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domingo, 19 de abril de 2026

"Amor Perfeito" - Poema de Cecília Meireles

 

 
Frieda Blell (German landscape painter, 1874–1951), 
"Stillleben mit Stiefmütterchen", c. 1913. 
Gouache auf Papier 


Amor Perfeito

 
Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
vê-se a luz do jardim suspensa.

Tão fina foi a vida sua,
tão fina é a morte em que descansa!
Mais transparente do que a lua,
mais do que as borboletas mansa!
Tanto o seu perfil atenua
que, em peso, é menos que a lembrança.

Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a sua vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.

Se o levantar entre meus dedos,
pólen de tardes e sorrisos
cairá com tímidos segredos
de tempos certos e imprecisos.
Ó cinco pétalas, ó enredos
de sentimentais paraísos!

Mas de leve gota pousada
no veludo, - mole diamante
que foi a resposta da amada,
que foi a pergunta do amante –
dela não se verá mais nada:
perdeu-se no vento inconstante.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto e outros poemas", 1945.
 
 
 
Viola tricolor
(amor-perfeito) 


Viola tricolor, popularmente conhecida como amor-perfeito e erva-trindade, é uma flor bienal selvagem eurasiática. É uma pequena planta rasteira que atinge no máximo 15 cm de altura, com flores de cerca de 1,5 cm de diâmetro. Cresce nos prados e nas fazendas abandonadas, principalmente em solos ácidos ou neutros. É geralmente encontrada onde há sombra parcial. Floresce de Abril a Setembro. As flores da viola tricolor ou amores perfeitos podem ser roxas, azuis, amarelas ou brancas. É hermafrodita e autofértil, polinizada pelas abelhas(daqui)
 
 

Leo Putz (Tyrolean painter, 1869–1940), Frieda Blell, 1908.

(Portrait by her future husband, Leo Putz)



"Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir." 
 

quinta-feira, 5 de março de 2026

"A Visita" - Poema de Ana Luísa Amaral

 


L. A. Ring
(Danish painter, 1854–1933), The Artist's Wife by Lamplight, 1898,
68 x 87 cm, Statens Museum for Kunst, Copenhagen.


A Visita


As três desavisadas toutinegras,
as que hoje me chegaram de visita,
de capas e antenas cor de rosa,
sapatos de pelica,
trouxeram como prendas: rima ou não?,
decassílabo coxo ou refletido?,
e num passo de dança de salão
optaram por zumbido

de leve, imitação de chilrear,
afago sobre as penas ilustradas,
lustrosas e macias como livros
com trovões nas lombadas.
Falavam todas juntas (ou zumbiam),
coro anti-ominoso e sossegado,
e ajeitando-se em capas e antenas,
sentaram-se a meu lado.

Uma espreitava a cor, a outra, o branco,
a terceira passava-me a borracha,
mas era tudo feito tão discreto,
modulação tão baixa,
que os braços de morfeu na casa toda:
braços inertes tão adormecidos,
ignorantes da mesa de onde em roda
cresciam os zumbidos.

Por fim, em jeito leve de tourada,
uma lançou a capa pelo ar,
outra roubou-me lápis e isqueiro
e fugiu a dançar
pela varanda, de onde descolou,
como avião, em rasto incandescente.
Só a terceira se deixou ficar
sentada lentamente.

E ficou por aqui, e não partiu,
vigiando-me noite e sobressalto,
segurando-me as pálpebras com mão
segura de mar alto,
mantendo cheia a ânfora do espanto
onde se habita o vento e a monção,
de quando em vez, lançando-me um ditongo
ou golpe de escansão.

Foi a pior, das três a mais perigosa,
a mais desavisada sem parecer,
cujos sapatos de pelica preta
deixavam antever
umas meias às riscas de luar,
com enfeites de sol e tempestades,
e uma malha caída e alguns raios
que me lembravam hades.

Foi ela a responsável pelo estado
em que ficámos mesa, folha, eu,
num desalinho azul, verso molhado
pela jarra tombada por Morfeu
que entretanto acordara, em fúria ampla,
em ânfora de sono destruído,
e que em brado solene emudeceu
o dela, e meu, zumbido.

E se eu tremia, ela como estátua
sem pestanar sequer, sem um tremor:
se ficara ofendida, se assustada.
E, para meu terror,
levantou brevemente a capa preta,
tirou da meia às riscas: não pistola:
um baralho de cartas e navalha
sem ponta, mas de mola.

Que comecem os jogos! Começaram,
mas éramos só três. E ela então
chamou pelas irmãs, que regressaram
em passo de salão.
E as três desavisadas toutinegras
sentaram-se outra vez, e eu e morfeu,
a braços e nos braços de uma crise:
é que ou morfeu, ou eu.

Que quatro é conta certa, cinco, não,
urgindo eliminar alguém presente.
E foi então que a mais desavisada
teve ideia brilhante:
um concurso de quadras com o tema
"as três desavisadas toutinegras",
e ganharia a que de pior rima
a dar com "toutinegras".

Perdeu morfeu, que escolheu a mais óbvia,
e logo ali lhe foram oferecidos
três destinos possíveis, todos eles
de fins enaltecidos.
Ou voltar a dormir, muito enrolado
nos seus braços compridos de embalar,
ou instalar-se à musa, encarregado
de baralhar e dar.

Ou então (foi a escolha sugerida
por mim, que ele aceitou, aliviado):
fazer o meu papel, pegar no lápis,
e sentar-se a meu lado.
E enquanto as três jogavam, entretidas,
em muito incerta conta de jogar,
morfeu e eu zumbíamos por quadras
e canções de embalar.

No livro de registos desta noite,
ficou assim rimada uma visita
de três desavisadas toutinegras,
sapatos de pelica,
e um morfeu a quem elas inspiraram
a comprar capa preta,
e que eu, quase a dormir, vi transformado
em órfico poeta.


Ana Luísa Amaral
,
in "Entre Dois Rios e Outras Noites",
Campo das Letras, 2008.
 


L. A. Ring, Johanne; Seated full figure, 1884.


"Meditar, em filosofia, é encaminharmo-nos do conhecido para o desconhecido, e aqui defrontar o real."


Paul Valéry
(Filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista, 1871–1945) 
 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

"Por entre os sons da música" - Poema de Vergílio Ferreira


Georgios Jakobides (1853–1932), Children's Concert, 1894


Por entre os sons da música


Por entre os sons da música, ao ouvido
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta

acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse.


Vergílio Ferreira,
in 'Conta-Corrente 1'



Georgios Jakobides, Children's Concert, 1890


"A melhor maneira de realizar os seus sonhos é acordar."
 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

"Num meio-dia de fim de Primavera" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa


Pierre-Auguste Renoir, Spring at Catou, c. 1872-1873
 

Num meio-dia de fim de Primavera

VIII

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas —
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é que ele as criou, do que duvido.» —
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
……

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

s.d.

Alberto Caeiro, in Poemas -“O Guardador de Rebanhos”
Heterónimo de Fernando Pessoa


Pierre Auguste Renoir, The Field, 1873


"Não há dúvida de que a fé existe; mas há que se perguntar com o que ela coexiste naqueles em que existe."


sábado, 12 de agosto de 2017

"A dança é a linguagem escondida da alma." - Martha Graham


(Fotógrafo arménio-canadense, 1908 - 2002)
 
 
"A dança é a linguagem escondida da alma."



Martha Graham (11 de maio de 1894, Condado de Allegheny, Pensilvânia – 1 de abril de 1991, Nova Iorque) foi uma dançarina e coreógrafa estadunidense que revolucionou a história da Dança Moderna.
O impacto que a dança de Martha Graham causou nos palcos é frequentemente comparado à influência que Picasso teve para a pintura em seu tempo, ou Stravinsky na música, ou Frank Lloyd Wright na arquitetura. As suas contribuições transformaram essa forma de arte, revitalizando e difundindo a dança ao redor do mundo.
Na sua busca por uma forma de expressar-se mais honesta e livremente, ela fundou a Martha Graham Dance Company, uma das mais conceituadas e antigas companhias de dança nos Estados Unidos.
Como professora, Graham treinou e inspirou gerações de grandes bailarinos e coreógrafos. Entre seus discípulos estão Alvin Ailey, Twyla Tharp, Paul Taylor, Merce Cunningham e incontáveis outros atores e dançarinos.
Ela colaborou com alguns dos mais conceituados artistas de seu tempo, como o compositor Aaron Copland e o escultor Isamu Noguchi. Ela inventou uma nova linguagem de movimento, usada para revelar a paixão, a raiva e o êxtase comuns à experiência humana. Ela dançou e coreografou por mais de 70 anos, e durante esse tempo foi a primeira dançarina a se apresentar na Casa Branca, viajar para o estrangeiro como embaixadora cultural, e receber o maior prémio civil do EUA: a Medalha Presidencial da Liberdade.
Em sua vida, ela recebeu homenagens que vão desde a Chave da Cidade de Paris até a Ordem da Coroa Preciosa do Império Japonês. Ela disse: "Passei toda a minha vida com a dança e sendo uma bailarina. É a vida que permite usá-la de uma forma muito intensa. Às vezes não é agradável. Às vezes é terrível. Mas, apesar disso, é inevitável." (Daqui)


(Escritor e fotógrafo, 1880 - 1964)
 
 
"A Dança é, na minha opinião, muito mais do que um exercício, um divertimento, um ornamento, um passatempo social; na verdade, é uma coisa até séria e, sob certo aspeto, mesmo, uma coisa sagrada. Cada era que compreendeu a importância do corpo humano, ou que, pelo menos, teve a noção sensorial de sua estrutura, de seus requisitos, de suas limitações e da combinação de genialidade que lhe são inerentes, cultivou, venerou a Dança."



A Tribute to Martha Graham


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"O Inimigo" - Poema de Charles Baudelaire


 


O Inimigo


A mocidade foi-me um temporal bem triste, 
Onde raro brilhou a luz d'um claro dia; 
Tanta chuva caiu, que quase não existe 
Uma flor no jardim da minha fantasia. 

E agora, que alcancei o outono, alquebrantado, 
Que paciente labor não preciso — ai de mim! — 
Se quiser renovar o terreno encharcado, 
Cheio de boqueirões, que é hoje o meu jardim! 

E quem sabe se as flores ideais que ora cobiço 
Iriam encontrar no chão alagadiço 
O preciso alimento ao seu desabrochar? 

Corre o tempo veloz, num galope desfeito, 
E a Dor, a ingente Dor, que nos corrói o peito, 
Com nosso próprio sangue, a crescer, a medrar! 


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 
Tradução de Delfim Guimarães


Felix Nussbaum, 'Self-portrait', 1940


Felix Nussbaum (11 de Dezembro de 1904, Osnabrück - 2 de Agosto de 1944, Auschwitz) foi um pintor alemão de origem judaica, com várias obras que ilustram os horrores do Holocausto, do qual ele foi vítima. 
 
Estudou em Hamburgo e Berlim, arte, livre e aplicada (freie und angewandte Kunst). Nos anos 1920 e 30 as suas exposições em Berlim tiveram grande sucesso. Com a chegada ao poder dos Nazis em 1933, foi obrigado a viver no exílio, em Itália, França e finalmente na Bélgica (Bruxelas) com a sua mulher, a polaca Felka Platek, com quem casou em 1937. 
 
Com a ocupação pelos alemães e o regime de Vichy, foi internado num campo de concentração em França. Conseguiu no entanto fugir com a sua mulher e esconder-se na casa de um amigo, também um artista, em Bruxelas. Foi traído e denunciado em Junho de 1944 e imediatamente preso, juntamente com a sua mulher. Foi levado para campo de concentração de Malines (ou Mecheln) de onde foi levado para Auschwitz, onde foi assassinado em 2 de Agosto de 1944, presumivelmente com a sua mulher.
 
Em 1998 foi inaugurado em Osnabrueck o Museu Felix-Nussbaum (Felix-Nussbaum-Haus), no qual está exposta a totalidade das suas obras, mais de 160 quadros. Os planos do edifício couberam ao famoso arquitecto Daniel Libeskind.


Felix Nussbaum, Self-portrait with Jewish Identity Card, 1943


"Nada, na História, serve para ensinar aos Homens a possibilidade de viverem em paz. É o ensino oposto que dela se destaca - e se faz acreditar."



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

"O Cemitério Marinho" - Poema de Paul Valéry


William Orpen, Grace Reading at Howth Bay, 1902



O Cemitério Marinho


Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
— Ó meu silêncio!… Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.


Trecho de “O Cemitério Marinho”
Tradução de Darcy Damasceno






Poema

Um dia, eu e meu sonho a sós,
Eu e meu sonho.
Deitei na areia a cabeça derrotada por mares vingativos
E tormentas abatidas sobre crepúsculos macios.
No bojo de meu sonho rolava um canto de vencido,
Um mar se debatia entre as minhas mãos crispadas.
Sobre a areia eu e meu sonho, derrotados,
E sobre a vida e sobre a morte
Um céu de exílio se abateu.


Darcy Damasceno
1922-1988
poeta, crítico e tradutor


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

"O Mar agita-se como um alucinado" - Poema de Alberto d'Oliveira



O Mar agita-se como um alucinado


O Mar agita-se, como um alucinado:
A sua espuma aflui, baba da sua Dor...
Posto o escafandro, com um passo cadenciado,
Desce ao fundo do Oceano algum mergulhador.

Dá-lhe um aspeto estranho a campânula imensa:
Lembra um bizarro Deus de algum pagode indiano:
Na cólera do Mar, pesa a sua Indiferença
Que o torna superior, e faz mesquinho o Oceano!

E em vão as ondas se lhe enroscam à cabeça:
Ele desce orgulhoso, impassível, sem pressa,
Com suprema altivez, com ironias calmas:

Assim devemos nós, Poetas, no Mundo entrar,
Sem nos deixarmos absorver por esse Mar
— Pois a Arte é, para nós, o escafandro das Almas!


Alberto d'Oliveira, in "Bíblia do Sonho"




"A guerra é um massacre entre pessoas que não se conhecem para proveito
 de pessoas que se conhecem mas não se massacram."
 
(Paul Valéry)
 
 
Paul Valery
 
 
 Paul Valéry

Poeta, ensaísta, filósofo e crítico francês da escola simbolista, Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry nasceu a 30 de outubro de 1871, em Sète (perto de Montpellier), de pai francês e mãe italiana, e morreu a 20 de julho de 1945, em Paris. 
 
Foi aluno do liceu Montpellier, pensou em fazer carreira na Marinha e estudou Matemática, mas acabou por se matricular em Direito. Cultivou o seu interesse pela poesia e arquitetura. No fim do curso, em 1892, foi para Paris. Nesta altura, o seu círculo de amigos eram poetas como Stéphane Mallarmé, André Gide e Gustave Flaubert. De entre os seus ídolos contavam-se Edgar Allan Poe, Joris-Karl Huysmans e Stéphane Mallarmé.

Valéry escreveu bastantes poemas entre 1888 e 1891, muitos dos quais foram publicados em revistas pertencentes ao movimento simbolista, onde receberam críticas favoráveis.
O seu desespero e frustração por um amor não correspondido, em 1892, levam-no a renunciar a todas as preocupações emocionais e a voltar-se para a "ideologia do intelecto". 
 
A partir de 1894 passou a escrever segundo o método científico, publicando estes escritos nos famosos Cahiers. O seu novo ídolo era agora Leonardo da Vinci. Passou a considerar a literatura como uma perigosa paixão. Inclinou-se então para a  matemática mas voltou a reencontrar a criação artística ao procurar estabelecer a unidade criadora do espírito com Introduction à la méthode de Léonard de Vinci, onde contrasta as infinitas potencialidades da mente com a inevitável imperfeição da ação. Elaborou uma ética puramente intelectual com la Soirée avec M. Edmond Teste, em 1895.

Em 1912, André Gide pressionou-o a rever os seus primeiros escritos para serem publicados. Elaborou então o programa daquilo a que chamou "poesia pura", em que o sentido dependia totalmente da musicalidade. 
 
Em 1917, publicou la Jeune Parque, considerado o seu melhor poema. Seguiram-se le Cimetière Marin e Album de vers anciens, em 1920 e Charmes em 1922, uma coleção que inclui a sua famosa meditação sobre a morte no cemitério de Sète, onde hoje se encontra o seu túmulo.
Em 1925 foi eleito para a Academia Francesa. A 20 de junho de 1935 foi eleito sócio da classe de letras da Academia das Ciências de Lisboa. 
 
Para Valéry, os versos devem produzir encantamento e o poeta tem de crer no poder da palavra e na eficácia do som do vocábulo. Os famosos poemas de la Jeune Parque e Charmes produziram um encantamento tal, que em breve muitos os sabiam de cor. 
Valéry criou uma nova sintaxe poética e anexou à literatura o domínio inexplorado da sensibilidade. O seu lirismo encontra-se também nos livros em prosa. Mais tarde escreveu vários ensaios e folhetins literários e interessou-se pelas descobertas científicas e pelos problemas políticos do seu tempo.

Paul Valéry não escreveu poesia após 1922, mas o seu lugar como um dos maiores escritores franceses estava assegurado. Passou a dedicar atenção aos problemas da escrita poética e à sua composição literária, assim como à matemática e à ciência. Tornou-se uma figura pública bastante importante. Encontrava-se com escritores, cientistas e chefes de Estado estrangeiros. 
Fortemente interessado pelo estado da física moderna, Valéry proferiu inúmeros discursos e fez viagens por toda a Europa.  (daqui)
 

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"Traduzir-se" - Poema de Ferreira Gullar


Felix Nussbaum (German-Jewish surrealist painter, 1904-1944),
  Portrait of an Unidentified Man, 1941 
 


Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém,
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte delira

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte se espanta

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


in Na vertigem do dia, 1980


Ferreira Gullar, pseudónimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, 10 de setembro de 1930) é um poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo. 
Neoconcretismo foi um movimento artístico surgido no Rio de Janeiro, Brasil, em fins da década de 1950, como reação ao concretismo  ortodoxo.


Felix Nussbaum, Self-Portrait in Front of the Easel, 1943,
Jewish Museum, Paris, France
 

"Verdadeiramente bom só é o homem que nunca censura os outros pelos males que lhe acontecem."

(Paul Valéry)