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sábado, 18 de maio de 2024

"A Palavra Destino " - Poema de Lindolf Bell


Albert Bierstadt (German American painter, 1830–1902), Emigrants Crossing the Plains, 
or The Oregon Trail, 1869. [This painting was likely inspired by the 1863 expedition.]
 

A Palavra Destino


Deixai vir a mim
a palavra destino.

Manhã de surpresas, lascívia e gema.
Acasos felizes, deslizes.
Ovo dentro da ave dentro do ovo.
Palavra folha e flor.

Deixai vir a mim palavra
e seus versos, reversos:
metamorfose,
metaformosa.

Deixai vir a mim
a palavra pão-de-consolo.
Livre de ataduras, esparadrapos,
choques elétricos
e subtis guardanapos em seco engolidos socos.

Deixai vir a mim
a palavra intumescida pelo desejo
a palavra em alvoroço subtil, ardil
e ave na folhagem da memória.
A palavra estremecida entre a palavra.
A palavra entre o som
mas entre o silêncio do som.

Deixai vir a mim
a palavra entre homem e homem.
E a palavra entre o homem
e seu coração posto à prova
na liberdade da palavra coração.

Deixai vir a mim
a palavra destino.


Lindolf Bell, in "O Código das Águas”.
 1ª ed., São Paulo: Global editora, 1984.
 
 
Lindolf Bell (daqui)


Biografia do Poeta
 
Lindolf Bell, filho de Theodoro e Amália Bell, nasceu na cidade de Timbó, Santa Catarina, em 2 de novembro de 1938.
Foi de seus pais que herdou a clareza dos poemas, que mesmo produzidos na urbanidade, conservaram elementos da vida agrária. Os pais do poeta eram lavradores, porém, com um grande sentimento e conhecimento de mundo, o que definitivamente ficou enraizado em sua vida e suas obras.
Lindolf Bell foi reconhecido nacional e internacionalmente através da sua liderança no Movimento Catequese Poética, que levou acesso à poesia e à arte a milhares de pessoas. 
Era um homem que abrigava o mundo no coração, que amava os girassóis, que via tudo como missão, encarando a palavra como uma dádiva e fazendo dela um instrumento de comunhão e solidariedade. Lindolf Bell é o maior, o mais constante e importante nome da poesia catarinense.
Bell casou-se com a reconhecida artista plástica Elke Hering, com quem teve três filhos: Pedro, Rafaela e Eduardo Bell.
Após difundir seu movimento pelo Brasil e no exterior, Bell fixou moradia em Blumenau (SC). Na cidade, juntamente com a esposa Elke Hering e os amigos Péricles e Arminda Prade, criou a Galeria Açu-Açu, a primeira do Estado de Santa Catarina.
Bell também foi contador, professor, crítico de artes, conselheiro estadual da cultura do Estado de Santa Catarina e marchand (promotor de eventos relacionados à arte).
Foi um nome ligado à invenção lógica, à ousadia, à uma capacidade mágica. Seguindo seus impulsos, rompeu as amarras que prendiam a poesia, tornando e exigindo o contacto direto com o leitor. Bell também difundiu suas ideias através de painéis-poemas, corpoemas.
Se o ofício do poeta é redescobrir a palavra, como dizia o autor de As Vivências Elementares, nosso ofício é o de redescobrir o poeta, através de suas palavras, tais como aquelas presentes na Metafísica Cotidiana: “procuro a palavra-palavra a palavra fóssil, a palavra antes da palavra”.
Bell amava a terra e tudo o que dela vinha. Mergulhando no drama da humanidade, a sua poesia mantinha-se vibrante. Tratava sempre da vida, da terra, da infância, do destino, da solidão, do efémero, do transcendente, do sonho e da esperança. 
“Todas as coisas que me rodeiam são raízes. A jabuticabeira que deve ter quase cem anos, a caramboleira, os baús, os móveis e todos os objetos antigos não são uma forma triste de memória mas uma afirmação de que, num crescimento espiritual, num crescimento humano não podemos jogar nada pela janela ou no lixo. Não podemos jogar fora as raízes - elas nos preservam e elas se preservam connosco, na memória ou dentro da terra, seja onde for, mas elas também nos projetam porque, à medida que elas se preservam na terra, elas crescem e fazem a gente crescer, como uma árvore. O homem é uma árvore que abriga amores, lembranças, outros seres, uma árvore que dá sombra e luz, e é para isso que a gente nasceu, fundamentalmente. Isso eu aprendi, é claro convivendo com meus pais e também com os vizinhos, que tinham maneiras semelhantes de viver e conviver, maneiras simples mas definitivas”, disse Bell em uma entrevista à Fundação Cultural Catarinense (FCC). E é isso que se pretende preservar e que busca-se vislumbrar na Casa do Poeta Lindolf Bell. 
Bell veio a falecer em 10 de dezembro de 1998. Mas um poeta não morre; pois a vida dos poetas é eterna. Bell colocou um pouco de si em cada palavra que escreveu e, embora seu corpo tenha ido, sua vida continuará espalhada eternamente pelas páginas dos seus livros, na magia de suas palavras e pelo legado cultural que deixou. (daqui)
 

sábado, 22 de novembro de 2014

"Brutos penhascos, rústicas montanhas" - Poema de Abade de Jazente


Brooklyn Museum, New York.


Brutos penhascos, rústicas montanhas


Brutos penhascos, rústicas montanhas,
Medonhos bosques, hórrida maleza,
Que me vedes, coberto de tristeza,
Saudoso habitador destas campanhas.

Para me suavizar mágoas tamanhas,
Alteremos um pouco a Natureza;
Civilize meu mal vossa dureza,
Barbarizai-me vós estas entranhas.

Meu pranto vos comova algum afeto
De branda compaixão; pois da impiedade
Encontra sempre em vós um duro objeto.

Pode ser, que com esta variedade,
Seja mais agradável vosso aspeto,
Sinta eu menos cruel minha saudade.


In Poesias de Paulino Cabral de Vasconcelos, Abbade de Jazente (Vol. I), 1786



 Birmingham Museum of Ar.


"A felicidade é qualquer coisa que depende mais de nós mesmos do que das contingências e das eventualidades da vida."



quarta-feira, 12 de março de 2014

"Romance sonâmbulo" - Poema de Federico Garcia Lorca



Albert Bierstadt (German American painter, 1830 –1902), White Horse and Sunset, c. 1863.
Romance sonâmbulo


Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra na cintura,
ela sonha na varanda
verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Debaixo da lua cigana,
as coisas a estão olhando
e ela não pode olhá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
vêm com o peixe de sombra
que abre o caminho da alba.
A figueira arranha o vento
com a lixa de seus ramos
e o monte, gato matreiro,
eriça suas fibras acres.
Mas quem virá? e por onde?
Ela continua na varanda,
verde carne, cabelo verde,
sonhando no mar amargo.

- Compadre, quero trocar
meu cavalo por sua casa,
meu arreio pelo espelho,
minha faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde os portos de Cabra.
- Se eu pudesse, seu moço,
este trato se fechava.
Mas eu já não sou eu
nem já é minha a minha casa.
- Compadre, quero morrer
decentemente em minha cama.
De arma branca, pode ser,
com os lençóis de cambraia.
Não vês a ferida que tenho
do peito até a garganta?
- Trezentas rosas morenas
leva teu peitilho branco.
Teu sangue respinga e cheira
ao redor de tua faixa.
Mas eu já não sou eu.
Nem já é minha a minha casa.
- Deixai-me subir ao menos
até as altas varandas:
deixai-me subir!, deixai-me
até as verdes varandas!
Avarandados da lua
por onde estronda a água

Já sobem os dois compadres
até as altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremulavam nos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde.
Vento verde. Verdes ramos.
Os dois compadres subiram.
O longo vento deixava
na boca um gosto raro
de fel, de menta e alfavaca.
- Compadre! Onde está, dize-me?
Onde está tua menina amarga?
- Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
de cara alegre, negras tranças,
nesta verde varanda!

Sobre a boca da cisterna
a cigana tremia.
Verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
O gelo da lua, em pedaços,
ampara-a sobre a água.
A noite se tornou íntima
como uma pequena praça.
Guardas civis bêbados
na porta golpeavam.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.


Federico García Lorca
Tradução de Salomão Sousa


Albert Bierstadt, Mountain Resort, 1859


Albert Bierstadt, Indian Camp, 1859


segunda-feira, 17 de junho de 2013

"Da Natureza do Mistério" - Texto de François René de Chateaubriand


Albert Bierstadt, Sierra Nevada, 1873



Da Natureza do Mistério 


«As coisas misteriosas são o que há de mais belo, grandioso, e doce na existência. Os mais maravilhosos sentimentos são os que nos agitam com certa confusão: pudor, amor casto, amizade virtuosa, rescendem misterioso perfume. Dirieis que os corações amantes com meias palavras se compreendem e se franqueiam. A inocência, santa ignorância, não é por si o mais inefável dos mistérios? Exulta a infância porque tudo ignora; amisera-se a velhice porque tudo sabe: felizmente para ela, principiam os mistérios da morte onde fenecem os da vida. Dá-se nos afetos o que se dá nas virtudes: as mais angélicas são as que, derivadas imediatamente de Deus, à maneira da caridade, folgam de esconder-se à vista, como a origem delas.» 


François-René de Chateaubriand, in 'O Génio do Cristianismo'


Albert Bierstadt, Yosemite Valley Sunset


 Albert Bierstadt, Valley of the Yosemite


Albert Bierstadt, Sea Lions Farallon Islands, ca 1878 


Albert Bierstadt, Seal Rocks San Francisco, 1872


Albert Bierstadt, Seal Rock California


Albert Bierstadt, Seal Rocks on Pacific Coast California


Albert Bierstadt, Seals


Albert Bierstadt, Lake Scene


Albert Bierstadt, Salmon Fishing on the Cascapediac River



Albert Bierstadt, Fishing Boats at Capri, 1857



Albert Bierstadt, A view in the Bahamas


"Ondas de Solidão" - Texto de Eça de Queirós


Albert Bierstadt, The Shore of the Turquoise Sea, 1878


Ondas de Solidão


«Se possuísse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas, que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam decerto em torno do rochedo de Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, o modelo lamentável e clássico da solidão.» 
 

Eça de Queirós, in 'Correspondência'


 [Albert Bierstadt (1830-1902) was a German - American painter best known for his lavish, 
sweeping landscapes of the American West.]


Albert Bierstadt, Beach at Nassau


Albert Bierstadt, Storm in the Mountains, c. 1870


Albert Bierstadt, Yosemite Valley, Yosemite Park, c.1868


Albert Bierstadt, Mount Corcoran, 1876-77


Albert Bierstadt, Staubbach Falls, Near Lauterbrunnen, Switzerland, 1865


Albert Bierstadt, Yosemite Valley, Yosemite Park, c.1868


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

"Se um dia a juventude voltasse" - Poema de Al Berto



Albert Bierstadt (German-American painter, 1830–1902), California Spring, 1875. 
 

Se um dia a juventude voltasse 


Se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projetos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição.


Al Berto, “Rumor dos Fogos”
Assirio & Alvim, 1983



Albert Bierstadt, In the Foothills



Albert Bierstadt, On the Saco


"Não há nada que esteja menos sob o nosso domínio que o coração, e, longe de podermos comandá-lo, 
somos forçados a obedecer-lhe."

(Jean Jacques Rousseau)


Nickelback - Photograph