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terça-feira, 20 de outubro de 2020

"Via-Láctea" - 7 Sonetos (XXII a XXVIII) de Olavo Bilac



Hugues Merle (French painter, 1823–1881), Woman with blue bow, n.d.


Sonetos

XXII
A Goethe
 
Quando te leio, as cenas animadas
 Por teu génio, as paisagens que imaginas,
 Cheias de vida, avultam repentinas,
 Claramente aos meus olhos desdobradas... 
 
Vejo o céu, vejo as serras coroadas
 De gelo, e o sol, que o manto das neblinas
 Rompe, aquecendo as frígidas campinas
 E iluminando os vales e as estradas.
 
 Ouço o rumor soturno da charrua, 
E os rouxinóis que, no carvalho erguido, 
A voz modulam de ternuras cheia:
 
 E vejo, à luz tristíssima da lua,
 Hermann, que cisma, pálido, embebido
 No meigo olhar da loura Doroteia.
 
 XXIII
 
 De Calderón. Laura! dizes que Fábio anda ofendido 
E, apesar de ofendido, namorado, 
Buscando a extinta chama do passado
 Nas cinzas frias avivar do olvido.
 
 Vá que o faça, e que o faça por perdido
 De amor... Creio que o faz por despeitado:
 Porque o amor, uma vez abandonado, 
Não torna a ser o que já tinha sido.
 
Não lhe creias nos olhos nem na boca,
 Inda mesmo que os vejas, como pensas,
 Mentir carícias, desmentir tristezas...
 
 Porque finezas sobre arrufos, louca, 
Finezas podem ser; mas, sobre ofensas, 
 Mais parecem vinganças que finezas.
 
 XXIV 
A Luís Guimarães
 
Vejo-a, contemplo-a comovido... Aquela 
Que amaste, e, de teus braços arrancada,
 Desceu da morte a tenebrosa escada,
 Calma e pura aos meus olhos se revela. 
 
Vejo-lhe o riso plácido, a singela
 Feição, aquela graça delicada,
 Que uma divina mão deixou vazada
 No eterno bronze, eternamente bela.
 
 Só lhe não vejo o olhar sereno e triste:
 - Céu, poeta, onde as asas, suspirando, 
Chorando e rindo loucamente abriste... 
 
- Céu povoado de estrelas, onde as bordas
 Dos arcanjos cruzavam-se, pulsando
 Das liras de ouro as gemedoras cordas...
 
XXV
 A Bocage
 
 Tu, que no pego impuro das orgias
 Mergulhavas ansioso e descontente,
 E, quando à tona vinhas de repente,
 Cheias as mãos de pérolas trazias;
 
 Tu, que do amor e pelo amor vivias,
 E que, como de límpida nascente,
 Dos lábios e dos olhos a torrente
 Dos versos e das lágrimas vertias;
 
 Mestre querido! viverás, enquanto
 Houver quem pulse o mágico instrumento, 
E preze a língua que prezavas tanto:
 
 E enquanto houver num canto do universo
 Quem ame e sofra, e amor e sofrimento
 Saiba, chorando, traduzir no verso.
 
 XXVI
 
 Quando cantas, minh'alma desprezando
 O invólucro do corpo, ascende às belas
 Altas esferas de ouro, e, acima delas,
 Ouve arcanjos as citaras pulsando.
 
 Corre os países longes, que revelas
 Ao som divino do teu canto: e, quando
 Baixas a voz, ela também, chorando,
 Desce, entre os claros grupos das estrelas.
 
 E expira a tua voz. Do paraíso,
 A que subira ouvindo-te, caído,
 Fico a fitar-te pálido, indeciso...
 
 E enquanto cismas, sorridente e casta,
 A teus pés, como um pássaro ferido,
 Toda a minh'alma trémula se arrasta... 
 
XXVII
 
 Ontem - néscio que fui! - maliciosa
 Disse uma estrela, a rir, na imensa altura:
 "Amigo! uma de nós, a mais formosa
 De todas nós, a mais formosa e pura,
 
 Faz anos amanhã... Vamos! procura 
A rima de ouro mais brilhante, a rosa
 De cor mais viva e de maior frescura!
"E eu murmurei comigo: "Mentirosa!" 
 
E segui. Pois tão cego fui por elas,
 Que, enfim, curado pelos seus enganos,
 Já não creio em nenhuma das estrelas...
 
 E - mal de mim! - eis-me, a teus pés, em pranto...
 Olha: se nada fiz para os teus anos,
 Culpa as tuas irmãs que enganam tanto! 
 
XXVIII
 
 Pinta-me a curva destes céus... Agora, 
Ereta, ao fundo, a cordilheira apruma:
 Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,
 E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora.
 
 Solta, ondulando, os véus de espessa bruma,
 E o vale pinta, e, pelo vale em fora,
 A correnteza túrbida e sonora
 Do Paraíba, em torvelins de espuma. 
 
Pinta; mas vê de que maneira pintas...
 Antes busques as cores da tristeza, 
Poupando o escrínio das alegres tintas:
 
 - Tristeza singular, estranha mágoa
 De que vejo coberta a natureza,
 Porque a vejo com os olhos rasos d'água.
 

Olavo Bilac
in "Via-Láctea", 1888
 
 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

"Ser ou não ser, eis a questão" - Poema de William Shakespeare



Hugues Merle (French painter, 1823–1881), Hamlet and Ophelia, 1873


Ser ou não ser
(tradução de Machado de Assis)

Hamlet, Ato 3 Cena 1

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,
Quando o lodo mortal despido houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortúnio. Quem do tempo
Sofrer quisera ultrajes e castigos,
Injúrias da opressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas mágoas,
Das leis a inércia, dos mandões a afronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente mérito recebe,
Quem, se na ponta da despida lâmina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e misérias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida coisa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno país misterioso
Donde um viajor sequer há regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a suportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciência.
Assim da reflexão à luz mortiça
A viva cor da decisão desmaia;
E o firme, essencial cometimento,
Que esta ideia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de ação perder o nome.


William Shakespeare,
em "Poesias Ocidentais" / Obra Completa,
de Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
[Publicado originalmente em Poesias Completas:
Machado de Assis, Rio de Janeiro: Garnier, 1901]




John William Waterhouse (English painter, 1849–1917), Ophelia, 1894


Ser ou não ser
(Tradução de  Bárbara Heliodora)

 Hamlet, ato III, cena 1

Ser ou não ser, essa é que é a questão:
Será mais nobre suportar na mente
As flechadas da trágica fortuna,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer? Morrer, dormir,
Nada mais; e dizer que pelo sono
Findam-se as dores, como os mil abalos
Inerentes à carne – é a conclusão
Que devemos buscar. Morrer – dormir;
Dormir, talvez sonhar – eis o problema:
Pois os sonhos que vierem nesse sono
De morte, uma vez livres deste invólucro
Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo
Que prolonga a desdita desta vida.
Quem suportara os golpes do destino,
Os erros do opressor, o escárnio alheio,
A ingratidão no amor, a lei tardia,
O orgulho dos que mandam, o desprezo
Que a paciência atura dos indignos,
Quando podia procurar repouso
Na ponta de um punhal? Quem carregara
Suando o fardo da pesada vida
Se o medo do que vem depois da morte –
O país ignorado de onde nunca
Ninguém voltou – não nos turbasse a mente
E nos fizesse arcar co’o mal que temos
Em vez de voar para esse, que ignoramos?
Assim nossa consciência se acovarda,
E o instinto que inspira as decisões
Desmaia no indeciso pensamento,
E as empresas supremas e oportunas
Desviam-se do fio da corrente
E não são mais ação. Silêncio agora!
A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces
Recorda os meus pecados.


William Shakespeare
,
em "Por que ler Shakespeare",
de Bárbara Heliodora (1923
2015)



Benjamin West (American-born British painter, 1738–1820), Hamlet: Act IV, Scene V
(Ophelia Before the King and Queen)
, 1792, Cincinnati Art Museum.



To be or not to be

Spoken by Hamlet, Act 3 Scene 1


To be, or not to be: that is the question:
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.–Soft you now!
The fair Ophelia! Nymph, in thy orisons
Be all my sins remember’d.


William Shakespeare (1564–1616)



Władysław Czachórski (Polish painter in the Academic style, 1850–1911),
Hamlet receiving the players, 1875, National Museum, Warsaw


"Hamlet" é uma tragédia de William Shakespeare, escrita por volta de 1601. A história do príncipe dinamarquês dramatizada na obra de Shakespeare tem raízes no registos lendários do norte da Europa. O poeta deverá ter-se inspirado na versão de François de Belleforest inserida na sua obra Histoires Tragiques (1559), que por sua vez teve a sua fonte no cronista dinamarquês do século XIII, Saxo Grammaticus.

Existia uma peça com o mesmo título quando Shakespeare escreveu o Hamlet, supostamente da autoria de Thomas Kyd, podendo o autor ter-se inspirado nela. A peça de Shakespeare tem alguns paralelos com uma outra obra de Kyd, Spanish Tragedy.

Hamlet dramatiza uma situação de vingança: Hamlet descobre que o seu tio, Claudius, casado com a sua mãe, Gertrude, logo após a morte do seu pai (King Hamlet), foi na realidade o autor dessa morte. A revelação do assassínio é feita a Hamlet pelo fantasma do pai numa altura em que Claudius já usurpou o trono do irmão. A culpa de Claudius é transmitida ao público indiretamente, através de Hamlet, que partilha a verdade com o seu companheiro Horatio.
Atormentado pelo conhecimento dos factos e desconfiado de todos à sua volta, Hamlet acaba por causar a morte da sua amada Ophelia e de seu pai, Polonius. A hostilidade de Hamlet desencadeia uma outra vingança: Laertes, irmão de Ophelia, associa-se a Claudius para vingar a morte do pai e da irmã.

Através de Hamlet, Shakespeare desenvolveu a questão das relações entre a ação e o pensamento. As modulações de linguagem transmitem as hesitações de Hamlet perante uma verdade que ao mesmo tempo o incita a agir e lhe impede a ação. É o carácter de Hamlet que o impossibilita de cumprir a vingança e lhe prolonga um complexo sofrimento.

O adiamento da morte de Claudius e as constantes hesitações de Hamlet refletem a complexidade do seu carácter e a subtileza da análise proporcionada por Shakespeare. Os críticos debruçaram-se mais sobre esta do que sobre qualquer outra personagem das suas peças. Sobretudo a partir do Romantismo multiplicaram-se os estudos em torno da figura de Hamlet. Procuraram-se as razões que levaram Hamlet a hesitar e gerou-se uma controversa irresolúvel.

Para além de conter uma das mais notáveis análises psicológicas de toda a obra de Shakespeare, Hamlet revela ainda o conhecimento que o autor tinha das condições específicas de produção dramática. Do ponto de vista da linguagem, trata-se de uma das mais sugestivas peças de William Shakespeare. (daqui)



Alexandre Cabanel (French painter, 1823–1889), Ophelia, 1883
 

Ophelia é uma das personagens secundárias da peça Hamlet. Na referida peça, a personagem Ophelia morre afogada, num provável suicídio. A bela Ophelia, que amava Hamlet, vê-se privada do seu amor, passa a dar mostras de loucura após a morte do seu pai, Polonius, que fora assassinado por Hamlet. 
Enquanto Ophelia enlouquece, Hamlet apenas finge perder o juízo para conseguir vingar a morte do falecido Rei Hamlet, seu pai; e a sua melancolia forjada atinge tal grau que o leva a divagar sobre o suicídio. 

Ao longo dos tempos o interesse de diversos pintores recaiu sobre Ophelia, mais precisamente sobre a sua loucura e morte nas águas. A predileção pela personagem, em detrimento de outras, é considerável: não há outra personagem de Shakespeare que tenha sido mais retratada na pintura. 
Desde 1740, quando se teve notícia das primeiras ilustrações da peça, ela foi retomada pelas artes plásticas como o arquétipo da donzela indefesa. Derivada do tipo feminino da noiva ou amada morta em plena juventude – tipo caro aos poetas românticos – representava um modelo espiritualizado e espectral de mulher.



John Everett Millais (English painter and illustrator, 1829–1896), Ophelia, 1851–1852, Tate Gallery,
now renamed Tate Britain. His painting influenced the image in Kenneth Branagh's film Hamlet.


domingo, 9 de agosto de 2020

"Mahler" (A Canção de Deus e Morte) - Poema de José Emílio-Nelson


 
Hugues Merle (French painter, 1823–1881), L'Abandonnée, 1872 


Mahler


(A Canção de Deus e Morte)


No jardim das almas
A fala caída.
Como se fosse a canção de
Deus e Morte.
A canção do cadáver
Sombrosa e rente.
Uivo. Brechas.
Ululante.
Compassadamente
O coração solto
Rasgado contra o céu maciço.
E de abismo ou de crateras
Um ardil. Incessante
Profundidade e permanência interminável
Na terra ímpia.
O relâmpago rasteja Deus.
Abre-se a solidão
Nos ombros do Inferno.

Quem vislumbra pérfido
No alçapão da sombra?
E o ricochete da luz?
Que castigo inexpiável?
Haverá uma música da fatalidade?
E quem lhe deve obedecer?
Sou miserável e perturbante.
Dou-me à paisagem destituída.
À árvore devastadora. À borboleta esmagada.
(O restolho enovelando.
Um bestiário precipitando-se.
Sacudindo-me.
Que aurora imprevista
Impulsivamente no mundo?)
Cantava a impaciência
Melancólica.
A dor radiante.
A vastidão.


José Emílio-Nelson,
in A Palidez do Pensamento

José Emílio-Nelson nasceu em 1948 em Espinho. Obras: Polifonia (1979), Polifemo e Outros Poemas (1983), Extrema Paixão (1984), Nu Inclinado (1985), Queda do Homem (1989), Vida Quotidiana e Arte Menor (1990), A Palidez do Pensamento (1990), Claro Escuro ou a Nefasta Aurora (1992), Sodoma Sacrílega e Poesia Vária (1991), Mosaico (1996), A Alegria do Mal - Obra Poética 1979-2004 (Quasi, 2004).


Nota crítica sobre a poesia de José Emílio-Nelson, por Luís Adriano Carlos

José Emílio-Nelson, editor dos seus próprios livros, é um daqueles poetas que a crítica insiste em não reconhecer como uma das vozes mais originais da poesia portuguesa das últimas duas décadas.
Situando as suas referências numa genealogia heteróclita e maldita que passa principalmente por Sade, Lautréamont, Rimbaud, Nietzsche, Jarry, Ângelo de Lima, Artaud e Bataille, associa com ostensivo sentido derrisório uma altivez aristocrática da expressão a um hieratismo litúrgico em que o simbolismo sacral da linguagem é atravessado por intensos odores de profanação escatológica. Poesia que cinicamente recusa a ética da virtude e dos bons sentimentos, encontra na reinvenção de uma inconfundível estética do vício e da crueldade o melhor caminho para separar a estética da moral e exercer sem contemplações uma crítica ética da natureza infra-humana ou demasiado humana que a Moderna poesia virtuosa e benquista acaba por camuflar sob o manto da beleza, do bom gosto, da razão ou mesmo do prestígio cultural. Dionisíaca e satânica, dissolvendo as imagens da tentação em cenários que evocam o mundo-cão boschiano e enfatizando a violência transgressora do erotismo, liberta das palavras as suas pulsões mais negras com vista a uma teatralização da escrita plena de descrições que perfuram perversamente os objetos nomeados. Tudo isto implica uma desarmante consciência da escrita como gozo sensual e libidinoso, apesar de contida e despojada, ou como voluptuosa deglutição de fragmentos citacionais, oriundos de toda uma rede de textos literários e artísticos, que atuam reativamente no metabolismo do discurso para proporem um pacto de leitura assente no mais excessivo dos desconfortos críticos. (daqui)


Gustav Mahler - Symphony No. 3 (Lucerne Festival Orcherstra, Claudio Abbado)

Claudio Abbado, maestro italiano


Gustav Mahler, compositor e maestro austríaco nasceu em 1860, na Boémia, na Áustria, e morreu em 1911, em Viena. Foi um dos compositores mais marcantes da música do século XX, acabando por exercer uma enorme influência em Arnold Schoenberg, Dimitri Shostakovich e Benjamin Britten.

O seu talento musical revelou-se muito cedo. Com apenas quatro anos, fascinado pela música militar e pela música popular, começou a compor pequenas peças de piano e, aos quinze anos, ingressou no Conservatório de Viena. Os anos seguintes foram marcados pela sua ascensão como maestro e, aos trinta e sete anos, foi nomeado diretor da Ópera de Viena.

Influenciada pela escola de Richard Wagner e de Franz Liszt, a expressão musical de Mahler não era mais do que uma visão pessoal do mundo. A própria tensão, o estilo retórico, as orquestrações vivas e o uso irónico da música popular encontram-se bem presentes em várias sinfonias -- de fortes contrastes, mas unidas pela sua personalidade inequívoca.

O programa da orquestração da Symphony N.º 1 in D Major (1888) é uma autobiografia da sua juventude; o prazer da vida foi perturbado pela obsessão da morte na macabra Funeral March in the Manner of Callot. Os cinco andamentos da Symphony N.º 2 (1894) abrem, também, com a obsessão da morte. A Symphony N.º 3 in D Major (1896) representa, em seis andamentos, a visão dionisíaca de uma enorme sequência de pessoas, que se movem da natureza inanimada para a consciência de Deus.

Os elementos religiosos, presentes nos seus trabalhos, são extremamente significativos, uma vez que a sua infância e juventude foram marcadas pelas tensões raciais (ele era judeu) e pelos conflitos entre os seus pais.

Depois de dirigir espetáculos no Metropolitan Opera e de ser maestro da Philharmonic Society of New York, regressou definitivamente a Viena, onde morreu em 1911. Embora a sua música fosse ignorada durante os cinquenta anos que se seguiram à sua morte, Mahler passou a ser olhado como um dos precursores das técnicas de composição do século XX, sendo celebrizado pelas dez sinfonias que compôs. (daqui)


quinta-feira, 23 de julho de 2020

"Tristão e Isolda" - Lenda Medieval de origem Céltica


Edmund Leighton, Tristan, Isolde and King Mark in The End of the Song, 1902


Tristão e Isolda


Tristão e Isolda é uma lenda medieval de origem céltica, que constitui uma das mais belas histórias de amor alguma vez concebidas. As primeiras versões escritas datam do século X. Os trovadores anglo-normandos de língua francesa e a rainha Leonor da Aquitânia contribuíram para a sua difusão na Europa.

Conta-se que Tristão ficou órfão, despojado injustamente da sua herança por vassalos de seu pai. Foi recolhido pelo tio, o rei Marco, da Cornualha, que o ajudou a tornar-se num Cavaleiro da Távola Redonda.


Évrard d'Espinques, Tristan and Isolde on their way to Cornwall, 15th century


Tristão venceu a batalha contra o gigante Morolt, mas ficou gravemente ferido. Os seus ferimentos só poderiam ser curados pela magia da Rainha da Irlanda, grande inimiga do seu tio. Antes de se dirigir ao castelo da Rainha, Tristão disfarçou-se de músico, tomou o nome de Tãotris e tornou-se professor de música da princesa Isolda, a Loura. Tristão, já curado, matou um cruel dragão, em Weisefort, na Irlanda, e voltou para o castelo de seu tio Marco, a quem descreveu a beleza de Isolda com a qual o jovem tinha ficado impressionado.


 
John William Waterhouse, Tristan and Isolde with the Potion, c. 1916


O rei Marco ficou contente com as palavras do sobrinho, que o inspiraram a encontrar uma solução para acabar com a velha inimizade entre os dois reinos. Mandou, então, um emissário ao reino da Irlanda para que pedisse, em seu nome, a mão de Isolda. A Rainha da Irlanda concordou com o casamento e organizou um banquete. Para que nascesse uma paixão forte e duradoura entre Marco e Isolda, a Rainha mandou fabricar uma poção mágica do amor para lhes servir.


John Duncan, Tristan and Isolde, 1912


Durante o banquete, por descuido, os copos que tinham a poção mágica foram trocados e servidos a Tristão e Isolda, que se apaixonaram imediatamente. No entanto, a cerimónia do casamento entre Marco e Isolda prosseguiu.


Edward Burne-Jones (préraphaélite), Le roi Marc et la belle Iseult, 1862
Birmingham Museum and Art Gallery



Tristão e Isolda, vivendo uma paixão incontrolável, decidiram encontrar-se às escondidas para viver o seu amor. 


 
Hugues Merle, Tristan and Isolde, c. 1870
 

Um dia, foram surpreendidos pelo rei Marco, que, magoado com a traição, os expulsou do castelo.


Ferdinand Leeke, Tristan and Isolde
 

Os enamorados vaguearam durante muito tempo, sem qualquer ajuda, até que chegaram a um ponto de grande pobreza e debilidade física.


Rogelio de Egusquiza, Tristan and Isolde, 1912


Compadecido, Marco recolheu Isolda no castelo e enviou Tristão para bem longe, em França, onde este chegou a casar-se com uma outra jovem, filha do Duque da Bretanha, também chamada Isolda. A jovem, que era conhecida como Isolda, a das Mãos Brancas, nunca conseguiu ver retribuído o amor que sentia por Tristão e este nunca consumou o casamento, dado que continuava fiel ao seu primeiro amor.


Giovanni dal Ponte (1385– ca. 1438, Florence), Two couples -
 Paris and Helen, Tristan and Isolde, 1410s


Passado algum tempo, Tristão ficou ferido noutra batalha e pediu à sua amada Isolda, a Loura, que tinha herdado os dotes mágicos de cura da Rainha da Irlanda, que viesse socorrê-lo. Combinaram então que, se o navio, que tinha enviado com o emissário, voltasse com velas brancas, a resposta de Isolda, a Loura, seria afirmativa; mas, se as velas fossem negras, ela não poderia vir. Isolda, a das Mãos Brancas, com ciúmes, resolveu vingar-se da indiferença do marido, dizendo-lhe que o navio tinha chegado com as velas negras porque Isolda tinha falecido durante a viagem.


Rogelio de Egusquiza, Tristan and Isolde, 1910


Tristão não suportou a perda de Isolda e morreu de desgosto. Quando Isolda, a Loura, encontrou Tristão sem vida, sentiu uma grande dor e morreu também de desgosto, abraçada ao corpo de Tristão. Foram enterrados lado a lado. Diz a lenda que das sepulturas nasceram duas árvores que cresceram entrelaçadas para que nunca fossem separadas.


Eugénie Servières, Geneviève and Lancelot at the Tombs of Isolde and Tristan, c. 1814


Tristão e Isolda, é também um drama lírico em três atos, com texto e música da autoria do compositor alemão  Richard Wagner (1813-1883), publicado em 1865. O assunto é o da lenda medieval, acima referida.
A música obedece a uma estrutura surpreendente que, através de um cromatismo muito vincado, dá expressão admirável à paixão, à ternura e à dor, sentimentos que dominam o desenrolar da ação. (daqui)

 
Herbert James Draper, Tristan und Isolde, 1901


"Não sei se a vida é maior que a morte, mas o amor é maior que ambas."

(Frase de Tristão no 'Romance de Tristão e Isolda')

Joseph Bédier, in "Le Roman de Tristan et Isolde", Paris, Henri Piazza éditeur d'art, 1900, 
illustré de compositions de Robert Engels

* * *

Wagner's composition of Tristan und Isolde

Prelude & Liebstod from Tristan und Isolde - Leonard Bernstein (conductor),
Boston Symphony Orchestra
 

terça-feira, 21 de julho de 2020

"Poema cansado de certos momentos" - Poema de Fernando Namora



Hugues Merle (French painter, 1823–1881), 'Maternal Affection', 1867


Poema cansado de certos momentos


Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
Mãe! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar distâncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calvário dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo
para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando. 

Mãe! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e não olhaste os pegos nem as cobras,
verdes, viscosas, espreitando dos nichos.
De mão nua, entregaste-me ao destino.
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos.
E sem elmos ou gibões,
nem lutei nem vivi:
fiquei quieto, absorto, em lágrimas
— e lá ao fundo esperavam-me valados
e chacais rancorosos.

Mãe! aqui me tens,
restos de mim.
Guarda-me contigo agora,
que és tu a minha justiça e o exílio
do perdido e do achado.
Guarda-me contigo agora
e adormece-me as feridas
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço
o fantasma do perdido? 


Fernando Namora,
in "Mar de Sargaços", 1940. 
 

Hugues Merle, 'Maternal Love', 1880, High Museum of Art


Voz da noite


O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.
A voz da noite,
diz baixinho:
esquece… esquece…


Helena Kolody
in "Viagem no Espelho", 1988 
 

sábado, 20 de maio de 2017

"Incubadora" - Poema de Jorge de Sousa Braga


Hugues Merle (French painter, 18231881), Mother and child, 1869
 

 Incubadora


Era tão pequena a mão
que nem o seu dedo mendinho
conseguia agarrar.

Pesava quinhentos gramas
e respirava sem ajuda do ventilador

O coração da sua mãe quase que não batia
com receio de que ele sufocasse
sob o peso do seu amor.


in A Ferida Aberta, 2001


Léon Bazille Perrault (French painter, 18321908)


"À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. 
Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme."
 
Clarice Lispector (1920–1977)
 
 

William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), 
Maternal Admiration, 1869
 

"Mães, sois vós que tendes nas mãos a salvação do mundo."

Leon Tolstoi (1828– 1910)