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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

"Nunca me senti em Casa" - Poema de Emily Dickinson



Peggy Guggenheim 
(1898-1979) by Franz von Lenbach, ca. 1903, 
 
 
 
Nunca me senti em Casa 
 
 
Nunca me senti em Casa – Cá em baixo –
E nos Aprazíveis Céus
Não me sentirei em Casa – eu sei –
Eu não gosto do Paraíso –

Porque é Domingo – sempre –
E o Recreio – nunca chega –
E o Éden serão solitárias
Claras Tardes de Quarta feira –

Se, ao menos, Deus fizesse visitas –
Ou Sestas –
E deixasse de nos ver – mas dizem
Que Ele – por um Telescópio

Perpétuo nos olha –
Eu própria fugiria
D’Ele – e do Espírito Santo – e de Todos –
Não fosse o “Juízo Final”!

 
in “Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas”
 (tradução de Cecília Rego Pinheiro) 
 
 
[Emily Dickinson (1830-1886) é considerada a maior poeta norte-americana.Talvez a maior de língua inglesa. Deixou-nos quase dois mil poemas. Poucos conhecemos, em português. Jorge de Sena abriu o caminho às primeiras traduções, já difíceis de encontrar, Cecília Rego Pinheiro acrescentou uma breve recolha ainda disponível na Assírio & Alvim ("Esta É a Minha Carta Ao Mundo e Outros Poemas").] (Daqui)



Peggy Guggenheim 
 

Marguerite “Peggy” Guggenheim nasceu, em Nova Iorque, a 26 de Agosto de 1898, no seio de uma família abastada. Filha de Florette Seligman (1870-1937), pertencente a uma família banqueira de topo, e de Benjamin Guggenheim (1865-1912) que, juntamente com o pai e os seis irmãos, criou fortuna através do trabalho com metais. O seu pai foi uma das vítimas do naufrágio do Titanic, em Abril de 1912.

Outro familiar que é necessário destacar é o tio Solomon Robert Guggenheim (1861-1949), fundador do Museu com o mesmo nome em Nova Iorque. Foi exatamente nessa cidade que Peggy Guggenheim  passou a sua infância e juventude. É em 1921, já casada com Laurence Vail (1891-1968, casam em 1922 e separam-se em 1930; pai dos seus dois filhos) que viaja para a Europa, nomeadamente para Paris. Aqui, desloca-se entre a vida boémia e a sociedade americana expatriada, conhecendo algumas pessoas que se tornariam amigos de longa data, como é o caso de Constantin Brâncuși (1876-1957), Djuna Barnes (1892-1982) e Marcel Duchamp (1887-1968).

É em 1938 que abre a Guggenheim Jeune, uma galeria de arte em Londres. Com 39 anos, dá assim início a uma carreira que vai ter um grande impacto na Arte no pós-guerra.
Amigos como Samuel Beckett (1906-1989) e Duchamp incentivaram Peggy a apostar na Arte Contemporânea, ensinando-lhe a diferença entre os vários estilos e apresentando-a a vários artistas. Nesta galeria, expôs obras de Jean Cocteau (1889-1963),  Wassily Kandinsky (1866-1944), Yves Tanguy (1900-1955), Rita Kernn-Larsen (1904-1998), entre outros. 
 
A primeira obra que Peggy Guggenheim comprou foi Head and Shell (c. 1933) do pintor e poeta alemão  Jean Arp (1886-1966).
É também nestes anos que volta a instalar-se em Paris e aqui começa a ocupar-se a tempo inteiro da compra de obras de arte, adotando o mote: "Comprar uma obra todos os dias e viver de acordo com isso."
Apesar dos tempos conturbados, adquiriu grandes obras de artistas como Georges Braque (1883-1963), Salvador Dalí (1904-1989), Robert Delaunay (1885-1941), Piet Mondrian (1872-1944), Francis Picabia (1879-1953), Fernand Léger (1881-1955) e Brâncuși.

Com o avançar da guerra, pediu ao Musée du Louvre para esconder a sua coleção, algo que lhe foi negado. Tendo nome judeu, viu-se obrigada a ocultá-lo nos serviços alfandegários para conseguir enviar as suas obras como “itens domiciliários” em segurança para Nova Iorque. Assim, não só conseguiu proteger a sua coleção como também os meios de subsistência dos seus artistas considerados “degenerados” pelo 3º Reich.

Só com o aproximar do exército nazi a Paris é que decide fugir para o sul de França e em Julho de 1941 regressa a Nova Iorque com os seus filhos, o seu agora ex-marido, a esposa e filhos dele, e com o pintor Max Ernst (1891-1976), com quem viria a casar pouco tempo depois, divorciando-se mais tarde, em 1946.

Em Outubro de 1942, inaugura Art of This Century, em  Manhattan, New York City, uma galeria com coleção permanente, exposições temporárias e venda de obras, e que cedo se tornou o espaço mais estimulante da arte contemporânea em Nova Iorque, com uma grande inovação ao nível das salas de exposição, com todos os elementos do espaço a relacionarem-se com os estilos e peças aí expostos. Aqui queria mostrar que não tinha preferência entre a Abstração e o Surrealismo, pedindo a colaboração de artistas de ambos os estilos para várias coisas, incluindo a conceção do catálogo. 

Até aqui, a coleção de Peggy Guggenheim ia de 1910 a 1942, numa quantidade limitada, mas bastante forte a nível qualitativo: Cubismo, Futurismo, Orfismo, Abstração Europeia (Suprematismo, Construtivismo, De Stijl), pintura Metafísica, Dadaísmo, Surrealismo, Purismo; com obras de vários artistas como BrâncușiJean Arp, Alberto Giacometti (1901-1966), Henry Moore (1898-1986), Alexander Archipenko (1887-1964), Henri Laurens (1885-1954), etc.

Nesta galeria, para além de expor a sua coleção, usava as exposições temporárias como palco para os grandes nomes da arte europeia, mas também para os artistas americanos emergentes como Robert Motherwell (1915-1991), Mark Rothko (1903-1970), Jackson Pollock (1912-1956), entre outros. 
Pollock  seria exatamente um dos artistas a quem Peggy Guggenheim daria um maior impulso, sendo o primeiro a expor a solo na galeria e cujas obras a colecionadora promovia e vendia ativamente. Foi também ela que comissionou o seu maior Mural (1943). Guggenheim viria a considerar o sucesso do artista americano como uma das suas maiores conquistas. 

Mais importante que dar a conhecer a Arte Europeia, Peggy, juntamente com o amigo e assistente Howard Putzel (1898-1945), era uma grande incentivadora do crescente movimento Avant-Garde, em Nova Iorque. O desenvolvimento deste que foi o primeiro estilo artístico americano vai, por isso, buscar grande força à sua coleção. 

Mal tem oportunidade de regressar à Europa, Peggy escolhe Veneza como destino, viajando rumo à cidade em 1947. Pouco depois da sua chegada, compra o Palazzo Venier dei Leoni, onde acabaria por passar o resto da sua vida. Esta foi a cidade da vida e do coração da colecionadora, que tinha uma visão peculiar sobre a mesma. Entre várias afirmações, podemos destacar:

"Assume-se que Veneza é o local ideal para uma lua-de-mel. Este é um erro muito grave. Viver em Veneza ou apenas visitá-la significa que se apaixonam pela própria cidade. Não sobra nada no vosso coração para mais ninguém."

Logo em 1948, enquanto Itália atravessava uma Guerra Civil, expõe a sua coleção na Bienal de Veneza. É a primeira vez que obras de artistas como PollockArshile Gorky (1904-1948) e Rothko são exibidas na Europa. Este ponto aliado à quantidade de obras cubistas, surrealistas e abstratas na coleção, fazem desta exposição uma das mostras modernistas mais coerentes apresentadas no país até então.
Pouco depois, em 1949, organiza uma exposição de escultura contemporânea e, em 1950, a primeira exibição europeia de obras de Pollock.
Em 1962, a cidade nomeia-a Cidadã Honorária de Veneza. 

Peggy Guggenheim nunca deixou de comprar obras de arte, apoiando artistas das mais variadas nacionalidades como Edmondo Bacci (1913-1978), Francis Bacon (1909-1992), Kenzo Okada (1902-1982), entre outros.
Este amor e orgulho pela Arte e pela sua coleção fazem com que, em 1951, Peggy decida começar a mostrá-la, bem como a sua casa, ao público. 

Em 1969, expõe a sua coleção no museu do tio, em Nova Iorque. A partir daqui, estreita-se a ligação entre os dois mundos, sendo que, em 1970, doa o seu Palazzo e, em 1976, as suas obras à Solomon R. Guggenheim Foundation. Esta Fundação foi criada em 1973 como forma de promover o conhecimento da Arte e estabelecer um ou vários museus.
 
 

 Max Ernst and  Peggy Guggenheim in the gallery ‘Art of This Century’,
New York, ca. 1943, via HuffPost


Peggy Guggenheim morre a 23 de Dezembro de 1979, em Itália.
Após a sua morte, o seu Palazzo tornou-se um dos mais conceituados museus de Arte moderna no mundo: Coleção Peggy Guggenheim
A sua coleção foi desde logo uma das mais proeminentes coleções de Arte Cubista e Surrealista, numa altura em que estes movimentos não eram tidos em grande consideração por outros colecionadores, incluindo o seu tio.
As obras que reuniu representam o seu gosto e estilo pessoal.  Peggy Guggenheim fazia pouca distinção entre a vida pessoal e a profissional, pois, regra geral, os artistas que apoiava e cujas obras expunha se tornaram seus amigos.
Segundo a neta e curadora Karole Vail (n.1959): "A sua vida e a sua coleção de Arte estavam completamente interligadas."

Apesar da época em que viveu, Peggy Guggenheim não teve problemas em assumir os seus gostos e intenções, quer no mundo da Arte como no mundo das relações pessoais. Fez o seu caminho como uma mulher livre e descomplicada, dando prioridade ao que a fazia feliz, preocupando-se e ajudando quem assim merecia, sem olhar a meios e ao que os outros poderiam dizer, sendo uma pioneira num mundo que ia reclamando mais espaço para as mulheres. Mesmo tendo um gosto artístico específico e limitado a certas épocas e estilos, viveu a Arte como poucos o fazem.

"Olho para a minha vida com grande alegria. Penso que foi uma vida muito bem sucedida. Sempre fiz o que quis e nunca me preocupei com o que os outros pensavam. Libertação das mulheres? Eu era uma mulher livre muito antes de haver um nome para isso." - Peggy Guggenheim (Daqui)


Peggy Guggenheim, Venice, April 1969. Photograph: Stefan Moses (daqui)
 
 

Action Painting
 
 
O termo Action Painting qualifica em simultâneo uma técnica pictórica e uma corrente artística associada ao movimento do Expressionismo Abstrato, desenvolvido desde os inícios da década de 1940 nos Estados Unidos da América e na Europa, onde se tornou conhecido por Informalismo.

Enquanto movimento pictórico, a Action Painting é geralmente confundida com o Expressionismo Abstrato, do qual constitui somente uma das tendências formais e estéticas, a par do Color field Painting.

O seu nome resulta do título de um artigo publicado pela revista Art News de dezembro de 1952, "The American Action Painters", escrito pelo poeta e crítico de arte americano Harold Rosenberg (1906-1978). A grande divulgadora desta corrente foi a galerista nova iorquina Peggy Guggenheim  (1898-1979) que, desde 1942, realiza uma série de exposições dos trabalhos destes artistas.

A Action Painting, ou pintura gestualista, tem as suas origens mais diretas no movimento surrealista e no desenho automático, praticado por alguns dos artistas que integravam esta corrente, mais especificamente pelo pioneiro André Masson (1896-1987), famoso pelos trabalhos que realiza em meados da década de vinte, sob influência da psicologia e da psicanálise freudianas e jungianas. A influência deste artista na cultura artística nova iorquina tornou-se particularmente forte após a sua ida para os Estados Unidos em 1941.

Mais especificamente, o termo Action Painting aplica-se ao trabalho de poucos pintores, todos saídos do período da pós-depressão nos Estados Unidos, como Jackson Pollock e o seu discípulo Hans Hofmann (1880-1966) cujos trabalhos revelam, desde os anos 40, a preferência pela pintura através do dripping, técnica que consistia em deixar pingar a tinta sobre uma tela, geralmente de grande dimensão, colocada na horizontal sobre o chão. Pode também ser incluída nesta tendência parte da obra dos americanos Arshile Gorky (1904-1948) e de Robert Motherwell (1915-1991).

Estes artistas apresentam como denominador comum o entendimento do quadro como um palco para a ação artística. A pintura, sempre abstrata, realiza-se através de amplos gestos (que adquirem o carácter de coreografias), procurando salientar a intensidade e intencionalidade estética contida no ato de pintar. É precisamente esta ação livre e sem obstáculos intelectuais e não tanto o seu produto final (uma imagem constituída por linhas, manchas, cor e forma), aquilo que deve ser comunicado ao público. Raramente são realizados estudos prévios, considerados aniquiladores do processo de desenho automático de cariz espontâneo.

Tendo tido um desenvolvimento mais forte nos Estados Unidos, em torno da chamada Escola de Nova Iorque, a Action Painting produziu ecos na Europa do pós-guerra. Em França, influenciou, em alguns aspetos, o movimento informalista e o Tachismo, como o demonstra a linguagem sígnica instantânea e de grande expressividade do pintor Georges Mathieu . Na Alemanha destaca-se o trabalho dos pintores Fred Thieler e Karl Otto Götz (que levam o automatismo e o instinto a um limite máximo) e o Grupo Zen, criado em Munique, que retoma o método e técnicas pictóricas de Jackson Pollock. Em Itália, salienta-se a atividade do grupo de artistas denominado "Movimento Arte Nucleare".
A Action Painting foi precursora de alguns movimentos posteriores, como a Arte Processual dos anos 70. (Daqui)
 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

"O Instante" - Poema de Haroldo de Campos


O Instante

o instante
é pluma

seu holograma
radia estável

como quem olha pelo cristal
do tempo

feixe fixo
de luz

(já não se vê se o olho deixa sua seteira)
prisma

o sol
chove
de um teto
zenital

elipse: um estilo de persianas 


Haroldo de Campos,
Signantia: Quasi Coelum / Signância: Quase Céu
São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 35. (Signos, 7).
 
["Signantia: Quasi Coelum / Signância: Quase Céu"  é  uma reunião de poemas de Haroldo de Campos, lançada no ano de 1979 em comemoração aos 50 anos de idade do poeta e de seus 30 anos de carreira literária. O livro ganha corpo com o ensaio interpretativo de João Alexandre Barbosa e os estudos críticos de Severo Sarduy, Andrés Sánchez Robayna e Benedito Nunes acerca da vasta e rica obra do autor.]

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

"Guerra & Paz" - Poema de Gil de Carvalho



Max Ernst, The Fireside Angel  (The Triumph of Surrealism) / L’ange du foyer
(Le triomphe du surréalisme), 1937.
Oil on canvas, 114 cm x 146 cm.
Private collection

 
[Max Ernst, pintor e escultor alemão, nascido em 1891 e falecido em 1976, foi um dos defensores da irracionalidade na arte. Esteve associado à corrente dadaísta. Dentro desta orientação estética, levou a cabo várias experiências técnicas, como a colagem e a foto-montagem. Foi também um dos criadores do Surrealismo.] (daqui)


Guerra
& Paz



Pedidos sacrifícios, as imagens
Foram trazidas na maré, enxutas.
Treme a escada torpe, e o cão ladra -
São os antepassados, fixos,
Na água das janelas.
Que podemos fazer, o fumo
Entra nas casas é preciso
Uma porta que nos leve ao mar.


Gil de Carvalho

De Fevereiro a Fevereiro,
Lisboa: Centelha, 1987


[Gil de Carvalho (1954, Lisboa) é um escritor, poeta, crítico literário, sinólogo, tradutor e autor de várias obras, incluindo “Uma Antologia de Poesia Chinesa”, publicada em 1989. O livro abarca vários séculos, começando com o Shijing (Livro dos Cantares), considerado o clássico da poesia chinesa, integrando ainda a colecção Chuci (Canções de Chu), datada de cerca de 300 a.C., e obras de poetas da Dinastia Tang, como Du Fu, Li Bai e Wang Wei, continuando até ao século XVIII.

“Os poemas foram transpostos a partir do original, mas com recurso – no meu caso indispensável – a pelo menos uma tradução em línguas ocidentais”, escreveu Gil de Carvalho numa introdução à obra. O autor lançou também em 2004 “Poemas Anónimos – Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos”.] (Daqui)

 

sábado, 29 de agosto de 2015

"Na Floresta do alheamento" - Texto de Bernardo Soares (Heterónimo de Fernando Pessoa)


[Forest and Dove (1927) é um quadro do pintor surrealista, Max Ernst. Mostra uma cena nocturna de uma floresta com árvores bizarras e abstractas. No meio da floresta encontra-se a representação de uma pomba como feita por uma criança. Quer a floresta quer a pomba aparecem várias vezes nos trabalhos de Ernst. De acordo com uma análise da Tate Gallery, em Londres, a imagem da floresta representa a floresta que existia perto da casa de infância do autor, que lhe inspiraria um sentimento de encantamento e terror. A mesma análise indica que a pomba representa o autor. Este quadro tem uma textura e aparência tridimensional fortes. Isto é devido a uma técnica denominada grattage. Esta ténica foi inventada por Ernst e pelo pintor surrealista Joan Miró.] (Daqui)



Na Floresta do alheamento


        Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda...
        Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê...
Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.
Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há-de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.
Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...
Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.
Que nítida de outra e de ela essa trémula paisagem transparente! ...
E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?... Eu nem sei querê-lo saber...
A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem..., e a essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores e aquelas flores e aquelas vias em desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver...
De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou actual, destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de nocturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só ela a paisagem daquele outro mundo...
Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma no horizonte dessa terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível...
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome... Uma grande ânsia passiva é a vida falsa que me estreita...
Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém que não existe...
Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta tão aqui ante outros olhos meus!
E eu, que longe dessa paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades dela, é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro.
As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!...
Passeávamos às vezes, braço dado, sob os cedros e as olaias e nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhares perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...
No nosso jardim havia flores de todas as belezas... — rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoilas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros, miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.
Nós roçávamos a alma toda vista pelo fresco visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes, o éramos...
Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes... Plátanos estacavam... E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam no silêncio das latadas os cachos negrejantes das uvas...
O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...
Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às coisas que existem?...
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena...
O movimento parado das árvores: o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo à alma, do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada — tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente.
Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do Tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade do espaço... Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!... Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa... E nós não nos perguntávamos para que era aquilo, porque gozávamos o saber que aquilo não era para nada.
Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la ela estranho como um perfil da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal...
Orlas de mares desconhecidos tocavam no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e comandados da Terra.
Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós do que a consciência de o ouvirmos.
E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais...
Ali vivemos horas cheias de um outro sentimo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza rectângula da vida. Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias...
E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era húmida da pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto...
Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.
O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro. A nossa atenção sonolenta ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastado num cerimonial no crepúsculo.
Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido pela nossa inércia alada.
Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa ideia do nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vem-nos de muito longe, como a nossa ideia de haver a nossa vida...
Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. O frescor aquecido do lençol acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro, nus.
Desenganemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós... Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...
E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge de diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa ideia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que essa floresta misteriosa enquadra...
As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia, não nelas mas na melodia dos seus nomes... Flores cujos nomes eram, repetidos em sequência, orquestras de perfumes sonoros... Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como eram chamadas... Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua polpa... Sombras que eram relíquias de outroras felizes... Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos mais francos da paisagem que se bocejava em próxima... Ó horas multicolores!... Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo estagnado em espaço, tempo morto de espaço e coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de flores!...
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!...
A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas — de realidade que era, a ilusão — assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...
Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer soluçar...
Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto...
E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma... Não tínhamos vida que a Morte precisasse para matar. Éramos tão ténues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira.
Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizara-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos...
E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparámos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser...
Zumbe uma mosca, incerta e mínima...
Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza sossobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece...
A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora...
Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos...
Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não desejemos...
Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição...
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
  - 251.
"Fase decadentista", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986. (Daqui)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

"Frustração" - Poema de Miguel Torga


Max Ernst, Oedipus Rex, 1922
 
 
 
Frustração


Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.


Miguel Torga, in 'Diário XV' 



Galeria de Max Ernst
Max Ernst, Fruit of a Long Experience, 1919


Max Ernst, The Wavering Woman, 1923


Max Ernst, Ubu Imperator, 1923


Max Ernst, The Postman Cheval, 1932