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quinta-feira, 7 de maio de 2026

"Em Creta, com o dinossauro" - Poema de Ana Luísa Amaral


 
Delphin Enjolras (French painter, 1857
–1945), 'On the Terrace', s.d.


Em Creta, com o dinossauro  

 
Nunca lá estive,
mas gostava.

Também de me sentar a mesa de café
descontraída (mesa e eu)
e ter à minha frente
o dinossauro.

Pata traçada sobre a rocha,
aquela onde Teseu
não descobrira entrada de caverna.
Conversaríamos os dois, eu
na cadeira, ele
altamente herbívoro e escamoso,
olho macio e muito social.

Depois, o fio!

Que Ariadne traria, pouco solene
e debaixo do braço.
Um fio de seda ou prumo ou aço.
E o dinossauro,
de pouco habituado (ainda assim)
a um tempo tão nosso,
perguntaria para que era aquilo.

"Para guiar Teseu", era
a resposta de Ariadne. E depois,
piscando o olho, ainda mais macio
que o do monstro escamado,
"Ou para o confundir"

Convirá referir neste momento
que Teseu: entretido no palácio
a estudar labirintos com o rei,
ignorante de tudo.

Na rocha, cheia de algas macias
de veludo,
abriria o dinossauro em gesto largo
as patas dianteiras, aprovando
a ideia.

Estávamos bem, os três,
beberricando calmos o café
servido por meteco – bem cheiroso.
Enquanto no palácio, o labirinto inchava
e Teseu, ansioso por agradar ao Rei,
queimava, de frenético, nobres pestanas
gregas.

No ar minóico, rescendia
o perfume a laranjas,
e, entre vários cafés e golos de retsina,
o dinossauro mastigava calmo
quatro quilos (à vez) de
ameixas secas e doces
tangerinas,

narrando a nobre paz
que se seguira ao caos:
não sabia se estrelas em cósmica viagem
de chuva de brilhantes,
se glaciar medonho
reconcertando o ritmo da Terra,
se só o seu tamanho – imenso

e desumano –
a dar lugar ao mito.

Em labirinto
de muitos milhões de anos,
tinha chegado ali. Sem saber como.
"É como o fio que eu trago
aqui, para Teseu", Ariadne
diria, "O de aço, seda, ou prumo,
que conduz ou confunde, conforme
ocasião."

– A traição!

Derivaria Ariadne, então,
falando de Teseu: da traição que,
julgava ela,
o levaria a abandoná-la em Naxos
e do compasso incerto do que fora
anterior à traição.

Poseidon pelas águas reluzia,
o destino de Minos e de Cnossos
ainda por marcar;
só o monstro sabia como deuses e homens:
comuns a odiar.

Sabia, mas calava. Que silêncio:
a virtude maior
de sáurio que se preza.
E a conversa seria tão calma, tão amena,
que esquecia Ariadne derivações
de mito,
juntando-se à retsina.

"Um brinde", proporia o dinossauro,
em gesto social.
"Um brinde", repetiríamos nós (princesa
e eu).

E o fio de renda fina voaria
qual pássaro pré-histórico,
até ao mar Egeu.

Pata a tapar a boca de franjas
inocentes,
palitaria então o Dinossauro os dentes...

(E do palácio já saiu Teseu.
Mapa e espada na mão.
Mas sem o fio.)


Ana Luísa Amaral (1956–2022)
 
 

Delphin Enjolras, 'Young Woman on the Terrace', s.d.



"O poeta é como o príncipe das nuvens. [...] As suas asas de gigante não o deixam caminhar."

"Le Poete est semblable au prince des nuées [...] Ses ailes de géant l’empêchent de marcher."
 
Charles Baudelaire (1821–1867), in 'L’Albatros' – 'Les Fleurs du mal', 1861.
 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

"Pequenos Mosaicos" - Poema de Ana Luísa Amaral

 


Jacques-Ferdinand Humbert (Peintre français, 1842–1934),
Portrait de Colette, c. 1896.



Pequenos Mosaicos 

 
É agora - na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir. Um palco
a lua. Eu observada de fora da janela.

O terror de pensar: o pesadelo
de me sentir duas pela primeira vez
falado. É de amor este poema
e de visões: ondulantes cortinas
noutra que me é igual.

Porque no pesadelo e de repente
o futuro rasgou-se, as cortinas
soltaram-se. Na profecia
só ficaste tu.

E a tua falta mais que a tua
ausência em pequeno mosaico
se fechou. Entendo agora como uma cadeira
pode ser só esta cadeira porque
é tua.


Ana Luísa Amaral
(1956–2022)


terça-feira, 21 de abril de 2026

"Uma Luz existe na Primavera" - Poema de Emily Dickinson



Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1924),
 "Allegory of Spring", n.d.
 

Uma Luz existe na Primavera


Uma Luz existe na Primavera
Não presente no ano
Em qualquer outra estação –
Quando Março já chegando

Uma Cor se firma
Campos Solitários afora
Que a Ciência não alcança
Mas a Natureza Humana elabora.

Ela aguarda sobre a Relva,
A Árvore mais longínqua ela revela
E na mais remota Encosta, tu sabes,
Ela quase contigo fala.

Então quando Horizontes se movem
Ou meios-dias já longe ecoam
Sem a Fórmula do som
Ela se despede e nós ficamos –

Uma qualidade de perda
Que afeta nosso Contentamento
Como se Vendilhões subitamente
Houvessem usurpado um Templo.


Emily Dickinson
, in 'Duzentos Poemas'
 Tradução de Ana Luísa Amaral
 
 
 
'Duzentos Poemas' de Emily Dickinson
Tradução de Ana Luísa Amaral
Editor: Relógio D'Água, 2014 
 
 
Em vida, Emily Dickinson publicou menos de dez poemas. Após a sua morte, a 15 de Maio de 1886, Lavinia, a irmã, encontrou fechados numa caixa quase mil poemas.
 
 

Auguste-Émile Pinchart, Young woman with bouquet of flowers, 1901.



A Light exists in Spring
(Original)

A Light exists in Spring
Not present on the Year
At any other period –
When March is scarcely here

A Color stands abroad
On Solitary Fields
That Science cannot overtake
But Human Nature feels.

It waits upon the Lawn,
It shows the furthest Tree
Upon the furthest Slope you know
It almost speaks to me.

Then as Horizons step
Or Noons report away
Without the Formula of sound
It passes and we stay –

A quality of loss
Affecting our Content
As Trade had suddenly encroached
Upon a Sacrament.
 

sábado, 11 de abril de 2026

"As curvas aparentes da memória" - Poema de Ana Luísa Amaral


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926), 
The Sheltered Path. 1873.


As curvas aparentes da memória

I

Mais: o tempo não teima, não se alonga,
antes ondeia como mar doente
e aceita ventos. Os caminhos que o fazem:
fio de seda tecida sem cuidado.

Depois de tantos anos, a memória
rompida de um anel,
mas nesse anel ver cheiros,
neles fulgirem coisas,
os alfabetos fáceis de brinquedo.

Mas, seda pelo meio:
feita de bichos leves, sonolentos,
de um perigo de ruir marés e luas.
Anel como das fadas,
dedos de carne firme, os seus poros abertos
a tudo, a tudo, a tudo.

A rouquidão de amor do meu avô,
rosas de mais cheirar e tudo em chamas:
uma curva de vento, o cobertor em verde e em castanho
onde sonhava até romper olhar,
até romper os sonos e os muros,
jardim forrado a prímulas e luz
e esse banco de pedra, acompanhando
o verão.

Como pilar de sol era o anel,
como pilar de sol era esse tempo
de bordar e forrar o fundo às coisas,
de ter em superfície o mais dourado,
o que parecia ser copas e ouros, um longo ás
de espadas.

II

Macio: aquele muro tão rugoso,
de cimento amarelo e muito quente,
as histórias faladas em voz rouca,
e eu sem saber como falar de amor.

E eu sem saber como prever as coisas,
e as coisas já sem ser como as pensava.
Bastando alguns segundos, algum sol
infinitesimal, e o já sem ser.

O cimento amarelo: um pó tão fino,
e o calor como fio insidioso.
Bastando alguns segundos, algum frio,

e o muro mais rugoso que macio,
e o cheiro do caramanchão de rosas:
um cheiro a números e a letras mortas.

III

Mas: se o tempo se alongasse?
Se o tempo: um cavalo intenso
e de infinito mistério,
trazendo de novo agosto,
um cheiro a sério de rosas,
o caramanchão bordado,
o meu avô outra vez,
o pão que ele preparava,
a ternura nos seus dedos,
e o seu anel de uma pedra
que eu não consigo lembrar,
mas que a textura me lembra,
e que a sua cor por força
me ajudaria a lembrar?
Se ele trouxesse outra vez
as letras mortas e lentas,

IV

agora, graças ao fácil dom de teimar desse tempo,
cintilando novamente, no seu mais justo lugar,
habitando como gente o quintal feito de estrelas,
o banco de cheiro ameno, o cobertor em castanho.

E a noite que, por justiça seria fria, não era:
antes de um calor de sol, de rosas de primavera
minúsculas, redundantes de roda ao caramanchão,
acumulando-se em nuvens cor de rosa, cor de sol.

E a seda: um campo minado de meiguice e de agasalho,
tecida em tanto cuidado, num tão mais puro cuidado,
que Deus, se aí existisse e quisesse controlar
o tempo agora perfeito, de um dom de teimar tão grande,

capaz de tal se alongar sobre a vida e a memória,
que Deus, se aí existisse, havia de desistir,
havia de se juntar ao verde do cobertor.
E havia de descansar no banco desse jardim.

E usaria o anel. E teria com certeza
uma voz rouca.


Ana Luísa Amaral
 (1956–2022)
 

  
Claude Monet, Path through the Poppies, Île Saint-Martin, Vétheuil, 1880.
Metropolitan Museum of Art
, New York, USA.



"Existe um caminho que vai dos olhos ao coração sem passar pelo intelecto."


G. K. Chesterton, The Defendant, 1901.
 
 

quinta-feira, 5 de março de 2026

"A Visita" - Poema de Ana Luísa Amaral

 


L. A. Ring
(Danish painter, 1854–1933), The Artist's Wife by Lamplight, 1898,
68 x 87 cm, Statens Museum for Kunst, Copenhagen.


A Visita


As três desavisadas toutinegras,
as que hoje me chegaram de visita,
de capas e antenas cor de rosa,
sapatos de pelica,
trouxeram como prendas: rima ou não?,
decassílabo coxo ou refletido?,
e num passo de dança de salão
optaram por zumbido

de leve, imitação de chilrear,
afago sobre as penas ilustradas,
lustrosas e macias como livros
com trovões nas lombadas.
Falavam todas juntas (ou zumbiam),
coro anti-ominoso e sossegado,
e ajeitando-se em capas e antenas,
sentaram-se a meu lado.

Uma espreitava a cor, a outra, o branco,
a terceira passava-me a borracha,
mas era tudo feito tão discreto,
modulação tão baixa,
que os braços de morfeu na casa toda:
braços inertes tão adormecidos,
ignorantes da mesa de onde em roda
cresciam os zumbidos.

Por fim, em jeito leve de tourada,
uma lançou a capa pelo ar,
outra roubou-me lápis e isqueiro
e fugiu a dançar
pela varanda, de onde descolou,
como avião, em rasto incandescente.
Só a terceira se deixou ficar
sentada lentamente.

E ficou por aqui, e não partiu,
vigiando-me noite e sobressalto,
segurando-me as pálpebras com mão
segura de mar alto,
mantendo cheia a ânfora do espanto
onde se habita o vento e a monção,
de quando em vez, lançando-me um ditongo
ou golpe de escansão.

Foi a pior, das três a mais perigosa,
a mais desavisada sem parecer,
cujos sapatos de pelica preta
deixavam antever
umas meias às riscas de luar,
com enfeites de sol e tempestades,
e uma malha caída e alguns raios
que me lembravam hades.

Foi ela a responsável pelo estado
em que ficámos mesa, folha, eu,
num desalinho azul, verso molhado
pela jarra tombada por Morfeu
que entretanto acordara, em fúria ampla,
em ânfora de sono destruído,
e que em brado solene emudeceu
o dela, e meu, zumbido.

E se eu tremia, ela como estátua
sem pestanar sequer, sem um tremor:
se ficara ofendida, se assustada.
E, para meu terror,
levantou brevemente a capa preta,
tirou da meia às riscas: não pistola:
um baralho de cartas e navalha
sem ponta, mas de mola.

Que comecem os jogos! Começaram,
mas éramos só três. E ela então
chamou pelas irmãs, que regressaram
em passo de salão.
E as três desavisadas toutinegras
sentaram-se outra vez, e eu e morfeu,
a braços e nos braços de uma crise:
é que ou morfeu, ou eu.

Que quatro é conta certa, cinco, não,
urgindo eliminar alguém presente.
E foi então que a mais desavisada
teve ideia brilhante:
um concurso de quadras com o tema
"as três desavisadas toutinegras",
e ganharia a que de pior rima
a dar com "toutinegras".

Perdeu morfeu, que escolheu a mais óbvia,
e logo ali lhe foram oferecidos
três destinos possíveis, todos eles
de fins enaltecidos.
Ou voltar a dormir, muito enrolado
nos seus braços compridos de embalar,
ou instalar-se à musa, encarregado
de baralhar e dar.

Ou então (foi a escolha sugerida
por mim, que ele aceitou, aliviado):
fazer o meu papel, pegar no lápis,
e sentar-se a meu lado.
E enquanto as três jogavam, entretidas,
em muito incerta conta de jogar,
morfeu e eu zumbíamos por quadras
e canções de embalar.

No livro de registos desta noite,
ficou assim rimada uma visita
de três desavisadas toutinegras,
sapatos de pelica,
e um morfeu a quem elas inspiraram
a comprar capa preta,
e que eu, quase a dormir, vi transformado
em órfico poeta.


Ana Luísa Amaral
,
in "Entre Dois Rios e Outras Noites",
Campo das Letras, 2008.
 


L. A. Ring, Johanne; Seated full figure, 1884.


"Meditar, em filosofia, é encaminharmo-nos do conhecido para o desconhecido, 
e aqui defrontar o real."

Paul Valéry
[Filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, 1871–1945]
 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

"Neurónios Poéticos" - Poema de Ana Luísa Amaral


 

Charles-Amable Lenoir (French painter, 1860–1926), To the Return of Times Lost
(A la Recherche du Temps Perdu), Unknown date. Oil on canvas. Private collection.



Neurónios Poéticos


Algum neurónio que fugiu à mãe
e se refugiou no canto esquerdo,
sob o meu ouvido.

Aí, fez ninho,
redondo e tão preciso
como centro do alvo
mais premente.

O coração desbaratando forças,
uma saudade sempre
consistente:
a mãe nunca deixando
de o chorar.

De vez em quando, o seu suspiro
ecoa, no canto esquerdo
sob o meu ouvido
- que o eco mo devolve
do avesso.

E uma lágrima cai na
folha em frente. Redonda,
independente.

Inundando (depende) ora centro,
ora canto, ora margem de texto.
O ninho devagar:
desequilíbrio manso.


Ana Luísa Amaral
(1956–2022)
 
 
 
Charles-Amable Lenoir, The Flute Player, Unknown date. Oil on canvas.


"A vocação do artista é lançar luz sobre a alma humana."

George Sand



Eugène Delacroix (French Romantic artist, 1798
–1863),
"George Sand", 1838, Ordrupgaard-Museum.



George Sand, escritora francesa, de seu verdadeiro nome Amantine Lucile Aurore Dupin de Francueil, baronesa Dudevant, nascida em 1804 e falecida em 1876, inicia a publicação dos romances passionais Indiana e Valentine (1832) sob o pseudónimo masculino George Sand. 
Figura controversa da sociedade parisiense, tem uma longa ligação com Chopin e expressa as suas ideias políticas, caracterizadas por um socialismo idealista, em revistas e jornais. 
Uma nova fase da sua vida, passada no campo, repercute-se nos temas de François le Champi (1847-48) e La Petite Fadette (1849). 
Em Elle et Lui (1859), romance de cariz autobiográfico, aborda a sua ligação com Musset e inaugura uma fase memorialista (que viria a incluir Rêveries e Souvenirs, 1871-72). A sua Correspondência figura como um documento incontornável para o conhecimento do século XIX e de uma mulher de exceção. (daqui)
 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

"Intertextualidades" - Poema de Ana Luísa Amaral

 

 
Edmund C. Tarbell
(American Impressionist painter, 1862–1938),
Girl Reading, 1909, Museum of Fine Arts Boston.
 

Intertextualidades


Microscópica quase,
uma migalha entre as folhas de um livro
que ando a ler.

Emprestaram-me o livro,
mas a migalha não.
No mistério mais essencial,
ela surgiu-me recatadamente,
a meio de dois parágrafos solenes.
Embaraçou-me o pensamento,
quebrou-me o fio (já ténue) da leitura.
Sedutora, intrigante.

Fez-me pensar nos níveis que há de ler:
o assunto do livro
e a migalha-assunto do leitor

(era pão a matéria consumida no meio
de dois parágrafos e os olhos
consumidos: virar a folha, duas linhas lidas,
a intriga do tempo quando foi
e levantou-se a preparar o pão
voltando a outras linhas).

Fiquei com a migalha,
desconhecida oferta do leitor,
mas por jogo ou consumo
deixei-lhe uma migalha minha,
não marca de água, mas de pão também:
um tema posterior a decifrar mais tarde
em posterior leitura
alheia.


Ana Luísa Amaral, 
in "Minha Senhora de Quê", 1990.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

"O excesso mais perfeito" - Poema de Ana Luísa Amaral



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
Helena Fourment in Wedding Dress, c. 1630, Alte Pinakothek.

[Helena Fourment (1614–1673) was the second wife of Baroque painter Peter Paul Rubens. She sat for a few portraits by Rubens, and also modeled for figures in Rubens' religious and mythological paintings.]
 

O excesso mais perfeito


Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.

Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito, e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo. E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)
preciosas.

Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.

Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguração
do seu olhar. Dourado.

Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus
anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.

Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada —


Ana Luísa Amaral,

in "Às Vezes o Paraíso", 1998.
 
 

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

"Silogismos" - Poema de Ana Luísa Amaral

 

William Mainwaring Palin (English painter and decorative artist, 1862–1947),
Mother and Child, 1899.



Silogismos


A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira.)


Ana Luísa Amaral,
in "O Olhar Diagonal das Coisas"



"O Olhar Diagonal das Coisas" de Ana Luísa Amaral
Editor: Assírio & Alvim, 2022


SINOPSE
 
Estes são poemas de precisão, questionamento e de receitas para várias crises: O Olhar Diagonal das Coisas reúne os 17 livros de poesia de Ana Luísa Amaral, trinta anos em verso inaugurados por Minha Senhora de Quê (1990), até ao mais recente Mundo (2021).
 
Metafísico fruto

Um fruto reticente é a saudade:
a pele custosa à faca, olhos como
cavernas onde a faca não chega e

uma arte cirúrgica é precisa.
Não posso permiti-la no caixote
a insistir-me a alma. Por isso

insisto a arte e a minha perícia
em lhe arrancar a pele, os olhos
reticentes de Sibila.

Às fatias depois — tarefa
igual —
 
 

William Mainwaring Palin, Portrait of Nora Allen, 1910.


"Minhas primeiras pátrias foram os livros."

Marguerite Yourcenar, em "Memórias de Adriano."


Marguerite Yourcenar (1903–1987), 
foto de Bernhard De Grendel, 1982.


Marguerite Yourcenar

Pseudónimo da escritora francesa Marguerite de Crayencour, nascida em 1903, em Bruxelas, Bélgica, e que veio a naturalizar-se norte-americana. A sua mãe, a aristocrata belga Fernande de Cartier, morreu 10 dias após o parto e a jovem Marguerite mudou-se para o norte de França com seu pai, onde permaneceu até 1914, altura em que a Primeira Guerra Mundial obrigou a família a fixar residência em Londres.
Já em Inglaterra, Marguerite aprendeu inglês e iniciou o estudo das línguas clássicas com o seu pai, Michel de Crayencour. Marguerite nunca frequentou a escola, tendo sempre estudado em casa com o pai ou com precetores que lhe proporcionaram uma educação esmerada. O pai, Michel, influenciou-lhe o gosto pela literatura francesa e pela literatura russa, tendo ambos encetado inúmeras viagens pela Europa e pelo Médio e Extremo Oriente durante a juventude da autora.
Aos 16 anos escreveu o seu primeiro livro, Le jardin des chimères (O Jardim das Quimeras), que foi publicado em 1921 numa edição paga pelo próprio pai, sob o pseudónimo "Marg Yourcenar". O apelido "Yourcenar", anagrama de Crayencour, o seu nome de família, foi criado por Marguerite e Michel.
Em 1926 o pai voltou a casar e a autora mudou-se para a Suíça. Publicou Feux (Fogos) em 1936 e, um ano depois, conheceu Virgínia Woolf com quem colaborou em várias traduções.
Antes de partir para os Estados Unidos publicou Nouvelles orientales (Contos Orientais) do qual fazia parte o conto "A Fuga de Wang-fô". Depois de 10 anos a viver nos Estados Unidos, Marguerite pediu a nacionalidade norte-americana. Frequentou a Universidade de Yale e ensinou literatura francesa no Sarah Lawrence College, em Nova Iorque.
Em 1951 publicou Mémoires d'Hadrien (Memórias de Adriano), fruto de quinze anos de trabalho, a sua obra maior que a tornou internacionalmente conhecida. Este sucesso seria confirmado com L'oeuvre au Noir (A Obra ao Negro), 1968, uma biografia imaginária de um herói do século XVI atraído pelo hermetismo e a ciência. Publicou ainda poemas, ensaios e memórias, manifestando uma atração pela Grécia e pelo misticismo oriental patente em trabalhos como Mishima ou la vision du vide (1981, Mishima ou a Visão do Vazio) e Comme l'eau qui coule (1982, Como a Água que Corre).
Marguerite Yourcenar foi a primeira mulher convidada para a Academia Francesa de Letras, em 1980, tendo ocupado o lugar em janeiro de 1981. A autora faleceu a 17 de dezembro de 1987, nos Estados Unidos, deixando uma marca profunda na literatura de expressão francesa. (daqui)

domingo, 24 de agosto de 2025

"Músicas" - Poema de Ana Luísa Amaral

 


Gustave Léonard de Jonghe (Flemish painter, 1829–1893), 
Mother with her young daughter, 1865.


Músicas
 

Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.
E deito-me a seu lado,
a cabeça em partilha de almofada.

Os sons dos outros lá fora em sinfonia
são violinos agudos bem tocados.
Eu é que me desfaço dos sons deles
e me trabalho noutros sons.

Bartók em relação ao resto.

A minha filha adormecida.
Subitamente sonho-a não em desencontro como eu
das coisas e dos sons, orgulhoso
e dorido Bartók.

Mas nunca como eles
bem tocada
por violinos certos.


Ana Luísa Amaral, in 'Minha Senhora de Quê',
 Fora do Texto, 1990; reed., Quetzal, 1999.
 


"Minha Senhora de Quê" de Ana Luísa Amaral
 
 
SINOPSE

A obra "Minha Senhora de Quê" de Ana Luísa Amaral (1956-2022), publicada originalmente em 1990, é uma coleção de poemas que explora temas como identidade, linguagem, tradição poética e a relação da mulher com o mundo. 
Ana Luísa Amaral não se limita a repetir fórmulas poéticas, mas questiona e reinventa a linguagem, utilizando-a de forma inovadora para expressar a sua visão do mundo. 
A obra destaca-se pela sua frescura e originalidade, estabelecendo um diálogo constante com outros poetas e com a própria poesia. 

domingo, 17 de agosto de 2025

"O dia de descanso" - Poema de Ana Luísa Amaral



Frederick Morgan (English painter, 1847–1927), 'The Swing', n.d.
 

O dia de descanso


Levei minha filha ao parque
e era domingo.

Pelo domingo, o parque
fica como o jardim do paraíso,
abertos os portões e nenhum deus.
Tudo inocência
entre verdura e saibro e cavalinhos
cabalisticamente numerados
até sete.

Levei minha filha ao parque
e era domingo
e não havia o anjo com a espada de fogo.

Não que na minha filha
cuidasse o guardião:
rasteiros os arbustos sem sítio de maçã
e esta filha tinha só três anos.
o anjo era meu só,
velha dez vezes mais e proibida
por regras de baloiço.

Mesmo dez vezes mais, voei, e tudo ausente.
entre palmas e risos,
o anjo, o fogo, a espada, tudo ausente,
e o céu: só céu azul e limpo.

Levou-me a minha filha ao parque
e era domingo,
o dia de descanso do anjo distraído
de expulsar e distraídos
os portões abertos.


Ana Luísa Amaral
, in 'Imagias',
Editora: Gótica, 2002


sábado, 9 de agosto de 2025

"Navegações Doentes" - Poema de Ana Luísa Amaral

 

  
Julius LeBlanc Stewart (American artist, 1855–1919), Disappointment:
Portrait of Sarah Bernhardt
(French stage actress, 1844–1923), 1882.


[“Disappointment” is an oil on panel painting by the American realism artist, Julius LeBlanc Stewart, from 1882. Stewart is most known for his artwork depicting the Belle Époque period in Paris, when prosperity, wealth, and peace allowed the arts to flourish.
In this painting, a woman is sitting on a chair at home. An envelope lies open on the floor. A letter is resting on her knees, visible against the fabric of her dress as it makes its way to the floor. In her left hand, she delicately holds a teacup. She looks off to her right, lost in thought. The woman has obviously just received some very disappointing news. 
This is thought to be a portrait of the famous French stage actress, Sarah Bernhardt. Bernhardt was 38 years old at the time and at the height of her fame. She was a muse and model for many artists of her day, including Alfred Stevens, Jules Bastien-Lepage, Georges Clairin, and Alphonse Mucha. Bernhardt became famous during the beginning of the Belle Époque period in the 1870s. She made the transition from stage to early film seamlessly. Sarah Bernhardt was commonly referred to as “the most famous actress the world has ever known”.]
 (daqui)

Navegações Doentes


Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluídos
e o devaneio em barcos de desejo

os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino

tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos


Ana Luísa Amaral

[Poetisa portuguesa, tradutora e professora, 1956–2022]

 

sexta-feira, 25 de julho de 2025

"Coisas de luz antigas" - Poema de Ana Luísa Amaral




Vittorio Matteo Corcos (Italian painter, 1859–1933), "When Love is Young", 1883.
Oil on canvas, Appleton Museum of Art.
 
 
Coisas de luz antigas


Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.

Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:

um namorado sem falar
de amor

(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)


Ana Luísa Amaral,
in Poesia Reunida: 1990-2005,
Quasi Edições, 2005.
 
 

sexta-feira, 11 de julho de 2025

"Uma constante da vida" - Poema de Ana Luísa Amaral

 

 
Cruzeiro Seixas (Poeta e pintor surrealista português, 1920–2020), S/Título - Serigrafia.
 
 
Uma constante da vida 


Errámos junto
à História: devíamos
pegar em foices e enxadas
e destruir mil campos
de pensar:
computadores, ogivas nucleares,
assentos petrolíferos e mais:
centrais de mil cisões
(e, já agora, aquele pequeníssimo
sonar)

Errámos pela
História: enquanto tempo,
devíamos pegar nas foices,
nas enxadas.
E nos anéis das fadas
plantar outras sementes: bombas
despoletadas, ferrugentas,
que dessem trigo e paz

Errámos nas histórias
de encantar:
um lobo freudiano, um capuchinho,
um osso pela grade
da prisão.
Voltaram as sereias
sentadas no olhar em devoção
(sem nunca terem nem sequer
partido)

(E seduz-nos ainda
esse cantar.)
Errámos sem saber
que o seu vagar é tal
que o sonho, cedo ou tarde,
se fará.
Que ao lado da cisão: a catedral
e ao lado do vitral: irracional
razão

A história junto
à História,
a enxada quebrada pelo chão.


Ana Luísa Amaral, in 'Às vezes o Paraíso'
Quetzal Editores. Lisboa. 1998.
 
 
 
Cruzeiro Seixas, A Balança, 1993.
 

"As pessoas educam para a competição e esse é o princípio de qualquer guerra. Quando educarmos para cooperarmos e sermos solidários uns com os outros, nesse dia estaremos a educar para a paz."

Maria Montessori, "A Educação e a Paz"

 

"A Educação e a Paz" de Maria Montessori,
 Ed. Papirus, 2004.


Descrição 
 
Publicada pela primeira vez em 1949, a obra A educação e a paz permanece atual, pois o homem ainda não aprendeu a viver em paz, embora já estejamos no terceiro milénio. Maria Montessori evoca aqui uma educação que possibilite o desenvolvimento do que há de melhor em cada indivíduo, abandonando a priorização da posse material, de modo que, ao estar bem consigo mesmo, o indivíduo possa conviver melhor com os demais, respeitando as diferenças. O homem ainda está em busca de soluções relacionadas a ideologias políticas, a ciências económicas, mas se esqueceu de buscá-las em uma educação que valorize o indivíduo harmonizado consigo mesmo e com o universo, a solução definitiva para a construção da paz. Nesta obra encontram-se compiladas as conferências em que a educadora defende essa proposta educacional, que há de provocar uma grande transformação nas relações humanas, no sentido de que saibamos nos compreender e amar como irmãos. Temos ainda muito a aprender com essa admirável educadora, uma vez indicada ao prémio Nobel da Paz, e com este trabalho magnífico em prol de uma educação para a paz! - Papirus Editora

segunda-feira, 30 de junho de 2025

“Prece no Mediterrâneo” - Poema de Ana Luísa Amaral



Quinto Cenni (Italian painter, engraver, lithographer and illustrator, 1845–1917),
The port and fleet of Genoa in the early 14th century, 1909.

Prece no Mediterrâneo


Em vez de peixes, Senhor,
dai-nos a paz,
um mar que seja de ondas inocentes,
e, chegados à areia,
gente que veja com coração de ver,
vozes que nos aceitem.

É tão dura a viagem
e até a espuma fere e ferve,
e, de tão alta, cega
durante a travessia.

Fazei, Senhor, com que não haja
mortos desta vez,
que as rochas sejam longe,
que o vento se aquiete
e a vossa paz enfim
se multiplique.

Mas depois da jangada,
da guerra, do cansaço,
depois dos braços abertos e sonoros,
sabia bem, Senhor,
um pão macio,
e um peixe, pode ser?
do mar

que é também nosso


Ana Luísa Amaral, in Ágora,
Assírio & Alvim, 2019.

 

quinta-feira, 19 de junho de 2025

"A agonia no jardim" - Poema de Ana Luísa Amaral

 

Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890), 
Olive Grove, Saint-Rémy, 1889, Gothenburg Museum of Art.


A agonia no jardim

 
A solidão avança como onda,
ausente
toda luz

Saísse eu deste quadro,
poderia tocar o tronco amargo,
os ramos mais esguios dessa oliveira,
libertar-me das mãos

Podia ainda, se quisesse,
inventar vento
aproveitando a chama que ele
ostenta

Devo ceder a quê?
À história que contaram
sobre mim?

Eles não sabem da história mais de dentro,
a que me fez chegar até aqui,
sabendo finalmente:

que dizer sim
era morrer por dentro

que dizer não
era afogar-me nessa longa chama,
numa Palavra –

em mim


Ana Luísa Amaral
, in Ágora
Assírio & Alvim, 2019
 
 

Ágora de Ana Luísa Amaral 
Editor: Assírio & Alvim 
Edição/reimpressão: 10-2019
 

SINOPSE

No mais recente livro de Ana Luísa Amaral, que conta com reproduções a cores de grandes obras de arte de todos os tempos, a poeta apresenta-nos um conjunto de poemas belos e terríveis, comoventes e violentos, em permanente diálogo com a Bíblia e com a arte, mas sobretudo com o nosso tempo.


A Leste do Paraíso

Antes ser tudo e livre
do que bom mas humilde

Assim pensara então
e agira

E o oriente lhe foi destinado:
terra de mil castigos
de difíceis colheitas; mais
suor

Só depois descobriu
que lá o sol nascia
e que podia falar das coisas
todas

Mas com quem?
 

domingo, 14 de abril de 2024

"Girassol" - Poema de Ana Luísa Amaral




Gabriel Ferrier (French portrait painter, 1847–1914), The Love Letter,
Art Renewal Center


Girassol


se pousar nesta folha
um girassol
e o quebrar

o que sobra é o sol
dentro do céu —
parado —

ou o papel
aturdido e em
vertigem?


Ana Luísa Amaral, in Mundo,
Assírio & Alvim, 2021 
 
 

Gabriel Ferrier (French portrait painter, 1847–1914), Whispers in the Library,
Art Renewal Center


"A educação (...) criou uma vasta população capaz de ler, mas incapaz de reconhecer o que vale a pena ser lido."
 
"Education... has produced a vast population able to read but unable to distinguish what is worth reading." 
 
George Macaulay Trevelyan, citado em Municipal World - Volumes 60-61 - Pág. 158, 1950