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quinta-feira, 2 de maio de 2024

"Botão de Rosa" - Poema de Thiago de Mello


Georgia O'Keeffe (American modernist painter and draftswoman, 1887–1986),
A Sunflower from Maggie, 1937.
 
 

Botão de Rosa

 
Nos recôncavos da vida
jaz a morte.
Germinando
no silêncio.
Floresce
como um girassol no escuro.
De repente vai se abrir.
No meio da vida, a morte
jaz profundamente viva.


Thiago de Mello, in "Faz escuro mas eu canto",
4. ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978. p.64.)


Georgia O'Keeffe, Sunflower, New Mexico I, 1935

 

 Os Estatutos do Homem

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


Thiago de Mello
, Trecho de "Os Estatutos do Homem", Artigo 3


quinta-feira, 21 de março de 2024

"Peço Silêncio" - Poema de Pablo Neruda


Édouard Manet (French modernist painter, 1832–1883), Spring (Jeanne Demarsy), 1881,



Peço Silêncio


AGORA me deixem tranquilo.
Agora se acostumem sem mim.

Eu vou cerrar os meus olhos.

Somente quero cinco coisas,
cinco raízes preferidas.

Uma é o amor sem fim.

A segunda é ver o outono.
Não posso ser sem que as folhas
voem e voltem à terra.

O terceiro é o grave inverno,
a chuva que amei, a carícia
de fogo no frio silvestre.

Em quarto lugar o verão
redondo como uma melancia.

A quinta coisa são teus olhos,
Matilde minha, bem-amada,
não quero dormir sem teus olhos,
não quero ser sem que me olhes:
eu mudo a primavera
para que me sigas olhando.
Amigos, isso é quanto quero.
É quase nada e quase tudo.

Agora se querem, podem ir.

Vivi tanto que um dia
terão de por força me esquecer,
apagando-me do quadro negro:
Meu coração foi interminável.

Porém, por que peço silêncio
não creiam que vou morrer:
passa comigo o contrário:
sucede que vou viver.

Sucede que sou e que sigo.

Não será, pois lá bem dentro
de mim crescerão cereais,
primeiro os grãos que rompem
a terra para ver a luz,
porém, a mãe-terra é escura:
e dentro de mim sou escuro:
sou como um poço em cujas águas
a noite deixa suas estrelas
e segue sozinha pelo campo.

Sucede que tanto vivi
que quero viver outro tanto.

Nunca me senti tão sonoro,
nunca tive tantos beijos.

Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.

Me deixem só com o dia.
Peço licença para nascer. 
 
1957

Pablo Neruda
, em “Presentes de um Poeta”
Tradução de Thiago de Mello
[Publicado no livroEstravagario, 1958]
 
 
Pablo Neruda,“Presentes de um Poeta”,
Editor: ArtePlural.


Resumo
“Presentes de um Poeta”
 
Aqui reunidos estão alguns dos mais inesquecíveis poemas de Pablo Neruda, "o cronista de todas as coisas", como ele próprio se chamou. Cantando o amor, a humanidade, a terra e a poesia, as suas belíssimas palavras são adornadas nestas páginas com encantadoras e luminosas pinturas. A tradução, do poeta Thiago de Mello, amigo de Neruda, preserva para o português o toque mágico da sua intuição poética. (daqui)
 
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

"Madrugada Camponesa" - Poema de Thiago de Mello


 
Jules Breton (French naturalist painter, 1827-1906), Les amies (Friends), 1873



Madrugada Camponesa



Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia a dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Madrugada da esperança
já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana
minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro, mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.


Thiago de Mello,
in 'Faz escuro mas eu canto', 1966 



Jules Breton, Young woman in a field, 1889


Silêncio profundo!
Até o cantar dos grilos
está escondido nas rochas…


Matsuo Bashō
(Haicai / Haikai / Haiku)
Tradução de Casimiro de Brito

 

sábado, 20 de agosto de 2022

"O pão de cada dia" - Poema de Thiago de Mello


(The Blessing of the Wheats in Artois), 1857, Musée d'Orsay
 


O pão de cada dia


Que o pão encontre na boca
o abraço de uma canção
construída no trabalho.
Não a fome fatigada
de um suor que corre em vão.

Que o pão do dia não chegue
sabendo a travo de luta
e a troféu de humilhação.
Que seja a bênção da flor
festivamente colhida
por quem deu ajuda ao chão.

Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece,
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.


Editora Global 

  

 
'Faz escuro mas eu canto', livro de poemas de Thiago de Mello publicado em 1965, é sempre lembrado por seu autor como seu livro mais querido. Faz Escuro mas Eu Canto resgata os contornos verdadeiros das coisas e das almas - o amor ferido, as cantigas de roda, o açude, a fome, os sem-terra, entre outros. Em sua obra, Thiago de Mello inspira coragem e esperança de dias melhores.
Com a instalação da ditadura militar no Brasil em 1964, os ventos para Thiago não foram nada favoráveis. Na ocasião em que esteve preso, deparou-se com um de seus versos escritos na cela: “Faz escuro mas eu canto/ Porque a manhã vai chegar”. Era o sinal de que sua luta incessante pelo respeito à vida humana encontrava eco e precisava ser levada adiante.
A presente edição de Faz escuro mas eu canto traz carinhoso depoimento de Pablo Neruda, de quem o poeta se tornaria amigo e com quem compartilharia momentos de alegria e de tensão durante o período em que esteve exilado no Chile. 
Escritos num momento em que o Brasil atravessava tempos sombrios, os poemas do livro são tingidos por um sopro renovador que encanta e acalenta o coração inquieto da humanidade. (Daqui)
 
In: Faz escuro mas eu canto, 1999, Bertrand Brasil, 17ª edição.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=189276 © Luso-Poemas
In: Faz escuro mas eu canto, 1999, Bertrand Brasil, 17ª edição.


Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=189276 © Luso-Poemas

sexta-feira, 29 de julho de 2022

"Embalo de Rede" - Poema de Thiago de Mello


Julius LeBlanc Stewart (American, 1855-1919), Portrait of a lady, 1892 
 
 
 
Embalo de Rede
“L’amour s’en va comme cette eau courante
L’amour s’en va
Comme la vie est lent
Et comme la espérance est violente”

Apollinaire
O nosso amor só se acaba
se for para começar.
Te perdes longe de mim,
para poder me encontrar.

Todo fim sabe a começo.
Na fundura do teu peito
dorme a clave do milagre
cujo segredo mereço.

Sozinho mais te proclamo
a pessoa preferida.
Asa de garça, pendão
no vento, estrela da vida.

Que te cante a paz no peito.
Não é bênção para mim,
que perto estou já do fim.
Te quero tanto, que tanto 

dentro de ti me perdi.
 Só por sonhar que erga voo
de pássaro prisioneiro
a luz que lateja em ti. 
 

Thiago de Mello
,
Poema extraído da obra 'Campo de milagres'
 (Bertrand Brasil, 1998)
 
 
Thiago de Mello, S/d, Poeta, tradutor, escritor, jornalista,
artista gráfico e roteirista brasileiro
(Daqui)
 

"Pois aqui está a minha vida. Pronta para ser usada. Vida que não guarda nem se esquiva, assustada. Vida sempre a serviço da vida. Para servir ao que vale a pena e o preço do amor."

Thiago de Mello, A vida verdadeira (daqui)
 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

"Faz escuro mas eu canto" - Poema de Thiago de Mello


Acácio Lino (Pintor e escultor português, 1878-1956), Chô! Passarada!, 1943,
Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso Pinheiro, Águeda


Faz escuro mas eu canto

Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.


Thiago de Mello,

in 'Faz escuro mas eu canto', 1966
Bertrand Brasil - 1999, Rio de Janeiro, pág. 60.


 
Acácio Lino, Amuada, 1947, óleo s/tela, 60 x 90 cm. Museu Amadeo de Souza Cardoso


“Nasci com o ritmo dentro de mim e é da própria vida que nascem os meus poemas. A inspiração vem da vida do homem neste lugar chamado Terra. O que me comove ou me espanta, me dá esperança ou indignação.” - Thiago de Mello (Daqui)
 
 

 
Thiago de Mello (Daqui) 


Biografia de Thiago de Mello
(Barreirinha, 30 de março de 1926 — Manaus, 14 de janeiro de 2022)

Poeta, tradutor, escritor, jornalista, artista gráfico e roteirista, Thiago de Mello é o nome literário de Amadeu Thiago de Mello, nascido a 30 de março de 1926, na pequenina cidade de Barreirinha, fincada à margem direita do Paraná do Ramos, braço mais comprido do Rio Amazonas, no meio do pedaço mais verde do planeta: a Amazónia.

O poeta, ainda criança, mudou-se para capital, Manaus, onde iniciou seus primeiros estudos no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e o segundo grau no então Gyminásio Pedro II. Concluído os estudos preliminares mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade Nacional de Medicina. Por lídima vocação, ou por tara compulsiva, como ele prefere, abraçou o ofício de poeta abandonando o curso de medicina para se entregar, por inteiro, ao difícil e duvidoso (em termos profissionais) caminho da arte poética. Vivia-se o glamour dos anos 50, num Rio de Janeiro capital do país, ditando para todo Brasil não só as questões de cunho político, mas sobretudo, os eventos artísticos e acontecimentos da produção literária. Hegemonia mantida até hoje mas compartilhada com a cidade de São Paulo e seu efervescente ambiente cultural. 

Em 1951, com o livro Silêncio e Palavra, irrompe vigorosamente no cenário cultural brasileiro e de pronto recebe a melhor acolhida da crítica. Álvaro Lins, Tristão de Ataíde, Manuel Bandeira, Sérgio Milliet e José Lins do Rego, para citar alguns nomes ilustres, viram nele e em sua obra poética duas presenças que, substanciosas e duradouras, enriqueceram a literatura nacional.
"... Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer", escreveu Sérgio Milliet.

O correr dos anos só fez confirmar suas qualidades e justificar os elogios com que fora recebido pela intelligentsia brasileira. O amadurecimento permitiu ao poeta mergulhar profundamente as raízes da sensibilidade e da consciência crítica na rica seiva humana de um povo ao mesmo tempo tão explorado, tão sofrido e tão generoso, e sua poesia, sem perder o sóbrio lirismo que a inflamava, ganhou densidade e concentração, pondo-se por inteiro a serviço de relevantes causas sociais.

Faz Escuro, mas eu Canto; A Canção do Amor Armado; Horóscopo para os que estão vivos, Poesia Comprometida com a minha e a tua Vida; Mormaço na Floresta; Num Campo de Margaridas realizam, por isso, a bela síntese do poeta e do homem que jamais se deixou ficar indeciso em cima do muro de confortável neutralidade. O poeta e o partisan eram uma só pessoa, dedicada sem medir esforços ou riscos à luta pela emancipação do homem, tanto dos grilhões que injustas estruturas do poder económico-político lhe impõem quanto das limitações com que individualismo, ignorância ou timidez lhe tolhem os passos.

A biografia de um poeta assim concebido e a tanto cometido não poderia jamais desenvolver-se num plano de tranquila rotina. A de Thiago de Mello teve, por isso mesmo, suas fases sombrias e borrascosas, realçada por arbitrária prisão e longo e doloroso exílio da pátria a que tanto ama e serve.
Essas provações, que enfrentou com a serena firmeza de quem as sabe inevitáveis e delas não foge, enriqueceram-no ainda mais como poeta e ser humano. Alargando sua weltanschauung, permitiram-lhe comprovar o acerto de sua intuição de que o geral passa pelo particular e de que, como dizia seu grande colega Fernando Pessoa, tudo vale a pena/ se a alma não é pequena.

No livro De Uma Vez Por Todas, todas as linhas marcantes de sua poesia, o lirismo, a sensibilidade humana, a alegria de viver, a luta contra a opressão, o amor constante à Amazónia natal se reúnem harmonicamente, num tecido de rara força e beleza. O poeta não escreve seus poemas apenas em busca de elegância formal: neles se joga por inteiro, coração, cabeça e sentimento, e isso lhes dá autenticidade e força interior.

 Poesia:
  • Silêncio e Palavra, Edições Hipocampo, Rio de Janeiro, 1951. Narciso Cego, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1952. 
  • A Lenda da Rosa, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1956. 
  • Vento Geral (reunião dos livros anteriores e mais dois inéditos: Tenebrosa Acqua e Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório), Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1960. 
  • Faz Escuro mas eu Canto, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1965. 14ª edição, 1993. 
  • A Canção do Amor Armado, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1966. 7ª edição, 1993. 
  • Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1975. 7ª edição, 1991. 
  • Os Estatutos do Homem (com desenhos de Aldemir Martins), Editora Martins Fontes, São Paulo, 1977. 6ª edição, 1991. 
  • Horóscopo para os que estão Vivos, Edição de luxo, ilustrada e editada por Ciro Fernandes, Rio de Janeiro, 1982. 
  • Mormaço na Floresta, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1984. 3ª edição, 1993. 
  • Vento Geral, Poesia 1951-1981, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro 1981. 3ª edição, 1990. 
  • Num Campo de Margaridas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1986. 
  • De uma vez por todas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1996. 
  • Cantídio, André Provérbios, 1999
Prosa:
  • Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao Rio Amazonas e seus barrancos, Ministério da Educação, 1957. 2ª edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989. 
  • A Estrela da Manhã, Estudo de um poema de Manuel Bandeira, Ministério da Educação, Rio de Janeiro, 1968. 
  • Arte e Ciência de Empinar Papagaio, BEA, Manaus, 1984, edição de luxo. 2ª edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1985. 
  • Manaus, Amor e Memória, Suframa, Manaus, 1984, edição de luxo. 2ª edição, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 4a edição, 1989. 
  • Amazonas, Pátria das Águas, Edição de luxo, bilingue (português e inglês), com fotografias de Luiz Cláudio Marigo. Sverner-Bocatto, São Paulo, 1991. 
  • Amazônia, a Menina dos Olhos do Mundo, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1992. 
  • O Povo Sabe o Que Diz, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2ª edição, 1993. 
  • Borges na Luz de Borges, Pontes Editores, São Paulo, 1993.
  • Vamos Festejar de Novo, 2000 (Daqui)

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

"Para os que virão" - Poema de Thiago de Mello


Emanuel Phillips Fox (Australian impressionist painter, 1865–1915), The ferry, 1911



Para os que virão


Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.


Thiago de Mello

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

"Os Estatutos do Homem" - Poema de Thiago de Mello




Os Estatutos do Homem
 (Ato Institucional Permanente)

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II 

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III 

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV 

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
  O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V 

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI 

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII 

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII 

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX 

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X 

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI 

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII 

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begónia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII 

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Thiago de Mello,
Poesia retirada do livro 'Os Estatutos do Homem'.
Martins Fontes, 1977

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"O coração latino-americano" - Poema de Thiago de Mello


Alberto da Veiga Guignard, Paisagem de Ouro Preto, 1950, Coleção Museu de Arte de São Paulo 



O coração latino-americano


Incas, ianomamis, tiahuanacos, aztecas, 
mayas, tupis-guaranis, a sagrada intuição 
das nações mais saudosas. Os resíduos. 
A cruz e o arcabuz dos homens brancos. 
O assombro diante dos cavalos, 
a adoração dos astros. 
Uma porção de sangues abraçados. 
Os heróis e os mártires que fincaram no 
tempo 
a espada de uma pátria maior. 
A lucidez do sonho arando o mar. 
As águas amazônicas, as neves da 
cordilheira. 
O quetzal dourado, o condor solitário 
o uirapuru da floresta, canto de todos os 
pássaros. 
A destreza felina das onças e dos pumas. 
Rosas, hortênsias, violetas, margaridas, 
flores e mulheres de todas as cores, 
todos os perfis. A sombra fresca 
das tardes tropicais. O ritmo pungente, 
rumba, milonga, tango, marinera, 
samba-canção. 
O alambique de barro gotejando 
a luz-ardente do canavial. 
O perfume da floresta que reúne, 
em morna convivência, a árvore altaneira 
e a planta mais rasteirinha do chão. 
O fragor dos vulcões, o árido silêncio 
do deserto, o arquipélago florido, 
a pampa desolada, a primavera 
amanhecendo luminosa nos pêssegos e nos 
jasmineiros, 
a palavra luminosa dos poetas, 
o sopro denso e perfumado do mar, 
a aurora de cada dia, o sol e a chuva 
reunidos na divina origem do arco-íris. 
Cinco séculos árduos de esperança. 
De tudo isso, e de dor, espanto e pranto, 
para sempre se fez, lateja e canta 
o coração latino-americano. 
em "De uma vez por todas", 1996.


sábado, 3 de fevereiro de 2018

"A fruta aberta" - Poema de Thiago de Mello


Jacobus Hendrik Pierneef, Hardkoolbome - Bosveld, 1945



A fruta aberta


Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore 
plantada bem alta no meio da minha vida.

Agora sei as coisas como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.

Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.

Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi 
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.


(Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962).
 em "Faz escuro mas eu canto

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

"Tercetos de amor" - Poema de Thiago de Mello


Charles Courtney Curran, Among the Wild Azaleas, 1908



Tercetos de amor


Só agora aprendi 
que amar é ter e reter. 
Foi quando te vi. 

Vi quando a rosa se abriu. 
Como a eternidade 
pode ser tão fugaz? 

Não sei quando é o mar, 
ou se é o sol dos teus cabelos. 
Tudo são funduras. 

Na entressombra, o sabre 
se estira na relva morna. 
O nenúfar se abre. 

Brilha um dorso: és tu. 
Encontro no teu ventre 
a explicação da luz. 


em "Num campo de margaridas", 1986


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"Só sei cantar" - Poema de Thiago de Mello


Jacobus Hendrik Pierneef (South African, 1886–1957), Dar-es-Salaam, 1926



Só sei cantar


Sou simplesmente um cantor. 
Já disse que nada invento 
nem produzo formatos diferentes. 
Minha terra tem palmeiras 
onde canta o sabiá. 
Canto a luz da primavera, 
canto a chuva da floresta, 
canto a dor dos deserdados, 
e a alvorada da justiça. 
Canto o olhar da minha amada 
e as pernas dela também. 
Canto a plumagem celeste 
do tucano que me acorda 
e canto o peito encarnado 
do rouxinol que chegou 
dos altos do Rio Negro 
para ver de perto o vôo 
das pipiras azuladas. 
(Alguns, da arte só pela arte, 
me torcem a cara quando 
canto em nome do meu povo 
a aurora da liberdade.) 
Canto o que suja e o que lava, 
canto o que dói e o que abranda, 
canto a rosa e seu espinho 
e a cantiga de ciranda 
que se faz de fogo e neve, 
canto o amor, de novo canto, 
só para aprender a amar. 
Mas não canto o que bem quero 
pelo gosto de cantar 
que às vezes sabe a desgosto. 
Canto o que a vida me pede, 
imperiosa ou macia, 
porque sabe que cantar 
é um modo de repartir. 
Sou poeta, só sei cantar. 
em "De uma vez por todas", 1996


domingo, 24 de julho de 2011

"O teu riso" - Poema de Pablo Neruda


William Henry Margetson (British artist, 1861-1940), A Moment's Reflection


O Teu Riso 


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, porém nunca
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que debulhas,
a água que de repente
em tua alegria estala,
essa onda repentina
de prata que te nasce.

De áspera luta volto
com olhos fatigados
por vezes de ter visto
a terra que não muda,
mas ao chegar teu riso
sobe ao céu me buscando,
e abre para mim todas
as portas desta vida.

Amor meu, no momento
mais escuros desata
o teu riso, e se acaso
vês que meu sangue mancha
as pedras do caminho,
ri, porque teu riso
será, em minhas mãos,
como uma espada fresca.

Junto ao mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e em primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Que te rias da noite,
ri do dia, da lua,
das ruas tortas da ilha,
ri do desajeitado
rapaz que te quer tanto,
porém quando mal abro
os olhos, quando os fecho,
quando os meus passos vão,
quando os meus passos voltam,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
senão, amor, eu morro. 
 
 
in “Os versos do capitão”.
 [Tradução de Thiago de Mello]. 
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. p.28-31.