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sábado, 26 de julho de 2025

"Sabedoria Infantil" - Poema de Carlos Vogt

 

 
Victor Gabriel Gilbert
(French social realist painter, 1847 - 1935),
'In the Park with Grandmother'



Sabedoria Infantil 

 
Para falar a verdade,
esta cheia de meandros, meios, caminhos, pântanos, voltas e volteios,
a verdade, enfim, que conhecemos clara
como se vista através de um biombo disfarçando intimidades.

Para falar a verdade
nua, crua, transparente e limpa
nada mais próprio que um sonho de menina.


Carlos Vogt, in Metalurgia,
Companhia das Letras, 1991.



Victor Gabriel Gilbert, 'Time for Lunch'


Infância 

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se «Agora». 


Guilherme de Almeida,
in "Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida",
São Paulo, 1993
 
 

"Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida"
Global Editora, 3ª Edição.
 

RESUMO 

Guilherme de Almeida
(Campinas, SP, 1890 – São Paulo, SP, 1969) viveu uma longa fase da história da poesia brasileira, que se estende do período crepuscular que antecedeu o modernismo ao surgimento e consolidação de movimentos como o concretismo ou a poesia praxis, chocantes à sua sensibilidade educada nos velhos clássicos. Foi mais de meio século de atividade, em que o poeta exibiu um raro virtuosismo e domínio da língua, compondo poemas de sabor camoniano (Camoniana, 1956), recriando a atmosfera de velhos romances populares portugueses (Pequeno Romanceiro, 1957), parodiando a poesia grega clássica (A Frauta que eu Perdi, 1924), cultivando o verso parnasiano, simbolista, modernista (Meu, Raça, Encantamento, todos de 1925), mas sem nunca abandonar a nota romântica, predominante ao longo de toda a sua vasta obra. 
Os seus primeiros livros, anteriores à Semana de Arte Moderna – de Nós (1917) a Era uma Vez... (1922) –, revelam uma poesia de meios-tons, em que o agudo sentimento da beleza se harmoniza com um certo artificialismo, muito ao gosto da sociedade de então. Tanto assim que os seus livros andavam nas mãos de todas as moças. A adesão ao modernismo evidencia um desejo de se ajustar ao gosto do tempo, mas não representa nenhuma mudança significativa em sua obra. Dispensa "a rima e a métrica, mas a alma romântica continua", observa Carlos Vogt no prefácio Melhores Poemas Guilherme de Almeida. O poeta se manteve fiel às suas tendências pessoais, o que lhe foi muito benéfico. Os seus livros desfrutavam de uma popularidade a que nenhum modernista chegava perto. Essa popularidade se manteve até a última fase de sua obra, caracterizada por uma linguagem mais enxuta, menos rica de emoção, mas na qual ainda se sente, um tanto enfraquecida, a voz do velho romântico. (daqui)
 

quarta-feira, 14 de maio de 2025

"Joana Madalena" - Poema de Péricles Eugênio da Silva Ramos


Joseph Clark (English painter, 1834-1926), Teasing the kitten, 1876.
 
 
 
Joana Madalena 

1

Cega, chuleava roupa.
Não via, mas chuleava.
E tinha noventa
anos. E era
cega.

Hoje talvez enxergue;
mas as cinzas não trabalham.

2

És a lua de ontem,
minha avó.
Ausente à vista, certa na memória;
tranquila na lembrança
como o pão e a roupa,
os livros que me deste.

E és um presente ao homem,
àquele que hoje sou,
feito de velhos dias:

com teus lençóis sem mancha
nas tardes de Lorena —
onde há lençóis, nuvens lavadas
em céus também lavados.

3

Tarde adentro a voz se ouvia
na varanda,
tarde adentro
(a tarde era profunda):
"O fim é que é triste.
Um belo romance, A Filha do Diretor do Circo.
Como a Dejanira lia bonito!
Leia um pouco, meu neto."
E o menino lia.

Colibris revoavam no alpendre,
das canangas e dos manacás e dos bambus do Japão
subia um meigo aroma,
e havia em tudo um sabor de fonte e de jambo,
e tudo era idílico e doce,
mesmo a voz das corruíras pelas calhas,
mesmo o coaxar das rãs na terra húmida.
Crescia o musgo nas paredes
e havia papoulas e jasmins-do-cabo e rosas-chá
e flores de araruta como borboletas brancas:
tudo tão distante...

Ó minha avó, ó lua de ontem,
ensinarei teu nome aos pássaros em fuga.


Péricles Eugênio da Silva Ramos,
in 'Lua de Ontem', 1960. 


Joseph Clark (English painter, 1834-1926), Helping Grannie, 1878. 


"No homem cuja infância conheceu carinhos, há sempre um fundo de memória 
que pode ser despertado para a ternura."

George Eliot, Scenes of Clerical Life - Página 145,
 William Blackwood and Sons, 1858. 
 

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

"A avó" - Poema de Manuel António Pina



Rudolf Epp
(German painter, 1834 - 1910), Visit to the Grandmother. 


A avó


Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pelo dele preto e brando.

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela.

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro.


Manuel António Pina
, in "Os livros",
Lisboa: Assírio & Alvim, 2003. 
"Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011",
Assírio & Alvim, 2012. 
 
 
Rudolf Epp, Admonition of the Grandmother.

 
 
Pelo ou pêlo

A forma correta de escrita do nome do filamento que nasce no corpo humano ou no corpo dos animais é pelo, sem acento circunflexo. A palavra pêlo passou a estar errada desde a entrada em vigor do Novo Acordo Ortográfico.
 
Na atual reforma ortográfica foi abolido o acento circunflexo utilizado no substantivo pelo, deixando de haver esse acento que diferenciava o substantivo pelo da preposição contraída pelo.

Assim, a distinção entre o substantivo e a preposição não é mais feita pela acentuação mas sim pelo contexto em que as palavras ocorrem:
  • Meu cachorro tem tanto pelo!
  • Que feio ficar olhando pelo buraco da fechadura.
 
Pelo: substantivo masculino

Enquanto substantivo, pelo pode significar um filamento que nasce no corpo humano ou no corpo dos animais, bem como fios que se soltam dos tecidos, sendo sinónimo de cabelo, pelagem, penugem, fio,…

Exemplos com substantivo pelo: 
  • Sou alérgica a pelo de gato.
  • Meu marido tem muitos pelos nas costas.
  • Esse cobertor larga tanto pelo!
Pelo: preposição

Enquanto preposição contraída, pelo pode ser a preposição per contraída com o artigo definido o ou com pronome demonstrativo o (por + o = pelo). É sinónimo de: a favor de, ao longo de, através de, por aquele, por aquilo,…

Exemplos com preposição contraída pelo:
  • Sou pelo direito à eutanásia.
  • Cheguei rápido porque vim pelo caminho mais curto.
  • Pelo andar da carruagem, não iremos a lugar nenhum…

Novo Acordo Ortográfico e os acentos diferenciais

O Novo Acordo Ortográfico aboliu o acento diferencial em palavras paroxítonas homógrafas de outras não acentuadas.

Antes do acordo: pêlo, pára, péla, pélo, pólo, pêra.

Depois do acordo: pelo, para, pela, pelo, polo, pera.

Foram mantidos os acentos diferenciais no verbo pôr, para distinguir da preposição por, e na forma conjugada pôde (pretérito perfeito do indicativo), para distinguir da forma conjugada pode (presente do indicativo). (daqui)
 

domingo, 16 de julho de 2023

"Meditações do avô e brinquedos do neto" - Poema de Fernando Pessoa

 
Carl von Bergen (Germany painter, 1853-1933), The sailing vessel.


Meditações do avô e brinquedos do neto


Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido,
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!

«Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes pra o outro dia;

«E toda a tristeza minha
Era, ao acordar pra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo.»

Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.

E, enquanto o avô cisma, e, triste,
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;

E o neto, olhando afinal,
E vendo o avô a chorar,
Diz: «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»


Fernando Pessoa

em Tesouro da Juventude, c. 1926.
(daqui)

[Poema publicado em Tesouro da Juventude, provavelmente por volta de 1926, sob o título ʺMeditações do Avô e Brinquedos do Netoʺ, que terá sido acrescentado pelos editores do jornal, e em O Tico-tico: Jornal das crianças, a 25 de março de 1931, sob o título ʺO Avô e o Netoʺ.]

 
James Clarke Waite (Australian, 1832–1920), Penny Whistle,
The New Art Gallery Walsall



"Os brinquedos mais simples, que até bebés sabem operar, chamam-se avós." 
 
"The simplest toy, one which even the youngest child can operate, is called a grandparent." 
 
Sam Levenson
, in "You don't have to be in Who's who to know what's what"‎,
  Página 54, Simon & Schuster, 1979.
 
 
Published by Simon and Schuster, New York, 1979


Sam Levenson, pseudónimo de Samuel Levenson (Brooklyn, Nova Iorque, 28 de dezembro de 1922 - 27 de agosto de 1980) foi um foi um humorista, escritor, professor, apresentador de televisão e jornalista americano.

Frase famosa de Sam Levenson: "Talvez eu não saiba o que você fez para merecer isso, mas você sabe".
 (apud Woody Allen, in "A Autobiografia", Globo Livros, 2021, p. 38.) (daqui)
 

quinta-feira, 9 de março de 2023

"Poeta Aprendiz" - Poema de Vinicius de Moraes


Venny Soldan-Brofeldt (Finnish, 1863–1945), Boys on a Skerry, 1898 



Poeta Aprendiz 


Ele era um menino
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante.
Anos tinha dez
E asinhas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc.
O olhar verde-gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina.
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
E caía exato
Como cai um gato.
No diabolô
Que bom jogador
Bilboquê então
Era plim e plão.
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho.
No fundo do mar
Sabia encontrar
Estrelas, ouriços
E até deixa-dissos.
Às vezes nadava
Um mundo de água
E não era menino
Por nada mofino
Sendo que uma vez
Embolou com três.
Sua coleção
De achados do chão
Abundava em conchas
Botões, coisas tronchas
Seixos, caramujos
Marulhantes, cujos
Colocava ao ouvido
Com ar entendido
Rolhas, espoletas
E malacachetas
Cacos coloridos
E bolas de vidro
E dez pelo menos
Camisas-de-vênus.
Em gude de bilha
Era maravilha
E em bola de meia
Jogando de meia –
Direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar.
Amava era amar.
Amava sua ama
Nos jogos de cama
Amava as criadas
Varrendo as escadas
Amava as gurias
Da rua, vadias
Amava suas primas
Levadas e opimas
Amava suas tias
De peles macias
Amava as artistas
Das cine-revistas
Amava a mulher
A mais não poder.
Por isso fazia
Seu grão de poesia
E achava bonita
A palavra escrita.
Por isso sofria.
Da melancolia
De sonhar o poeta
Que quem sabe um dia
Poderia ser. 

Montevidéu, 02/11/1958
 
Vinicius de Moraes (Daqui)
 

Venny Soldan-Brofeldt (Finnish, 1863–1945), Grandfather's Teachings, 1902
 

A infância é uma gaveta fechada, numa antiga cómoda de velhas magias

Rio de Janeiro, 2004 

 
A infância é uma gaveta fechada, numa antiga cómoda de velhas magias.
A regra pode-se enunciar assim: espera-se que a avó entre para descansar, depois vai-se pé ante pé ver se o avô está mesmo cochilando, na cadeira de balanço...
- ou estará MORTO?
…não, não está porque a cabeça des-ca-ca-c...aiu num cochilo e se levantou de novo sozinho, assustado, dormindo e saiu uma língua da boca que lambeu o bigode branco e a cabeça foi, foi e des-ca-ca-ca-ca-caiu...
O corredor é a corrida geométrica natural para a fuga de uma gargalhada que não se contém. O avô é o mais engraçado dos homens, o avô é tão, tão, tão, tão, tão...
O medo se abate sobre o Descobridor. É a doçura do nome de Margarida, cujo retrato à meia-luz não entreviu.  
 
 

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

"Uma avó" - Poema de Stella Leonardos


Ferdinand Georg Waldmüller (Austrian painter and writer, 1793–1865)
Grandmother with three grandchildren, 1854
 
 
 
Uma avó


És a saga de ternura
Das cantigas de ninar.
Sugestão de iluminura
Nas histórias de encantar.
Clarão de candeia pura
Sobre o livro de rezar.

Fada boa envelhecida.
Tecedeira de ilusão.
Esperança comovida.
Doce crença de cristão.
Duas vezes mãe na vida.
Duas vezes devoção.

Stella Leonardos

 

Stella Leonardos, na revista “Fon-Fon”, 1943

Poeta, escritora, tradutora, dramaturga, Stella Leonardos deixou uma obra extensa, traduzida em vários idiomas, notável pela erudição e sensibilidade.

Stella Leonardos da Silva Lima (Rio de Janeiro, 1923 – 2019) nasceu no bairro da Gávea, com escritores e intelectuais entre seus antepassados próximos. Começou a escrever poemas ainda criança e rascunhou o primeiro romance nos cadernos escolares. Na adolescência estudou francês, inglês e a língua tupi, o que a aproximou dos estudos de história e cultura brasileiras que já a fascinavam e que ela viria a desenvolver em sua obra. Publicou seu primeiro poema na revista “Fon-Fon” e, em 1940, um livro, também de poesia, “Passos na Areia”. No ano seguinte publicou “E Assim se Formou a Nossa Raça”(aqui), onde recontava lendas brasileiras em versos decassílabos.

Entre os anos 1943 e 1945, Stella Leonardos participou de um grupo de teatro amador e viu ser encenada sua peça “Palmares” pelo grupo Teatro do Estudante, com a colaboração do Teatro Experimental do Negro, dirigido por Abdias do Nascimento. Em 1945 casou-se com o norte-americano, de origem latina, Alejandro Cabassa, com quem viveu por algum tempo no México e nos Estados Unidos. Lá participou de conferências literárias e culturais, representando o Brasil, e fez uma pós-graduação em Línguas Neolatinas, complementando o curso que concluíra na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A produção da autora inclui romances, peças teatrais para crianças e adultos, ensaios, adaptações, traduções e sobretudo poesia, que os estudiosos consideram vinculada à terceira geração dos modernistas.  Ganhou inúmeros prémios, vários dos quais atribuídos pela Academia Brasileira de Letras. Entre eles, o Olavo Bilac, em 1957, pela trilogia de livros “Poesia em Três Tempos” (aqui).

Uma parte importante da obra de Stella Leonardos foi por ela denominada “Projeto Brasil”. Trata-se da tentativa de retratar os mitos, a cultura e a história do Brasil por meio de poemas longos, reunidos em livros que ela denominava “romanceiros” e “cancioneiros”, aproximando-os das obras medievais de bardos e rapsodos. Entre outras obras do projeto estão o “Cancioneiro de São Luís” (1981), dedicado à capital maranhense, o “Romanceiro da Abolição” (1986), que narra a saga dos africanos escravizados em terras brasileiras, e “Rapsódia Sergipana” (1995), em que a autora faz sua obra dialogar com uma carta autobiográfica do folclorista Sílvio Romero, assim criando uma saborosa intertextualidade. O mesmo recurso já fora notado por Nelly Novaes Coelho, duas décadas antes, ao analisar “Amanhecência”, livro em que Stella Leonardos começa por delinear as raízes líricas, ancestrais, da língua portuguesa para depois abordar o universo poético dos autores brasileiros, chegando aos contemporâneos.

Stella Leonardos era membro do Pen Club e da Academia Carioca de Letras. Conviveu com escritores de várias gerações, muitos dos quais afirmaram ter sido incentivados por ela no início de suas carreiras literárias. Hoje a maior parte de seus livros está fora de edição, mas vale a pena garimpar os “sebos” em busca de sua poesia e das histórias que ela soube tão bem contar. (Daqui)

 

domingo, 30 de outubro de 2022

"Um avô" - Poema de Stella Leonardos



Edward Thomson Davis
(British genre painter, 1833-1867), Kissing grandpa, 1860



Um avô


Meu velho avô de alma jovem,
Inda hoje me comovem
As histórias que contavas.
Punhas nelas tanta vida,
Tanta força colorida,
Que tu mesmo as incarnavas.
Nos contos dos bons gigantes.
No Brasil dos bandeirantes.
Na Grécia cheia de glória.
Só não contaste as façanhas
Que tiveste. As lutas ganhas
E as perdidas com vitória.
E nem grego ou brasileiro
Foi mais esteta e pioneiro
Do que tu quando sonhaste.
Meu velho avô de alma jovem!
Mais que as outras me comovem
As histórias que calaste. 


 
 
Adolf Eberle (German, 1843-1914), The natural history lesson


"A memória dos nossos antepassados leva-nos à imitação da fé. É verdade, às vezes a velhice é um pouco desagradável, devido às doenças que comporta. Mas a sabedoria dos nossos avós é a herança que nós devemos receber. Um povo que não preserva os avós, que não respeita os avós, não tem futuro porque perdeu a memória."

(Discurso do Papa Francisco em novembro de 2013) (daqui)

segunda-feira, 26 de julho de 2021

"Desejo do cheiro da casa da avó" - Poema de Roseana Murray


Adolf Humborg (Áustria, 1847–1921), Avó costura as calças do neto, 1921
 
 

Desejo do cheiro da casa da avó


Tudo o que a avó fabrica
em sua cozinha encantada
tem cheiro bom:
bolo de chocolate, biscoito de nata,
sonhos embrulhados
em açúcar e canela,
que são como nuvens
no céu da boca e expulsam
qualquer pesadelo.

As mãos da avó,
cheias de farinha
e tempo acumulado,
acariciam, tocam na superfície
dos pães e da pele da gente
com tanto amor
que curam qualquer defeito
do lado esquerdo ou direito.

Na casa da avó
o ar é perfumado
e parece um abraço
e até o final dos tempos
o cheiro da casa da avó
fica grudado em nosso
pensamento.

01.07.2014

Roseana Murray, in Poço dos Desejos,
Ed. Moderna, 2014
 

  
Albert Anker (Suiça, 1831-1910), Avó dá sopa à neta, 1868


"Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. 
Só aprendemos a ser pais depois que somos avós…"

(Affonso Romano de Sant'Anna)




Em Portugal, o Dia dos Avós celebra-se a 26 de julho. Foi uma senhora natural de Penafiel, Ana Elisa Couto (1926-2007), conhecida como Dona Aninhas, que reivindicou a instituição de uma data que valorizasse a figura dos avós. Ela era avó de seis netos. Foram precisos 20 anos para que a data comemorativa fosse reconhecida, tendo-se escolhido o dia 26 de julho, por este ser o dia de Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus Cristo. A data foi instituída pela Assembleia da República em 2003.

 

 


António Patrício (Lisboa, 1827 - 1858) teve uma carreira breve e sem brilho, marcada por uma escassa produção e pela morte prematura. As suas origens humildes e a carência de meios financeiros durante toda a vida, dificultaram o seu percurso artístico. Desde cedo exerceu funções de aprendiz na Fábrica de Tabacos em Xabregas. Iniciou os seus estudos de arte com o auxílio do capelão de um convento onde realizara trabalhos.
Foi discípulo do pintor António Manuel da Fonseca, e colega dos artistas da geração romântica na Academia Real de Belas-Artes, onde se matriculou em 1844 para estudar Pintura Histórica. Deu aulas de desenho, pintava costumes populares e cenas de género, com temas de inspiração sentimental e anedótica, numa vertente do romantismo português. Realizou ainda pinturas decorativas nos tetos das igrejas lisboetas de S. João da Praça, mais tarde destruído por um incêndio, e das Mercês.
O seu primeiro êxito foi alcançado em 1856 na 3ª Exposição Trienal da Academia com a obra A Interrupção da Leitura, mais tarde intitulada A Avó, afetuosa cena familiar. Explora situações de dramático sentimentalismo (Tempestade e Despedida), realizadas pouco antes de morrer. - Cristina Pieske (daqui)
 
 
 
António José Patrício, A despedida, 1858, Museu do Chiado
 
 
António Patrício associa-se ao grupo de pintores românticos e desenvolve um projeto sentimental, de dramaticidades simplistas. Nesta obra (A despedida), de cariz cenográfico, próxima de uma cena engendrada em atelier fotográfico, três gerações sofrem, com mágoa, a partida de um familiar. A carga patética exprime-se nos gestos das personagens, nas referências paisagísticas. As ruínas da aldeia, ao longe e na penumbra, metáfora da “ruína” dos sentimentos provocada pela separação, estruturam o jogo dramático, que com o teatro popular se pode relacionar. Este evidencia-se na expressão meditativa, no olhar alongado da rapariga, no lenço com que a criança acena e no abandono doloroso da velha mulher, rosto na sombra, mão na testa e costas viradas à realidade da partida. O olhar do espetador é atraído para a riqueza de pormenores dos trajos populares femininos, diluindo-se, paradoxalmente, a dramaticidade do episódio.
Este sentido populista, muito divulgado na época, relaciona-se em Patrício com as suas origens de família operária. Com poucos recursos, limitado às fronteiras nacionais, por vezes com informações de estéticas estrangeiras através de álbuns, Patrício escolhe os caminhos mais adequados à sua restrita cultura, tentando integrar-se no gosto pelo registo da pintura de costumes populares. Saliente-se a escolha do tema que, pela primeira vez, revela na pintura a pesada realidade social da emigração, contraponto inerente às fragilidades do processo civilizacional e do período político marcado pela Regeneração que então se iniciava. - Maria Aires Silveira (Daqui) 
 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"A velhice" - Poema de Olavo Bilac


Ferdinand Georg Waldmüller (Austrian painter and writer, 1793–1865),
Grandma's Birthday, 1856.




A velhice


O neto:
Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?
Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apoia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?
Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trémula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós? 


A Avó:
Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer…
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!
Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!
O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma bênção de Deus!


Olavo Bilac



Gaetano Bellei (Italian painter, 1857–1922)


"Uma velhice ditosa é o fruto de uma mocidade regrada."

(Provérbio)

terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Lição" - Poema de Helena Kolody




LIÇÃO


A luz da lamparina dançava
frente ao ícone da Santíssima Trindade.

Paciente, a avó ensinava
a prostrar-se em reverência,
persignar-se com três dedos
e rezar em língua eslava.

De mãos postas, a menina
fielmente repetia
palavras que ela ignorava,
mas Deus entendia.


“Poesias escolhidas”


Georgios Jakobides, The First Steps, 1889


“O indivíduo que não sabe respeitar a mínimas regras de disciplina doméstica não poderá experimentar a suprema felicidade de ser senhor de suas emoções.”

(Emídio Brasileiro)


Georgios Jakobides, The Combing of Granddaughter, 1886


“É natural que o ser humano e todos os seres da natureza busquem o bem-estar pleno, atendendo a ordem de equilíbrio das forças ou leis naturais da evolução. Os bem-estares físicos, mentais e espirituais são metas a serem conquistadas. E essas metas são geralmente denominadas de felicidade.”

(Emídio Brasileiro)


Georgios Jakobides, Cold Shower, 1898


“Um lar estruturado pela concórdia do amor é a melhor universidade que existe.”

(Emídio Brasileiro)

domingo, 14 de agosto de 2016

"Cartas de Meu Avô" - Poema de Manuel Bandeira


Edmund C. Tarbell, Portrait of a Boy Reading, 1913



Cartas de Meu Avô


A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme…
A dor… a visão da morte…
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu…
Do meu – fruto sem cuidado
Que, ainda verde, apodreceu.

O meu semblante está enxuto
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora, abismada no luto
Das minhas desesperanças…

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.
 
in Cinza das Horas, 1917

sábado, 23 de abril de 2016

"O Avô" - Poema de Olavo Bilac


Albert Anker, The devotion of his grandfather, 1893



O Avô


Este, que, desde a sua mocidade,
Penou, suou, sofreu, cavando a terra,
Foi robusto e valente, e, em outra idade,
Servindo à Pátria, conheceu a guerra.

Combateu, viu a morte, e foi ferido;
E, abandonando a carabina e a espada,
Veio, depois do seu dever cumprido,
Tratar das terras, e empunhar a enxada.

Hoje, a custo somente move os passos...
Tem os cabelos brancos; não tem dentes...
Porém remoça, quando tem nos braços
Os dois netos queridos e inocentes.

Conta-lhes os seus anos de alegria,
Os dias de perigos e de glórias,
As bandeiras voando, a artilharia
Retumbando, e as batalhas, e as vitórias...

E fica alegre quando vê que os netos,
Ouvindo-o, e vendo-o, e lhe invejando a sorte,
Batem palmas, extáticos, e inquietos,
Amando a Pátria sem temer a morte!


Poesias infantis


segunda-feira, 28 de março de 2016

"A Avó" - Poema de Olavo Bilac


August Allebé (Artist and teacher from the Northern Netherlands, 1838 - 1927)



A Avó


A avó, que tem oitenta anos,
Está tão fraca e velhinha!...
Teve tantos desenganos!
Ficou branquinha, branquinha,
Com os desgostos humanos.

Hoje, na sua cadeira,
Repousa, pálida e fria,
Depois de tanta canseira:
E cochila todo o dia,
E cochila a noite inteira.

Às vezes, porém, o bando
Dos netos invade a sala...
Entram rindo e papagueando:
Este briga, aquele fala,
Aquele dança, pulando...

A velha acorda sorrindo,
E a alegria a transfigura;
Seu rosto fica mais lindo,
Vendo tanta travessura,
E tanto barulho ouvindo.

Chama os netos adorados,
Beija-os, e, tremulamente,
Passa os dedos engelhados,
Lentamente, lentamente,
Por seus cabelos, doirados.

Fica mais moça, e palpita,
E recupera a memória,
Quando um dos netinhos grita:
“Ó vovó! conte uma história!
Conte uma história bonita!”

Então, com frases pausadas,
Conta historias de quimeras,
Em que há palácios de fadas,
E feiticeiras, e feras,
E princesas encantadas...

E os netinhos estremecem,
Os contos acompanhando,
E as travessuras esquecem,
Até que, a fronte inclinando
Sobre o seu colo, adormecem...




Victor Gabriel Gilbert
(French painter, 1847 - 1933), My new brother.


"A avó é mãe duas vezes."
 
(Provérbio)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Pedagogia" - Poema de Miguel Torga


 Frederick Morgan (English painter, 1847-1927), "Grandfather's Birthday", c. 1909



Pedagogia 


Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende...
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás de ser!


Miguel Torga, Antologia Poética (6.ª ed.)
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001.
 

 Georgios Jakobides (Greek painter and medallist, 1853–1932), 
 "The Favorite" - Grandfather and Grandson, 1890.


“Ser avô ou avó é colher no coração as sementes emocionais plantadas nos corações dos filhos.”

(Emídio Brasileiro)


Georgios Jakobides, "Grandma's Favorite", 1893


- Dia dos Avós -
26 de julho

Em Portugal a data escolhida para a celebração do Dia dos Avós é o dia 26 de Julho, por este ser o dia de Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus Cristo. A celebração do dia dedicado aos avós é feita através de eventos que  lhes prestam homenagem. Os netos  presenteiam simbolicamente os seus avós, de forma a agradecer o apoio e dedicação destes à família e mostrar o quanto são importantes para os seus familiares.