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sábado, 24 de janeiro de 2026

"Correspondência ao mar" - Poema de Vitorino Nemésio


 
Max Römer (Pintor de origem alemã que viveu na ilha da Madeira, 1878-1960),
Baía do Funchal, Madeira, 1955.



Correspondência ao mar


Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo:
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de polo a polo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim —
Que onde ele acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
Ao rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstrato e imenso:
Frio como a evidência ponderada,
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na mínima lembrança que me deixes,

E a Rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.


Vitorino Nemésio
"O Bicho Harmonioso", 1938
in "Poesia (1916-1940)"
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

"Fio do frio" - Poema de Irene Lucília Andrade


 
Max Römer (Pintor de origem alemã que viveu na ilha da Madeira, 1878-1960),
Sé Catedral do Funchal, 1927.


Fio do frio


Os dias de dezembro
não são sempre os dias de dezembro
e a certeza do olhar
não está no sol em ausência
ou no fio de frio que se estende
entre rosas e pomares
dum lado a outro dum inverno tardio,
às vezes a chuva vem cedo e o fogo do céu
rasga as árvores, às vezes perde-se
o termo das estradas no nevoeiro
e o fim das tardes arrepia-se escuro
nos pés dos vagabundos.
Não está no hábito com que à boca
chega a vontade duma palavra útil
ou apenas dum bocejo, digo azul essa
não é a cor destas horas,
não está aqui nem se torna visível a sombra
ou o passo que imprime a diferença, o som
ou a janela equivalente à luz que falta
a música que acende uma memória doce
às formas que dão ao coração
o ensejo dos astros e distantes amores.
Nada está aqui que me diga dezembro
porque dezembro é um hálito sagrado
e o prodígio aponta o indizível.

Porque dezembro é também coisa tão simples
como os galos, o sótão
o altar da infância aconchegado
de ensaião e acácias
porque em dezembro se trazia
estrelas na algibeira
e um fruto no céu a dispersar o medo. 
 

Irene Lucília Andrade
,
Fio de dezembro. Margem 2.
Funchal. N.º 10 (Dez. 1998).

[Irene Lucília Mendes de Andrade (Funchal, 6 de fevereiro de 1938) é uma escritora, poetisa e artista plástica portuguesa, natural da ilha da Madeira. É considerada uma das personalidades mais importantes da literatura contemporânea madeirense.]

 

"O único meio de criar homens livres é educá-los, outro modo ainda não se inventou,
 e com certeza nunca se inventará." 

Olavo Bilac, Obra reunida - Página 517
Alexei Bueno
- Editora Nova Aguilar, 1996.
 

terça-feira, 11 de julho de 2023

"Madeira" - Poema de José Agostinho Baptista




Madeira



Quero beijar os teus lábios de pedra,
a água azul e profunda onde os teus
seios sem mácula se unem às minhas
mãos,
quero fundir-me em ti,
minha doce amante do desejo antigo,
quero mergulhar nos cabelos húmidos das
tuas raízes,
quero subir lentamente o teu corpo frio,
fendido,
quero fazer em ti,
nos teus jardins inclinados,
um país de filhos belos, de animais de
silêncio e bondade,
quero regressar a ti,
ao mistério das levadas, das falésias,
dos ventos que batem nos pássaros de aço
e nas tuas tranças,
quero que me toques amorosamente com
os teus dedos esguios,
com as tuas canas doces,
quero o mel, a estrelícia, o pão escuro sobre
as mesas de toalhas loucas bordadas pelas
mulheres de outrora,
senhoras nossas das dores e do entardecer,
quero levar-te comigo para além, para
sempre,
quero que deixes em mim o fruto das tuas
árvores da alegria,
todos os sinais da ternura que o tempo não
consumiu,
minha eterna amante junto ao mar,
quero morrer em ti,
e em ti nascer de novo.
 
 
José Agostinho Baptista (daqui)
 

José Agostinho Baptista é um poeta português nascido a 15 de agosto de 1948, no Funchal, Ilha da Madeira. Colaborou em periódicos como Comércio do Funchal, República e Diário de Lisboa, e traduziu Walt Whitman, Tennessee Williams, Yeats, entre outros autores de língua inglesa. Revelou-se nos finais dos anos 70 com Deste Lado Onde, sendo autor de vasta obra como Morrer no Sul, Autorretrato, O Centro do Universo, Paixão e Cinzas, Canções de Terra Distante e Esta Voz é Quase o Vento.
Herdeiro, no pós-modernismo, da poética romântica, António Ramos Rosa aponta na poesia de José Agostinho Baptista uma "essência da subjetividade gerada por um sentido de separação originária", sendo "a perda, ou a substância afetiva da perda, que gera o turbilhão interior que o poema fixa num fulgor esmaecido e na suavidade das suas sílabas musicais" ("José Agostinho Baptista e a radicalidade de separação ontológica" in A Parede Azul, Estudos sobre Poesia e Artes Plásticas, Lisboa, 1991, pp. 115-118).
José Agostinho Baptista foi, a 1 de julho de 2001, condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, e, em julho de 2006, homenageado com o Grande Prémio APE/CTT 2004, pelo seu livro Esta Voz é Quase o Vento. (daqui)
 
 
 Aguarela de Max Römer, Rua Imperatriz Dona Amélia, Funchal
 

"O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora."
 
Mia Couto,
no livro "Um rio chamado Tempo, uma casa chamada Terra"
 
 
Max Wilhelm Römer (1934-04-28) (daqui)


Max Römer (1878-1960) foi um pintor alemão, natural de Hamburgo, que chegou à ilha da Madeira em 1922 e aqui faleceu em 1960.
Na Madeira, onde residiu durante trinta e oito anos, Max Römer desenvolveu profícua atividade artística marcada, essencialmente, pela representação da paisagem madeirense, costumes e tradições insulares e suas gentes, explorando e evidenciado as características mais pitorescas e, ainda, alguma incursão pela pintura religiosa. Manteve na sua obra um certo gosto e continuação do naturalismo oitocentista, com laivos de romantismo, mas também é visível alguma modernidade nos apontamentos de gosto pela Arte Nova e Arte Deco. A sua obra foi bem acolhida pela clientela madeirense, quer a nível público e privado, sendo um importante documento iconográfico da Madeira, destacando-se as artes gráficas, como cartazes, postais, ilustrações, capas de revistas e livros, anúncios publicitários, letterings, etc., que contribuíram na promoção e divulgação da Madeira. Destaque-se que Max Römer, como pintor, foi um exímio aguarelista.
É possível observamos obras de sua autoria no Palácio de São Lourenço, Hotel Belmonte (atual Colégio do Infante, Monte), Liceu Jaime Moniz, em diversas igrejas (São Vicente; São João, Fajã da Ovelha, Calheta; Nossa Senhora da Piedade, Porto Santo), além de várias empresas ligadas ao comércio do vinho, bordados e hotelaria. Um número significativo de obras de Max Römer encontra-se no Museu Quinta das Cruzes, doação feita ao Governo Regional da Madeira, em 1984, e em coleções privadas, nacionais e estrangeiras. (daqui)