-born British cartoonist and author,
1873–1922), Little girl with a carrot man and tomato man, 1890s;
The Vege-men's revenge, children's book illustration.

[The Vege-Men's Revenge is a children's book, written by Bertha Upton (British writer, 1849–1912)
and illustrated by his daughter, Florence Kate Upton.]


Vem de tudo


Vem de uma voz lá de dentro
Brota feito luz no chão
É casa solta no vento
É verdade? Sim e não

Vem da infância tristonha
Vem da infância contente
Vem do jovem, vem do velho
Vem de toda e qualquer gente

Pode nascer da paisagem
Lá no campo ou na cidade
Das ruas, da natureza
Das flores, da sociedade

Ou brotar dentro de um quarto
Fechado com a luz acesa
Ou talvez sair da fruta
Morta num prato na mesa

Pode fazer feito o mar:
Molhar os olhos da gente
(Quero dizer que é capaz
De emocionar, de repente)

Vem de um dia de alegria
Vem do sangue, vem do corte
Vem de uma noite vazia
Vem do amor e vem da morte

Pode ser pura mentira
Pode ser mera verdade
Pode ser só fantasia
Pode ser realidade

Vem da raiva e da revolta
Do desejo de mudança
Vem de ver tanta injustiça
Vem da luta e da esperança

Vem de uma casa engraçada
De uma pedra no caminho
Vem do galo que não tece
Manhã nenhuma sozinho

Vem de um riso de criança
Vem do espanto sobretudo
Vem do sonho que não cansa
Vem de nada e vem de tudo

Vem porque a gente sente
Vem porque a gente tenta
Vem porque a gente sonha
Vem porque a gente inventa

É flor que não existia
Joia esculpida no nada
Estrela nova no céu
Fruta boa inesperada

Cresce no fundo da gente
Sai da vida noite e dia
Vem à toa ou do trabalho
De tudo nasce a poesia


Ricardo Azevedo,  
do livro "Aula de carnaval e outros poemas",
 Ática, 2006.


domingo, 27 de setembro de 2026

"O circo do contrário" - Poema de Pedro Bandeira

 


Ilustração de Regina Shadhan


O circo do contrário


Lá no circo do contrário,
o leão pega o chicote
e obriga o domador
a pular todo sem jeito
para cima do banquinho.

Lá no circo do contrário,
tem a bola colorida
que joga os malabaristas
para cima, para o alto,
sem deixar cair nenhum.

Lá no circo do contrário,
o espetáculo é maluco,
pois de dentro da cartola
o coelho tira o mágico!

Lá no circo do contrário,
os palhaços batem palmas
pois quem faz as palhaçadas
é um menino como eu!

Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna

♥♥♥

 
Ilustração de Regina Shadhan
 
 
"É divertido fazer o impossível." 

Walt Disney, citado em "Walt Disney's Disneyland",
Martin A. Sklar - Walt Disney Productions, 1965.


 
Ilustração de Regina Shadhan


"Eu prefiro entreter e esperar que as pessoas aprendam, 
do que ensinar e esperar que as pessoas se divirtam."

Walt Disney
 
 
 
Ilustração de Regina Shadhan
 

"O riso é atemporal. A imaginação não tem idade. E os sonhos são para sempre."

Walt Disney
 
 
 
 
"Eu tento construir um tipo de felicidade que se torne permanente."
 
Walt Disney

[Walt Disney (1901–1966) foi um cineasta norte-americano, que revolucionou o cinema de animação.
Utilizou novas técnicas e inventou novas personagens. Os primeiros desenhos animados do Rato Mickey apareceram em 1928. Mais tarde surgiram as longas metragens Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Fantasia (1940), Pinóquio (1940), Dumbo (1941) e Peter Pan (1953).
A Disneylândia foi fundada por Walt Disney em 1955
.] (daqui)


sábado, 26 de setembro de 2026

"Polvo" - Poema de José Jorge Letria



Jody Keen
(Australian artist), 'Octupus deep blue sea',
Acrylic, 50 x 40 cm. 


Polvo


Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Eu sei que não tem tentáculos a medir
e que sem sair do mesmo sítio
parece que está sempre a partir.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Eu sei que é veloz e inteligente
e que até usa para escrever
a mais negra tinta permanente.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Com o seu olhar penetrante,
agitando os braços todos
parece mesmo um gigante.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Se quiser tornar-se escritor
terá pela certa muito para contar
nas páginas feitas de algas
que cobrem as sereias no fundo do mar. 


José Jorge Letria,
em "O Alfabeto dos Bichos"
 
 
 
 O Alfabeto dos Bichos de José Jorge Letria (n. 1951),
Ilustrações de André Letria (n. 1973),
Oficina do Livro, 2005.
 

SINOPSE 


O Alfabeto dos Bichos de José Jorge Letria e André Letria

Idade recomendada: 6 a 9 anos

Da águia à zebra, sem esquecer o macaco, o tubarão e até o quivi, este livro ajuda as crianças a conhecer melhor uma série de animais, ao mesmo tempo que lhes relembra o alfabeto.
Os textos, pequenos poemas em rima a apresentar os diferentes bichos, são da autoria de José Jorge Letria e as ilustrações, duas para cada animal, do seu filho, André Letria. (daqui)
 
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Onde está o Gato? - Poema de Luísa Ducla Soares



Shawn Braley
(American illustrator, b. 1972), 'Magic carpet ride'
 

Onde está o Gato?


Os burros tocam viola.
Os ratos varrem a rua,
As meninas usam barba,
Eu vivo sempre na lua.

Os carapaus têm lã,
As galinhas têm espinhas,
As vacas coca-cola
E chocolates as vinhas.

Os gatos calçam sapatos,
Olha a trança das serpentes,
As moscas falam francês,
Os galos lavam os dentes.

As casas voam no ar,
As nuvens dormem no chão,
Os olhos fazem chichi
E crescem rosas na mão.

Miúdo que estás a ouvir-me,
Pois tens orelhas de rã,
Diz lá o que está errado
Ou faço queixa à mamã.


Luísa Ducla Soares, in Conto estrelas em ti;
17 poetas escrevem para a infância.



'Conto estrelas em ti' - 17 poetas escrevem para a infância.
Coordenação: José António Gomes; Ilustração: 
João Caetano 
Porto: Campo das Letras, 2000.

 

SINOPSE

Conto estrelas em ti
dezassete vozes,
dezassete modos
de escrever poesia
para crianças e jovens.

Autores: Albano Martins, Álvaro Magalhães, Ana Saldanha, António Mota, António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Francisco Duarte Mangas, João Pedro Mésseder, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Mário Castrim, Papiniano Carlos, Raul Malaquias Marques, Teresa Guedes, Vergílio Alberto Vieira e Violeta Figueiredo.
Coordenação: José António Gomes. 
 
 
 Ilustrações de Shawn Braley

Shawn Braley, 'Watchful'
 
 

Shawn Braley, 'Lean on me'
 
 

Shawn Braley, 'Best Friends'
 
 

Shawn Braley, 'Osmosi'
 
 

Shawn Braley, 'Thinking Outside the Box'


"A inteligência no gato é menosprezada."

"Intelligence in the cat is underrated."

Louis Wain,
in "The Quotable Feline"‎, de Jim Dratfield - Chronicle Books Llc, 1997.


terça-feira, 21 de julho de 2026

"Harmonia" - Poema de Miguel Torga

  

Tove Jansson (Finland-Swedish author, novelist and comic strip author, painter
and illustrator, 1914–2001), 'Family', 1942, Private Collection.

 
Harmonia 


Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.


Miguel Torga,
in 'Orfeu Rebelde', 1958

***


Tove Jansson, 'Self-portrait with Wicker Chair', 1937.
 Private Collection
 

Tove Marika Jansson (1914–2001) nasceu em Helsínquia, numa família de artistas, que fazia parte da minoria sueca na Finlândia. Estudou Artes no seu país, em Estocolmo e finalmente na Escola de Belas-Artes de Paris, tendo realizado a sua primeira exposição a solo em 1943. Tornou-se conhecida também como escritora e ilustradora. Publicou o primeiro livro dos Mumins durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, pois o conflito deprimia-a e por isso “quis escrever sobre qualquer coisa inocente”. No ano seguinte, editou O Cometa na Terra dos Mumins e, em 1948, A Família dos Mumins, que a tornaram famosa e a escritora finlandesa mais lida. Em 1966, recebeu o Prémio Hans Christian Andersen de literatura infantil pelo conjunto da sua obra.

 
Tove Jansson, 'The Moomins'


A Família Mumin - em sueco: Mumintrollen - ou a família Moomin, é uma família de ficção literária, criada pela escritora sueco-finlandesa Tove Jansson. 
A família vive numa casa no Vale dos Mumin (Mumindalen), e é composta pelo Mumin (Mumintrollet), pela Mãe Mumin (Muminmamma) e pelo Pai Mumin (Muminpappa). Como vizinhos, eles têm o tímido Sniff, a traquinas Lilla My, o vagabundo Snusmumriken, a namorada de Mumin, Snorkfröken, o vagaroso Hemulen e a nervosa Filifjonkan. Nas montanhas assustadoras a leste do vale, mora a monstruosa Mårran, e um pouco por toda a parte os incompreensíveis Hattifnattarna.  (daqui)

 
Tove Jansson
, 'A Famílias dos Mumins'
Tradução: Mafalda Eliseu
Relógio D'Água, 2015
 

Descrição 
 
 [A Família Mumin (edição brasileira) ou A Família dos Mumins (edição portuguesa)]
 
A primavera chegou ao vale dos Mumins, assim como uma cartola mágica que o Mumintroll e os seus amigos Farisco e Sniff descobrem, e que pode transformar qualquer coisa ou alguém em seja o que for. 

«Um tesouro perdido, agora redescoberto… Uma obra–prima.»
– Neil Gaiman

«Jansson era um génio de um modo subtil. Estas histórias simples estão repletas de emoções únicas, profundas e complexas, como jamais se viram em literatura para crianças ou adultos.»
– Philip Pullman 

«Tove Jansson é, sem dúvida, uma das maiores escritoras de livros para crianças.» 
– Sir Terry Pratchett (daqui)
 

'The Moomins', comic book cover by Tove Jansson. From left to right:
Sniff, Snufkin, Moominpappa, Moominmamma, Moomintroll (Moomin), 
the Mymble's daughter, Groke, Snork Maiden and Hattifatteners.



Tove Jansson, 'Moominmama, Moominpapa and Little My'



"Arte e vida se misturam.
 Fantasia e realidade se acrescentam."


Affonso Romano de Sant'Anna

[Escritor e poeta brasileiro, 1937–2025]


sexta-feira, 10 de julho de 2026

"O testamento do gato" - Poema de Luísa Ducla Soares



Regina Shadhan, 'Cat on laptop computer', n.d.


O testamento do gato 


Ai, se um dia eu morrer
não quero ser enterrado,
hei de ficar ao solinho,
em cima do meu telhado.

Levem-me três carapaus
e um pratito de leite.
Comer sempre bons petiscos
é o meu grande deleite.

Convidem três gatas pretas
com unhas bem afiadas,
Pois mesmo depois de morto
preciso de namoradas.

Ai, se eu um dia morrer
não me façam despedidas,
eu volto sempre de novo
que um gato tem sete vidas.


Luísa Ducla Soares,
in 'A Cavalo no Tempo', 2003




'A cavalo no tempo' de Luísa Ducla Soares;
Ilustração de Abigail Ascenso. Porto Editora -
Edição/reimpressão: 01-2015.


SINOPSE
 
Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 5.° ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

A passo, a trote ou a galope, todos nós viajamos a cavalo no tempo e nessa viagem descobrimos o mundo, desvendamos os outros, revelamo-nos. Abrimos os olhos para os desacertos do mundo: a guerra, a violência, a solidão. Tomamos consciência da evolução da Humanidade através dos tempos. Com nonsense, sensibilidade e sentido crítico, Luísa Ducla Soares faz-nos pensar e cavalgar no ritmo dos seus poemas.
A coleção Educação Literária reúne obras de leitura obrigatória e recomendada no Ensino Básico e Ensino Secundário e referenciadas no Plano Nacional de Leitura. (daqui)
 

  
Regina Shadhan, 'Three black cats playing with a mouse', n.d.
Acrylic on canvas, 20X20cm.
 

domingo, 5 de julho de 2026

"O sapato perfumado" - Poema de Ricardo da Cunha Lima



Donald Zolan (American painter, 1937–2009), 'New Shoes'



O sapato perfumado


Era uma vez um sapato
totalmente amalucado.
Seu esquisito costume
era usar um bom perfume.
Ele nunca passeava
sem estar bem asseado;
pra isso, sempre passava
perfume por todo lado,
bastando o seu couro inteiro
com fragrâncias do estrangeiro,
e na sola e no cadarço
espalhava água-de-cheiro.
Que eu me lembre se casou
(e que lindo par formou!)
com a meia do garçom,
a qual tinha, por seu lado,
o costume amalucado
de pintar-se com batom.


Ricardo da Cunha Lima
, 
em "De cabeça para baixo",
São Paulo, Companhia das Letrinhas, 2000.


"De cabeça para baixo" de Ricardo da Cunha Lima, 
Ilustração de Gian Calvi. Companhia das Letrinhas, 2000.


SOBRE O LIVRO

Este livro de poemas é também um manual para aprender a ler e escrever poesia. Ricardo Cunha Lima lida com a linguagem de uma maneira extremamente lúdica, brincando com as palavras e com o modo de ver o mundo.

Um livro de poemas que ensina o que é poesia e que estimula o leitor a escrever seus próprios poemas. Esta é, em linhas gerais, a proposta que Ricardo Cunha Lima desenvolve em "De cabeça para baixo". O autor lida com a linguagem de uma maneira extremamente lúdica: brinca com as palavras e com o modo de ver o mundo. Um de seus poemas nos fala, por exemplo, de um aspirador de pó... alérgico a pó: "Toda vez que era ligado,/ Já ficava todo inchado,/ Inteirinho empelotado". E Ricardo, que quer levar o leitor aos "bastidores" do mundo poético, ensina que esse poema é um "vilancico", uma forma típica da poesia espanhola da Idade Média. Rima, métrica, aliteração, soneto e antítese são outros conceitos explicados pelo autor, neste livro de poemas que é também um manual para aprender a ler poesia. Prémio Jabuti 2001 de melhor livro infantojuvenil. Título altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ 2000, categoria poesia.
 (daqui)

 ***
 
Obras de Donald Zolan
 
Donald Zolan (American painter, 1937–2009)
 
 


Donald Zolan, 'Dozens Of Daisies'
 


Donald Zolan, 'Country Walk'
 


Donald Zolan, 'The Big Catch'
 

 
Donald Zolan, 'Summer Lake'
 
 
 
Donald Zolan, 'Morning Discovery'



Donald Zolan, 'Sabina in the Grass'
 


Donald Zolan, 'Summer Thunder'

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Tem tudo a ver" e "Cuidado com a Língua" - Poemas de Elias José

 


Caetano Cury (Jornalista, podcaster, autor de banda desenhada, locutor
de rádio e cartunista brasileiro, n. 1985), 'Téo & O Mini Mundo'.



Tem tudo a ver


A poesia
tem tudo a ver
com tua dor e alegrias,
com as cores, formas, os cheiros,
os sabores e a música
do mundo.

A poesia
tem tudo a ver
com o sorriso da criança,
o dialogo dos namorados,
as lágrimas diante da morte,
os olhos pedindo pão.

A poesia tem tudo a ver
com a plumagem, o voo,
e o canto dos pássaros,
a veloz acrobacia dos peixes,
as cores todas do arco-íris,
o ritmo dos rios e cachoeiras,
o brilho da lua, do sol e das estrelas,
a explosão em verde, em flores e frutos.

A poesia
– é só abrir os olhos e ver –
tem tudo a ver com tudo.

 in 'Segredinhos de Amor', 1991 



Elias José (Escritor, poeta e professor brasileiro,
 1936–2008) por Caetano Cury 


Cuidado com a Língua

 
Você me chamou de feio,
e mais feio me enrusti.

Você me chamou de careca,
com frio na cuca me escondi.

Você me chamou de baixinho,
muito melhor me escolhi.

Você me chamou de barrigudo,
tentei, tentei, mas não diminuí.

Você falou que mesmo assim me ama,
foi assim, assim foi que me explodi. 
in 'Cantigas de Amor', 2006 
 
***
 
 

Caetano Cury é jornalista, aguarelista e quadrinista, autor das tirinhas 'Téo & O Mini Mundo', série bicampeã do prémio Angelo Agostini e sete vezes indicada ao troféu HQMix.
Caetano foi apresentador e repórter da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Trabalhou também nas rádios BandNews FM e CBN de Ribeirão Preto-SP. Como repórter de rádio, ganhou o prémio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos.
Caetano mora hoje em Guaxupé-MG e se dedica em tempo integral à criação e divulgação de seus quadrinhos.
'Téo & O Mini Mundo' são tirinhas de amor, humor e autoconhecimento. As histórias já foram publicadas em três livros. A primeira tira foi criada em 2012 e até hoje o autor mantém uma produção regular que conquista milhares de pessoas diariamente.
Hoje mais de 390 mil pessoas seguem o @teoeominimundo no Instagram. Os personagens principais são o menino Téo e a borboleta Eulália. Os dois caminham por belos cenários rurais enquanto conversam sobre os mistérios da vida.
Além dos livros da coleção 'Téo & O Mini Mundo', Caetano tem outras obras publicadas, como 'Jorge', um compilado de tirinhas de humor, e 'Click Plock' um livro imagem que faz pensar sobre o uso excessivo de celular.
 (daqui)
 


Téo & O Mini Mundo – Vol. 1 – O livro 
[O primeiro livro da série reúne as tirinhas criadas entre 2012 e 2019.]


Téo & O Mini Mundo – Vol. 2 – O lugar do outro
[O segundo livro da coleção, lançado no auge da pandemia, traz as tirinhas de 2019 e 2020.]


Téo & O Mini Mundo – Vol. 3 – Quentinho no Coração
[As tirinhas produzidas entre 2020 e 2022 estão no terceiro livro da série.]
 
 
SINOPSE
 
Um menino, uma borboleta filosófica e um microscópio para ver a vida
 
Na companhia de sua amiga, a borboleta Eulália, o menino Téo observa atento nosso Mini Mundo através de um microscópio e dispara reflexões filosóficas sobre o quotidiano, sobre as pessoas e sobre o seu próprio eu. Juntos, eles protagonizam diálogos profundos, carregados de sensibilidade, traduzidos em palavras simples, mas que tocam corações e mentes de jovens e adultos. 
 
A coleção de livros Téo & O Mini Mundo (que nasceu como webcomic em 2012, reunindo milhares de fãs ao longo de sete anos), surge como um abraço acolhedor que, ao mesmo tempo, entretém, encanta e provoca reflexões, expressas em tirinhas com textos simples, ritmo tranquilo e belíssimas aguarelas. 
São três volumes com 271 tirinhas para ler, reler e se emocionar. Horas de leitura garantida para levar por onde você for e também para presentear pessoas queridas com afeto em forma de livro.
 (daqui)