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quinta-feira, 24 de outubro de 2024

"Mãe" - Poema de Antero de Quental



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), 'The pastoral recreation', 1868.
Private collection


Mãe
 
 
Mãe — que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas ate o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem — dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava.

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe! 


Antero de Quental
, in "Sonetos"
 
 
William-Adolphe Bouguereau, 'The Bunch Of Grapes' ('La Grappe de raisin'), 1868.


"O olhar dos olhos de nossa mãe é parte de nossa alma, é o olhar que nos penetra por nossos olhos." 

"Le regard des yeux de notre mère est une partie de notre âme qui pénètre en nous par nos propres yeux."

Alphonse de Lamartine
, 'Les confidences' - Página 25,  Perrotin, 1849
 

domingo, 22 de setembro de 2024

"Voz do Outono" - Poema de Antero de Quental

 
Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935),
'The pear tree in Ancher's front garden, autumn', Unknown date.




Voz do Outono


Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
- "Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima solidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!" 


Antero de Quental
, in Sonetos


 
Anna Ancher, 'Pear Tree in Front Yard', Unknown date.
 
 
Outono


Manhã de outono
o verde do mar
também amarela.


Alice Ruiz
, Haikais
 

quarta-feira, 10 de julho de 2024

"Hino da Manhã" - Poema de Antero de Quental



Maria Guilhermina Silva Reis (Pintora portuguesa, 1825-1885),
Queluz - Vista dos quartos altos, s.d.



Hino da Manhã


Tu, casta e alegre luz da madrugada,
Sobe, cresce no céu, pura e vibrante,
E enche de força o coração triunfante
Dos que ainda esperam, luz imaculada!

Mas a mim pões-me tu tristeza imensa
No desolado coração. Mais quero
A noite negra, irmã do desespero,
A noite solitária, imóvel, densa,

O vácuo mudo, onde astro não palpita,
Nem ave canta, nem sussurra o vento,
E adormece o próprio pensamento,
Do que a luz matinal... a luz bendita!

Porque a noite é a imagem do Não-Ser,
Imagem do repouso inalterável
E do esquecimento inviolável,
Que anseia o mundo, farto de sofrer...

Porque nas trevas sonda, fixo e absorto,
O nada universal o pensamento,
E despreza o viver e o seu tormento.
E olvida, como quem está já morto...

E, interrogando intrépido o Destino,
Como réu o renega e o condena,
E virando-se, fita em paz serena
O vácuo augusto, plácido e divino...

Porque a noite é a imagem da Verdade,
Que está além das coisas transitórias.
Das paixões e das formas ilusórias,
Onde somente há dor e falsidade...

Mas tu, radiante luz, luz gloriosa,
De que és símbolo tu? do eterno engano,
Que envolve o mundo e o coração humano
Em rede de mil malhas, misteriosa!

Símbolo, sim, da universal traição,
Duma promessa sempre renovada
E sempre e eternamente perjurada,
Tu, mãe da Vida e mãe da Ilusão...

Outros estendam para ti as mãos,
Suplicantes, com fé, com esperança...
Ponham outros seu bem, sua confiança
Nas promessas e a luz dos dias vãos...

Eu não! Ao ver-te, penso: Que agonia
E que tortura ainda não provada
Hoje me ensinará esta alvorada?
E digo: Porque nasce mais um dia?

Antes tu nunca fosses, luz formosa!
Antes nunca existisses! e o Universo
Ficasse inerte e eternamente imerso
Do possível na névoa duvidosa!

O que trazes ao mundo em cada aurora?
O sentimento só, só a consciência,
Duma eterna, incurável impotência,
Do insaciável desejo, que o devora!

De que são feitos os mais belos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? de ilusões, de dores,
De misérias, de mágoas, de agonias!

O sol, inexorável semeador,
Sem jamais se cansar, percorre o espaço,
E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes inúmeras da Dor!

Oh! como cresce, sob a luz ardente,
A seara maldita! como treme
Sob os ventos da vida e como geme
Dum sussurro monótono e plangente!

E cresce e alastra, em ondas voluptuosas,
Em ondas de cruel fecundidade,
Com a força e a subtil tenacidade
Invencível das plantas venenosas!

De podridões antigas se alimenta,
Da antiga podridão do chão fatal...
Uma fragrância mórbida, mortal
Lhe ressuma da seiva peçonhenta...

E é esse aroma lânguido e profundo,
Feito de seduções vagas, magnéticas,
De ardor carnal e de atrações poéticas,
É esse aroma que envenena o mundo!

Como um clarim soando pelos montes,
A aurora acorda, plácida e inflexível,
As misérias da terra: e a hoste horrível,
Enchendo de clamor e horizontes.

Torva, cega, colérica, faminta,
Surge mais uma vez e arma-se à pressa
Para o bruto combate, que não cessa,
Onde é vencida sempre e nunca extinta!

Quantos erguem nesta hora, com esforço,
Para a luz matinal as armas novas,
Pedindo a luta e as formidáveis provas,
Alegres e cruéis e sem remorso,

Que esta tarde há de ver, no duro chão
Caídos e sangrentos, vomitando
Contra o céu, com o sangue miserando,
Uma extrema e importante imprecação!

Quantos também, de pé, mas esquecidos,
Há de a noite encontrar, sós e encostados
A algum marco, chorando aniquilados
As lágrimas caladas dos vencidos!

E porque? para que? para que os chamas,
Serena luz, ó luz inexorável,
À vida incerta e à luta inexpiável,
Com as falsas visões, com que os inflamas?

Para serem o brinco dum só dia
Na mão indiferente do Destino...
Clarão de fogo-fátuo repentino,
Cruzando entre o nascer e a agonia...

Para serem, no páramo enfadonho,
À luz de astros malignos e enganosos,
Como um bando de espectros lastimosos,
Como sombras correndo atrás dum sonho...

Oh! não! luz gloriosa e triunfante!
Sacode embora o encanto e as seduções,
Sobre mim, do teu manto de ilusões:
A meus olhos, és triste e vacilante...

A meus olhos, és baça e lutuosa
E amarga ao coração, ó luz do dia,
Como tocha esquecida que alumia
Vagamente uma cripta monstruosa...

Surges em vão, e em vão, por toda a parte,
Me envolves, me penetras, com amor...
Causas-me espanto a mim, causas-me horror,
E não te posso amar — não quero amar-te!

Símbolo da Mentira universal,
Da aparência das coisas fugitivas,
Que esconde, nas moventes perspetivas,
Sob o eterno sorriso o eterno Mal,

Símbolo da Ilusão, que do infinito
Fez surgir o Universo, já marcado
Para a dor, para o mal, para o pecado,
Símbolo da existência, sê maldito!


Antero de Quental
(1842–1891), in 'Sonetos'
 
 
Maria Guilhermina Silva Reis, Paisagem de Sintra com pastor e cabras, 1868.
 

Maria Guilhermina Silva Reis, Vista de São Domingos de Benfica com figura de caçador e de pastor, s.d.


"A poesia é a confissão sincera do pensamento mais íntimo de uma idade."
 
Antero de Quental, in Posfácio às 'Odes Modernas'
 

domingo, 19 de novembro de 2023

"Abnegação" - Poema de Antero de Quental



Adolfo Belimbau
(Italian painter, 1845 - 1938), The Butterfly Girl



Abnegação



Chovam lírios e rosas no teu colo!
Chovam hinos de glória na tua alma!
Hinos de glória e adoração e calma,
Meu amor, minha pomba e meu consolo!

Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palma,
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!

E nem sequer te lembres de que eu choro...
Esquece até, esquece, que te adoro...
E ao passares por mim, sem que me olhes,

Possam das minhas lágrimas cruéis
Nascer sob os teu pés flores fiéis,
Que pises distraída ou rindo esfolhes!


Antero de Quental, in Odes Modernas, 1865
 
 
Adolfo Belimbau (Italian painter, 1845 - 1938)
 
 
A importância da Mulher no progresso da civilização 
 
 
"Se na história não procurarmos só uma data ou um facto descarnado, mas tentarmos nela descobrir alguma coisa mais, um princípio harmónico e as leis que governam esses factos, ainda nas suas menores evoluções, veremos que a história da civilização da mulher, do seu desenvolvimento e da sua moralidade, anda sempre ligada aos factos do desenvolvimento da civilização e da moralidade dos povos: veremos que aonde a sua condição se amesquinha, onde desce em dignidade, onde a mulher em vez do triplo e sagrado carácter de amante, esposa e mãe passa a ser escrava sem liberdade nem vontade, só destinada a saciar as paixões brutais dum senhor devasso, aí também veremos descer o nível da civilização e moralidade: à doçura dos costumes suceder a fereza e a brutalidade; e em vez do amor, essa flor do sentimento pura e recatada, só apareceram a paixão instintiva e brutal, necessidade puramente física do animal que obedece à lei da reprodução, à devassidão e à poligamia!" 


Antero de Quental (1842–1891), in 'Prosas da Época de Coimbra'

sábado, 11 de novembro de 2023

"Versos escritos da margem dum missal" - Poema de Antero de Quental


 
Aelbert Cuyp (Dutch Golden Age artist, 1620–1691), Avenue at Meerdervoort, c. 1650 -1652,  
 


Versos escritos da margem dum missal


Bem pode ser que nossos pés doridos
Vão errados na senda tortuosa,
Que o pensamento segue nos desertos,
Na viagem da Ideia trabalhosa...

Que a árvore da Ciência, sacudida
Com força, jamais deite sobre o chão,
Aos pés dos tristes que ali estão ansiosos,
Mais do que o fruto negro da ilusão...

Que o livro do Destino esteja escrito
Sobre folhas de lava, em letra ardente,
E não chegue a fitá-lo o olho humano
Sem que ofusque e cegue de repente...

Pode ser que, na luta tenebrosa
Que este século move sob o céu,
Venha a faltar-lhe o ar, por fim, faltando-lhe
A terra sob os pés, bem como Anteu...

Que do sangue espalhado nos combates,
E do pranto que cai da triste lira,
No árido chão da esperança humana
Mais não nasça que a urze da mentira...

Que o mistério da vida a nossos olhos
Se torne dia a dia mais escuro,
E no muro de bronze do Destino
Se quebre a fronte sem que ceda o muro...

Que o pensamento seja só orgulho,
E a ciência um sarcasmo da verdade,
E nosso coração louco vidente,
E nossas esperanças só vaidade...

E nossa luta, vã! talvez que o seja!
Cego andará o homem cada vez
Que vê o céu um astro! e os passos dele
Errados pelo mundo irão, talvez!

Mas, ó vós que pregais descanso inerte
No seio maternal da ignorância,
E condenais a luta, e dás ao homem
Por seu consolo o dormitar da infância;

Apóstolos da crença... na inércia...
Vós que tendes da Fé o ministério
E sois reveladores, dando ao mundo
Em lugar de um mistério... outro mistério;

Se quanto o Universo tem no seio,
E quanto o homem tem no coração,
O olhar que vê e a alma que adivinha,
O pensar grave e a ardente intuição,

Se nada em terra e céu pode ensinar-nos
Do fado humano o imortal segredo,
Nem os livros profundos da ciência,
Nem as profundas sombras do arvoredo,

Se não há mão audaz que possa erguê-lo
O tenebroso véu do Bem e Mal...
Se ninguém nos explica este mistério...
Também o não dirá nenhum missal!




"Uma vida não questionada não merece ser vivida."

Platão
 (Filósofo grego, no século IV a.C.), in a "A República" (daqui)
 
 
Aebert Cuyp, The Negro Page, c. 1652, Royal Collection


"O corpo humano é a carruagem, eu, o homem que a conduz, os pensamentos as rédeas, os sentimentos são os cavalos." 
 
 



O filósofo observa e medita. É um espelho que pensa."

Guerra Junqueiro, "Prosas dispersas‎" - Página 92, 
 Publicado por Lello & Irmão, 1926 - 169 páginas
 

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

"Logos" - Poema de Antero de Quental



Raphael (Italian painter and architect of the High Renaissance, 1483 – 1520), The School of Athens,
1509–1511 (Fresco), 500 cm × 770 cm, Apostolic Palace, Vatican City


Logos
  
                                                                                                    Ao sr. D. Nicolás Salmerón

Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E, o que é mais, dentro em mim ‑ que me rodeias
Com um nimbo de afetos e de ideias,
Que são o meu princípio, meio e fim...

Que estranho ser és tu (se és ser) que assim
Me arrebatas contigo e me passeias
Em regiões inominadas, cheias
De encanto e de pavor... de não e sim...

És um reflexo apenas da minha alma,
E em vez de te encarar com fronte calma
Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te...

Falo-te, calas... calo, e vens atento...
És um pai, um irmão, e é um tormento
Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te!


Antero de Quental
, in "Sonetos Completos", 1886
 
 
 


Logos  
 
(Do grego lógos, «razão; palavra»)
 
Nome masculino de 2 números (Substantivos que apresentam uma só forma para o singular e para o plural.)
 

1. A faculdade de raciocinar e de falar, que distingue o ser humano dos outros animais e lhe permite apreender cognitivamente a realidade; razão.

2. Filosofia: na doutrina de Heraclito, princípio cósmico de que derivam a ordem e a racionalidade do universo.
 
3. Filosofia: na doutrina estoica, o princípio que anima a matéria e determina o destino humano.

4. Filosofia: na doutrina neoplatónica, agente mediador entre a realidade sensível e o inteligível.
 
5. Religião [com maiúscula]: no Evangelho de João, a palavra divina, princípio criador identificado com a segunda pessoa da Santíssima Trindade, encarnada em Jesus Cristo.
 
6. Psicanálise: no pensamento junguiano, o princípio da razão e do julgamento. (daqui)
 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

"Amaritudo" - Poema de Antero de Quental



James Holland (English painter, 1799-1870), Vila do Conde, Portugal, 1837 (Watercolour).


Amaritudo


Só por ti, astro ainda e sempre oculto,
Sombra do Amor e sonho da Verdade,
Divago eu pelo mundo e em ansiedade
Meu próprio coração em mim sepulto.

De templo em templo, em vão, levo o meu culto,
Levo as flores d'uma íntima piedade.
Vejo os votos da minha mocidade
Receberem somente escárnio e insulto.

À beira do caminho me assentei...
Escutarei passar o agreste vento,
Exclamando: assim passe quando amei! —

Oh minh'alma, que creste na virtude!
O que será velhice e desalento, 
Se isto se chama aurora e juventude?


Antero de Quental, in "Sonetos"

 

terça-feira, 12 de setembro de 2023

"Sonho Oriental" - Poema de Antero de Quental


Horace Vernet (French painter of battles, portraits, and Orientalist subjects,
1789 – 1863), Self-Portrait with Pipe, 1835.




Sonho Oriental

 
Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...

O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...

E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.


Antero de Quental, Sonetos

quinta-feira, 25 de maio de 2023

"Tentanda Via" - Poema de Antero de Quental


El Greco (Greek painter, sculptor and architect of the Spanish Renaissance, 1541-1614),
Saint Martin and the Beggar
, c. 1597-1599, National Gallery of Art, Washington DC



Tentanda via

I

Com que passo tremente se caminha
Em busca dos destinos encobertos!
Como se estão volvendo olhos incertos!
Como esta geração marcha sozinha!

Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
Vai o giro dos céus bem vagaroso...
Vem longe ainda a praia do futuro...

É a grande incerteza, que se estende
Sobre os destinos dum porvir, que é treva...
E o escuro terror de quem nos leva...
O fruto horrível que das almas pende!

A tristeza do tempo! o espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
— Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. —

Não é a grande luta, braço a braço
No chão da Pátria, à clara luz da História...
Nem o gládio de César, nem a glória...
É um misto de pavor e de cansaço!

Não é a luta dos trezentos bravos,
Que o solo amado beijam quando caem...
Crentes que traz um Deus, e à guerra saem,
Por não dormir no leito dos escravos...

É a luta sem glória! é ser vencido
Por uma oculta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma íntima tristeza
Que à morte leva... sem se ter vivido!

Não há aí pelejar... não há combate...
Nem há já glória no ficar prostrado —
São os tristes suspiros do Passado
Que se erguem desse chão, por toda a parte...

É a saudade, que nos rói e mina
E gasta, como à pedra a gota d’água...
Depois, a compaixão, a íntima mágoa
De olhar essa tristíssima ruína...

Tristíssimas ruínas! Entristece
E causa dó olhá-las — a vontade
Amolece nas águas da piedade,
E, em meio do lutar, treme e falece.

Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!

II

A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!

Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!

Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!

E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;

Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé — ó vós, poetas!

Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...

Levai-os vós à Pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna do deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!

III

Sim! que é preciso caminhar avante!
Andar! passar por cima dos soluços!
Como quem numa mina vai de bruços,
Olhar apenas uma luz distante!

É preciso passar sobre ruínas,
Como quem vai pisando um chão de flores!
Ouvir as maldições, ais e clamores,
Como quem ouve músicas divinas!

Beber, em taça túrbida, o veneno,
Sem contrair o lábio palpitante!
Atravessar os círculos do Dante,
E trazer desse inferno o olhar sereno!

Ter um manto da casta luz das crenças,
Para cobrir as trevas da miséria!
Ter a vara, o condão da fada aérea,
Que em ouro torne estas areias densas!

E, quando, sem temor e sem saudade,
Puderdes, dentre o pó dessa ruína,
Erguer o olhar à cúpula divina,
Heis de então ver a nova-claridade!

Heis de então ver, ao descerrar do escuro,
Bem como o cumprimento de um agouro,
Abrir-se, como grandes portas de ouro,
As imensas auroras do Futuro!

(1864)

Antero de Quental
, in Odes Modernas 
 

Odes Modernas
 
Coletânea de poesias, de Antero de Quental, dedicada a Germano Meireles, publicada em 1865, que, refletindo as influências do humanitarismo de Proudhon e da dialética evolucionista de Hegel, rompeu com a temática sentimentalista que caracterizou a segunda geração romântica e impôs o romantismo social, marcado pelo fervor revolucionário, pela sede de justiça social e pela crença na apoteose futura da verdade: "O Evangelho novo é a bíblia da Igualdade:/ Justiça, é esse o tema imenso do sermão:/ A missa nova, essa é missa de Liberdade:/ E órgão a acompanhar... a voz da Revolução!" ("No templo").
 Referindo-se, em 1887, na célebre "Carta autobiográfica dirigida ao Professor Wilhelm Storck", às Odes Modernas, Antero chamar-lhes-á "poesia de combate", caracterizando o tom e os temas predominantes no volume: "o panfletário divisa-se muitas vezes por detrás do poeta, e a Igreja, a monarquia, os grandes do mundo são o alvo das suas apóstrofes de nivelador idealista. Noutras composições, é verdade, o tom é mais calmo e patenteia-se nelas a intenção filosófica do livro, vaga sim, mas humana e elevada".
Assumindo a "missão revolucionária da poesia" exposta na nota posfacial, é na qualidade de "Soldado do Futuro" ("Pois, se são operários do futuro,/ Semeadores da seara nova,/ Que lançam uma ideia em cada cova,/ Da dura história sobre o chão escuro", de "Pater"), à escuta da "voz das multidões", que Antero se dirige "A um Poeta": "Há mais alta missão, mais alta glória:/ O combater, à grande luz da História,/ Os combates eternos da Justiça". Esta "Justitia mater" de raiz proudhoniana aparece em "Tese e Antítese" concebida hegelianamente como a "nova ideia" - "desgrenhada/ Torva no aspeto, à luz da barricada" - que o poeta, como revolucionário, ajuda a revelar.
Na célebre "Nota" posfacial, Antero formula uma conceção socialmente militante da missão do poeta e da poesia, voltada para a "reconstrução do mundo humano sobre as bases eternas da Justiça, da Razão e da Verdade, com exclusão dos Reis e dos Governos tirânicos, dos Deuses e das Religiões inúteis e ilusórias", sustentando, assim, uma prática poética inconciliável com o que designa de "arte pela arte", isto é, uma poesia meramente decorativa. Este texto, juntamente com os prefácios de Teófilo Braga à Visão dos Tempos e às Tempestades Sonoras, motivou as alusões irónicas de Castilho, na carta-posfácio ao Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, à moderna escola de Coimbra e à sua poesia ininteligível, vindo, portanto, a desencadear a Questão Coimbrã(daqui)

domingo, 7 de maio de 2023

"Tese e Antítese" - Poema de Antero de Quental


 
James Tissot (French painter and illustrator, 1836–1902), The Circle of the Rue Royale, a scene in Paris
 seen from the balcony of the Hôtel de Coislin overlooking the Place de la Concorde, 1868.
 
 

Tese e Antítese

I

Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspeto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia!

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia…
Respira fumo e fogo embriagada…
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obus...

Mas a ideia é num mundo inalterável,
Num cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espetáculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante…
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
‘Té que a revolva o remoinhar da luta,
‘Té que a fecunde o sangue dos heróis!

(1870) 

Antero de Quental
, in Odes Modernas
 
 

 
Odes Modernas
 
Coletânea de poesias, de Antero de Quental, dedicada a Germano Meireles, publicada em 1865, que, refletindo as influências do humanitarismo de Proudhon e da dialética evolucionista de Hegel, rompeu com a temática sentimentalista que caracterizou a segunda geração romântica e impôs o romantismo social, marcado pelo fervor revolucionário, pela sede de justiça social e pela crença na apoteose futura da verdade: "O Evangelho novo é a bíblia da Igualdade:/ Justiça, é esse o tema imenso do sermão:/ A missa nova, essa é missa de Liberdade:/ E órgão a acompanhar... a voz da Revolução!" ("No templo").
 
 Referindo-se, em 1887, na célebre "Carta autobiográfica dirigida ao Professor Wilhelm Storck", às Odes Modernas, Antero chamar-lhes-á "poesia de combate", caracterizando o tom e os temas predominantes no volume: "o panfletário divisa-se muitas vezes por detrás do poeta, e a Igreja, a monarquia, os grandes do mundo são o alvo das suas apóstrofes de nivelador idealista. Noutras composições, é verdade, o tom é mais calmo e patenteia-se nelas a intenção filosófica do livro, vaga sim, mas humana e elevada".
 
Assumindo a "missão revolucionária da poesia" exposta na nota posfacial, é na qualidade de "Soldado do Futuro" ("Pois, se são operários do futuro,/ Semeadores da seara nova,/ Que lançam uma ideia em cada cova,/ Da dura história sobre o chão escuro", de "Pater"), à escuta da "voz das multidões", que Antero se dirige "A um Poeta": "Há mais alta missão, mais alta glória:/ O combater, à grande luz da História,/ Os combates eternos da Justiça". Esta "Justitia mater" de raiz proudhoniana aparece em "Tese e Antítese" concebida hegelianamente como a "nova ideia" - "desgrenhada/ Torva no aspeto, à luz da barricada" - que o poeta, como revolucionário, ajuda a revelar.

Na célebre "Nota" posfacial, Antero formula uma conceção socialmente militante da missão do poeta e da poesia, voltada para a "reconstrução do mundo humano sobre as bases eternas da Justiça, da Razão e da Verdade, com exclusão dos Reis e dos Governos tirânicos, dos Deuses e das Religiões inúteis e ilusórias", sustentando, assim, uma prática poética inconciliável com o que designa de "arte pela arte", isto é, uma poesia meramente decorativa. Este texto, juntamente com os prefácios de Teófilo Braga à Visão dos Tempos e às Tempestades Sonoras, motivou as alusões irónicas de Castilho, na carta-posfácio ao Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, à moderna escola de Coimbra e à sua poesia ininteligível, vindo, portanto, a desencadear a Questão Coimbrã(daqui)
 

quinta-feira, 30 de março de 2023

"Na Mão de Deus" - Soneto de Antero de Quental


 
Frederic Edwin Church (American landscape painter, 1826–1900), 
Rainy Season in the Tropics, 1866,  Fine Arts Museums of San Francisco
 
 

Na Mão de Deus 
 
 
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente! 
in "Sonetos completos", 1886. 
 
 
Frederic Edwin Church, c. 1868, photograph by
 Napoleon Sarony (1821-1896)
 
 
Frederic Edwin Church (Hartford, Connecticut, 4 de maio de 1826 — Nova Iorque, 7 de abril de 1900) foi um pintor paisagista norte-americano.
Foi a figura central da Escola do Rio Hudson de pintores e paisagistas norte-americanos. Foi aluno de Thomas Cole em Palenville, Nova York. Tornou-se conhecido, sobretudo, por pintar paisagens colossais, com frequência em localizações exóticas. Sua pintura O Coração dos Andes, atualmente na coleção do Metropolitan Museum of Art, mede 1,67 metros de altura por 3 metros de largura. (daqui)
 
 
 
 
 
 
 
[O vulcão Cotopaxi localiza-se no Equador, e é um dos mais altos vulcões no mundo. O Cotopaxi encontra-se a cerca de 75 km a sul de Quito.
Desde 1738 já ocorreram mais de 50 erupções neste vulcão. Em volta do vulcão encontram-se numerosos vales formados por lahares. A cidade de Latacunga já foi completamente destruída duas vezes em resultado das erupções deste vulcão. As erupções mais violentas ocorreram em 1744, 1768 e em 1877. A última grande erupção ocorreu em 1904, ocorrendo também alguma atividade em 1942.
Iniciou-se uma erupção em 14 de Agosto 2015. ] (daqui)

 
 
 
 


A Bíblia da Humanidade
 
I
 
      Dentro do homem existe um Deus desconhecido: não sei qual, mas existe - dizia Sócrates soletrando com os olhos da razão, à luz serena do céu da Grécia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da fé lia no horizonte anuviado das visões do profeta esta outra palavra de consolação - dentro do homem está o reino dos céus. Profundo, altíssimo, acordo de dois génios tão distantes pela pátria, pela raça, pela tradição, por todos os abismos que uma fatalidade misteriosa cavou entre os irmãos infelizes, violentamente separados, duma mesma família! Dos dois polos extremos da história antiga, através dos mares insondáveis, através dos tempos tenebrosos, o génio luminoso e humano das raças indicas e o génio sombrio, mas profundo, dos povos semíticos se enviam, como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta saudação fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na angústia do seu caos - o homem é um Deus que se ignora
      Grande, soberana consolação de ver essa luz de concórdia raiar do ponto do horizonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espíritos rivais cuja luta entristecia o mundo, ecoava como um tremendo dobre funeral no coração retalhado da humanidade antiga! Os combatentes, no maior ardor da peleja, fitam-se, encaram-se com pasmo, e sentem as mãos abrirem-se para deixar cair o ferro fratricida. Estendem os braços... somos irmãos ! 
      Primeiro encontro, santo e puríssimo, dos prometidos da história! Manhã suave dos primeiros sorrisos, dos olhares tímidos mas leais desses noivos formosíssimos, que o tempo aproximava assim para o casamento misterioso das raças! 
      Não há no mundo palácio de rei digno de lhes escutar as primeiras e sublimes confidências! Só um templo, alto como a cúpula do céu, largo como o voo do desejo, puro como a esperança do primeiro e inocente ideal humano!   
       Esse templo tiveram-no. Naquela palavra de dois loucos se encerra tudo. Nenhuma montanha tão alta, aonde a olho nu se aviste Deus, como o voo desta frase, a maior revelação que jamais ouvirá o mundo - dentro do homem está Deus.

Antero de Quental, in 'A Bíblia da Humanidade' (daqui)
 
[Publicado em janeiro de 1895 no jornal “O Século XIX” de Penafiel, o ensaio crítico 'A Bíblia da Humanidade', de Jules Michelet, autor que muito o inspirava então, foi posteriormente publicado em formato de livro.]
 

Retrato de Jules Michelet (1798-1874), c. 1865,
 por Thomas Couture (1815-1879), Museu Carnavalet
 

Jules Michelet
 
Historiador francês, professor na École Normale, na Sorbonne e no Collège de France, foi autor de Histoire de la Révolution Française (1847-1853) e Histoire de France (1833-1867). Nessas obras maiores da historiografia romântica, assim como em L'Oiseau (1856), L'Insecte (1857), L'Amour (1858), La Femme (1859) e La Sorcière (1862), entre outras, Michelet combina a exigência científica do estudo da História com a visão apaixonada dos acontecimentos, marcada pela imaginação poética e pelo estilo vibrante, deixando transparecer as suas convicções democráticas e populistas. 
 
A conceção da libertação progressiva da humanidade ao longo da História, elaborada por Michelet (que começa a ser traduzido e divulgado em Portugal na década de sessenta) a partir de leituras de Vico e Herder, influenciaria de forma determinante a Geração Coimbrã, depois Geração de 70, marcando a poesia das Odes Modernas (1865), de Antero de Quental, e sendo um dos autores citados na "Nota (sobre a missão revolucionária da poesia)" e na "Carta autobiográfica dirigida ao Professor Wilhelm Storck" (1887), onde Antero aponta as suas grandes influências. As teses de Michelet manifestam-se igualmente nas coletâneas de poesia filosófica de Teófilo Braga, Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (1864), sendo ele um dos autores convocados na "Generalização da história da poesia" apensa à primeira, e nos livros do seu amigo e discípulo Teixeira Bastos, Rumores Vulcânicos (1879) e Vibrações do Século (1882). Também a historiografia de Oliveira Martins denota a marca de Michelet, desde o estudo Os Lusíadas "Ensaio sobre Camões e a sua Obra"(1872; 2ª ed., 1891). (daqui)