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domingo, 20 de agosto de 2017

"Improviso" - Poema de Francisco Carvalho


Moritz Müller (German, 1807-1865), In einer Dachauer Wirtsstube, 1855



Improviso


Nem só de chuva 
se tece a nuvem 
nem só de evento 
se inventa o vento. 

Nem só de fala 
se engendra o grito 
nem só de fome 
prospera o trigo. 

Nem só de raiva 
arde a metáfora 
nem só de enigmas 
se enfeita o nada. 

Nem só de parca 
o céu nos singra 
nem só de pão 
se morre à míngua 

Nem só de pégaso 
escapa o seio 
para essa concha 
partida ao meio. 


in 'As Verdes Léguas'



Moritz Müller (German, 1807-1865), Bauernhochzeit, 1861


"Deve respeitar-se o casamento enquanto é um purgatório, e dissolvê-lo quando se tornar num inferno."    



quinta-feira, 20 de julho de 2017

"O sentido" - Poema de António Ramos Rosa


Moritz Müller, Kniende Frau mit Kindern, vom Brand beleuchtet, 1835 



O sentido


O sentido não está em parte alguma.
É como um lábio truncado
ou como a música de um planeta distante.
Raramente é um palácio ou uma planície,
o diamante de um voo ou o coração da chuva.
Por vezes é o zumbido de uma abelha, uma presença pequena
e o dia é fogo sobre a corola do mar.
Ele bebe a violência e a obscuridade
e nas suas margens está o olvido e o caos.
Os seus caprichos contêm toda a distância do silêncio
e todo o fulgor do desejo. Com desesperada música
estala por vezes sob a máscara do tempo.
Com as cinzas de água cria as lâmpadas de sombra
e de um lado é um deserto e do outro uma cascata.
Pode-se percorrê-lo algumas vezes como o espectro solar
ou senti-lo como um grito em farrapos ou uma porta condenada.
Muitas vezes os seus nomes não são nomes
ou são feridas, paredes surdas, finas lâminas,
minúsculas raízes, cães de sombra, ossos de lua.
Todavia, é sempre o amante desejado
que o poeta procura nos obscuros redemoinhos.





segunda-feira, 19 de junho de 2017

"A Minha Dor" - Poema de Teixeira de Pascoaes


Moritz Müller (german, 1807-1865), Waldbrand 



A Minha Dor


Tua morte feriu-me no mais fundo, 
Remoto da minh'alma que eu julgava 
Já fora desta vida e deste mundo! 

E vejo agora quanto me enganava, 
Imaginando possuir em mim 
Alma que fosse livre e não escrava! 

Meu espirito é treva e dor sem fim. 
Todo eu sou dor e morte. Sou franqueza. 
Sou o enviado da Sombra. Ao mundo vim 

Pregar a noite, a lágrima, a incerteza, 
A luz que, para sempre, anoiteceu... 
Esta envolvente, essencial tristeza, 

Tristeza original donde nasceu 
O sol caindo em lágrimas de luz, 
Choro de oiro inundando terra e céu! 

Sou o enviado da Sombra. Em negra cruz, 
Meu ilusório ser crucificado 
Lembra um morto fantasma de Jesus... 

E aos pés da minha cruz, no chão magoado, 
A tua Ausência é a Virgem Dolorosa, 
Com tenebroso olhar no meu pregado. 

Ah! quanto a minha vida religiosa, 
Depois que te perdeste no sol-posto, 
Se fez incerta, frágil e enganosa! 

Em meu ser desenhou-se um novo rosto. 
Sou outro agora; e vejo com pavor 
Minha máscara interna de desgosto. 

Vejo sombras à luz da minha dor... 
Sombras talvez de eternas Criaturas 
Que vivem na alegria do Senhor... 

E quem sabe se os Mortos, nas Alturas, 
Vivem na paz de Deus, em sitios ermos, 
Entre flores, sorrisos e venturas?... 

E quem sabe se as dores que sofremos 
E nosso corpo e alma, não são mais 
Que as suas vagas sombras irreais?... 

Ah, nós somos ainda o que perdemos... 


Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'


domingo, 20 de novembro de 2011

"Terra - 24" - Poema de Fernando Namora


Moritz Müller (german, 1807-1865)



Terra - 24


António, é preciso partir! 
o moleiro não fia, 
a terra é estéril, 
a arca vazia, 
o gado minga e se fina! 
António, é preciso partir! 
A enxada sem uso, 
o arado enferruja, 
o menino quer o pão; a tua casa é fria! 
É preciso emigrar! 
O vento anda como doido – levará o azeite; 
a chuva desaba noite e dia – inundará tudo; 
e o lar vazio, 
o gado definhando sem pasto, 
a morte e o frio por todo o lado, 
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António! 
É preciso embarcar! 
Badalão! Badalão! – o sino 
já entoa a despedida. 
Os juros crescem; 
o dinheiro e o rico não têm coração. 
E as décimas, António? 
Ninguém perdoa – que mais para vender? 
Foi-se o cordão, 
foram-se os brincos, 
foi-se tudo! 
A fome espia o teu lar. 
Para quê lutar com a secura da terra, 
com a indiferença do céu, 
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra, 
com tudo! 
Árida, árida a vida! 
António, é preciso partir! 
António partiu. 
E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio. 


Fernando Namora, in 'Terra'




Yanni - Nostalgia

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