Inicial
O mar azul e branco e as luzidias
Pedras — O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida
"Educai as crianças e não será preciso punir os homens." (Pitágoras - filósofo e matemático grego)
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Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar
Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.
A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.
Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Deem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Deem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.
10-8-1929
Fernando Pessoa, 'Poesias'
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor)
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 118.

Frederick Judd Waugh, 'The Next Wave', c. 1924, Indianapolis Museum of Art.
«O mar está levemente encrespado e pequenas ondas quebram na praia arenosa. O senhor Palomar está de pé na areia e observa uma onda. Não que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe bem o que faz: quer observar uma onda e a observa. Não está contemplando, porque para a contemplação, nenhuma daquelas três condições todavia, se verifica para ele. Em suma, não são “as ondas” que ele pretende observar, mas uma simples onda e pronto: no intuito de evitar as sensações vagas, ele predetermina para cada um de seus atos um objetivo limitado e preciso.»
Italo Calvino (1923–1985), in "Palomar", 1983.
SINOPSE
Um dos mais carismáticos livros de Calvino e o último que publicou em vida.
Será possível encontrarmos um sentido nas coisas, no mundo à nossa volta? E dentro de nós próprios? O senhor Palomar está muito longe de ter alguma certeza quanto a tudo isso. Todavia, continua à procura.
Homem excêntrico em busca de conhecimento, visionário num mundo sublime e ridículo, Palomar é um observador nato. «Só depois de ter conhecido a superfície das coisas», acredita ele, «nos podemos aventurar a procurar o que está por baixo.» Seja contemplando um seio nu, uma loja de queijos em Paris, a barriga de uma osga ou os céus de Roma invadidos por estorninhos, o senhor Palomar oferece-nos uma visão do mundo familiar, mas fragmentada pela perceção individual.
Último livro publicado em vida por Italo Calvino, "Palomar" é uma narrativa fascinante sobre a vertigem do homem diante dos inexoráveis mistérios do universo. Um autêntico testamento literário de um dos maiores escritores do século XX, que conduz o leitor através de um inquérito de resultados surpreendentes: o senhor Palomar é sem dúvida o autor, mas não só. Somos todos nós, os leitores deste livro empolgante, um dos mais profundos da literatura de todos os tempos. (daqui)
Jornalista, contista e romancista italiano, Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923 em Santiago de Las Vegas, na ilha de Cuba. Ainda criança acompanhou os pais na sua mudança para São Remo, em Itália.
Em 1940, e em consequência da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Calvino foi recrutado para a Mocidade Fascista, mas desertou pouco tempo depois, refugiando-se nas montanhas da Ligúria, onde se juntou à Resistência Comunista.
Pôde, no entanto, ingressar no curso de Literatura da Universidade Turim em 1941 mas, e com uma passagem pela Real Universidade de Florença, só conseguiu licenciar-se após a guerra, em 1947. Nesse mesmo ano publicou o seu primeiro romance, com o título Il sentiero dei nidi di ragno (1947). A obra remetia para as suas experiências enquanto ativo da resistência italiana e foi bem acolhida pela crítica, sobretudo devido aos trejeitos que Calvino dava à narrativa.
Após a publicação de Il visconte dimezzato
(1954), o autor abandonou o tema da guerra recente, preferindo o
absurdo e o fantástico ao neorrealismo com que havia pautado o seu
trabalho. A obra, que inaugurava uma trilogia também composta pelos
volumes Il barone rampante (1957) e Il cavaliere inesistente
(1959), e que causou fortes polémicas no seio do Partido Comunista
Italiano, contava a história de um homem mutilado por uma bala de canhão
durante a tomada de Constantinopla.
Calvino procurava assim demonstrar o seu desagrado perante o partido, que abandonou após os acontecimentos da primavera de Praga.
Sentiu que o seu esforço literário era mais necessário na imprensa,
pelo que se passou a concentrar mais na carreira como jornalista do que
como romancista.
Em 1959 viajou pelos Estados Unidos da América, formulando um contraste com a sua visita à União Soviética em 1952. De regresso, começou a editar a revista Il Menabó Di Letteratura, em colaboração com Elio Vittorini. Mantendo sempre um olhar crítico sobre a sociedade, entrelaçada na consciência individual e na inércia dos eventos históricos, publicou Marcovalco (1963), uma coletânea de fábulas em que criticava o modo de vida das cidades, destrutivo e vazio. Marcovalco era apresentado como um homem de família sonhador que, permanecendo na sua cidade durante o mês de agosto, quando todos os outros habitantes partiram para férias, vê o seu descanso ser interrrompido por uma equipa de televisão que o quer entrevistar, precisamente por ter sido o único a renunciar às estâncias balneares.
Em 1972 publicou Le Cittá Invisibli, romance em que o lendário explorador Marco Polo se dedicava a contar histórias de cidades fictícias para o divertimento de Kublai Khan, e que valeu ao autor o conceituado Prémio Felrinelli. A sua obra mais conhecida, Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa Noite de Inverno um Viajante) apareceu em 1979. Palomar (1983), descrevia as contemplações filosóficas de um homem aparentemente simples.
Italo Calvino faleceu a 19 de setembro de 1985, em Siena, vítima de uma hemorragia cerebral. (daqui)

Horizonte
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.
s.d.
Fernando Pessoa, Mensagem.
Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934
(Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 58.

O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.
O que o canavial sim aprende do mar;
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.
João Cabral de Melo Neto,
in "A educação pela pedra", 1966.

Oceanógrafo e ativista do ambiente nascido a 11 de junho de 1910, em França.
O comandante Jacques-Yves Cousteau notabilizou-se pelas suas
investigações subaquáticas e pelos seus livros e documentários
televisivos, largamente difundidos.
Em 1950 tornou-se comandante do Calypso,
um draga-minas convertido em navio oceanográfico que se tornaria
conhecido mundialmente, e em 1957 foi nomeado diretor do museu
oceanográfico do Mónaco. Foi eleito membro da Academia Francesa em 1988. Faleceu em 1997.
O seu empenho no estudo dos oceanos produziria resultados científicos
de vulto, e levá-lo-ia também a desenvolver experiências e técnicas
revolucionárias. Em 1943 inventou, com Émile Gagnan, o aqualung
ou escafandro autónomo, isto é, um escafandro que não dependia do
fornecimento de ar a partir da superfície, assim proporcionando aos
mergulhadores possibilidades completamente novas de exploração do mundo
subaquático.
Cousteau foi também o inventor de um processo para
o uso da televisão debaixo de água. Promoveu ainda, a partir de 1962,
várias experiências de permanência prolongada debaixo de água, nas quais
os mergulhadores chegaram a estar submersos durante um mês.
Cousteau foi desde sempre um apaixonado pelas filmagens da vida
subaquática. Ao longo da sua vida, fez mais de uma centena de
documentários. Le Monde du Silence (1955), a sua primeira longa-metragem, que realizou com Louis Malle como assistente, valeu-lhe a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1956.
Produziu ainda outros filmes, entre os quais Histoire d'un poisson rouge, galardoado com o prémio para a melhor curta-metragem no Festival de Cannes em 1958. (daqui)

Fitz Henry Lane (American painter and printmaker of a style that would later be called Luminism,
for its use of pervasive light, 1804–1865), "Lumber Schooners at Evening on Penobscot Bay", 1863,
National Gallery of Art.
A França!
Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás…
Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz…
Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela…)
Na minha Nau Catarineta, adeus!
Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!…
Oceano Atlântico, 1890.
António Nobre (1867–1900), in "Só", 1892.
Fitz Henry Lane, "The Ships 'Winged Arrow' and 'Southern Cross' in Boston Harbor", 1853,
Cincinnati Art Museum.
"O querer e o poder, se divididos são nada, juntos e unidos são tudo."
António Vieira, in "Sermões"

Fitz Henry Lane, "Salem Harbor", 1853. Oil on canvas, Museum of Fine Arts, Boston.
"No homem o poder é pouco e limitado, e o querer, sempre insaciável e sem limite."
António Vieira, in "Sermões"

SINOPSE
"Não está o erro em desejarem os homens ser, mas está em não desejarem ser o que importa."
António Vieira (1608–1697) foi um grande pensador e visionário, atual na forma como nos mostra o mundo e nos ensina, numa escrita sedutora de grandes efeitos, a reconhecermos a nossa parcialidade e cegueira na relação que mantemos com a realidade e os vícios pelos quais nos deixamos enredar e conduzir por ela.
A partir de uma vasta obra de mais duzentos sermões, setecentas e cinquenta cartas e muitos outros escritos, este livro apresenta os textos chave de Pe. António Vieira e que permitem ao leitor usufruir do melhor de uma sabedoria acessível a todos, pertinente como nunca, num caminho de maior desprendimento do acessório da vida e a concentração no seu essencial - viver. (daqui)
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