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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

"Canto em si" - Poemas de Reynaldo Valinho Alvarez


 
Alfredo Andersen (Pintor, escultor, decorador, cenógrafo, desenhista e professor norueguês
 radicado no Brasil, 1860-1935), "Paisagem serrana com personagem", 1918.
Museu Oscar Niemeyer
 
 
Canto em si

1

Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.

A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.

Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.

No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.

A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.

A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que consequência...

2

Cansei de andar em busca do destino
E tranquilo retraço meu caminho.

Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.

Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.

Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.

Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.

Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.


Reynaldo Valinho Alvarez (1930 - 2021),
in "Canto em si e outros cantos", 1979.
 
 
 
Alfredo Andersen, "Vista do porto", 1895


"Defino a poesia das palavras como Criação rítmica da Beleza. O seu único juiz é o Gosto." 

Edgar Allan Poe
, in "A Filosofia da Composição"
 
 

Alfredo Andersen, "Rocio", 1896
 

"A vida real do homem é feliz, principalmente porque está sempre à espera de o ser em breve."
 
 Edgar Allan Poe, in "Marginalia" 


 
Edgar Allan Poe, c. 1847
 
 
Edgar Allan Poe

Escritor norte-americano nascido a 19 de janeiro de 1809, em Boston, e falecido a 7 de outubro de 1849.

Filho de dois atores de Baltimore, David Poe Junior e Elizabeth Arnold Poe, ficou órfão com apenas dois anos de idade e desde cedo aprendeu a sobreviver sozinho.
Foi adotado por uma família de comerciantes ricos de Richmond, de quem recebeu o apelido Allan.

Entre 1815 e 1820, a família Allan viveu em Inglaterra e na Escócia, onde Poe recebeu uma educação tradicional, regressando depois a Richmond. Poe foi para a Universidade da Virgínia em 1826, onde estudou grego, latim, francês, espanhol e italiano, mas desistiu do curso onze meses depois por causa do seu vício do jogo e do álcool.

Resolveu então ir para Boston, onde publicou em 1827 um fascículo de poemas da juventude de inspiração byroniana, Tamerlane and Other Poems.

Em 1829 publicou o seu primeiro volume de poemas, com o título Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems, onde se denota a influência de John Milton e Thomas Moore.

Foi então para Nova Iorque, onde publicou outro volume, contendo alguns dos seus melhores poemas e onde se evidencia a influência de Keats, Shelley e Coleridge.

Em 1835 estreou-se como diretor do jornal Southern Literary Messenger, em Richmond, onde se tornaria conhecido como crítico literário, mas veio a ser despedido do seu cargo alegadamente por causa do seu problema da bebida. O álcool viria aliás a ser o estigma que marcaria toda a sua vida até à morte.

Casou-se nesse mesmo ano com a sua prima de apenas treze anos, Virgínia Clemm, e o casal resolveu então instalar-se em Nova Iorque, onde não chegou a permanecer muito tempo.
Foi em Filadélfia que Poe alcançou fama através de vários volumes de poemas e histórias de mistério e de terror.

Em 1838 escreveu The Narrative of Arthur Gordon Pym (A Narrativa de Arthur Gordon Pym), obra de prosa em que combinou factos reais com as suas fantasias mais insanes. Em 1839 tornou-se codiretor do Burton's Gentleman's Magazine em Filadélfia, e nesse mesmo ano escreveu várias obras que o tornaram famoso pelo seu estilo de literatura ligado ao macabro e ao sobrenatural. São elas William Wilson e The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher).

A primeira história policial surgiu apenas em 1841, na revista Graham's Lady's and Gentleman's Magazine, sob o nome The Murders of the Rue Morgue (Os Crimes da Rue Morgue), e em 1843 Poe recebeu o seu primeiro prémio literário com a obra The Gold Bug.

Em 1844 regressou a Nova Iorque e tornou-se subdiretor do New York Mirror. Na edição de 29 de janeiro de 1845 deste jornal surgiu o poema "The Raven" ("O Corvo"), com o qual Poe atingiu o auge da sua fama nacional.

Dois anos mais tarde morre a sua mulher Virgínia, mas Poe volta a casar, com Elmira Royster, em 1849. Porém, antes disso, Poe publica Eureka, uma obra que deu azo a muita contestação por parte de alguns críticos da época e que é considerada uma dissertação transcendental sobre o universo, muito louvada por uns e detestada por outros.

É de regresso à terra natal do seu pai que Poe começa a apresentar indícios de que o problema do alcoolismo já era de certo modo irreversível. De facto, ele esteve na origem da morte do poeta.

A obra de Poe é o espelho da sua vida conturbada e dos seus hábitos e atitudes antissociais, que o levavam a ter uma escrita que ia para além dos padrões convencionais. Se por um lado foi vítima de certas circunstâncias que estavam para além do seu controle, como foi o facto de ter ficado órfão aos dois anos de idade, por outro fez-se escravo de um problema - o álcool - que agravaria a sua personalidade já de si inconstante, imprevisível e incontrolável. (daqui)

sábado, 3 de abril de 2021

"Estrangeiro" - Poema de Reynaldo Valinho Alvarez


Gustave Caillebotte (Pintor francês, 1848-1894), A Balcony, Boulevard Haussmann, 1880
 – óleo sobre tela – 67,9 x 61 cm – coleção particular
 

Estrangeiro

 
Sou estrangeiro em todos os lugares.
Inútil procurar-te, aldeia minha.
Subo de escada todos os andares,
com a fria espada a acutilar-me a espinha.
Não sou daqui nem sou de lá. Perdi-me
na indecisão de becos e de esquinas.
Como o pardal diante do gato, vi-me
apanhado por garras assassinas.
Os mapas pendurados nas paredes
riem de mim como insensíveis redes,
rasgando os peixes que não fogem mais.
Prenderam-me entre muros que abomino
e toda a noite entoam-me seu hino
de insultos, gritos e ódios triunfais.
 in 'Galope do Tempo'
 
 
Gustave Caillebotte, Interior, Woman at the Window, 1880 
– óleo sobre tela – coleção particular


Nós Dois

Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um voo.
"Sou céu!" disse o chão. 
 
(Haicai / Haikai)
 
 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"A Essência não se perde" - Poema de Reynaldo Valinho Alvarez



László Moholy-Nagy
, Great machine of emotion, 1920
 


A Essência não se perde

 
Com a firmeza de passos sem retorno,
carregar o que foi dentro de si,
sem chorar a partida, sem temer
deixar o que afinal vai bem marcado
com seu selo de coisa inesquecível.
A essência não se perde, vai connosco
e extravasa dos dedos quando escrevem,
salta fora da boca quando fala,
transpira pela pele, sai dos ossos,
é lançada dos músculos em arco
e circula no sangue das artérias.
Os pagos, as querências não se perdem,
se penetram nos ossos, moram neles,
não como o minuano passageiro,
mas sim como a medula que sustenta
o circuito do corpo e o movimenta,
impedindo que pare, morra e penda
como trouxa de pano, como penca
tombada de seu pé, como o vazio,
a coisa sem recheio, a casca murcha,
o fruto despojado de si mesmo.
 

Reynaldo Valinho Alvarez, 
in 'O Solitário Gesto de Viver' 
 
 
Reynaldo Valinho Alvarez (daqui)


Reynaldo Valinho Alvarez (Rio de Janeiro, 1931), formado em Letras, Direito, Economia e Administração, publicou vinte e dois livros de poesia, dois de ficção, dois de ensaio e quinze livros para crianças e adolescentes, além de participar de mais de cinquenta coletâneas de poemas, contos e ensaios, com outros autores, e de colaborar em jornais e revistas. Foi laureado pelas principais instituições culturais do país, entre elas a Academia Brasileira de Letras, o Instituto Nacional do Livro, a Fundação Biblioteca Nacional, o Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, a Fundação Cultural do Distrito Federal, e a Fundação Catarinense de Cultura, além de entidades em Portugal, no México, na Itália e na Espanha. Traduzido para o sueco, o italiano, o espanhol, o francês, o corso, o galego, o persa, o macedónio e o inglês, foi incluído pela crítica entre os nomes mais expressivos da poesia brasileira contemporânea, que representou em festivais internacionais na Suécia, na Macedónia, no Canadá e na Espanha.
Reynaldo Valinho Alvarez, filho de pai espanhol e mãe portuguesa, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1931. Viveu seus primeiros anos junto a imigrantes portugueses, espanhóis e italianos, e seus descendentes.
Cursou as quatro primeiras séries do primário no Colégio Municipal Celestino da Silva. Entre seus contemporâneos, estava o animador e empresário de comunicação Sílvio Santos. Fez o antigo ginásio e o antigo clássico no Colégio Pedro II, onde conheceu Maria José, com quem está casado há 55 anos e que com ele cursou Letras Clássicas, na Faculdade Nacional de Filosofia... (continua)
 
 
László Moholy-Nagy, Self-Portrait, 1918
Wax crayon on paper, 37.9 x 31 cm 
 
Artista multifacetado, László Moholy-Nagy nasceu em 1895, em Bácsborsód, na Hungria. Estudou Direito, desde 1913, em Budapeste, abandonando os estudos em 1918. Tinha já realizado alguns trabalhos de pintura e de desenho. Em 1919 desloca-se para Viena e, no ano seguinte, para Berlim, onde realiza a sua primeira exposição individual, em 1922. Foi professor da Bauhaus entre 1923 e 1928, tornando-se mestre da forma e do atelier de metal e chefe do curso preliminar. Deu aulas de materiais e de espaço. Realizou trabalhos de pintura, de tipografia e de fotografia e publicou vários estudos e ensaios teóricos sobre design. Entre 1928 e 1934 dirigiu um estúdio de design gráfico em Berlim. Trabalhou em filmes experimentais e fez projetos para a Ópera Kroll e para o teatro Piscator. Na década de 30 realizou uma série de esculturas denominadas Moduladores Espaciais que constituem as primeiras manifestações da arte cinética.
Emigra para Amesterdão em 1934 e viaja para Londres no ano seguinte, trabalhando aí como designer gráfico. Mais tarde, desloca-se para os Estados Unidos da América e funda, em Chicago, uma escola de artes, a New Bauhaus, em 1937, que, no ano seguinte, passaria a designar-se School of Design. Desenvolve nesta fase esculturas acrílicas e concentra-se novamente sobre a pintura em 1944, sendo exemplo desta fase o Double Loop, de 1946. Morre em Chicago em 1946. A sua obra Visions of Motion foi publicada postumamente, em 1947.
(daqui)
 
 
László Moholy-Nagy, “Double Loop”, 1946
 
[This Plexiglas sculpture consists of a series of geometric planes, incised with holes and slits, flowing in biomorphic curves to double back and enfold each other and themselves. The effects of light and viewing perspective continually transform the appearance and mood of the piece, as art critic Chi-Young Kim notes: "when you walk around the piece in person, the incisions seem to disappear and reappear depending on your vantage point." Moholy-Nagy's use of translucent plastic, combined with his awareness of the ambient effects of light and viewer positioning, is typically prescient, prefigures later movements in modern art such as the 1960s Light and Space movement.] (daqui)
 

sábado, 17 de junho de 2017

"O Deus Dará" - Poema de Reynaldo Valinho Alvarez



Émile Eisman-Semenowsky (Russian-born, French-Polish painter,
1857–1911), 'Genre Scene', 1893


O Deus Dará


ao deus-dará
vou como vou

tudo que sou
foi ou será

não sei se o tempo
trará ou não
de supetão
um contratempo

quando galopa
age sem jeito
torna imperfeito
tudo que topa

o que está morto
morto ficou
quem o enterrou
lhe deu um porto

mas na memória
de cada tarde
ainda que tarde
se conte a história

cada domingo
tem sua tarde
que sem alarde
cai como um pingo

mas há uma só
pra cada um
e não nenhum
que a atire ao pó

há uma apenas
que me recorda
em dose gorda
coisas amenas

que a tarde fique
como um menino
atento ao sino
e a se repique


Que a tarde guarde sempre o som de um sino
Ecoando alegrias de menino.


Reynaldo Valinho Alvarez,
in 'Galope do Tempo'