quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Gato" - Poema de Ivan Junqueira

 

Christian Skredsvig
(Norwegian painter and writer, 1854–1924), "Idyll", 1888,
Lillehammer Art Museum.



Gato


Vai e vem. O passo
deixa no soalho,
menos que um traço,
um fio escasso
de ócio e borralho.

Clara é a pupila
onde não chove
e que, tranquila,
no ermo cintila,
mas não se move

A pose é exata
a de uma esfinge
da cauda à pata,
nada o arrebata
ou mesmo o atinge.

Aguça o dente,
as unhas lima:
brinca, pressente
– e, de repente,
o pulo em cima.

A voz é como
sussurro de onda;
infla-lhe o pomo,
túmido gomo
que se arredonda.

Lúdico e astuto,
eis sua sorte:
alheio a tudo,
olha sem susto
o tempo e a morte.


Ivan Junqueira (1934–2014),
in "O Grifo", 1987.


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