E nos Aprazíveis Céus
Não me sentirei em Casa – eu sei –
Eu não gosto do Paraíso –
Porque é Domingo – sempre –
E o Recreio – nunca chega –
E o Éden serão solitárias
Claras Tardes de Quarta feira –
Se, ao menos, Deus fizesse visitas –
Ou Sestas –
E deixasse de nos ver – mas dizem
Que Ele – por um Telescópio
Perpétuo nos olha –
Eu própria fugiria
D’Ele – e do Espírito Santo – e de Todos –
Não fosse o “Juízo Final”!
Marguerite “Peggy” Guggenheim nasceu, em Nova Iorque, a 26 de Agosto de 1898, no seio de uma família abastada. Filha de Florette Seligman (1870-1937), pertencente a uma família banqueira de topo, e de Benjamin Guggenheim (1865-1912) que, juntamente com o pai e os seis irmãos, criou fortuna através do trabalho com metais. O seu pai foi uma das vítimas do naufrágio do Titanic, em Abril de 1912.
Outro familiar que é necessário destacar é o tio Solomon Robert Guggenheim (1861-1949), fundador do Museu com o mesmo nome em Nova Iorque. Foi exatamente nessa cidade que Peggy Guggenheim passou a sua infância e juventude. É em 1921, já casada com Laurence Vail (1891-1968, casam em 1922 e separam-se em 1930; pai dos seus dois filhos) que viaja para a Europa, nomeadamente para Paris. Aqui, desloca-se entre a vida boémia e a sociedade americana expatriada, conhecendo algumas pessoas que se tornariam amigos de longa data, como é o caso de Constantin Brâncuși (1876-1957), Djuna Barnes (1892-1982) e Marcel Duchamp (1887-1968).
É em 1938 que abre a Guggenheim Jeune, uma galeria de arte em Londres. Com 39 anos, dá assim início a uma carreira que vai ter um grande impacto na Arte no pós-guerra.
Amigos como Samuel Beckett (1906-1989) e Duchamp incentivaram Peggy a apostar na Arte Contemporânea, ensinando-lhe a diferença entre os vários estilos e apresentando-a a vários artistas. Nesta galeria, expôs obras de Jean Cocteau (1889-1963), Wassily Kandinsky (1866-1944), Yves Tanguy (1900-1955), Rita Kernn-Larsen (1904-1998), entre outros.
É também nestes anos que volta a instalar-se em Paris e aqui começa a ocupar-se a tempo inteiro da compra de obras de arte, adotando o mote: "Comprar uma obra todos os dias e viver de acordo com isso."
Apesar dos tempos conturbados, adquiriu grandes obras de artistas como Georges Braque (1883-1963), Salvador Dalí (1904-1989), Robert Delaunay (1885-1941), Piet Mondrian (1872-1944), Francis Picabia (1879-1953), Fernand Léger (1881-1955) e Brâncuși.
Com o avançar da guerra, pediu ao Musée du Louvre para esconder a sua coleção, algo que lhe foi negado. Tendo nome judeu, viu-se obrigada a ocultá-lo nos serviços alfandegários para conseguir enviar as suas obras como “itens domiciliários” em segurança para Nova Iorque. Assim, não só conseguiu proteger a sua coleção como também os meios de subsistência dos seus artistas considerados “degenerados” pelo 3º Reich.
Só com o aproximar do exército nazi a Paris é que decide fugir para o sul de França e em Julho de 1941 regressa a Nova Iorque com os seus filhos, o seu agora ex-marido, a esposa e filhos dele, e com o pintor Max Ernst (1891-1976), com quem viria a casar pouco tempo depois, divorciando-se mais tarde, em 1946.
Em Outubro de 1942, inaugura Art of This Century, em Manhattan, New York City, uma galeria com coleção permanente, exposições temporárias e venda de obras, e que cedo se tornou o espaço mais estimulante da arte contemporânea em Nova Iorque, com uma grande inovação ao nível das salas de exposição, com todos os elementos do espaço a relacionarem-se com os estilos e peças aí expostos. Aqui queria mostrar que não tinha preferência entre a Abstração e o Surrealismo, pedindo a colaboração de artistas de ambos os estilos para várias coisas, incluindo a conceção do catálogo.
Até aqui, a coleção de Peggy Guggenheim ia de 1910 a 1942, numa quantidade limitada, mas bastante forte a nível qualitativo: Cubismo, Futurismo, Orfismo, Abstração Europeia (Suprematismo, Construtivismo, De Stijl), pintura Metafísica, Dadaísmo, Surrealismo, Purismo; com obras de vários artistas como Brâncuși, Jean Arp, Alberto Giacometti (1901-1966), Henry Moore (1898-1986), Alexander Archipenko (1887-1964), Henri Laurens (1885-1954), etc.
Nesta galeria, para além de expor a sua coleção, usava as exposições temporárias como palco para os grandes nomes da arte europeia, mas também para os artistas americanos emergentes como Robert Motherwell (1915-1991), Mark Rothko (1903-1970), Jackson Pollock (1912-1956), entre outros.
Mais importante que dar a conhecer a Arte Europeia, Peggy, juntamente com o amigo e assistente Howard Putzel (1898-1945), era uma grande incentivadora do crescente movimento Avant-Garde, em Nova Iorque. O desenvolvimento deste que foi o primeiro estilo artístico americano vai, por isso, buscar grande força à sua coleção.
Mal tem oportunidade de regressar à Europa, Peggy escolhe Veneza como destino, viajando rumo à cidade em 1947. Pouco depois da sua chegada, compra o Palazzo Venier dei Leoni, onde acabaria por passar o resto da sua vida. Esta foi a cidade da vida e do coração da colecionadora, que tinha uma visão peculiar sobre a mesma. Entre várias afirmações, podemos destacar:
"Assume-se que Veneza é o local ideal para uma lua-de-mel. Este é um erro muito grave. Viver em Veneza ou apenas visitá-la significa que se apaixonam pela própria cidade. Não sobra nada no vosso coração para mais ninguém."
Logo em 1948, enquanto Itália atravessava uma Guerra Civil, expõe a sua coleção na Bienal de Veneza. É a primeira vez que obras de artistas como Pollock, Arshile Gorky (1904-1948) e Rothko são exibidas na Europa. Este ponto aliado à quantidade de obras cubistas, surrealistas e abstratas na coleção, fazem desta exposição uma das mostras modernistas mais coerentes apresentadas no país até então.
Pouco depois, em 1949, organiza uma exposição de escultura contemporânea e, em 1950, a primeira exibição europeia de obras de Pollock.
Em 1962, a cidade nomeia-a Cidadã Honorária de Veneza.
Peggy Guggenheim nunca deixou de comprar obras de arte, apoiando artistas das mais variadas nacionalidades como Edmondo Bacci (1913-1978), Francis Bacon (1909-1992), Kenzo Okada (1902-1982), entre outros.
Este amor e orgulho pela Arte e pela sua coleção fazem com que, em 1951, Peggy decida começar a mostrá-la, bem como a sua casa, ao público.
Em 1969, expõe a sua coleção no museu do tio, em Nova Iorque. A partir daqui, estreita-se a ligação entre os dois mundos, sendo que, em 1970, doa o seu Palazzo e, em 1976, as suas obras à Solomon R. Guggenheim Foundation. Esta Fundação foi criada em 1973 como forma de promover o conhecimento da Arte e estabelecer um ou vários museus.
Max Ernst and Peggy Guggenheim in the gallery ‘Art of This Century’,
New York, ca. 1943, via HuffPost
Peggy Guggenheim morre a 23 de Dezembro de 1979, em Itália.
Após a sua morte, o seu Palazzo tornou-se um dos mais conceituados museus de Arte moderna no mundo: Coleção Peggy Guggenheim.
As obras que reuniu representam o seu gosto e estilo pessoal. Peggy Guggenheim fazia pouca distinção entre a vida pessoal e a profissional, pois, regra geral, os artistas que apoiava e cujas obras expunha se tornaram seus amigos.
Apesar da época em que viveu, Peggy Guggenheim não teve problemas em assumir os seus gostos e intenções, quer no mundo da Arte como no mundo das relações pessoais. Fez o seu caminho como uma mulher livre e descomplicada, dando prioridade ao que a fazia feliz, preocupando-se e ajudando quem assim merecia, sem olhar a meios e ao que os outros poderiam dizer, sendo uma pioneira num mundo que ia reclamando mais espaço para as mulheres. Mesmo tendo um gosto artístico específico e limitado a certas épocas e estilos, viveu a Arte como poucos o fazem.
"Olho para a minha vida com grande alegria. Penso que foi uma vida muito bem sucedida. Sempre fiz o que quis e nunca me preocupei com o que os outros pensavam. Libertação das mulheres? Eu era uma mulher livre muito antes de haver um nome para isso." - Peggy Guggenheim (Daqui)






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