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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

"A uma lavadeira" - Poema de Gilka Machado



William Merritt Chase (American Impressionist painter and teacher, 1849–1916),
Washing Day – A Backyard Reminiscence of Brooklyn, c 1886.
Oil on wood panel, 38.7 x 47.3 cm, Private collection.
 

A uma lavadeira


Minha vizinha lavadeira,
mal nasce o sol, põe-se a cantar,
canta a manhã, a tarde inteira,
mais me parece uma rendeira
uivosos sons desfiando no ar.

De suas mãos o alvor é tanto
que, às vezes tenho a convicção
de que, talvez por um encanto
alvo se torne tudo quanto
os dedos seus tocando vão.

Quando ela vai ao coradouro
finas cambraias estender,
olhos azuis, cabelo louro,
tudo em seu corpo canta em coro
pela alegria de viver.

Se a lua sobre os silenciados
campos do luar abre os lençóis,
não mais, então, lhe ouço os trinados,
mas cuido ver, por sobre os prados,
dormir, sonhar a sua voz.

Debalde o espírito perscruta
de onde lhe vem esse poder
de sem possuir força bruta,
assim tornar clara, impoluta
roupa que às mãos lhe venha ter.

Não poderei, por mais que queira,
dado me fosse e dos desvãos
da minha dor tirara inteira
esta alma, ó linda lavadeira,
para o crisol de tuas mãos.

Ao teu labor, que assim perdura,
tenho este anseio singular:
pudesses tu, leda criatura,
lavar minha alma da amargura
e pô-la ao sol para secar. 


Gilka Machado, in Mulher Nua, 1922



Elin Danielson-Gambogi (Finnish painter, 1861–1919), Laundry Drying, 1896.


Lavadeiras

 
Lavadeiras de beira-rio.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.


Yeda Prates Bernis, in "Grão de arroz".
Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.
 
 

Alice Havers
(English painter and illustrator, 1850–1890), Washerwomen
 (Blanchisseuses: 'What, no soap?'), Walker Art Gallery.


"Deus nunca se faz de filósofo diante de uma lavadeira."

 
 
 
C. S. Lewis (1898–1963) fotografado em 1955
por Walter Stoneman (1876–1958).


 C. S. Lewis 

Escritor e estudioso britânico, Clive Staples Lewis nasceu a 29 de novembro de 1898, em Belfast, na Irlanda do Norte. Filho de um solicitador e de uma matemática que faleceu quando Lewis contava apenas nove anos de idade, viveu numa casa literalmente atulhada de livros, e na liberdade de os escolher.

Estudou em Hertfordshire e em Malvern, até que, com o início da Primeira Grande Guerra, tinha Lewis catorze anos, o pai decidiu educá-lo em casa.
Decidiu tornar-se ateu nesta época, em que a música de Wagner o havia influenciado significativamente.

Em 1917 alistou-se no exército, mas foi baleado acidentalmente nas costas algum tempo depois.
Durante o período de convalescença, conheceu a mãe de um amigo, Janie Moore (1872–1951), por quem se apaixonou mau grado a considerável diferença de idades, e com quem viveu até ela falecer em 1951.

Em 1919 não só publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de poesia com o título Spirits In Bondage, como ingressou na University College de Oxford, conseguindo o seu diploma quatro anos depois. Começou a lecionar Língua e Literatura Inglesas em Oxford no ano de 1925, e aí co-fundou uma tertúlia literária com J. R. R. Tolkien e Charles Williams, com o nome The Inklings. Deste convívio resultou sobretudo a sua reconversão ao Cristianismo.

Em 1926 publicou uma outra coletânea de poemas, Dymer, e no início da década de 30 começou a escrever livros de carácter religioso, como A Pilgrim's Regress (1933) e Allegory Of Love (1936), chegando ao ponto de utilizar os moldes da ficção científica para discutir questões de fé em Out Of Silent Planet (1938). A obra, parte da chamada 'Ransom Trilogy', seria continuada com a publicação de Perelandra (1943) e Tha Hideous Strengh (1945).

Em 1950 deu início às celebres The Chronicles Of Narnia, série fantástica vocacionada para um público infanto-juvenil, e da qual apareceram sete episódios, sendo The Lion, The Witch And The Wardrobe (1950) o primeiro, e The Last Battle (1956) o último. Situadas no mundo imaginário de Narnia, as aventuras estão repletas de símbolos religiosos e espirituais, revelando a profundeza do pensamento de C. S. Lewis.

O autor faleceu em Oxford, Inglaterra no dia 22 de novembro de 1963. (daqui

domingo, 16 de março de 2025

"Veneza" - Poema de Alfred de Musset


Sir Arthur Streeton (Australian landscape painter and a leading member
 of the Heidelberg School, 1867-1943), The Doge's Palace, Venice, 1908.


Veneza


Em Veneza a vermelha,
Nenhum barco aparelha;
Nem pescador, no mar,
Se vê pescar.

Só, sobre o cais sentado,
Vela o leão do Estado,
Que ao horizonte adianta
A brônzea planta.

Ao seu redor, qual bando
De cisnes repousando,
Alinham, numerosas,
Naves airosas.

Dormem na água, que fuma,
E cruzam sob a bruma,
Em leves convulsões,
Os pavilhões.

A Lua, que perpassa,
Desmaia a fronte baça,
De uma nuvem estrelada
Meio velada …

— Como de Santa Cruz
A madre o seu capuz,
Sobre o rosto descai,
Que lho retrai.

E os palácios vetustos,
Os pórticos augustos,
Dos grande as escadas
Ornamentadas,

Mais as ruas, as pontes,
As estátuas e as fontes,
E o golfo, que o vento
Faz turbulento,

São mudos! … Só os guardas,
De longas alabardas,
Vão e vêm nos portais
Dos arsenais.

— Ah! quanta bela, agora,
Moço gentil que adora
Espera na janela
Que venha vê-la …

Outras ao espelho, entanto,
A mascarilha e o manto,
Para o baile a que vão,
Ajeitarão.

No leito perfumado,
O amante idolatrado
Vanina abraça ainda
Dormindo, linda.

Narciso, a louca altiva,
Na gôndola, lasciva,
Aturde-se na orgia
Até ser dia.

Mas quem, na Itália, um pouco,
Oh Céus! não tem de louco?
Quem não dá ao amor
Da vida a flor?

No palácio do doge,
Conte a hora que foge
O relógio cansado,
Em tom magoado …

Deixemo-lo, formosa!
E em tua boca sequiosa
Contemos beijos dados …
Ou perdoados.

Contemos teus encantos
E mais os doces prantos
Das horas de langor
Do nosso amor!


Alfred de Musset
Tradução de Pedro da Silveira, in "Mesa de Amigos"
Angra do Heroísmo, 1986.


 
Mesa de Amigos: versões de poesia
Edição/reimpressão: 04-2002
Editor: Assírio & Alvim
Páginas: 288 


SINOPSE


Pedro da Silveira, açoreano, erudito, poeta, de há muito que tem vindo a traduzir poemas e poetas da sua afinidade eletiva. Juntou há uns anos essas traduções num livro a que chamou "Mesa de Amigos", que foi editado nos Açores. Essa "Mesa", um pouco mais alargada, chega-nos agora de novo, pela mão da Assírio & Alvim. São poetas de várias línguas, tempos e lugares, que os autor "estima" e considera "merecedores de geral estima".

Nesta notável mesa temos então versões (muito boas) dos chineses Fu Hsiuan, Li Tai Po, Tu Fu, dos italianos Leopardi, Bruno Barilli, Saba e Ungaretti, dos franceses Baudelaire, Verlaine, Valéry Larbaud, Jules Laforgue, dos castelhanos Adolfo Bécquer, Ruben Darío, Manuel Machado, dos sul-americanos Pedro Salinas e Cernuda, do catalão Salvador Espriu, dos galegos Rosalía de Castro ou Fermin Bouza Brey, entre outros.

"Numa altura em que talvez se sobrevalorize demasiado ostensivamente o ouro local, há que louvar a humildade com que Pedro da Silveira nos convida a partilhar joias de outras latitudes. Em suma, um livro para aqueles a quem interessa, de facto, a poesia - e não os discursos, modas, estratégias e instituições que dela se pretendem apropriar: ‘Todos estamos sós no coração da terra/ trespassado por um raio de sol;/ e de repente anoitece" (Salvatore Quasimodo, ‘E de repente Anoitece’, pág. 221)." - Manuel de Freitas, Expresso (daqui)
 

Sir Arthur Streeton, The Doge's Palace, Venice, 1908.
 

"Toda vez que eu descrever uma cidade, estou dizendo algo sobre Veneza."

Italo Calvino, em "As Cidades Invisíveis", 1972.

[Jornalista, contista e romancista italiano, Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923 em Santiago de Las Vegas, na ilha de Cuba. Ainda criança acompanhou os pais na sua mudança para São Remo, em Itália.
Em 1940, e em consequência da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Calvino foi recrutado para a Mocidade Fascista, mas desertou pouco tempo depois, refugiando-se nas montanhas da Ligúria, onde se juntou à Resistência Comunista.
Pôde, no entanto, ingressar no curso de Literatura da Universidade Turim em 1941 mas, e com uma passagem pela Real Universidade de Florença, só conseguiu licenciar-se após a guerra, em 1947. Nesse mesmo ano publicou o seu primeiro romance, com o título Il sentiero dei nidi di ragno (1947). A obra remetia para as suas experiências enquanto ativo da resistência italiana e foi bem acolhida pela crítica, sobretudo devido aos trejeitos que Calvino dava à narrativa.

Em 1949 publicou uma coletânea de contos, também dedicados à problemática de guerra, que haviam já aparecido em publicações periódicas. A colaboração de Calvino com a imprensa havia começado em meados de 1945, no jornal comunista L'Unittá, prosseguindo em títulos como Il Garibaldino, voce della Democracia e La Republica.
Após a publicação de Il visconte dimezzato (1954), o autor abandonou o tema da guerra recente, preferindo o absurdo e o fantástico ao neorrealismo com que havia pautado o seu trabalho. A obra, que inaugurava uma trilogia também composta pelos volumes Il barone rampante (1957) e Il cavaliere inesistente (1959), e que causou fortes polémicas no seio do Partido Comunista Italiano, contava a história de um homem mutilado por uma bala de canhão durante a tomada de Constantinopla.
Calvino procurava assim demonstrar o seu desagrado perante o partido, que abandonou após os acontecimentos da primavera de Praga. Sentiu que o seu esforço literário era mais necessário na imprensa, pelo que se passou a concentrar mais na carreira como jornalista do que como romancista.
Em 1959 viajou pelos Estados Unidos da América, formulando um contraste com a sua visita à União Soviética em 1952. De regresso, começou a editar a revista Il Menabó Di Letteratura, em colaboração com Elio Vittorini. Mantendo sempre um olhar crítico sobre a sociedade, entrelaçada na consciência individual e na inércia dos eventos históricos, publicou Marcovalco (1963), uma coletânea de fábulas em que criticava o modo de vida das cidades, destrutivo e vazio. Marcovalco era apresentado como um homem de família sonhador que, permanecendo na sua cidade durante o mês de agosto, quando todos os outros habitantes partiram para férias, vê o seu descanso ser interrrompido por uma equipa de televisão que o quer entrevistar, precisamente por ter sido o único a renunciar às estâncias balneares.
Em 1972 publicou Le Cittá Invisibli, romance em que o lendário explorador Marco Polo se dedicava a contar histórias de cidades fictícias para o divertimento de Kublai Khan, e que valeu ao autor o conceituado Prémio Felrinelli. A sua obra mais conhecida, Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa Noite de Inverno um Viajante) apareceu em 1979. Palomar (1983), descrevia as contemplações filosóficas de um homem aparentemente simples.
Italo Calvino faleceu a 19 de setembro de 1985, em Siena, vítima de uma hemorragia cerebral.]
(daqui)
 
 
Sir Arthur Streeton, Evening, Venice, 1908.
 
 
"A gôndola negra, magra, e o modo em que se move, leve, sem qualquer ruído. Há algo estranho, uma beleza de sonho, parte integrante da cidade da ociosidade, do amor e da música."
 

[Romancista e poeta alemão nascido em 1877, na pequena cidade de Calw, na orla da Floresta Negra e no estado de Wüttenberg, e falecido a 9 de agosto de 1962, durante o sono, vítima de uma hemorragia cerebral.
Filho de Johannes Hesse, cidadão russo nascido em Weissenstein, na Estónia e de Marie Gundert, nascida em Talatscheri, na Índia, e ela própria filha de um missionário Pietista perito em Indologia, Hermann Gundert, também editor religioso.
Como os pais depositavam esperanças no facto de Hermann Hesse poder vir a seguir a tradição familiar em teologia, já que eles mesmos haviam servido como missionários na Índia, enviaram-no para o seminário protestante de Maulbronn, em 1891, mas acabou por ser expulso. Passando a uma escola secular, o jovem Hermann tornou a revelar inadaptação, pelo que abandonou os seus estudos.
Hermann Hesse começou depois a trabalhar, primeiro como aprendiz de relojoeiro, como empregado de balcão numa livraria, como mecânico, e depois como livreiro em Tübingen, onde se teria juntado a uma tertúlia literária, "Le Petit Cénacle", que teria, não só grandemente fomentado a voracidade de leitura em Hesse, como também determinado a sua vocação para a escrita. Assim, em 1899, Hermann Hesse publicou os seus primeiros trabalhos, Romantischer Lieder e Eine Stunde Hinter Mitternacht, volumes de poesia de juventude.
Depois da aparição de Peter Camenzind, em 1904, Hesse tornou-se escritor a tempo inteiro. Na obra, refletindo o ideal de Jean-Jacques Rousseau do regresso à Natureza, o protagonista resolve abandonar a grande cidade para viver como São Francisco de Assis. O livro obteve grande aceitação por parte do público.
Em 1911, e durante quatro meses, Hermann Hesse visitou a Índia, que o teria desiludido mas, em contrapartida, constituído uma motivação no estudo das religiões orientais. No ano seguinte, o escritor e a sua família assentaram arraiais na Suíça. Nesse período, não só a sua esposa começou a dar sinais de instabilidade mental, como um dos seus filhos adoeceu gravemente. No romance Rosshalde (1914), o autor explora a questão do casamento ser ou não conveniente para os artistas, fazendo, no fundo, uma introspeção dos seus problemas pessoais.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Hesse demonstrou ser desfavorável ao militarismo e ao nacionalismo que se faziam sentir na altura e, da sua residência na Suíça, procurou defender os interesses e a melhoria das condições dos prisioneiros de guerra, o que lhe valeu ser considerado pelos seus compatriotas como traidor.
Finda a guerra, Hesse publicou o seu primeiro grande romance de sucesso, Demian (1919). A obra, de carácter faustiano, refletia o crescente interesse do escritor pela psicanálise de Carl Jung, e foi louvada por Thomas Mann. Assinada nas primeiras edições com o nome do seu narrador, Emil Sinclair, Hesse acabaria por confessar a sua autoria.
Deixando a sua família em 1919, Hermann Hesse mudou-se para o Sul da Suíça, para Montagnola, onde se dedicou à escrita de Siddharta (1922), romance largamente influenciado pelas culturas hindu e chinesa e que, recriando a fase inicial da vida de Buda, nos conta a vida de um filho de um Bramane que se revolta contra os ensinamentos e tradições do seu pai, até poder eventualmente encontrar a iluminação espiritual. A obra, traduzida para a língua inglesa nos anos 50, marcou definitivamente a geração Beat norte-americana.
1919 foi também o ano em que Hesse travou conhecimento com Ruth Wenger, filha da escritora suíça Lisa Wenger e bastante mais nova que o autor. O escritor renunciou à cidadania alemã, em 1923, optando pela suíça. Divorciando-se da sua primeira esposa, Maria Bernoulli, casou com Ruth Wenger em 1924, tendo o casamento durado apenas alguns meses. Dessa experiência teria resultado uma das suas obras mais importantes, Der Steppenwolf (1927). No romance, o protagonista Harry Haller confronta a sua crise de meia-idade com a escolha entre a vida da ação ou da contemplação, numa dualidade que acaba por caracterizar toda a estrutura da obra.
Em 1931 voltou a casar, desta feita com Ninon Doldin, de origem judaica. Com apenas catorze anos, havia enviado, em 1909, uma carta a Hermann Hesse, e desde então a correspondência entre ambos não mais cessou. Conhecendo-se acidentalmente em 1926, foram viver juntos para a Casa Bodmer, estando Ninon separada do pintor B. F. Doldin, e a existência de Hesse ter-se-à tornado mais serena.
Durante o regime Nacional-Socialista, os livros de Hermann Hesse continuaram a ser publicados, tendo sido protegidos por uma circular secreta de Joseph Goebbels em 1937. Quando escreveu para o jornal pró-regime Frankfürter Zeitung, os refugiados judeus em França acusaram-no de apoiar os Nazis. Embora Hesse nunca se tivesse abertamente oposto ao regime Nacional-Socialista, procurou auxiliar os refugiados políticos. Em 1943 foi finalmente publicada a obra Das Glasperlernspiel, na qual Hesse tinha começado a trabalhar em 1931. Tendo enviado o manuscrito, em 1942, para Berlin, foi-lhe recusada a edição e o autor foi colocado na Lista Negra Nacional-Socialista. Não obstante, a obra valer-lhe-ia o prémio Nobel em 1946.
Após a atribuição do famoso galardão, Hesse não publicou mais nenhuma obra de calibre. Entre 1945 e 1962 escreveria cerca de meia centena de poemas e trinta e dois artigos para os jornais suíços.]
(daqui)
 

Sir Arthur Streeton, Canal Scene, Venice, 1926. 
 

"Se eu tivesse que encontrar uma palavra que substituísse 'música', eu só conseguiria pensar em Veneza."
 
Friedrich Nietzsche


[Um dos filósofos mais emblemáticos dos finais do século XIX, nasceu em 1844, em Röcken, e morreu em 1900, atacado pela demência, em Weimar. As suas reflexões caracterizam-se por uma violenta crítica aos valores da cultura ocidental.
Com efeito, para Nietzsche, a decadência do Ocidente começou quando o discurso filosófico, depois de Sócrates, veio afastar a síntese que se realizara na tragédia grega, substituindo a harmonia apolíneo/dionisíaco (representando a ambivalência da essência humana, dividida entre a desmesura passional e a medida racional) por um discurso das aparências, enganador e ilusório, que transforma a realidade autêntica em metáforas ocas.
Esse processo de desvitalização encontrará o apogeu com a afirmação da moral judaico-cristã, «moral de escravos», reflexo de uma maquinação hipócrita de indivíduos débeis, ignóbeis e vis numa tentativa de enfraquecer e dominar pela astúcia os valorosos.
A crítica nietzschiana acaba mesmo por abranger os fundamentos da razão, considerando que o erro e o devaneio estão na base dos processos cognitivos e que a fé na ciência, como qualquer fé em verdades absolutas, não passa de uma quimera.
Não se limitando, porém, à denúncia de um estado de espírito dominado pela submissão a valores ancestrais, impotentes para criar algo de novo e propagando a obediência e a servidão como princípios supremos, ao proclamar a «morte de Deus» e a abolição de qualquer tutela, Nietzsche passa ao anúncio de uma nova era centrada na exaltação da vontade de poder, apanágio do homem verdadeiramente livre, o super-homem, que não conhece outros ditames além dos que ele próprio fixa. No entanto, o super-homem não é unicamente dominado pelo egoísmo, cabendo-lhe dirigir a «massa», anónima e ignorante, para um estádio superior em que os valores vitais, a alegria e a espontaneidade permitam a reafirmação do instinto criador da humanidade.
Pensador paradoxal, associa ao super-homem a consciência do eterno retorno, procurando, talvez, exprimir o aspeto cíclico dos movimentos históricos ou a impossibilidade de, alguma vez, ser atingido um grau supremo de perfeição no devir do Homem.
Expressando-se de forma aforística e mantendo todas as suas afirmações no limiar da inteligibilidade imediata, Nietzsche foi um filósofo ímpar, tão inovador como polémico: ao exaltar, em detrimento da razão, a faculdade da vontade como núcleo da essência humana e verdadeiro motor do devir e colocando-se numa posição de profundo ceticismo face aos fundamentos da ética e da moral, abalou profundamente os pilares do racionalismo, sendo por isso considerado como um dos «filósofos da suspeita» (ao lado de Marx e Freud), na esteira da «crise da razão» que marcou profundamente a filosofia no século XX.

Entre as suas obras são de destacar:

A Origem da Tragédia (1872), Humano, Demasiado Humano (1878), Aurora (1881), A Gaia Ciência (1882), Assim Falou Zaratustra (1883-85), Para além do Bem e do Mal (1886), A Vontade de Poder (1886, editado em 1906), A Genealogia da Moral (1887), Ecce Homo (1888), O Anticristo (1888).]
(daqui)
 

terça-feira, 24 de setembro de 2024

"É ela! É ela!" - Poema de Álvares de Azevedo

 

Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), Peasant Hanging out the Washing, 1881.
 


É ela! É ela! 

 
 É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
(Antologia poética, 1853), 2ª Parte.
 

sexta-feira, 26 de julho de 2024

"Evocação feminina" - Poema de Virgínia Schall



Claude Monet
 (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926).
Women in the Garden (Femmes au jardin), 1866, Musée d'Orsay.



Evocação feminina 
 
(Dedico este poema às poetas Bárbara Heliodora, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa (in memoria)
 e especialmente à poeta e amiga Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres poetas
 de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos séculos.)

 
Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras.

E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.

Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes.

Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias.

Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.

O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?

Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados.
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas.

Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!
[Escritora, cientista, educadora e poetisa brasileira, 1954 - 2015]


Claude Monet, Le Parc Monceau, 1878, Metropolitan Museum of Art.


"Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação."

Clarice Lispector
(1920-1977), em crónica "O artista perfeito", 1969
e posteriormente publicada no livro "A Descoberta do Mundo", 1984.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

"Escritor, escritório" - Poemas de Armando Freitas Filho


Pierre-Auguste Renoir (French artist, 1841–1919), The Reader: Portrait of  Edmond Maître 
 (French writer, musician, and art collector, 1840–1898), 1871, Private Collection.
 


Escritor, escritório


Não transponho Camões, mas me empenho.
Não atravesso seu mar manuscrito
porque me afogo na incompreensão
no enfado, no palavreado castiço
na análise sintática dos seus versos
onde erro na prova urgente, aflita
sem ouvi-los soar na página a pleno
de difícil lida, da ilimitada luta
na travessia da linha, da estrofe
empolgante, empolada, que arrebata
a vastidão do céu desconhecido
que vai se descobrindo, nuvem por nuvem
até o sol nomear a praia do primeiro passo.


Armando Freitas Filho, in 'Rol', 2016, p. 11
 


Armando Freitas Filho, 'Rol', 144 páginas.
Companhia das Letras, 2016 
 
 
RESUMO
"ROL"

Trazendo a morte como pano de fundo, a poética corajosa, madura e sensível de um dos maiores autores em atividade do Brasil.
 
Na obra de Armando Freitas Filho, diversificada ao longo de mais de cinquenta anos de trabalho poético, "Lar", (2009), "Dever" (2013) e este "Rol" formam uma trilogia involuntária. O clima dos três livros é o mesmo. Temas são tratados com minúcia e relevância, e questões de ordem quotidiana, filosófica, memorial, erótica e lírica vão sendo retomadas, revistas por ângulos diferentes ou repisadas na tentativa de conquistar maior densidade e conhecimento na nova elaboração. À diferença dos livros anteriores, este se estrutura através de dez séries de poemas e três longos: "Canetas emprestadas", "Suíte para o Rio" e "De roldão". Sob os títulos gerais, cada uma das séries vai analogicamente abrindo o leque do assunto motivador das correlações, dispostas no desenvolvimento da composição. Algumas delas incorporaram subtítulos que se impuseram no curso da escrita. E o livro se encerra com "Numeral", que vem sendo realizado desde 1999. A poesia dos numerais não acaba, ela continuará no próximo ou nos próximos livros, sem prazo de fechamento, na linha virtual do horizonte. A sequência dos capítulos trata, como diz o "Poema-prefácio", "de tudo um pouco", tendo como pano de fundo a morte vista de perto pelo poeta. A obra, por isso mesmo, é austera: escrita com afinco e coragem. Não chega a ser um livro de despedida, uma vez que muito ficou de fora deste volume. O autor ainda terá o que dizer a seus leitores, pois o conjunto de poemas de Armando Freitas Filho que ficou na gaveta espera sua futura oportunidade, como ele diz em "Rol": "Mas há ainda uma 'melodia trémula'/ que vale a pena ouvir, registar como/ acompanhamento do meu tempo particular/ o que seria pouco, mas que desse ao menos/ uma pala do tempo de todo mundo". (daqui)
 

Poema-prefácio

 
O rol desenrolado aqui
acolhe de tudo um pouco.
Coisas de cama, mesa, banho
um trivial variado, familiar
estranho, com uma pitada de déjà-vu
e o apanhado na rua, andando:
às vezes tão urgente e passageiro
que sem “nada no bolso ou nas mãos”
pedia canetas emprestadas
e um papel qualquer, onde
escrevia calcando, com letra
garranchosa, de dentro, imediata
e torta, mas que se aplicava
exata, naquilo que corria
por fora do escritório da cabeça
no vento livre de véu, a céu aberto
ou quando não, no nó apertado
cego, difícil de desmanchar
o que apressava o ponto final.
 

Armando Freitas Filho, in 'Rol', 2016, p. 5
 
 
Pierre-Auguste Renoir, Conversation in Rose Garden, 1876. Private Collection.

 

"A vida é um viajante que deixa a sua capa arrastar atrás de si, para que lhe apague o sinal dos passos".
 
"La vie est un voyageur qui laisse traîner son manteau derrière lui, pour effacer ses traces." 
 
 Publicado por Gallimard, 1947 - 630 páginas. 
 
 

Louis Aragon
(Poète, romancier et journaliste français, 1897–1982),
 1936. Photo d'Henri Manuel (Photographe français, 1874–1947). (daqui)


Escritor e homem de letras francês, Louis Aragon nasceu com o nome de Louis Andrieux a 3 de outubro de 1897, em Paris. 
Filho dos proprietários de uma pensão situada num bairro abastado da cidade, terminou o ensino secundário no Liceu Carnot em 1916, pelo que se pôde matricular no curso de Medicina da Universidade de Paris. Como decorria na altura a Primeira Grande Guerra, Aragon teve que interromper os seus estudos, ao ser convocado para o serviço militar, que cumpriu na qualidade de médico auxiliar.
Terminada a guerra, e enquanto retomava o seu curso, conheceu André Breton, que o pôs em contacto com as andanças do Dadaísmo e do Surrealismo. Em consequência, co-fundou com este e com Philippe Soupault, uma revista caracterizada por uma crítica social cáustica e astuta, dirigida essencialmente aos valores da burguesia, e que levava o nome de Littérature.
Louis Aragon estreou-se como poeta em 1920, ao publicar a sua primeira coletânea Feu de Joie, obra que demonstrava a ferocidade do Dadaísmo em relação ao comodismo da sociedade francesa da época. Seguiram-se Anicet; ou, Le Panorama (1921), romance que procurava parodiar a figura do pintor espanhol Pablo Picasso e, entre outras obras, Le Libertinage (1924), uma compilação de contos que apontavam uma transição para o Surrealismo, Le Mouvement Perpétuel (1925), uma sátira ao pedantismo dos poetas, e Le Paysan de Paris (1926), narrativa irónica em que Aragon estudava a mentalidade do parisiense.
No ano de 1928 conheceu Elsa Triolet, uma escritora russa, cunhada do poeta Vladimir Mayakovsky, e que não só teve uma influência importante no trabalho de Aragon, como veio também a tornar-se sua esposa. Afiliando-se no Partido Comunista, o escritor decidiu empreender, em 1930, uma viagem à então União Soviética. Regressando a Paris, distanciou-se dos surrealistas e, sob a alçada de Mayakovsky, publicou Le Front Rouge (1930), poema que incitava à Revolução, e que valeu ao seu autor uma pena suspensa de cinco anos.
Louis Aragon prosseguiu o seu esforço literário dentro de moldes comunistas, publicando não só ensaios, romances e coletâneas de poemas, como também exercendo jornalismo. Com a deflagração da Guerra Civil Espanhola, combateu ao lado dos Republicanos e, após a ocupação de parte do território francês pelas tropas Nacional-Socialistas, juntou-se à Resistência, publicando também artigos na imprensa clandestina. Com Paul Éluard, tornou-se um dos poetas da Resistência (Le Crève-cöur, 1941) e celebrou o amor absoluto em Les Yeux d'Elsa (1942) e, mais tarde, em Le Fou d'Elsa (1963).
Finda a guerra desempenhou um papel de importância em várias publicações, nomeadamente no jornal Ce Soir e na revista literária Les Lettres Françaises. Retomou uma forma clássica com os romances La Mise à mort (1965) e Blanche ou l'oubli (1967), que correspondem à sua última fase.
Manteve-se um estalinista convicto até 1968, altura em que os blindados soviéticos invadiram a Checoslováquia, depois da chamada primavera de Praga. Descontente com as notícias do massacre, mitigou as suas opiniões políticas.
Tido como um dos fundadores do Surrealismo, Louis Aragon faleceu em Paris, na véspera de Natal de 1982. (daqui)
 

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Dois poemas do homem e sua escolha - Moacyr Félix


Alessandro Pomi (Italian Impressionist painter, 1890–1976), "Cenacolo", 1931 (Immagini del silenzio)
 
 

Dois poemas do homem e sua escolha 

"Revenir serait une chute écrasante."
Paul Éluard
I

Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora ... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência - ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...

II

Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto ...


do livro "O pão e o Vinho", 1959.


Alessandro Pomi (Italian Impressionist painter, 1890–1976), "Amici"

"Todo o homem que é um homem a sério tem de aprender a ficar sozinho no meio de todos, a pensar sozinho por todos - e, se necessário, contra todos." 

Romain Rolland, em Clérambault (novel), 1920




Romain Rolland, 1915

Romain Rolland foi um escritor francês, nascido a 29 de janeiro de 1866, em Clamency, e falecido a 30 de dezembro de 1944, em Vézelay, vítima de tuberculose. Foi laureado com o Prémio Nobel em 1915.
Doutorou-se em Arte em 1895, foi professor de História da Arte na École Normale de Paris e professor de História da Música na Sorbonne. Para além da sua atividade docente, foi um reconhecido crítico de música. Estreou-se na escrita em 1897 com a peça Saint-Louis, que, juntamente com Aërt (1898) e Le Triomphe de la Raison (1899), fez parte da trilogia Les Tragedies de la Foi (1909). Em 1910 retirou-se do ensino para se dedicar inteiramente à escrita.
Na sua obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista. Escreveu peças de teatro, biografias (Vie de Beethoven, 1903; Mahatma Ganghi, 1924), um manifesto pacifista (Au-dessus de la mêlée, 1915) e dois ciclos romanescos: Jean-Christophe (10 vols., 1904-1912), "roman-fleuve" (segundo as palavras do autor) consagrado a um músico genial, e L'Âme enchantée (7 vols., 1922-1934). Em 1923, fundou a revista Europe. (Daqui)

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

"Deus escreve direito" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Alessandro Pomi (Italian impressionist painter, 1890–1976),
Allo specchio (In the mirror), 1960
 

Deus escreve direito



Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha reta
Por isso em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol, tua luz, teu alimento.
 

Sophia de Mello Breyner Andresen,
do livro "O Búzio de Cós e outros Poemas" (1997)
Editorial Caminho, Lisboa


Alessandro Pomi (Italian impressionist painter, 1890–1976)


Instante

 
Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
Antologia (1975). Círculo de Poesia (2ª. edição).
Lisboa: Moraes Editores
 

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

"Falar contigo" - Poema de Renata Pallottini



Thomas Pollock Anshutz, Man and Woman on the Beach, 1893 



Falar contigo

 
Falo contigo
e é como se falasse
com essa qualidade
de luz das árvores.

É perfurar o verde
e emergir do outro lado
(o húmido porvir
dos vegetais).

Falo contigo
e compreendo o estado
dos sons que surgem
à noite, noite-em-claro.

Falo contigo
e entendo
o que não tem sentido.

Amor é assim, palavra:
lume comovido.


Renata Pallottini,
de "Um Calafrio Diário", 2002
 
 
Thomas Pollock Anshutz, Low Tide, 1897, watercolor on paper
 
 
Viola caipira
os remos dos barcos
seguem ritmo.

no livro "Yuuka. haicais".


Thomas Pollock Anshutz, Landscape with grey sky, 1900
 
 
Pôr-do-sol
em torno dele
todos os cinzas.
 
Alice Ruiz,
da obra "Boa companhia–poesia", 2003
 
 
"Boa companhia–poesia", 1ªed. (2003)
 
 
Apresentação
 
Autores - Dora Ferreira da Silva, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho, Francisco Alvim, Zuca Sardan, Chacal,  Nicolas Behr, Roberto Marinho de Azevedo,  Arnaldo Antunes, Josely Vianna Baptista, Alice Ruiz,  Bruno Zeni, Lélia Coelho Frota, Antonio Fernando de Franceschi, Eucanaã Ferraz, José Almino.
 
"Boa Companhia - Poesia" reúne dezasseis poetas brasileiros contemporâneos, em textos inéditos de diversas tendências estéticas, que refletem inquietações pessoais, dão contornos às incongruências da nossa sociedade e respondem aos desafios do tempo.
A pluralidade de caminhos da produção poética atual denota vitalidade artística. Os poemas reunidos nesta coletânea vão do coloquialismo ao apuro formal, do haikai à poesia em prosa, da contenção da poesia visual às formas mais expressivas do verso tradicional.

Depois de "Boa Companhia - Contos", este é o segundo volume de uma coleção que apresenta autores de destaque, brasileiros e estrangeiros, de todas as épocas, em diversos géneros da escrita, com o objetivo de demonstrar que o prazer da leitura é sempre uma boa companhia. (daqui)
 

domingo, 24 de julho de 2022

"Uma botânica da paz: visitação" - Poema de Ana Luísa Amaral


Mary Cassatt (1844–1926, American painter), The Cup of Tea, c. 1881
 
 

Uma botânica da paz: visitação


Tenho uma flor
de que não sei o nome

Na varanda,
em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima

Mas estes são prodígios
para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves

Não a ameaçam bombas
nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz

E o céu azul de Outono
a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água que lhe dou

Deve ser isto
uma espécie de paz:

um segredo botânico
da luz
 

Ana Luísa Amaral

in Entre Dois Rios e Outras Noites, 2007
 
 
 
 
 
Som alto
vento na varanda
a samambaia samba
 
(Haicai / Haikai / Haiku)