Mostrar mensagens com a etiqueta Max Pechstein. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Max Pechstein. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Partida" e "Regresso" - Poemas de José Agostinho Baptista



Max Pechstein (German expressionist painter and printmaker and a member
of the Die Brücke group, 1881–1955), Meadow at Moritzburg, 1910.


Partida


Partirei.
E ao partir, ninguém saberá quem fui,
quantas horas passei, à beira das lápides,
sem pensar em nada.
Cairá o sol sobre o meu peito.
Cairá a escuridão.

Nas planícies do pai,
há um filho que escreve o livro dos órfãos.
O vento move as espigas.
No centeio e no trigo ouve-se um lamento.
Agora sim, direi adeus. 


José Agostinho Baptista, in "Quatro Luas"
Assírio & Alvim, 2006.
 

 
Max Pechstein
, The Red House, 1911, Israel Museum, Jerusalem.


Regresso


Há muito que parti.
Abandonei as searas onde nunca vi os
desígnios de deus.
Abandonei a fé.
Caminhei sem destino,
procurei a árvores secreta dos irmãos,
e, com saudade e desvario, abandonei as casas.

Escondi-me.
Escondi o último verso numa noite sem fim.
E hoje escrevo para ti que às vezes me escreves,
do outro lado das terras.
Conhecerei um dia as falésias onde o garajau
paira,
quando chegar, pelas madrugada,
às portas do teu sonho?

De pé, sobre o promontório,
olhas para longe, para os meus barcos que
naufragaram.


José Agostinho Baptista, in "Quatro Luas"
Assírio & Alvim, 2006.
 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

"O portão" - Poema de Lêdo Ivo

 
Max PechsteinThe Red House, 1911 - Oil on canvas, 88.9 × 68.5 cm,
Art Institute of Chicago
 
 
O portão

 
O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa e me rodeiam.
Ó mistério do mundo! Nenhum cadeado fecha o portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.


Lêdo Ivo
,
do livro “A noite misteriosa”, 1982.
 
 
Max PechsteinDie Schwalben sammeln sich (Ückeritz i. Pommern), 1949
 
 
 A andorinha faz
a sua casa
no vento. 

Albano Martins
(Haicai / Haikai) 
 
 
Max Pechstein, Self-Portrait with Pipe and Hat, 1918
(Expressionism, Fauvism


Max Pechstein (Zwickau, 1881-1955) foi um pintor expressionista alemão e artista gráfico. Formado na Academia de Dresden e na Kunstgewerbeschule, em 1906 foi integrado em Die Brücke
Trabalhou num expressionismo moderado, influenciado pela pintura fauvista francesa, especialmente por Matisse
Em 1908 deslocou-se a Berlim onde participou da fundação da New Secession (1910), o que o levou a ser expulso de Die Brücke em 1912. 
Os seus temas favoritos relacionam-se ao exotismo e à união com a natureza, motivo pelo qual visitou as ilhas Palau do Pacífico em 1914. 
Ligou-se com Der Blaue Reiter, sendo um dos membros do grupo que mais cedo alcançou a popularidade. 
Após a Primeira Guerra Mundial fez parte do Novembergruppe (1918), ensinando na Academia das Artes da Prússia até a chegada do nazismo, que o retirou dos seus cargos e o condenou ao ostracismo. Em 1945 foi reabilitado e trabalhou como professor da Escola Superior de Artes Figurativas.
Max Pechstein faleceu em Berlim Ocidental, a 29 de Junho de 1955. (Daqui)


Max Pechstein, A yellow house  
 
 
Expressionismo
Movimento Artístico
 
 
O Expressionismo designa um movimento cultural que se manifestou nos mais diversos campos artísticos como as artes visuais, o teatro, a literatura e o cinema. Nas artes plásticas (pintura, escultura, fotografia) e na arquitetura, esta tendência, de dimensão internacional desenvolveu-se a partir dos finais do século XIX, tendo conhecido uma importante expansão na Alemanha, no contexto de angústia e de agitação social que antecedeu a Primeira Guerra Mundial.

O Expressionismo apresentou-se em oposição tanto ao sentido cientista do Impressionismo como à vocação decorativa da Arte Nova e caracteriza-se pela procura de formas artísticas que exprimissem mais livre e subjetivamente os sentimentos do artista em relação à realidade. Os quadros tornaram-se o retrato intenso de emoções, transmitidas através de cores violentas e de pinceladas vincadas e as esculturas apresentavam formas agressivas, modelações vincadas e texturas rudes.

As primeiras manifestações que se podem considerar precursoras do movimento expressionista datam de meados de 1880. Entre estas contam-se as obras do pintor holandês Vincent Van Gogh, marcante pelo uso intenso dos valores cromáticos e texturais, e do francês Toulouse-Lautrec, nomeadamente pelos temas abordados e pela liberdade e espontaneidade do desenho. Os pintores Edvard Munch, expoente do Expressionismo nórdico, e James Ensor representaram outro momento de afirmação dos fundamentos da estética expressionista, como temas dramáticos e obsessivos e pela violência das formas e da cor.

Todas estas referências vão cruzar-se no contexto artístico da Alemanha de inícios do século, encontrando eco em artistas que procuram afirmar novos caminhos.

A primeira corrente organizada dentro no interior do movimento expressionista foi o grupo Die Brücke (A Ponte), formado em Dresden em 1905, por Ernst Ludwig Kirchner, Karl Schmidt-Rottluff, Emil Nolde (1867-1956) e Max Pechstein (1881-1955) entre outros, com objetivo de agregar as várias tendências de vanguarda, rejeitando o academismo, o Impressionismo, o Jugendstil e a Secessão. Procurava, através de uma expressão direta, emotiva e muitas vezes violenta, a representação da realidade social e política desse período.

Mais tarde, em 1912, é formado em Munique o grupo Der Blaue Reiter (O cavaleiro azul) pelos pintores Wassily Kandinsky e Franz Marc, que reúne um vasto número de artistas alemães, suíços e russos, constituindo um novo período de afirmação do Expressionismo, mais ligado às manifestações do inconsciente e à atenção aos valores cromáticos e formais.

A corrente Nova Objetividade (Die Neue Sachlichkeit) formada no período entre as duas guerras mundiais, num clima de intensos problemas sociais e de desilusão e decadência de determinadas formas da cultura e da civilização ocidental, assumiu a recuperação e o ressurgimento do Expressionismo, após a interrupação ditada pela Primeira Guerra Mundial. Teve com protagonistas os pintores Otto Dix (1891-1969), George Grosz (1893-1959) e Max Beckmann (1884-1950), cujos trabalhos denunciam uma atitude eminentemente satírica e de crítica social.

A expansão internacional do Expressionismo acentua-se precisamente nesta altura, destacando-se os trabalhos de artistas como Oskar Kokoschka (1886-1980) e Arnold Schoenberg (1874-1951) na Áustria, e de Georges Rouault (1871-1958) e Chaïm Soutine (1894-1943), em França.

A pintura expressionista foi uma das principais precursoras do movimento do Expressionismo Abstrato e do Informalismo, surgidos respetivamente nos Estados Unidos da América e na Europa nas décadas de quarenta e cinquenta.

A escultura expressionista foi grandemente impulsionada pela obra do francês Auguste Rodin. De facto, um dos principais representantes deste movimento no campo da escultura foi Antoine Bourdelle (1861-1929), um dos discípulos do mestre francês. Destacam-se ainda alguns trabalhos do americano Jacob Epstein (1880-1959) e do alemão Ernst Barlach (1870-1938), representando geralmente figuras humanas de carácter maciço às quais imprimem diferentes tipos de distorção e uma modelação livre e intencionalmente imperfeita. (Daqui)
 

 
Max Pechstein, Springtime, 1919
 
 
Mais cedo ou mais tarde
o silêncio virá
perguntar por ti. 


Albano Martins
(Haicai / Haikai) 
 

terça-feira, 30 de março de 2021

"Tu? Eu?" - Poema de Carlos Drummond de Andrade

 
Max Pechstein, Self-portrait with death, 1920


 
Tu? Eu?


Não morres satisfeito.
A vida te viveu
sem que vivesses nela.
E não te convenceu
nem deu motivo
para haver o ser vivo.

A vida te venceu
em luta desigual.
Era todo o passado
presente presidente
na polpa do futuro
acuando-te no beco.
Se morres derrotado,
não morres conformado.

Nem morres informado
dos termos da sentença
de tua morte, lida
antes de redigida.
Deram-te um defensor
cego surdo estrangeiro
que ora metia medo
ora extorquia amor.

Nem sabes se és culpado
de não ter culpa. Sabes
que morres todo o tempo
no ensaiar errado
que vai a cada instante
desensinando a morte
quanto mais a soletras,
sem que nascido, mores
onde, vivendo, morres.

Não morres satisfeito
de trocar tua morte
por outra mais perfeita.
Não aceitas teu fim
como aceitaste os muitos
fins em volta de ti.

Testemunhaste a morte
no privilégio de ouro
de a sentires em vida
através de um aquário.
Eras tu que morrias
nesse, naquela; e vias
teu ser evaporado
fugir à perceção.
Estranho vivo, ausente
na suposta consciência
de imperador cativo.

Foste morrendo só
como sobremorrente
no lodoso telhado
(era prémio, castigo?)
de onde a vista captava
o que era abraço e não
durava ou se perdia
em guerra de extermínio,
horror de lado a lado.

E tudo foi a caça
veloz fugindo ao tiro
e o tiro se perdendo
em outra caça ou planta
ou barro, arame, gruta.
E a procura do tiro
e do atirador
(nem sequer tinha mãos),
a procura, a procura
da razão da procura.

Não morres satisfeito,
morres desinformado.
in A falta que ama, 1968
 
[Publicado em 1968, A falta que ama aprofunda questões que sempre marcaram a obra poética de Carlos Drummond de Andrade: afetos, memória e observações sobre a realidade brasileira.]
 
 
Max Pechstein, Under the Trees (Akte im Freien), 1911, oil on canvas, 
73.6 x 99 cm (29 x 39 in), Detroit Institute of Arts


É meu conforto
Da vida só me tiram
Morto.
 
(Haicai / Haikai)
 
 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

"Como é que se esquece alguém que se ama?" - Crónica de Miguel Esteves Cardoso


Max Pechstein, Sunlight, 1921 
(Expressionism, Fauvism)


Como é que se esquece alguém que se ama?


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 
 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'


domingo, 1 de janeiro de 2012

"Sol de Janeiro" - Poema de João Luís Barreto Guimarães


Max Pechstein (German expressionist painter and printmaker, 1881–1955),
Boat at Sunrise, 1949



Sol de Janeiro


Nunca tanto como hoje reparei com atenção
na
luz do sol de Janeiro. Forte
mas delicada. Furtiva
mas
demorada. Não arde nem faz tremer.
Não é densa nem clara. A
luz
do sol em Janeiro:
assim é o nosso amor
oculto pela tinta dos dias apenas
espreita uma aberta
(uma distracção das nuvens)
para
luzir e irromper
(nunca antes como hoje precisei)
tanto que o vento lhe desse oportunidade).
O nosso amor
é Janeiro:
mesmo se o julgo esquecido
sei que
está sempre lá.


Rés-do-Chão
Lisboa, Gótica, 2003
 


Bruno Mars - Grenade


"Apesar dos nossos defeitos, precisamos enxergar que somos pérolas únicas no teatro da vida e entender que não existem pessoas de sucesso e pessoas fracassadas. O que existem são pessoas que lutam pelos seus sonhos ou desistem deles." - Augusto Cury