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sábado, 24 de maio de 2025

"Procissão" - Poema de Gilberto Gil

 

Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961),
 A Procissão (La Procession), 1939.


Procissão 


Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu coisa melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver

Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na Terra isto tem que se acabar


Gilberto Gil
, 1964
 

terça-feira, 13 de maio de 2025

"A Cidade e a Aldeia" - Poema de Abílio Mesquita


Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961), 
Aldeia portuguesa, 1938.
 
 
A cidade e a aldeia

 
Cidade - Quem és tu, assim tão simples?
 
Aldeia - E tu, quem és a final?
 
Cidade - A nobreza da Cidade.
 
Aldeia - Aldeia de Portugal.

Cidade - Tenho lindas pedrarias,
Joias mil de muitas cores...
 
Aldeia - E eu tenho maior riqueza
Nas minhas tão lindas flores...
 
Cidade - Tenho risos, alegrias
Divertimentos constantes.

Aldeia - Tenho a música dos ninhos
 E canções inebriantes.

Cidade
- Tenho luz de noite a jorros,
E não me levas a palma.
 
Aldeia - Tenho o Sol durante o dia,
De noite a luz da minha alma...
 
Cidade - Vivo em palácios vistosos
Que abundam pela Cidade.
 
Aldeia - E eu num casebre pequeno,
Que o Sol beija com vaidade!
 
Cidade - A História fala de mim,
Porque tenho algum valor...
 
Aldeia - Também tenho a minha História,
Escrita com o meu suor.
 
Cidade - Tenho o luxo que tu vês
Próprio da minha grandeza.

Aldeia - E eu o luxo e a vaidade de gostar da singeleza!
 
Cidade - Sou mais rica do que tu,
Que nada tens afinal!
 
Aldeia - Tenho aqui dentro do peito:
A alma de Portugal!
 
 
Abílio de Mesquita, in Livro de Leitura para a 4ª classe
Ed. Educação Nacional, Porto, s/ d. p. 86.
 
 
Francisco Smith, Largo de aldeia (Petite place au Portugal), 1954.


"Viver no campo tornou-me uma pessoa muito menos cínica e sombria do que resulta manter-me distante de um determinado modo de pensar instituído. Não é necessariamente um olhar do campo, é o debate com a possibilidade de um outro tipo de inteligência e de abordagem literária da existência humana só possível num cenário deste género."

Joel Neto, Entrevista Diário de Notícias, 12 Fev. de 2017



Francisco Smith, Encosta do Castelo de São Jorge, Lisboa, s.d.
 

"Se me pedirem para reduzir ao essencial a diferença entre o campo e a cidade, então aí está ela: o efeito que tem em nós uma sirene no horizonte. Na cidade, é apenas uma sirene. Aqui, há uma boa hipótese de se tratar de alguém que conhecemos, talvez até de alguém que estimamos."

Joel Neto, em "A Vida no Campo"
 
 
Francisco Smith, Praça em Lisboa (Place à Lisbonne), s.d.


"Deus fez o campo, e o homem fez a cidade."

"God made the country, and man made the town."

William Cowper, in The Task, 1785. 
 

terça-feira, 4 de julho de 2023

"Claro e Simples" - Poema de Adolfo Casais Monteiro



Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961), 
Largo do Menino de Deus, Lisboa, 1927



Claro e Simples


Tudo é claro para quem
olha sempre no sentido
oposto àquele onde está
aquilo que não é claro.

Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.
in "Voo sem Pássaro Dentro",
 Editora Ulisseia, 1954, 1ª edição.
 

Adolfo Casais Monteiro,"Voo sem Pássaro Dentro".
Poesia - Dez desenhos de Fernando Lemos, 55 pags.
Editora Ulisseia, 1954, 1ª edição.
 
 
"Procurar a verdade é uma forma de desocultar a mentira, e a fotografia é parte dessa ânsia pelo desocultamento. A importância da fotografia é a memória. Ela é reveladora da verdade e da mentira, do que está oculto." - Fernando Lemos (daqui)
 
 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

"Aqui Portugal" - Poema de Almada Negreiros


Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961),
"Trecho de Lisboa com Tejo", guache sobre papel, 26 x 23 cm  


Aqui Portugal


Aqui Portugal
Bicesse
O Fim-do-Mundo mais perto de
Lisboa a da boa flordelis
e
Entre a Serra da Lua (Sintra)
As grutas e necrópole daqueles
Que nascidos em Creta
Passaram em Homero
Em Cristo
E a vista de Roma
Saíram do Mediterrâneo
E aqui ficaram e passaram
Trazendo consigo para toda a parte
A civilização da Liberdade individual
Do Homem.

Almada Negreiros 


quinta-feira, 4 de agosto de 2022

"Ando pelas ruas desta incerta cidade" - Poema de Graça Pires

 
Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961),  
As escadinhas, c. 1934, óleo sobre tela, 73 x 60 cm

 
 
 Ando pelas ruas desta incerta cidade
 
 
Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera caligrafia do silêncio. 
 

Graça Pires
,
in 'Uma claridade que cega'
 
 
Francisco Smith ou Francis Smith, Alfama - Lisboa, 1920


[Esta obra emblemática da pintura de Francis Smith e da coleção que o CAM possui do pintor, representa Alfama, um dos bairros populares de  Lisboa
Quando Francis Smith realizou a sua primeira exposição individual em Paris, na Galerie Dewambez, em 1914, as suas preferências apareceram claramente definidas, tanto no plano da técnica como no da escolha dos temas, onde desde logo predominaram as cenas da vida portuguesa.
Para a historiografia de arte francesa, o carácter sentimental e a estrutura arquitetónica das paisagens citadinas de Smith revelam as suas origens portuguesas. Do ponto de vista da historiografia de arte portuguesa, será interessante sublinhar que esta orgânica casa vermelha, em que Smith concentra as suas recordações dos bairros populares, precede a uniformização a amarelo da cidade decretada pela câmara de Lisboa nos anos 1930, com o intuito de pôr “ordem” na sua policromia. Semelhante decisão provocaria a repulsa dos pintores, expressa por Abel Manta em resposta a um inquérito conduzido por Artur Portela na década de 1940 (Rui Mário Gonçalves, catálogo da exposição O Imaginário da Cidade de Lisboa, 1985): «Aquela fina grisaille de madre-pérola, onde sobretudo os brancos eram de uma riqueza de tentar Cézannes, Renoirs, Friezes e Utrillos, levou-as o diabo». (daqui)]


 
Fotografia de Francis Smith, in Periódico Portugal,
nº 6, Nov-Dez, 1937, p3 (daqui)
 

Francisco Smith
foi um pintor português nascido em 1881, em Lisboa. Estava destinado a seguir a carreira militar, já que o seu pai e o seu avô eram oficiais da Marinha. No entanto, as suas aptidões para o desenho foram detetadas pelos seus primeiros mestres, José Ribeiro Júnior e Constantino Fernandes. Estes aconselharam o pai de Francis Smith a deixá-lo ir aperfeiçoar-se em Paris. Nesta cidade vem a conhecer Eduardo Viana, Emmérico Nunes, Amadeo de Souza-Cardoso, entre outros artistas, depressa se integrando na vida de Montparnasse, acabando mesmo por casar, em 1911, com uma escultora francesa, Yvonne Mortier. Em 1907 o pai de Francis Smith recebe uma carta assinada por muitos artistas portugueses que viviam em Paris, testemunhando o mérito do seu filho. Convencido, o pai passou a oferecer uma pensão que permitiu a Francis Smith dedicar-se inteiramente à sua arte sem grandes preocupações de ordem económica.
Naturalizou-se francês mas permaneceu sentimentalmente muito ligado a Portugal e à família, tornando-se um pintor de recordações da terra em que nasceu. Paisagens, recantos de cidades, cenas populares. No meio das mais diversas pessoas representadas, ou nalgum recanto, aparece com muita frequência, de quadro para quadro, uma figura humana, de fato preto e camisa branca, chapéu inclinado: é a representação do pai do pintor, em homenagem comovida a quem oportunamente o auxiliou.
Com pequenos traços enovelados, com que forma por vezes texturas rendilhadas, surgem desenhos de pedras, de folhagens, de pessoas em suave vibração. A cor é pura, entre o impressionismo e o fauvismo, aproximando-se das conceções de Bonnard. Na sua obra não existe rigidez de contornos mas sim o gosto pelos planos de cor rebatidos, pela utilização de pequenas pinceladas, não para efeitos impressionísticos de luz, mas para tornar mais apetecível o contacto com a matéria, desse modo animada. O lirismo de Francis Smith emana naturalmente da sua bonomia, como homem delicado, discreto, amigo dos seus amigos. Nunca nas suas pinturas se representam dramas, mas ambientes moderadamente festivos, uma vida quotidiana feita de doçura e serenidade. 
Francis Smith morreu em Paris em 1961, cidade onde se formou a Association des Amis de Francis Smith, em 1962, que lhe organizou uma exposição retrospetiva da sua obra no Musée Galliéra (1963) e todos os anos atribui um Prémio Smith. (daqui)