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Darío de Regoyos (Spanish painter, 1857–1913),
'Mercado de Villafranca de Ordizia', 1909
Poeta no supermercado
1
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.
2
Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz — como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
Fernando Assis Pacheco,
in 'Cuidar dos Vivos', 1963

Darío de Regoyos (Spanish painter, 1857–1913), 'View of the Alhambra'
Granada Public Library
É considerado um dos escritores espanhóis que alcançou a mais ampla e variada ressonância em todo o mundo, destacando-se as suas produções La Deshumanización del arte (1925) - onde Ortega y Gasset se revela como um perfeito prosador do desengano e do descontentamento com a vida, traduzindo para a obra a sua mais intensa veia de ensaísta filosófico -, Obras Completas (1932) - uma espécie de compilação de grande parte da produção teórica e filosófica do seu entendimento da vida - e Estudios sobre el amor (1939) - inicialmente publicado em Buenos Aires, é constituído por uma série de ensaios sobre o grande tema do Amor. O seu pensamento central baseia-se na consideração da vida humana entendida como realidade radical, ou seja, apenas possível quando entendida pelos suportes básicos da dualidade, virilidade e feminilidade.
O grande objetivo de Ortega y Gasset era o de ocupar-se do tema do Amor, uma vez que o considerava um pouco "esquecido", "mal tratado" e mal entendido pela humanidade. Desde os seus escritos mais jovens até aos de idade mais madura, Ortega y Gasset conseguiu, nesta obra, cumprir plenamente o seu objetivo de ocupar-se extensa e quase exclusivamente deste magnífico tema. (daqui)

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