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quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Lindinha" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


Salvador Dalí (Spanish surrealist artist, 1904–1989),
Untitled (Landscape with Butterflies), c. 1956.



Lindinha 


É linda, é vida, é mulher
essa pequenina mariposa
que, clarinha, pousou
na folha branca de papel.

É linda, é vida, é mulher.
Parece a cinderela,
alguém em traje de noiva,
tão quieta, embora
na cabeça uma coroa.
Com seu manto de rainha
mexe as anteninhas. Para mim?

Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
Que mensagem me trazes?

Escrevo entortando a frase, a letra
para não te machucar.
Não ser zoólogo
para entender-te,
saber tua espécie,
teus anseios, ó lindinha,
vai, voa, leva meu afeto
ou, então, fica tranquila
enquanto folheio coisas já escritas
ou em silêncio escrevo
para daqui não te apartar.

Me olhas, que te escrevo.
Adiante a lareira arde,
lá fora, cantam grilos.
Certo tens uma biografia
como qualquer ser desconhecido.

Paro de escrever. Te observo.
Se eu vivesse no campo
como São Francisco
que belos amigos faria!
Entre uma folha e outra,
entre um minuto e outro
um ser vivo pequenino, como eu,
se instalou defronte a mim.

Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
És pequenina,
és linda, és vida, és poesia
e, certamente, mulher.


Affonso Romano de Sant'Anna
,
Textamentos, 1999.

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Inseto" - Poema de Alice Gomes

 
 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626
1679),
"Study of Butterfly and Insects", c. 1655. National Gallery of Art.
 
 

Inseto


A lagarta comia
comeu
comerá
a polpa doce de uma bela pera.

Já farta de comer, de digerir
Procurou uma fresta para dormir. 

E dorme
dormirá
dormiria
Tanto de noite como em pleno dia.

Durante o sono mudou forma e cor
Já não parece bicho mas flor.


Alice Gomes, em "Bichinho Poeta"


 
Jan van Kessel, the Elder, "Insects and Fruit", Rijksmuseum.


"A marca de sua ignorância é a profundidade da sua crença na injustiça e na tragédia. O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta."


"The mark of your ignorance is the depth of your belief in injustice and tragedy. What the caterpillar calls the end of the world, the master calls a butterfly."

Richard Bach, "Illusions: The Adventures of a Reluctant Messiah" - Página 134;
Publicado por Delacorte Press, 1977. 
 

 
 Jan van Kessel, the Elder, "Insects"Fitzwilliam Museum  



"Se todos os insetos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos toda a vida na Terra acabaria. Se todos os seres humanos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos todas as formas de vida floresceriam."

Jonas Salk

(Médico, virologista e epidemiologista norte-americano (1914–1995), mais conhecido como o inventor da primeira vacina antipólio, que, em sua homenagem, ficou conhecida como Vacina Salk.)




Jan van Kessel, the Elder, "Insects" (A Sprig of redcurrants with an elephant hawk moth,
a ladybird, a millipede and other insects)
, 1657.



Artefato nipônico


A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.


Adélia Prado, "A Faca no Peito", 1988;
"Poesia Reunida", 1991, p. 381,

São Paulo: editora Siciliano



Jan van Kessel, the Elder, "Butterflies, other insects and flowers", 1659, High Museum of Art.

domingo, 12 de janeiro de 2014

"Árvore" - Poema de Manoel de Barros


Árvore 


Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra,
esquecida no tronco das árvores, só serve para poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com as borboletas. 


in Ensaios Fotográficos




"Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina."

(Manoel de Barros)




"É no ínfimo que eu vejo a exuberância."

(Manoel de Barros)




"Deixei uma ave me amanhecer."

(Manoel de Barros)




 
“Na natureza, uma repugnante lagarta transforma-se numa borboleta encantadora; entre os homens, ocorre o contrário; uma encantadora borboleta transforma-se numa lagarta repugnante.” - Anton Tchecov


Anton Pavlovitch Tchecov (Taganrog, 29 de janeiro de 1860— Badenweiler, 15 de julho de 1904) foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. 
Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sidos aclamados por escritores e críticos. 
Tchecov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas ele escreve a respeito: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante."




sábado, 25 de agosto de 2012

"É preciso não esquecer nada" - Poema de Cecília Meireles


Fotografia de Jeevan Jose 



É preciso não esquecer nada 


É preciso não esquecer nada: 
nem a torneira aberta nem o fogo aceso, 
nem o sorriso para os infelizes 
nem a oração de cada instante. 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta 
nem o céu de sempre. 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto, 
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, 
a ideia de recompensa e de glória. 

O que é preciso é ser como se já não fossemos, 
vigiados pelos próprios olhos 
severos connosco, pois o resto não nos pertence.







Borboletas
Belas fotografias de Jeevan Jose (KadavoorÍndia)
























































quarta-feira, 28 de março de 2012

"A borboleta" - Poema de Olavo Bilac



 
A borboleta 


Trazendo uma borboleta, 
Volta Alfredo para casa. 
Como é linda! É toda preta, 
Com listas douradas na asa. 

Tonta, nas mãos da criança, 
Batendo as asas, num susto, 
Quer fugir, porfia, cansa, 
E treme, e respira a custo. 

Contente, o menino grita: 
“É a primeira que apanho, 
Mamãe vê como é bonita! 
Que cores e que tamanho! 

Como voava no mato! 
Vou sem demora pregá-la 
Por baixo do meu retrato, 
Numa parede da sala”. 

Mas a mamãe, com carinho, 
Lhe diz: “Que mal te fazia, 
“Meu filho, esse animalzinho, 
Que livre e alegre vivia? 

Solta essa pobre coitada! 
Larga-lhe as asas, Alfredo! 
Vê como treme assustada… 
Vê como treme de medo… 

Para sem pena espetá-la 
Numa parede, menino, 
É necessário matá-la: 
Queres ser um assassino?” 

Pensa Alfredo… E, de repente, 
Solta a borboleta… E ela 
Abre as asas livremente, 
E foge pela janela. 

“Assim, meu filho! Perdeste 
A borboleta dourada, 
Porém na estima cresceste 
De tua mãe adorada… 

Que cada um cumpra a sorte 
Das mãos de Deus recebida: 
Pois só pode dar a Morte 
Aquele que dá a Vida.” 


Olavo Bilac, in Poesias Infantis  


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos. Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo. Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudónimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Sem sombra de dúvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro. 
Obras: Poesias (1888), Crónicas e novelas (1894), Crítica e fantasia (1904), Conferências literárias (1906), Dicionário de rimas (1913), Tratado de versificação (1910), Ironia e piedade, crónicas (1916), Tarde (1919); Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas.



Borboletas
 
 
Borboleta


O nome tem origem grega e refere-se à existência de escamas sobrepostas nas asas.
As borboletas são
insetos lepidópteros. Possuem dois pares de grandes asas, geralmente muito coloridas. No seu desenvolvimento passam por metamorfoses e a larva é uma lagarta. As adultas alimentam-se do néctar das flores e as lagartas alimentam-se em geral de plantas podendo originar pragas graves. (daqui)
 
 


















(Todas as imagens foram retiradas da internet)


“Borboleta é pétala que voa.”