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domingo, 26 de julho de 2026

"Inicial" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Harald Slott-Møller (Danish painter and ceramist, 1864–1937), "Sommeridyl" 
('Young girls in a boat, summer'), c. 1903.


Inicial 


O mar azul e branco e as luzidias
Pedras — O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida
 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

"Mar Bravo" - Poema de Manuel Bandeira



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), 
 'The Gulf Stream', 1899, Metropolitan Museum of Art.
 
 
Mar Bravo


Mar que ouvi sempre cantar murmúrios
Na doce queixa das elegias,
Como se fosses, nas tardes frias
De tons purpúreos,
A voz de minhas melancolias:

Com que delícia neste infortúnio,
Com que selvagem, profundo gozo,
Hoje te vejo bater raivoso,
Na maré-cheia de novilúnio,
Mar rumoroso!

Com que amargura mordes a areia,
Cuspindo a baba da acre salsugem,
No torvelinho de ondas que rugem
Na maré-cheia,
Mar de sargaços e de amarugem!

As minhas cóleras homicidas,
Meus velhos ódios de iconoclasta,
Quedam-se absortos diante da vasta,
Pérfida vaga que tudo arrasta,
Mar que intimidas!

Em tuas ondas precipitadas,
Onde flamejam lampejos ruivos,
Gemem sereias despedaçadas,
Em longos uivos
Multiplicados pelas quebradas.

Mar que arremetes, mas que não cansas,
Mar de blasfémias e de vinganças,
Como te invejo! Dentro em meu peito
Eu trago um pântano insatisfeito
De corrompidas desesperanças!…

1913


Manuel Bandeira (1886–1968), in 'O Ritmo Dissoluto', 1924;
in 'Antologia Poética'
 (nova edição), Editora Nova Fronteira, 2001.
 

Pinturas de Winslow Homer

Winslow Homer, 'Breezing Up (A Fair Wind)', oil on canvas, 1873–76, oil on canvas,
National Gallery of Art, Washington, D.C., USA.



 

Winslow Homer, 'Shark Fishing', 1885, Private collection.



Winslow Homer, 'The Herring Net', 1885, Art Institute of Chicago.

[Long inspired by the sea, Winslow Homer spent time in 1881 in a fishing community in Tynemouth, England. The experience fundamentally changed his life and work. His paintings thereafter focused almost exclusively on humankind’s age-old contest with nature. In The Herring Net, executed in Prouts Neck, Maine, Homer depicted the heroic efforts of fishermen at their daily work. In a small dory, one figure hauls in glistening herring, while the other, possibly a boy, unloads the catch. Laboring far from the schooners on the horizon, the pair strives to steady the precarious boat as it rides the incoming swells.] (daqui)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

"Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar" - Poema de Fernando Pessoa

 


Frederick Judd Waugh (American painter, primarily known as a marine artist,
1861-1940), 'Under the Trade Winds, Barbados', c. 1921.


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Deem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Deem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu. 

10-8-1929

Fernando Pessoa, 'Poesias'
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor)
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 118. 


 
Frederick Judd Waugh, 'The Next Wave', c. 1924, Indianapolis Museum of Art.

«O mar está levemente encrespado e pequenas ondas quebram na praia arenosa. O senhor Palomar está de pé na areia e observa uma onda. Não que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe bem o que faz: quer observar uma onda e a observa. Não está contemplando, porque para a contemplação, nenhuma daquelas três condições todavia, se verifica para ele. Em suma, não são “as ondas” que ele pretende observar, mas uma simples onda e pronto: no intuito de evitar as sensações vagas, ele predetermina para cada um de seus atos um objetivo limitado e preciso.» 

Italo Calvino (1923–1985), in "Palomar", 1983. 

  

 
'Palomar' de Italo Calvino
 Dom Quixote, 2020 – reedição

SINOPSE 

Um dos mais carismáticos livros de Calvino e o último que publicou em vida.

Será possível encontrarmos um sentido nas coisas, no mundo à nossa volta? E dentro de nós próprios? O senhor Palomar está muito longe de ter alguma certeza quanto a tudo isso. Todavia, continua à procura.

Homem excêntrico em busca de conhecimento, visionário num mundo sublime e ridículo, Palomar é um observador nato. «Só depois de ter conhecido a superfície das coisas», acredita ele, «nos podemos aventurar a procurar o que está por baixo.» Seja contemplando um seio nu, uma loja de queijos em Paris, a barriga de uma osga ou os céus de Roma invadidos por estorninhos, o senhor Palomar oferece-nos uma visão do mundo familiar, mas fragmentada pela perceção individual.

Último livro publicado em vida por Italo Calvino, "Palomar" é uma narrativa fascinante sobre a vertigem do homem diante dos inexoráveis mistérios do universo. Um autêntico testamento literário de um dos maiores escritores do século XX, que conduz o leitor através de um inquérito de resultados surpreendentes: o senhor Palomar é sem dúvida o autor, mas não só. Somos todos nós, os leitores deste livro empolgante, um dos mais profundos da literatura de todos os tempos. (daqui)


Italo Calvino

Jornalista, contista e romancista italiano, Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923 em Santiago de Las Vegas, na ilha de Cuba. Ainda criança acompanhou os pais na sua mudança para São Remo, em Itália.
Em 1940, e em consequência da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Calvino foi recrutado para a Mocidade Fascista, mas desertou pouco tempo depois, refugiando-se nas montanhas da Ligúria, onde se juntou à Resistência Comunista.

Pôde, no entanto, ingressar no curso de Literatura da Universidade Turim em 1941 mas, e com uma passagem pela Real Universidade de Florença, só conseguiu licenciar-se após a guerra, em 1947. Nesse mesmo ano publicou o seu primeiro romance, com o título Il sentiero dei nidi di ragno (1947). A obra remetia para as suas experiências enquanto ativo da resistência italiana e foi bem acolhida pela crítica, sobretudo devido aos trejeitos que Calvino dava à narrativa.

Em 1949 publicou uma coletânea de contos, também dedicados à problemática de guerra, que haviam já aparecido em publicações periódicas. A colaboração de Calvino com a imprensa havia começado em meados de 1945, no jornal comunista L'Unittá, prosseguindo em títulos como Il Garibaldino, voce della Democracia e La Republica.

Após a publicação de Il visconte dimezzato (1954), o autor abandonou o tema da guerra recente, preferindo o absurdo e o fantástico ao neorrealismo com que havia pautado o seu trabalho. A obra, que inaugurava uma trilogia também composta pelos volumes Il barone rampante (1957) e Il cavaliere inesistente (1959), e que causou fortes polémicas no seio do Partido Comunista Italiano, contava a história de um homem mutilado por uma bala de canhão durante a tomada de Constantinopla.
Calvino procurava assim demonstrar o seu desagrado perante o partido, que abandonou após os acontecimentos da primavera de Praga. Sentiu que o seu esforço literário era mais necessário na imprensa, pelo que se passou a concentrar mais na carreira como jornalista do que como romancista.

Em 1959 viajou pelos Estados Unidos da América, formulando um contraste com a sua visita à União Soviética em 1952. De regresso, começou a editar a revista Il Menabó Di Letteratura, em colaboração com Elio Vittorini. Mantendo sempre um olhar crítico sobre a sociedade, entrelaçada na consciência individual e na inércia dos eventos históricos, publicou Marcovalco (1963), uma coletânea de fábulas em que criticava o modo de vida das cidades, destrutivo e vazio. Marcovalco era apresentado como um homem de família sonhador que, permanecendo na sua cidade durante o mês de agosto, quando todos os outros habitantes partiram para férias, vê o seu descanso ser interrrompido por uma equipa de televisão que o quer entrevistar, precisamente por ter sido o único a renunciar às estâncias balneares.

Em 1972 publicou Le Cittá Invisibli, romance em que o lendário explorador Marco Polo se dedicava a contar histórias de cidades fictícias para o divertimento de Kublai Khan, e que valeu ao autor o conceituado Prémio Felrinelli. A sua obra mais conhecida, Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa Noite de Inverno um Viajante) apareceu em 1979. Palomar (1983), descrevia as contemplações filosóficas de um homem aparentemente simples.
Italo Calvino faleceu a 19 de setembro de 1985, em Siena, vítima de uma hemorragia cerebral. (daqui)

sábado, 4 de abril de 2026

"Horizonte" - Poema de Fernando Pessoa

 


Jaume Morera i Galícia (Pintor paisatgista català, 1854-1927), Esperando la marea,
Playa de Arrigunaga
, 1904. Museu d'Art Jaume Morera.
 
 

Horizonte


Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

s.d.

Fernando Pessoa, Mensagem
Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 
(Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 58.


 
Jaume Morera i Galícia, Playa con sol poniente, s.d.
Óleo sobre lienzo, 86 x 102 cm. Colección particular.
 

"Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota."


Adélia Prado
, Trecho do poema "Desenredo"
do livro "O Coração Disparado."

quinta-feira, 26 de março de 2026

"O mar e o canavial" - Poema de João Cabral de Melo Neto



Sir Arthur Streeton (Australian landscape painter and a leading member of the Heidelberg School,
1867-1943), Ariadne, 1895, National Gallery of Australia.


O mar e o canavial


O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial sim aprende do mar;
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.


João Cabral de Melo Neto
in "A educação pela pedra", 1966.


Sir Arthur Streeton, Oblivion, 1892, Private collection.
 
 
"Eu não sei o que o amanhã trará." 

"I know not what tomorrow will bring."


Fernando Pessoa (Lisboa, 13/06/1888 — Lisboa, 30/11/1935)



A curiosa e inquietante última frase escrita por Fernando Pessoa (daqui)
 

Fernando Pessoa morre no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, de uma crise hepática. Era o início de uma noite de sábado.

Dá entrada no hospital na véspera da partida. E são dessa data (29 de novembro) as suas últimas palavras escritas: 

«I know not what tomorrow will bring.» [não sei o que o amanhã trará.] 

Tinha 47 anos.

Quando morreu Fernando Pessoa deixou publicada uma décima parte da sua obra: 35 Sonnets (1918), Antinous (1918), English Poems (1921), O Interregno: defeza e justificação da dictadura militar em Portugal (1928), Mensagem (1934) e uma série de escritos dispersos por algumas revistas, como a Orpheu — da qual foi o fundador.

Só mais tarde se descobriu que Fernando Pessoa deixou uma herança inestimável para o país e, sobretudo, para a Língua Portuguesa: uma arca com mais de 27 000 manuscritos inéditos.

A vasta obra, deixada inédita, só começou a ser editada em 1942, por iniciativas de Luís de Montalvor e de João Gaspar Simões.

Apenas em 1968 começou o inventário da sua famosa arca. Portugal começava então a aperceber-se da dimensão e da magnitude da obra pessoana. O mundo descobriu isso depois. E pasmou-se.

Em 1985, por ocasião dos 50 anos da morte do poeta, a sua obra entra em domínio público. Nesse ano, e nos seguintes, o mercado do livreiro (nacional e internacional) mostrou um verdadeiro interesse pelo poeta. Porém, em 1997, ao abrigo da diretiva da União Europeia (que fixava em 70 anos após a morte, o período de vigência dos direitos de autor) a editora Assírio e Alvim comprou aos herdeiros os direitos de edição — medida que viria a causar celeuma entre os editores de todo o mundo.

Em 2005, cumpridos os 70 anos da morte do poeta, a sua obra entra definitivamente em domínio público. Fernando Pessoa passou a ser livre outra vez e consagrou-se como um dos nomes maiores da literatura universal.

Em setembro de 2009, pelo Decreto n.º 21/2009, de 14 de setembro, o espólio documental de Fernando Pessoa foi classificado como «bem de interesse nacional», passando a designar-se o espólio do escritor como «tesouro nacional».

Entre outros títulos a Imprensa Nacional dedica-lhe a coleção «Edição Crítica de Fernando Pessoa», sob a coordenação do Professor Ivo Castro, a coleção de ensaios «Pessoana» e o primeiro volume da coleção infantojuvenil «Grandes Vidas Portuguesas». (daqui)

sábado, 14 de março de 2026

"Vida do Mar" - Poema de Teixeira de Pascoaes



Frederick Judd Waugh
(American painter, 1861
1940), "The Setting Sun", n.d.
 


Vida do Mar

I

Quantas tardes, eu vou, sozinho, passear
Ao longo do brumoso e soluçante mar...
E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas.
Entre as rochas que estão de espuma coroadas,
Tristes habitações de pobres pescadores...
Telhados pra abrigar soluços, ais e dores.
São choupanas onde há postigos e janelas,
Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas,
Navios onde vai ao leme a Saudade...
Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade…

II

Sente-se palpitar o coração do Oceano
Que pela lua tem um grande amor humano.
Tremem as ondas num ataque de histerismo.
E nas gaivotas há a tentação do abismo,
Tão altas elas vão, num voo misterioso...
Assopra, desgrenhado, um vento lacrimoso...
E nas correntes d'ar que as ondas arrefecem
Vibram as sensações que uns nervos estremecem…
Sensações que vão ser inéditas imagens
No cérebro do mar, feito para as sondagens.
Como uma asa negra, a triste cerração
Desce do céu, cheia de horror e de aflição!
E um medo sobressalta as ondas que se atiram
D'encontro à erma praia, onde, chorando, expiram.
Os promontórios nimba uma auréola d'espuma.
Relâmpagos de dor incendeiam a bruma,
E, num clarão de incêndio, ela se transfigura...
Depois, a noite fica ainda mais escura,
E as águas vão pequenos barcos devorando.
Rasgam o ar terríveis ais de quando em quando!
Beijos de despedida e últimos abraços,
A caminho da Paz, percorrem os espaços.
Furam a espuma mãos crispadas de terror,
E há corpos a boiar, donde fugiu a Dor...
E, qual fantasma sobre as tenebrosas ondas.
Lívido e amortalhado em trevas hediondas,
Vê-se um navio enorme e negro a naufragar.
Onde entra, num rugido amargo, o vasto mar!...

III

Um vulto esguio de mulher, todo de preto,
Abraça, sobre a praia, um trágico esqueleto
Que uma onda, com amor, nos seus braços lançou,
Num gesto d'alva espuma onde o luar cintilou...
E a noite vaga sobre as águas repousada,
Sentiu a Palidez torná-la desmaiada...
E um frémito de dor, no ar, resplandeceu.
E depois, todo o mar antigo escureceu.
E a treva adquiriu tão grande intensidade.
Que me dava a impressão de estranha claridade
Que, em vez de deixar ver, meus olhos deslumbrava.
E o mar tinha uma voz profundamente cava...
E a bruma, num suor gélido d'agonia.
Aos cavernosos céus, fantástica, subia...
Enquanto o mar beijava os íngremes rochedos,
No desejo que prende o vento aos arvoredos.
E os negros temporais, no horizonte, passavam
E as destemidas naus, com cólera, insultavam!
E aquele vulto se escondeu nas trevas densas
Que abrigam, com amor, as aflições imensas...
E a noite trespassou a crua luz dum grito
Que ampliou até Deus a sombra do Infinito!...

IV

Velhos homens do mar, ó rudes marinheiros,
Filhos dos temporais, irmãos dos nevoeiros.
Confidentes do amor que as ondas ilumina.
Tradutores da língua estranha da neblina...
Ó leitores do livro azul do Firmamento.
Intérpretes do luar, das nuvens e do vento!...
Almas rudes que têm a energia do mar.
Cabelos brancos numa chuva de luar...
Ó frontes ideais batidas do nordeste!
Vagos olhos a olhar toda a amplidão celeste...
Ó perfis onde morre o clarão do sol-pôr
Que dentre as ondas sai numa explosão de dor!
Marinheiros da Grécia antiga que assististes
Do alto das vossas naus, ansiosos e tristes,
Ao suicídio de Safo e ao canto das Frinés
E às grandes comoções que agitam as marés!...
E que vistes nascer, num dia excecional,
Vénus — esse sorriso eterno e universal —
Duma onda que os clarões da aurora fecundaram.
Quando as águas e a luz, famintas, se beijaram.
Num desejo d 'amor que sempre se traduz
Numa árvore que dá flor bem antes de ser cruz.
Num desejo ideal, quimérico, imprevisto
Que foi o pai de Pã e foi o avô de Cristo!...
Velhos homens do mar de todos os países,
Ó rudes corações cheios de cicatrizes,
Abertas pela mão cruel da Nostalgia...
Almas feitas de treva e de melancolia.
Inquietas, sempre a olhar o fundo dum abismo
Que estremece num grande e eterno paroxismo,
Por sobre o qual vagueia a sombra de Virgínia,
Leve como o perfume etéreo da glicínia.
Branca como, no inverno, a gélida camélia,
Levando ao lado a sombra pálida de Ofélia;
Cabelos soltos, alma feita de amargura.
Olhos fenomenais onde canta a Loucura!...
E as duas sombras vão a chorar e a cantar.
Como outrora Jesus, sobre as águas do mar...
Homens que adormeceis no seio das tempestades!
(Misteriosas paixões, ignotas ansiedades...)
Aos meus ouvidos vem a voz da Natureza
Cheia da vossa amarga e trágica tristeza...
E sinto na minh'alma a grande solidão
Que, no meio do mar, vos toma o coração!...
Eu vivo, como vós, no infinito e no vago
Que há num dorido olhar e num' nevoento lago;
Numa onda a mudar-se em névoa transcendente,
Nos ermos animais que sofrem como a gente...
Eu vivo, como vós, a vida extraordinária
Duma vela, ao luar, longínqua e solitária...
A existência subtil da vaporosa espuma,
Em cujos olhos brilha a tua alma, ó bruma!
E sinto, como vós, o desespero insano
Que eleva até à lua as ondas do Oceano!
E a revolta sagrada, a cólera bendita
Que sobre a terra, em água, as nuvens precipita...
Que faz gritar, no espaço, o vento desgrenhado.
Um réprobo talvez, um doido, um condenado...
E sou filho também da grande tempestade
Onde há relâmpagos d'amor e de verdade!


Teixeira de Pascoaes
, in "Para a Luz", 1904.
 
 

Frederick Judd Waugh (American painter, 1861940), "Freshening Breeze", n.d. 


"Tenho esperança de que um maior conhecimento do mar, que há milénios dá sabedoria ao homem, 
inspire mais uma vez os pensamentos e as ações daqueles que preservarão o equilíbrio da natureza
 e permitirão a conservação da própria vida." 

(Jacques-Yves Cousteau)



Jacques-Yves Cousteau, em 1972.
 

Oceanógrafo e ativista do ambiente nascido a 11 de junho de 1910, em França. O comandante Jacques-Yves Cousteau notabilizou-se pelas suas investigações subaquáticas e pelos seus livros e documentários televisivos, largamente difundidos.
Em 1950 tornou-se comandante do Calypso, um draga-minas convertido em navio oceanográfico que se tornaria conhecido mundialmente, e em 1957 foi nomeado diretor do museu oceanográfico do Mónaco. Foi eleito membro da Academia Francesa em 1988. Faleceu em 1997.
O seu empenho no estudo dos oceanos produziria resultados científicos de vulto, e levá-lo-ia também a desenvolver experiências e técnicas revolucionárias. Em 1943 inventou, com Émile Gagnan, o aqualung ou escafandro autónomo, isto é, um escafandro que não dependia do fornecimento de ar a partir da superfície, assim proporcionando aos mergulhadores possibilidades completamente novas de exploração do mundo subaquático.
Cousteau foi também o inventor de um processo para o uso da televisão debaixo de água. Promoveu ainda, a partir de 1962, várias experiências de permanência prolongada debaixo de água, nas quais os mergulhadores chegaram a estar submersos durante um mês.
Cousteau foi desde sempre um apaixonado pelas filmagens da vida subaquática. Ao longo da sua vida, fez mais de uma centena de documentários. Le Monde du Silence (1955), a sua primeira longa-metragem, que realizou com Louis Malle como assistente, valeu-lhe a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1956.
Produziu ainda outros filmes, entre os quais Histoire d'un poisson rouge, galardoado com o prémio para a melhor curta-metragem no Festival de Cannes em 1958. (daqui)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"A França!" - Poema de António Nobre

 

Fitz Henry Lane
(American painter and printmaker of a style that would later be called Luminism,
for its use of pervasive light, 1804–1865), "Lumber Schooners at Evening on Penobscot Bay", 1863,
National Gallery of Art.

 
A França!


Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz…

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela…)
Na minha Nau Catarineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!… 

Oceano Atlântico, 1890.



António Nobre (1867–1900), in "Só", 1892.




Fitz Henry Lane, "The Ships 'Winged Arrow' and 'Southern Cross' in Boston Harbor", 1853,
Cincinnati Art Museum.



"O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo."

 António Vieira, in "Sermões"

 

Fitz Henry Lane, "Salem Harbor", 1853. Oil on canvas, Museum of Fine Arts, Boston.



"No homem o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite."

António Vieira, in "Sermões"


"Citações e Pensamentos de Padre António Vieira"
de Paulo Neves da Silva e Padre António Vieira
Editor: Casa das Letras, 2010
 

SINOPSE

 "Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa."

António Vieira (16081697) foi um grande pensador e visionário, atual na forma como nos mostra o mundo e nos ensina, numa escrita sedutora de grandes efeitos, a reconhecermos a nossa parcialidade e cegueira na relação que mantemos com a realidade e os vícios pelos quais nos deixamos enredar e conduzir por ela.
A partir de uma vasta obra de mais duzentos sermões, setecentas e cinquenta cartas e muitos outros escritos, este livro apresenta os textos chave de Pe. António Vieira e que permitem ao leitor usufruir do melhor de uma sabedoria acessível a todos, pertinente como nunca, num caminho de maior desprendimento do acessório da vida e a concentração no seu essencial - viver.
 (daqui)

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"Mar absoluto" - Poema de Cecília Meireles


 
Thomas Buttersworth (English seaman of the Napoleonic Wars period who became a
marine painter, 1768–1842), H.M.S. 'Victory' in full sail and in a squall, Unknown date.


Mar absoluto

 
Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.

"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"

Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heroico do mar tem seu polo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anémona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, 
mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto e outros poemas", 1945.




"Mar absoluto e outros poemas" de Cecília Meireles
 

SINOPSE 
 
A história de Cecília começa antes de seu nascimento. Inicia-se nos Açores, onde nasceram seus antepassados. E essa memória intrínseca à sua alma fora inspiradora para quase toda a sua obra. A beleza e o silêncio do mar foram enriquecidos com os mistérios e o lado obscuro da morte - revelando uma poesia mística, lírica e serena. 
Mar absoluto e outros poemas é um dos principais livros da poeta, que o escreveu entre as décadas de 1930 e 1940, e certamente um dos mais importantes momentos da poesia brasileira de hoje e de sempre.
 
 

Thomas Buttersworth, H.M.S. 'Victory' in full sail and in a squall, Unknown date.
 

"O homem é um aprendiz, a dor é a sua mestra, e ninguém se conhece enquanto não sofreu."

Alfred de Musset, in "La nuit d'octobre", 1837.

sábado, 31 de janeiro de 2026

"Uma lágrima no mar" - Poema de Mário Avelar



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
The Fog Warning, 1885; Museum of Fine Arts, Boston, U.S.


Uma lágrima no mar

 
Falou-me da nostalgia
que nos roubaram quando
levaram deus e no seu
lugar apenas restou
uma ténue luz, um vulto
ou… uma sombra, talvez.
Desde então, dizia, resta-nos
perseguir essa quimera,
julgá-la dentro de nós.
Conhece-te a ti mesmo
está bem… Mas instantes há
em que nos falta um nexo,
e então é deus que nos
falta. Orgulhosamente
sós, pois bem. Nem sequer
um beijo da nostalgia. 


Mário Avelar
,
in "Coreografando Melodias no Rumor das Imagens", 2018. 
 

 
Winslow Homer, Moonlight, Wood Island Light, 1894;
Metropolitan Museum of Art, New York City.


"O coração do homem é muito parecido com o mar, ele tem suas tempestades,
suas marés e suas profundezas; ele tem suas pérolas também."


Vincent van Gogh
(Trecho de uma carta para seu irmão mais novo, Theo van Gogh, em 1882.)
 
 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

"Noite" - Poema de Manuel da Fonseca


Noite


Milhões de barcos perdidos no mar!
Perdidos na noite!
As velas rasgadas de todos os ventos
Os lemes sem tino
vogando ao acaso
roçando no fundo
subindo a vaga
tocando as rochas!
E quantos e quantos naufragando...

Quem vem acender faróis na costa do mar bravo?!
Quem?!


Manuel da Fonseca, in Obra Poética
Lisboa, Editorial Caminho, 1984.
 


Claude-Joseph Vernet, "A Shipwreck in Stormy Seas", 1773, National Gallery, London.


"Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades."

Epicuro de Samos

(Filósofo grego do período helenístico, 341 a.C., Samos — 271 ou 270 a.C., Atenas)

sábado, 24 de janeiro de 2026

"Correspondência ao mar" - Poema de Vitorino Nemésio


 
Max Römer (Pintor de origem alemã que viveu na ilha da Madeira, 1878-1960),
Baía do Funchal, Madeira, 1955.



Correspondência ao mar


Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo:
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de polo a polo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim —
Que onde ele acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
Ao rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstrato e imenso:
Frio como a evidência ponderada,
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na mínima lembrança que me deixes,

E a Rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.


Vitorino Nemésio
"O Bicho Harmonioso", 1938
in "Poesia (1916-1940)"
 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

"Vozes do Mar" - Poema de Florbela Espanca



Firmino Monteiro (Pintor brasileiro, 1855–1888), Paisagem, 1885, Museu Afro Brasil.
 
 
Vozes do Mar


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade


Florbela Espanca
, Poesia Completa,
Publicações Dom Quixote, 2000. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"A Ordem do Mar" - Poema de António Ramos Rosa



Adolphe Weisz (Hungarian-French painter, 1838-1916), "Painting en plein air", c. 1895.


A Ordem do Mar



À medida que ver se completa em arco
de uma harmonia que reúne o espaço inteiro
a flor se ergue em fantasia calma e se decanta
na brisa que a inclina e a rodeia e a aviva.

Não mais a máscara, não mais a mímica, não mais
as flautas e as palavras flutuantes. Só a canção
do mar, a sua ordem múltipla e monótona,
os seus artifícios frescos, a sua fragrância funda.

É uma voz que torna o céu mais amplo e a folha
mais azul. É o conhecimento de uma ordem
em que as sombras se combinam com o vento,
em que os corpos são formas do verdadeiro oceano.


António Ramos Rosa,
"No calcanhar do vento", 1987.


 
Adolphe Weisz, Reflections, c. 1900.


"A felicidade mais elevada é aquela que corrige os nossos defeitos e equilibra as nossas debilidades."

 


Adolphe Weisz, Music Effect, 1871.


"Devemos ouvir pelo menos uma pequena canção todos os dias, ler um bom poema, ver uma pintura de qualidade e, se possível, dizer algumas palavras sensatas."

Johann Wolfgang von Goethe, Poetische und prosaische Werke,
in zwei Bänden, Volume 2‎ - Página 208, Cotta, 1837 - 663 páginas.