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sábado, 21 de fevereiro de 2026

"Lê, são estes os nomes das coisas que deixaste" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Georg Schrimpf
(German painter and graphic artist, 1889–1938),
"Martha", 1925, Pinakothek der Moderne, Munique.



Lê, são estes os nomes das coisas


Lê, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.


Maria do Rosário Pedreira,
in "Nenhum Nome Depois", Gótica, 2004;

in "Poesia Reunida", Quetzal, 2012.
 


Georg Schrimpf, Girl with mirror, 1930. Watercolor, 29 x 25 cm,
Private collection.
 

"O rosto é o espelho da alma." 

Cícero
(106 – 43 a.C.), in "De Oratore"

 

terça-feira, 14 de maio de 2024

"O Edital" - Poema de Augusto Gil



Karl Witkowski (Polish-American painter, 1860–1910), Boy with an Apple.
 

O Edital


Manuel era um petiz de palmo e meio
(Ou pouco mais teria, na verdade)
(De rosto moreninho e olhar cheio)
De inteligente e enérgica bondade.

Orgulhava-se dele o professor...
No porte e no saber era o primeiro.
Lia nos livros que nem um doutor.
Fazia contas que nem um banqueiro...

Ora uma vez ia o Manuel passando
Junto ao adro da igreja. Aproximou-se
E viu à porta principal um bando
De homens a olhar o que quer que fosse.

Empurravam-se todos em tropel
Ansiosos por saberem, cada qual,
O que vinha a dizer certo papel
Pregado com obreias no portal...

"Mais contribuições!" Supunha um.
"É pràs sortes, talvez"... outro volvia.
Quantas suposições! Porém nenhum
Sabia ao certo o que o papel dizia.

Nenhum (e eram vinte os assistentes)
Sabia ler aqueles riscos pretos.
Vinte homens, e talvez inteligentes,
Mas todos, que tristeza — analfabetos!...

Furou Manuel por entre aquela gente
Ansiosa, comprimida, amalgamada,
Como uma formiguinha diligente
Por um maciço de erva emaranhada.

Furou e conseguiu chegar adiante.
Ergueu-se nos pezitos para ver;
Mas o edital estava tão distante,
Lá tanto em cima, que o não pôde ler.

Um dos do bando agarrou-o então
E levantou-o com as mãos possantes
E calejadas de cavarem pão...
Houve um silêncio entre os circunstantes.

E numa clara voz melodiosa
A alegre e insinuante criancinha
Pôs-se a dizer àquela gente ansiosa,
Correntemente o que o edital continha.

Regressava o abade do passal,
A caminho da sua moradia.
Como já era idoso e via mal,
Acercou-se para ver o que haveria...

E deparou com esse quadro lindo
De uma criança a ler a homens feitos;
De um pequenino cérebro espargindo
Luz naqueles cérebros imperfeitos...

Transpareceu no rosto ao bom abade
Um doce e espiritual contentamento;
E a sua boca, fonte de verdade.
Disse estas frases com um brando acento:

Olhai amigos, quanto pode o ensino...
Sois homens; alguns, pais, e até avós,
Pois só por saber ler, este menino
— É já maior do que nenhum de vós!
 

Augusto Gil
, in "Versos", 1898
 
 
Karl Witkowski, Happy Days, 1909


"A alma das crianças é um espelho em que se retrata a natureza."

Cícero, citado em "Cintilações" - página 56, Sabino Lino Conte - 
Editora F.T.D., 1966 - 158 páginas. 


Karl Witkowski, Guarding The Flower Basket.
Private Collection, New York.



"É vergonhoso insultar uma criança. Ela tem sentimentos, tem sua pequena dignidade e como não pode se defender com isso, é sem dúvida um ato ignóbil ferir tais sentimentos."

Mark Twain,
"Dicas uteis para uma vida futil: Um manual para a maldita raça humana" -
Página 128, Relume Dumará, 2005 - 224 páginas.
 
 
Mark Twain, "Dicas úteis para uma vida fútil:
Um manual para a maldita raça humana." 
 
 
RESUMO
 
"Dicas úteis para uma vida fútil: Um manual para a maldita raça humana." 

Irreverente, charmoso, com um texto adequado para ser muito citado, este manual (um excêntrico guia de etiqueta para a raça humana) contém sessenta e nove aforismos, casos, propostas esquisitas, máximas e advertências de Mark Twain tirados de seus escritos pessoais e publicados. O autor aconselha refletir sobre a vida familiar e as boas maneiras em público; opina sobre roupa, saúde, comida, educação de filhos e proteção da casa, além de temas mais específicos como a melhor maneira de lidar com vendedores e ladrões. Os textos foram selecionados das cartas de Twain, escritos autobiográficos, discursos, romances e diálogos e são deliciosamente novos, irónicos, muito pertinentes e plenos da efervescência característica do autor. Também nos mostram exatamente porque Mark Twain se tornou a mais conhecida voz literária americana no mundo. (daqui)
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"A Alma do Vinho" - Poema de Charles Baudelaire


Ivar Kamke (Swedish painter, 1882 – 1936), Drinking men, 1920


A Alma do Vinho


Nas garrafas cantou, uma noite, a alma do vinho:
“Homem, pra ti exalo, ó caro deserdado,
Nesta prisão de lacre vermelho e de vidro,
Um canto cheio de luz e de fraternidade!

“Sobre a colina em fogo, sei quanto é preciso
De esforço, de suor e de sol bem ardente
Pra me engendrar a vida e me criar o espírito;
Porém, não quero ser ingrato ou malevolente,

“Porque imensa alegria sinto ao ir caindo
Na goela de um homem gasto plo trabalho
E o seu peito quente é um sepulcro suave
Que me agrada bem mais do que as adegas frias.

“Não ouves ressoar os refrãos domingueiros
E no meu peito ansioso a esperança a gorjear?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Irás glorificar-me e estarás satisfeito;

“Da tua esposa encantada acenderei os olhos;
Devolverei a força e as cores ao teu filho
E serei pra tão frágil atleta da vida
O óleo que enrijece aos lutadores os músculos.

“Em ti hei de cair, vegetal ambrosia,
Precioso grão que sempre o eterno Semeador
Lança, pra que do nosso amor nasça a poesia
Que brotará pra Deus como uma rara flor!” 


Charles Baudelaire
,
in As Flores do Mal, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992.
Tradução de Fernando Pinto do Amaral



Ivar Kamke (Swedish painter, 1882 – 1936), Italian Farmers, 1910 


O Vinho
(Citações)


“Embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia e com virtude.”
Charles Baudelaire (1821 - 1867)

“Deus apenas fez a água, mas o homem fez o vinho.”
Victor Hugo (1802 - 1885)

“A vida é como o vinho: se a quisermos apreciar bem, não devemos bebê-la até à última gota.”
Lord Byron (1788 - 1824)

“O vinho, quanto mais envelhece mais calor ganha; pelo contrário, a nossa natureza quanto mais vive, mais vai esfriando.”
Félix Lope de Vega (1562 - 1635)


Photo by: Stefan Krause, Germany, Vinho (daqui)


“Os vinhos são como os homens: com o tempo os maus azedam e os bons apuram.”

Cícero (106 a.C - 43 a.C)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"A Alma do Ganhão" - Poema de Rosa Lobato Faria


Alentejo, Monte do Azinhal, Lavre, Momtemor-o-Novo


A Alma do Ganhão 


Ó terra morena deitada ao sol
Quero ser a alma do ganhão 
Cheia de horizonte, cântico de fonte 
Catedral de trigo, azeite e pão 

Ó terra morena deitada ao sol 
Quero ser a alma da cegonha 
Que sobe no vento e ouve o lamento 
Do homem que ao sul, trabalha e sonha 

Alentejo das casas de cal 
Alentejo do sobo e do sal 
Alentejo poejo, alecrim 
Alentejo das terras sem fim 

Ó terra morena deitada ao sol 
Quero ser a alma do sobreiro 
Estática, selvagem, dona da paisagem 
Afrontando o tempo a corpo inteiro.





AVES

Águia d'asa redonda (Buteo buteo)

Cartaxo-comum (Saxicola 

Cegonha-branca (Ciconia ciconia)

Chamariz (Serinus serinus)

Chapim-real (Parus major)

Corvo-marinho-de-faces-brancas (Phalacrocorax carbo)

Ferreirinha-comum (Prunella modularis)

Fuinha-dos-juncos (Cisticola juncidis) 

Galeirão-comum (Fulica atra)

Guarda-rios (Alcedo atthis) 

Guarda-rios (Alcedo atthis)

Guarda-rios (Alcedo atthis)

Híbrido (Pato-real x Pato-mudo)

Merganso-grande (Mergus merganser)

Mocho-galego (Athene noctua) 

Mocho-galego (Athene noctua)

Pega-rabuda (Pica pica)

Pega-rabuda (Pica pica)

Perdiz-comum (Alectoris rufa)

Perna-verde-comum (Tringa nebularia) 

Perna-verde-comum (Tringa nebularia)

Piadeira-do-chile (Anas sibilatrix)

Picanço-barreteiro (Lanius senator)

Pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula)

Poupa (Upupa epops)

Rola-do-mar (Arenaria interpres)

Tartaranhão-caçador (Circus pygargus) melânico

Verdilhão (Carduelis chloris) 

Verdilhão (Carduelis chloris)


"Não basta adquirir sabedoria; é preciso, além disso, saber utilizá-la." 
 
(Cícero)

domingo, 6 de maio de 2012

"As imagens transbordam fugitivas" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Ivan Kramskoi, Forest Path, 1870
 

As imagens transbordam


As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?


de Dia do Mar, 1947, em Obra Poética I
Caminho, 2ª edição, 1996


 

"Não existe ocupação tão agradável como o saber; o saber é o meio de nos dar a conhecer, ainda neste mundo, o infinito da matéria, a imensa grandeza da Natureza, os céus, as terras e os mares.
O saber ensinou-nos a piedade, a moderação, a grandeza do coração; tira-nos as nossas almas das trevas e mostra-nos todas as coisas, o alto e o baixo, o primeiro, o último e tudo aquilo que se encontra no meio; o saber dá-nos os meios de viver bem e felizmente; ensina-nos a passar as nossas vidas sem descontentamento e sem vexames." 

Cícero, de 'Disputas Tusculanas'


 

"Assim como gosto do jovem que tem dentro de si algo do velho, gosto do velho que tem dentro de si algo do jovem: quem segue essa norma poderá ser velho no corpo, mas na alma não o será jamais.

(Cícero)

Imagem daqui: http://delagoabayword.wordpress.com/

Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius Cicero (Arpino, 3 de Janeiro de 106 a.C. — Formia, 7 de Dezembro de 43 a.C.), foi um filósofo, orador, escritor, advogado e político romano. Cícero é normalmente visto como sendo uma das mentes mais versáteis da Roma antiga. Foi ele quem apresentou aos Romanos as escolas da filosofia grega e criou um vocabulário filosófico em Latim, distinguindo-se como um linguista, tradutor, e filósofo. Um orador impressionante e um advogado de sucesso, Cícero provavelmente pensava que a sua carreira política era a sua maior façanha. Hoje em dia, ele é apreciado principalmente pelo seu humanismo e trabalhos filosóficos e políticos. A sua correspondência, muita da qual é dirigida ao seu amigo Ático, é especialmente influente, introduzindo a arte de cartas refinadas à cultura Europeia. Cornelius Nepos, o biógrafo de Ático do século I a.C., comentou que as cartas de Cícero continham tal riqueza de detalhes "sobre as inclinações de homens importantes, as falhas dos generais, e as revoluções no governo" que os seus leitores tinham pouca necessidade de uma história do período.

Durante a segunda metade caótica do século I a.C., marcada pelas guerras civis e pela ditadura de Júlio César, Cícero patrocinou um retorno ao governo republicano tradicional. Contudo, a sua carreira como estadista foi marcada por inconsistências e uma tendência para mudar a sua posição em resposta a mudanças no clima político. A sua indecisão pode ser atribuída à sua personalidade sensível e impressionável: era propenso a reagir de modo exagerado sempre que havia mudanças políticas e privadas. "Oxalá que ele pudesse aguentar a prosperidade com mais auto-controlo e a adversidade com mais firmeza!" escreveu C. Asínio Pólio, um estadista e historiador Romano seu contemporâneo.


Ivan Kramskoi, Reading, 1863
 

"Uma casa sem livros é como um corpo sem alma."

(Cícero)

Ivan Kramskoi, Woman with an umbrella in the grass midday, 1883
 

"As letras são o alimento da juventude, a paixão da idade madura e a recreação da velhice; dão-nos brilho na prosperidade, e são uma consolação, um recurso no infortúnio; fazem as delícias do gabinete, e não embaraçam em nenhuma situação da vida; de noite servem-nos de companhia, e vão connosco para o campo e em viagem."
(Cícero)

Ivan KramskoiPortrait of a Lady (also known as Actress M. G. Savina), 1880
 

"A dedicação contínua a um objectivo único consegue frequentemente superar o engenho." 

(Cícero)

 

"Não há nada mais gratificante do que o afecto correspondido, nada mais perfeito do que a reciprocidade de gostos e a troca de atenções."

(Cícero)