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segunda-feira, 14 de julho de 2025

"O elefante" - Poema de Carlos Drummond de Andrade

Amrita Sher-Gil (Hungarian–Indian painter, 1913–1941), 
 'Two Elephants', 1940.
 
 
O elefante

 
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.


Carlos Drummond de Andrade
,
in "A rosa do povo", 1945.
 

segunda-feira, 2 de junho de 2025

"Oração do camelo" - Poema de Carmen Bernos de Gasztold



Amrita Sher-Gil 
(Hungarian–Indian painter, 1913–1941), 
Camels, 1941, National Gallery of Modern Art, New Delhi.
 

Oração do camelo

 
Senhor,
não te ofendas.
Não há nada como o orgulho
contra a sede, as miragens,
e as tempestades de areia!

E eu devo dizer
que para enfrentar e ultrapassar
estes áridos dramas do deserto,
duas bossas
não são demasiado,
nem tão pouco um lábio arrogante.

Algumas pessoas criticam
as minhas quatro patas,
as nodosidades das minhas articulações,
mas como é que faria
com tacões altos,
para atravessar tantos países,
tantos sonhos inconstantes,
e proteger a minha dignidade?

O meu coração atormenta-se
com os gritos dos chacais e das hienas,
com o silêncio ardente,
com a magnitude das suas estrelas frias.

Dou-te graças, Senhor,
por este meu reino,
espaçoso como os meus sonhos
e a largura dos meus passos.

Carregando a minha realeza
na curva aristocrática do meu pescoço
de oásis para oásis,
um dia será que vou encontrar de novo
a caravana dos magos
e as portas do Teu paraíso?


Carmen Bernos de Gasztold
Tradução de Jorge de Sousa Braga, in "Animal Animal", 
Assírio & Alvim, fev. 2005, página 48.



"Animal Animal - Um Bestiário Poético" 
de Jorge Sousa Braga
Edição/reimpressão: 09-2011
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE

Quantos animais (para além de nós) existirão à face da terra? Ninguém é capaz de responder a esta questão. Só sabemos que são inumeráveis como as estrelas do céu. Muitos de nós vivem como se eles não existissem. Contudo, somos companheiros de viagem. E simultaneamente o produto dessa viagem. A maioria deles partiu muito antes de nós. Só muito recentemente nos juntámos a eles. O nosso futuro e o deles são indissociáveis. A nossa história conjunta é uma história de fascínio e de repulsa, de extermínio e de amor.
Os primeiros poemas sobre animais são provavelmente tão velhos como a própria poesia. Há um poema dos «inuit» que fala de um tempo em que as palavras eram mágicas e em que os homens se podiam transformar em animais e os animais em homens. Todos eles falavam a mesma linguagem. Com o passar dos milénios perdemos essas capacidades. Já não nos podemos transformar em animais (e vice-versa) e as palavras deixaram de ser mágicas. Passaram a ser apenas palavras e a magia uma palavra entre elas. […]
Um provérbio japonês diz que «todo o animal, até o mais pequeno, tem uma alma». Procurei os poemas em que se podia ver essa «alma». Espero que ela seja também percetível a olhos desabituados. – Jorge de Sousa Braga (daqui)