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sexta-feira, 4 de julho de 2025

"Flor da Mocidade" - Poema de Machado de Assis

  
  
Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), Going to the well, 1884



Flor da Mocidade


Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.

Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.


Machado de Assis, in 'Falenas', 1870 


terça-feira, 13 de agosto de 2024

"Última Folha" - Poema de Machado de Assis


Themistokles von Eckenbrecher (German landscape and marine painter, 1842–1921),
View of Lærdalsøyri, on the Sognefjord, 1901.


Última Folha
Tout passe,
Tout fuit
.

V. Hugo
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios
O sol resplandecente.

Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortuário;
Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sudário.

Desce. Virá um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.

Então coroarás a ingénua fronte
Das flores da manhã, — e ao monte agreste,
Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!

Então, nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;

Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;

E o rio, a árvore e o campo,
A areia, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;

Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A glória da natureza,
A ventura, o amor e a paz!

Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;

Lá onde, abrindo as asas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia! 


Machado de Assis, in 'Crisálidas',
Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1864.


Themistokles von Eckenbrecher, Raftsundet, 1906.


Vi já das altas aves a harmonia,
Que até aos montes duros convidava
A um modo suave de alegria.
 

sábado, 6 de julho de 2024

"Aspiração" - Poema de Machado de Assis


 Wilhelm Bendz (Danish painter, 1804–1832),
A F. X. DE NOVAIS (1862)
Qu'aperçois-tu, mon âme? Au fond, n'est-ce pas Dieu?
Tu vas à lui.

V. DE LAPRADE
Sinto que há na minh'alma um vácuo imenso e fundo,
E desta meia morte o frio olhar do mundo
Não vê o que há de triste e de real em mim;
Muita vez, ó poeta, a dor é casta assim;
Refolha-se, não diz no rosto o que ela é,
E nem que o revelasse, o vulgo não põe fé
Nas tristes comoções da verde mocidade,
E responde sorrindo à cruel realidade.

Não assim tu, ó alma, ó coração amigo;
Nu, como a consciência, abro-me aqui contigo;
Tu que corres, como eu, na vereda fatal
Em busca do mesmo alvo e do mesmo ideal.
Deixemos que ela ria, a turba ignara e vã;
Nossas almas a sós, como irmã junto a irmã,
Em santa comunhão, sem cárcere, sem véus.
Conversarão no espaço e mais perto de Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida
Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
Tarja de luto a folha em que lhe deixa escritas
A suprema saudade e as dores infinitas.
Alma errante e perdida em um fatal desterro,
Neste primeiro e fundo e triste limbo do erro,
Chora a pátria celeste, o foco, o centro, a luz,
Onde o anjo da morte, ou da vida, o conduz
No dia festival do grande livramento;
Antes disso, a tristeza, o sombrio tormento,
O torvo azar, e mais, a torva solidão, 
 Embaciam-lhe na alma o espelho da ilusão.

O poeta chora e vê perderem-se esfolhadas
Da verde primavera as flores tão cuidadas;
Rasga, como Jesus, no caminho das dores,
Os lassos pés; o sangue umedece-lhe as flores
Mortas ali, — e a fé, a fé mãe, a fé santa,
Ao vento impuro e mau que as ilusões quebranta,
Na alma que ali se vai muitas vezes vacila...

Oh! feliz o que pode, alma alegre e tranquila,
A esperança vivaz e as ilusões floridas,
Atravessar cantando as longas avenidas
Que levam do presente ao secreto porvir!
Feliz esse! Esse pode amar, gozar, sentir,
Viver enfim! A vida é o amor, é a paz,
É a doce ilusão e a esperança vivaz;
Não esta do poeta, esta que Deus nos pôs
Nem como inútil fardo, antes como um algoz.

O poeta busca sempre o almejado ideal...
Triste e funesto afã! tentativa fatal!
Nesta sede de luz, nesta fome de amor,
O poeta corre à estrela, à brisa, ao mar, à flor;
Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina,
Quer–lhe o cheiro aspirar na rosa da campina,
Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar,
Ó inútil esforço! Ó ímprobo lutar!
Em vez da luz, do aroma, ou do alento ou da voz,
Acha-se o nada, o torvo, o impassível algoz!

Onde te escondes, pois, ideal da ventura?
Em que canto da terra, em que funda espessura
Foste esconder, ó fada, o teu esquivo lar?
Dos homens esquecido, em ermo recatado,
Que voz do coração, que lágrima, que brado
Do sono em que ora estás te virá despertar?

A esta sede de amar só Deus conhece a fonte?
Jorra ele ainda além deste fundo horizonte
Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar?
Que asas nos deste, ó Deus, para transpor o espaço?
Ao ermo do desterro inda nos prende um laço:
Onde encontrar a mão que o venha desatar?

Creio que só em ti há essa luz secreta,
Essa estrela polar dos sonhos do poeta,
Esse alvo, esse termo, esse mago ideal;
Fonte de todo o ser e fonte da verdade,
Nós vamos para ti, e em tua imensidade
É que havemos de ter o repouso final.

É triste quando a vida, erma, como esta, passa;
E quando nos impele o sopro da desgraça
Longe de ti, ó Deus, e distante do amor!
Mas guardemos, poeta, a melhor esperança:
Sucederá a glória à salutar provança:
O que a terra não deu, dar-nos-á o Senhor! 


Machado de Assis
, in 'Crisálidas',
Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1864.
 

Ditlev Blunck (Danish-German painter associated with the Danish Golden Age, 1798–1853),
Danish Artists in the Roman Inn La Gensola, 1837.



"Ter uma arte é viver em função de alguma coisa que excede o acontecer da vida. A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão."


Inês Pedrosa
, Expresso
 

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

"Casa Velha" - Poema de Fernanda de Castro



 Moreira Aguiar (Pintor português, n. 1947), Óbidos, 70x50cm.
 


Casa Velha


Deixem a casa velha! Que os pedreiros
não lhe tirem as rugas nem as gelhas.
Que não limpem de urtigas os canteiros,
que lhe deixem ficar as velhas telhas.

Deixem a casa velha! Que a não sujem
com óleos e com tintas os pintores.
Que lhe deixem as nódoas de ferrugem,
os velhos musgos, as cansadas flores.

Que não fiquem debaixo do cimento
mais de cem anos de alegria e dor.
Não lhe pintem a chuva, o sol, o vento,
que a cor do tempo é assim: vaga e incolor.

Que tudo fique assim, parado e absorto,
no tempo sem limites, sempre igual.
Ah, não, por Deus! Como se faz a um morto,
não a sepultem sob terra e cal!

Não fechem as janelas mal fechadas,
ouçam da brisa o tímido lamento,
deixem que a vida e a morte, de mãos dadas,
vão com seu passo refletido e lento.

Não endireitem as paredes tortas
nem desatem, da aranha, os finos laços.
Abram ao vento as desmanchadas portas,
ouçam do tempo os invisíveis passos.

Deixem que durma, quieta, ao sol do Outono,
velada pela flor, o vento, a asa.
Será talvez o derradeiro sono…
Que importa? Morra em paz a velha casa.


Fernanda de Castro
, in "Asa no Espaço", 1955
 
 
 

"Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la."



segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Perder, ganhar - Poema de Lya Luft



Edgar Degas (French Impressionist artist, 1834–1917), "Woman Ironing", c 1869,
oil on canvas, 92.5 × 73.5 cm, Neue Pinakothek, Munich, Germany.



Perder, ganhar


Com as perdas, só há um jeito:
perdê-las.
Com os ganhos,
o proveito é saborear cada um
como uma fruta boa da estação.

A vida, como um pensamento,
corre à frente dos relógios.
O ritmo das águas indica o roteiro
e me oferece um papel:
abrir o coração como uma vela
ao vento, ou pagar sempre a conta
já vencida.


Lya Luft, in "Para não dizer adeus", 2005. 
 


Edgar Degas, "Woman Ironing", c. 1876–87, oil on canvas, 81.3 x 66 cm,
National Gallery of Art, Washington, DC.



"A vida é luta. A vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal."


Machado de Assis
, Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881 (aqui)
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"A Carolina" - Poema de Machado de Assis



Elaine Searle - Contemporary botanical painter
 
 

A Carolina

 
Querida, ao pé do leito derradeiro,
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro...

Trago-te flores, — restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos. 
 
1906
 
Machado de Assis
 

[Em 1868, Machado de Assis (1839-1908) casou com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (1835- 1904), irmã de seu amigo e poeta Faustino Xavier de Novaes (1820-1869). A morte da mulher, em 20 de outubro de 1904, depois de 35 anos de convivência, inspirou-lhe o antológico soneto "A Carolina".
O soneto é considerado a melhor peça de sua obra poética. Manuel Bandeira afirmara, anos mais tarde, que é uma das peças mais comoventes da literatura brasileira.] 


Elaine Searle
 
 

Saudade 
 
A palavra “saudade”, genuinamente portuguesa “é um sentimento muito presente como consequência do distanciamento físico e, também, da rutura em relação às rotinas mais simples e banais.” (Porto Editora) 
 
 
Definição: 
(na Infopédia, dicionário da Porto Editora)
 
1. Saudade - Sentimento de mágoa, nostalgia e incompletude, causado pela ausência, desaparecimento, distância ou privação de pessoas, épocas, lugares ou coisas a que se esteve afetiva e ditosamente ligado e que se desejaria voltar a ter presentes;

2. Saudade e Saudades - Lembrança afetuosa de algo ou alguém ausente;

3. Saudades - Cumprimentos a uma pessoa ausente; lembranças;

4. Saudades - Botânica: designação comum, extensiva a diferentes plantas, de diferentes famílias, sobretudo da família das Dipsacáceas e da família das Compostas (Asteráceas), e às suas respetivas flores

Morrer de saudades 
- Sentir muito a falta (de)
 
 
Elaine Searle
 
 
Provérbios

  • O adeus é o fim da esperança e o começo da saudade. 
  • Um coração que tem saudade é um que não tem o que deseja.
  • A saudade é a companheira dos que não têm companhia.
  • A saudade não mata, mas sepulta o coração em vida.
  • Amor que volta é doçura; amor que parte é saudade.
  • A saudade torna presente o passado.
  • Saudade não mata, mas maltrata.
  • Saudade é a memória do coração.


Elaine Searle 


"Saudade é a lembrança de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não gozar no presente, ou de só gozar na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade."

Carolina Michaëlis, "A Saudade Portuguesa"
 
 
saudade | n. f. | n. f. pl.

sau·da·de |au| ou |a-u|


(latim solitas, -atis, solidão)
nome feminino

1. Lembrança grata de pessoa ausente, de um momento passado, ou de alguma coisa de que alguém se vê privado.

2. Pesar, mágoa que essa privação causa.

3. [Botânica]  Planta (Scabiosa atropurpurea) da família das dipsacáceas. (Mais usado no plural.) = ESCABIOSA, SUSPIRO

4. [Botânica]  Nome de várias espécies de plantas com flores de cores variadas. (Mais usado no plural.)

5. [Botânica]  Flor de uma dessas plantas. (Mais usado no plural.)


saudades
nome feminino plural

6. Boas lembranças ou recordações (ex.: a antiga chefe não deixou saudades).

7. Cumprimentos a alguém (ex.: mande-lhe saudades minhas).


"saudade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/saudade [consultado em 21-02-2021].

domingo, 21 de fevereiro de 2021

"Lágrimas de Cera" - Poema de Machado de Assis



Gabriel von Max (Austrian-German painter, and professor of history painting,
1840–1915), Portrait of Friederike Hauffe (The Seeress of Prevorst), 1895



Lágrimas de Cera

 
 Passou; viu a porta aberta.
Entrou; queria rezar.
A vela ardia no altar.
A igreja estava deserta.

Ajoelhou-se defronte
Para fazer a oração;
Curvou a pálida fronte
E pôs os olhos no chão.

Vinha trémula e sentida.
Cometera um erro. A Cruz
É a âncora da vida,
A esperança, a força, a luz.

Que rezou? Não sei. Benzeu-se
Rapidamente. Ajustou
O véu de rendas. Ergueu-se
E à pia se encaminhou.

Da vela benta que ardera,
Como tranquilo fanal,
Umas lágrimas de cera
Caíam no castiçal.

Ela porém não vertia
Uma lágrima sequer.
Tinha a fé, — a chama a arder, —
Chorar é que não podia. 


Machado de Assis
, in 'Falenas'



Gabriel von Max, The Seeress of Prevorst (Friederike Hauffe, 1801–1829), 1892
National Gallery Prague



Misticismo

O misticismo é uma temática tão vasta que se perde nos tempos, perde-se também nos limites do espaço, pois aparece em todo o lugar da Terra. Dir-se-ia mesmo que onde quer que haja homens há místicos; não que se entenda que todo o homem é místico, mas, sem dúvida, todo o homem experimenta na sua vida um ou outro momento de misticismo, na medida em que seja confrontado com o grande mistério da existência, com o grande enigma da vida e da morte. Todavia, esta conceção tão geral não serve a uma definição de misticismo, vamos por isso restringir o seu sentido apenas àqueles homens que doaram a sua vida à busca do mistério. Neste sentido, mais restrito, encontramos místicos ao longo da história de toda a humanidade.

Antes de mais, o misticismo é uma via de conhecimento, quer dizer, uma via que procura desvelar o mistério do real, pois para o místico o real aparece como um mistério. Esta via, embora englobando em si a racionalidade, ao contrário do que muitas vezes de maneira apressada se tem dito, não se limita a ela e anseia por uma visão intuitiva direta, pois sabe que, em última instância, o mistério é suprarracional. São Tomás de Aquino, na linha do seu mestre, Santo Alberto Magno, definiu a mística como "conhecimento experimental de Deus". O objetivo, primeiro e último, do místico é encontrar Deus - em quem ele deposita a raiz do mistério. O místico entende que é o conhecimento que salva o homem e lhe permite voltar ao estado que tinha antes de ter decaído. Por esta razão o misticismo se associa frequentemente à religião, embora não possamos falar aqui de uma relação exclusiva, pois há místicos fora de uma religião instituída. Apesar de tudo, o misticismo mais elaborado e mais coerente é aquele que toma por base uma religião e no seio da sua doutrina explora, por uma hermenêutica profunda os textos sagrados da sua revelação.

A via que o misticismo assume para si próprio assenta numa constatação prática da teoria, numa vivência da crença. Tal como o místico não aceita a via da razão exclusivamente, também não aceita a via da teoria exclusivamente e, por isso, acentua o lado prático, quer dizer, vivencial, da experiência. Por esta razão, o místico é frequentemente um asceta.

Supõe-se que a pré-história teria uma vivência essencialmente mística, na medida em que, tanto quanto nos é dado saber, para esses povos o sagrado podia-se manifestar em qualquer lugar. A natureza era vista ela própria como uma teofania, determinados lugares "transbordavam" de sagrado, de poder divino. O místico aqui era sobretudo o feiticeiro, a quem cabia, depois de uma longa e terrível iniciação, a mediação entre Deus e os homens. Apesar de esta função mediadora se ver centralizada no feiticeiro, o homem primordial tinha a noção de que a liberdade divina se podia manifestar a qualquer momento e noutros membros da comunidade, sobretudo através do sonho.

Numa época mais recente encontramos um florescimento de místicos, numa espantosa quase simultaneidade do ocidente ao oriente: Lao-Tsé, Buda, Pitágoras, Moisés. Numa outra época mais recente ainda, depois de Cristo, encontramos o gnosticismo, os Padres do deserto e as diferentes heterodoxias, como o priscilianismo, para só dar um exemplo português. Outro ciclo importante é o que se segue ao século XIII e ao século XVII.

O místico interpreta o real como um símbolo de Deus, sob a sua forma dupla, quer dizer, na dupla revelação divina, na natureza ou sob a sua forma escrita, nos livros sagrados. Tanto a natureza como esses livros têm um lado exterior ou aparente e um lado interior ou oculto. Por isso, face a um texto como a Bíblia, um místico, não descurando a interpretação literal, prefere o sentido simbólico.

Há inúmeras formas de mística, mas podem ser metodologicamente dividas em duas grandes classes: aquela que acentua o lado do imanente e aquela que acentua o lado do transcendente da sua experiência. Por exemplo, no cristianismo encontramos S. Francisco ao lado da primeira e Mestre Eckhart ao lado da segunda. Todavia, transcendência e imanência estão ambas presentes em todos os místicos, mas em graus diferentes. Aliás, poder-se-ia dizer que o ponto nuclear do misticismo é precisamente a certeza paradoxal que o místico tem de que entre a transcendência de Deus e a imanência do homem há um ponto de contacto e é este ponto ou ponte que ele procura toda a sua vida.

Tem-se acusado os místicos de se encerrarem numa experiência puramente subjetiva, mas uma leitura atenta destes autores perceberá imediatamente que um dos seus primeiros e principais objetivos é o de vencerem a sua subjetividade, o seu ego, que consideram o seu grande inimigo. Estudiosos como Carl Gustav Jung, na psicologia, e Mircea Eliade, na história dos mitos e das religiões, têm ajudado a compreender que a linguagem dos místicos é universal, e que podemos encontrar as mesmas experiências desde o oriente ao ocidente, nas mais variadas épocas. (daqui)
 

terça-feira, 17 de março de 2020

"Minha Mãe" - Poema de Machado de Assis


Pierre-Auguste Renoir, Mme. Charpentier and her children, 1878,

Minha Mãe
(Imitação de Cowper)

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu quisera
Viver feliz com minha mãe também!

C. A. DE SÁ

Quem foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança
Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor — anjo do bem
Minha fronte infantil — encheu de rosas
De mimosos sorrisos? — Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento
É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso
Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: — minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma
Para ter minha mãe! 
Obras Completas
O Almada & Outros Poemas

Editora Globo 1977














domingo, 29 de dezembro de 2019

"A uma menina" - Poema de Machado de Assis



Seymour Joseph Guy (American romance and portrait painter,
1824–1910), "The new story", 1892



A uma menina
La esencia de las flores
Tu dulce aliento sea.

QUINTANA 
Desabrochas ainda; tu és bela
Como a flor do jardim;
És doce, és inocente, como é doce
Divino Querubim.

Nas gotas da pureza inda se anima
A tu'alma infantil;
Não te nutre inda o peito da malícia
Mortífero reptil.

Quando sorris trasbordam de teus lábios
As gotas d’inocência;
No teu sorriso se traduz o encanto
Da tua pura essência.

És anjo, e são os anjos que confortam
Os tormentos da vida;
Vive, e não haja em teu semblante a prova
De lágrima vertida! 

Rio, 19 de setembro de 1855.

Machado de Assis
, 
in Marmota Fluminense, 21 out. 1855. p. 4
 

sábado, 8 de junho de 2019

"Mundo interior" - Poema de Machado de Assis


George Clausen (British artist, 1852-1944), Ploughing, 1889



Mundo interior


Ouço que a Natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol à ínfima luzerna.

Ouço que a natureza, — a natureza externa, —
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia — e dorme.


Machado de Assis, em Ocidentais, 1901

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

"Naquele eterno azul, onde Coema" - Poema de Machado de Assis



Naquele eterno azul, onde Coema


Naquele eterno azul, onde Coema,
Onde Lindóia, sem temor dos anos,
Erguem os olhos plácidos e ufanos,
Também os ergue a límpida Iracema.

Elas foram, nas águas do poema,
Cantadas pela voz de americanos,
Mostrar às gentes de outros oceanos
Jóias do nosso rútilo diadema.

E, quando a magna voz inda afinavas
Foges-nos, como se a chamar sentiras
A voz da glória pura que esperavas.

O cantor do Uruguai e o dos Timbiras
Esperavam por ti, tu lhe faltavas
Para o concerto das eternas liras.


Machado de Assis, em "Gazeta de Notícias, 23 dez. 1877,
 em homenagem a José de Alencar".


Panorama de Mariana - Minas Gerais, por Alberto Delfino, 1895


"O perfeito homem do mundo seria aquele que jamais hesitasse por indecisão 
e nunca agisse por precipitação."

Arthur Schopenhauer, Aforismos sobre a Sabedoria da Vida




AFORISMOS PARA A SABEDORIA DE VIDA
(APHORISMEN ZUR LEBENSWEISHEIT)

de
Tradução de Gabriel Valladão Silva


[Arthur Schopenhauer (1788-1860) nasceu em Gdansk (então Prússia, atual Polónia), numa família de respeitáveis comerciantes de origem holandesa. Após o suicídio do pai, começou a estudar medicina e ciências na universidade de Göttingen e, posteriormente, filosofia. Em 1811 mudou-se para Berlim a fim de escrever sua tese de doutorado e lá iniciou a redação de "O mundo como vontade e representação", terminado em 1818 e publicado no ano seguinte, que reúne o núcleo de sua metafísica. Na época a obra teve pouca repercussão, mas em 1844 foi lançada uma edição expandida. Tornou-se conhecido com a publicação de Parerga e Paralipomena (1851), que reúne diálogos, ensaios e máximas. Após sua morte, "O mundo como vontade e representação" passou a ser considerada uma das obras-chave da filosofia ocidental.] 

  • A busca humana pela felicidade 
“Tomo aqui o conceito de sabedoria de vida num sentido totalmente imanente, a saber, o da arte de conduzir a vida da maneira mais agradável e feliz possível [...].” 

Arthur Schopenhauer é um dos mais importantes nomes da filosofia em língua alemã, junto com Kant, Hegel, Nietzsche e Wittgenstein. Embora muitas vezes considerado um pensador “pessimista”, seus estudos sobre a filosofia oriental possibilitaram-lhe uma visão até então inédita da existência humana: a dor e o tédio são, para ele, os dois polos entre os quais oscilamos do nascimento à morte. Para se ter uma vivência feliz e agradável, portanto, é preciso constantemente equilibrar-se entre esses dois extremos. 
Em Aforismos para a sabedoria de vida (1851), Schopenhauer discorre, na linguagem límpida que o caracteriza, sobre os elementos principais da existência, demonstrando que a validade de tal visão de vida não apenas perdura até hoje como parece se fortalecer cada vez mais. 

  • A felicidade moral 
Mais de trinta anos após lançar as bases de sua filosofia em "O mundo como vontade e representação", Arthur Schopenhauer tornou-se conhecido por Parerga e Paralipomena (1851). Deste vasto tratado de mais de mil páginas contendo aquilo que o próprio autor chamou de “escritos esparsos”, Aforismos para a sabedoria de vida compõe o segundo quarto. Nestes ensaios, o pensador se dirige ao leitor com uma linguagem clara e acessível, deixando de lado terminologias filosóficas, para refletir sobre os principais fatores que influenciam a busca humana pela “boa vida” – uma existência agradável e moralmente justa. 
Composto por capítulos como “Daquilo que se é”, “Daquilo que se tem”, “Daquilo que se representa”, “Da diferença entre as idades”, o autor – um dos introdutores da filosofia oriental e budista aos pensadores europeus – discorre sobre a amizade, a simplicidade, a felicidade, a vida, a morte, a honra, sempre com um olhar sereno e estável. Em vez de defender o valor absoluto da razão, postula o indivíduo como o próprio detentor dos meios de se chegar à felicidade, afirmando-se, portanto, como um pensador eminentemente humanista. “Aquilo que alguém é e tem em si mesmo, em suma: a personalidade e o valor, é o único fator imediato para sua felicidade e seu bem-estar”. Chega mesmo a antecipar noções futuras de psicologia e, em seu estilo lapidar e cristalino, propôs ideias hoje correntes: “[...] não é sem razão que nos perguntamos, antes de qualquer outra coisa, pelo estado de saúde uns dos outros e desejamos mutuamente nosso bem-estar: pois esse é com efeito de longe o elemento mais importante para a felicidade humana. [...] a maior de todas as tolices é sacrificar a própria saúde pelo que quer que seja, pelo emprego, pela erudição, pela fama, e tanto mais por volúpia e prazeres efémeros: pelo contrário, deve-se priorizá-la em face de tudo o mais”. 
Aqui está, em toda sua exuberância, a sabedoria daquele que, admitindo a ausência de Deus e o sofrimento intrínseco à experiência humana, enxergava na reflexão, na arte e na conduta moral os grandes trunfos da humanidade, influenciando todos os pensadores posteriores. (daqui)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"Os Arlequins" (Sátira) - Poema de Machado de Assis


Paul Cézanne (Francês, 1839 - 1906), Arlequim, 1888-90,



Os Arlequins 
(Sátira)


Musa, depõe a lira! 
Cantos de amor, cantos de glória esquece! 
Novo assunto aparece 
Que o génio move e a indignação inspira. 
Esta esfera é mais vasta, 
E vence a letra nova a letra antiga! 
Musa, toma a vergasta, 
E os arlequins fustiga! 

Como aos olhos de Roma, 
— Cadáver do que foi, pávido império 
De Caio e de Tibério, — 
O filho de Agripina ousado assoma; 
E a lira sobraçando, 
Ante o povo idiota e amedrontado, 
Pedia, ameaçando, 
O aplauso acostumado; 

E o povo que beijava 
Outrora ao deus Calígula o vestido, 
De novo submetido 
Ao régio saltimbanco o aplauso dava. 
E tu, tu não te abrias, 
Ó céu de Roma, à cena degradante! 
E tu, tu não caías, 
Ó raio chamejante! 

Tal na história que passa 
Neste de luzes século famoso, 
O engenho portentoso 
Sabe iludir a néscia populaça; 
Não busca o mal tecido 
Canto de outrora; a moderna insolência 
Não encanta o ouvido, 
Fascina a consciência! 

Vede; o aspecto vistoso, 
O olhar seguro, altivo e penetrante, 
E certo ar arrogante 
Que impõe com aparências de assombroso; 
Não vacila, não tomba, 
Caminha sobre a corda firme e alerta: 
Tem consigo a maromba 
E a ovação é certa. 

Tamanha gentileza, 
Tal segurança, ostentação tão grande, 
A multidão expande 
Com ares de legítima grandeza. 
O gosto pervertido 
Acha o sublime neste abatimento, 
E dá-lhe agradecido 
O louro e o monumento. 

Do saber, da virtude, 
Logra fazer, em prémio dos trabalhos, 
Um manto de retalhos 
Que a consciência universal ilude. 
Não cora, não se peja 
Do papel, nem da máscara indecente, 
E ainda inspira inveja 
Esta glória insolente! 

Não são contrastes novos; 
Já vem de longe; e de remotos dias 
Tornam em cinzas frias 
O amor da pátria e as ilusões dos povos. 
Torpe ambição sem peias 
De mocidade em mocidade corre, 
E o culto das ideias 
Treme, convulsa e morre. 

Que sonho apetecido 
Leva o ânimo vil a tais empresas? 
O sonho das baixezas: 
Um fumo que se esvai e um vão ruído; 
Uma sombra ilusória 
Que a turba adora ignorante e rude; 
E a esta infausta glória 
Imola-se a virtude. 

A tão estranha liça 
Chega a hora por fim do encerramento, 
E lá soa o momento 
Em que reluz a espada da justiça. 
Então, musa da história, 
Abres o grande livro, e sem detença 
À envilecida glória 
Fulminas a sentença. 


 in 'Crisálidas', 1864


domingo, 29 de janeiro de 2017

"Musa Consolatrix" - Poema de Machado de Assis


Jean-Joseph Benjamin-Constant (french, 1845-1902), Victory
(Benjamin-Constant recreates, with modifications, the goddess of Victory, 
a winged woman standing on the prow of a ship, braced against
 the strong wind blowing through her...)



Musa Consolatrix


Que a mão do tempo e o hálito dos homens 
Murchem a flor das ilusões da vida, 
Musa consoladora, 
É no teu seio amigo e sossegado 
Que o poeta respira o suave sono. 

Não há, não há contigo, 
Nem dor aguda, nem sombrios ermos; 
Da tua voz os namorados cantos 
Enchem, povoam tudo 
De íntima paz, de vida e de conforto. 

Ante esta voz que as dores adormece, 
E muda o agudo espinho em flor cheirosa, 
Que vales tu, desilusão dos homens? 
Tu que podes, ó tempo? 
A alma triste do poeta sobrenada 
À enchente das angústias; 
E, afrontando o rugido da tormenta, 
Passa cantando, alcíone divina. 

Musa consoladora, 
Quando da minha fronte de mancebo 
A última ilusão cair, bem como 
Folha amarela e seca 
Que ao chão atira a viração do outono, 
Ah! no teu seio amigo 
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita, 
Em vez de algumas ilusões que teve, 
A paz, o último bem, último e puro! 


Machado de Assis, in 'Crisálidas', 1864