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quarta-feira, 29 de julho de 2026

"Gatos noturnos" - Poema de Pablo Neruda

 


Horatio Henry Couldery (English animal painter and illustrator, 1832
1918),
'A Silver Tabby on a chair'. Oil on canvas, 54.6 x 43.8 cm.



Gatos noturnos


Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
nos olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.

Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.

A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.

E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.

Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.

Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.


Pablo Neruda (1904–1973),
 in 'O coração amarelo'.
Trad. de Olga Savary


terça-feira, 5 de maio de 2026

"Talvez tenhamos tempo" - Poema de Pablo Neruda



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
'The Four Continents', c. 1615, Kunsthistorisches Museum.


Talvez tenhamos tempo


Talvez tenhamos tempo ainda
para ser e para ser justos.
De uma maneira transitória
agonizou ontem a verdade
e embora o saiba todo o mundo
todo o mundo bem o disfarça:
ninguém mandou algumas flores:
ela morreu e ninguém chora.

Entre o esquecimento e a aflição
um pouco antes do funeral
teremos a oportunidade
da nossa morte e nossa vida
para sair de rua em rua,
de mar em mar, de porto em porto,
de cordilheira em cordilheira,
e sobretudo de homem em homem,
a perguntar se a assassinámos
ou se a mataram os outros,
se foram os nossos inimigos
ou o nosso amor o assassino.
Porque a verdade já morreu
e agora podemos nós ser justos.

Antes devíamos lutar
com armas de calibre escuro
e por ferir-nos esquecemos
qual era o fim da nossa luta.

Nunca se soube de quem era
o sangue que nos envolvia,
acusamos outros sem cessar,
sem cessar fomos acusados,
eles sofreram e sofremos,
e depois de eles terem ganho
e termos ganho nós também
a verdade tinha morrido
de antiguidade ou violência.
Não há nada a fazer agora:
todos perdemos a batalha.

Por isso penso que talvez
por fim pudéssemos ser justos
ou por fim pudéssemos ser:
temos este último minuto
e depois mil anos de glória
para não ser e não voltar.


Pablo Neruda, in 'Memorial de La Isla Negra', 1964;
in 'Antologia', seleção e tradução de José Bento,
Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998.


 
Antologia Poética de Pablo Neruda. 
Tradução: José Bento. Nº de páginas: 462.
Relógio D’Água, 1998.
 

"Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra à guerra."

Pablo Neruda (19041973), 
Prémio Nobel da Literatura em 1971.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

"Ode à vida" - Poema de Pablo Neruda

 


Mark Grantham (Canadian Painter, born 1966), "I Thought I Heard My Name", 
 Barrington Street, Halifax, n.d.
 

Ode à vida

 
Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonia, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos creem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho
nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não saíram da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargores
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia
da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adote nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios.


Pablo Neruda,' Odas elementales', 1954,
Tradução de Luís Pignatelli,
Publicações Dom Quixote, 1977.
 


Mark Grantham, "Homeward", n.d.
 

"A vida é um viajante que deixa a sua capa arrastar atrás de si, para que lhe apague o sinal dos passos."

Louis Aragon, Les Voyageurs de l'impériale: roman.‎
Publicado por Gallimard (Le Monde réel), 1942. 


sábado, 7 de setembro de 2024

"Ode ao Caldo de Congro" - Poema de Pablo Neruda


Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 16261679), 'Still life of fish in a harbor landscape'
(possibly an allegory of the element of water), 1660.


Ode ao Caldo de Congro


No mar
tormentoso
do Chile
vive o rosado congro,
enguia gigante
de nevada carne.

E nas panelas
chilenas,
na costa,
nasceu o caldo
grávido e suculento,
proveitoso.

Levem para a cozinha
o congro esfolado,
a sua manchada pele cede
como uma luva
e a descoberto fica
então
a uva do mar
o congro tenro
reluz
já nu,
preparado
para o nosso apetite.

Agora
pegas em
alhos,
acaricia primeiro
esse marfim
precioso,
cheira
a sua fragrância iracunda,
então
deixa o alho picado
cair com a cebola
e o tomate
até que a cebola
tenha cor de ouro.

Entretanto
cozem-se ao vapor
os régios
camarões marinhos
e quando estiverem a chegar
ao seu ponto,
quando se consolidar o sabor
num molho
formado pelo suco
do oceano
e pela água clara
que soltou a luz da cebola,
então
que entre o congro
e mergulhe na glória,
que na panela
se azeite,
se contraia e se impregne.

Já só é necessário
deixar no manjar
cair o creme
como uma rosa espessa
e ao lume
lentamente
entregar o tesouro
até que no caldo se aqueçam
as essências do Chile,
e à mesa
cheguem recém-casados
os sabores
do mar e da terra
para que nesse prato
tu conheças o céu.


Pablo Neruda, in 'Odes Elementares' 
Tradução de Luis Pignatelli
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977
 

 

Oda al Caldillo de Congrio
(Poema original)
 
 
En el mar
tormentoso
de Chile
vive el rosado congrio,
gigante anguila
de nevada carne.
Y en las ollas
chilenas,
en la costa,
nació el caldillo
grávido y suculento,
provechoso.
Lleven a la cocina
el congrio desollado,
su piel manchada cede
como un guante
y al descubierto queda
entonces
el racimo del mar,
el congrio tierno
reluce
ya desnudo,
preparado
para nuestro apetito.
Ahora
recoges
ajos,
acaricia primero
ese marfil
precioso,
huele
su fragancia iracunda,
entonces
deja el ajo picado
caer con la cebolla
y el tomate
hasta que la cebolla
tenga color de oro.
Mientras tanto
se cuecen
con el vapor
los regios
camarones marinos
y cuando ya llegaron
a su punto,
cuando cuajó el sabor
en una salsa
formada por el jugo
del océano
y por el agua clara
que desprendió la luz de la cebolla,
entonces
que entre el congrio
y se sumerja en gloria,
que en la olla
se aceite,
se contraiga y se impregne.
Ya sólo es necesario
dejar en el manjar
caer la crema
como una rosa espesa,
y al fuego
lentamente
entregar el tesoro
hasta que en el caldillo
se calienten
las esencias de Chile,
y a la mesa
lleguen recién casados
los sabores
del mar y de la tierra
para que en ese plato
tú conozcas el cielo. 


Pablo Neruda (1904–1973),
Oda al Caldillo de Congrio



Jan van Kessel, the Elder, 'Fish and marine landscape', c.1656, Museo del Prado.
 
 
PEIXES
 
       A raia, para ser boa, deve ser comida de caldeirada de pitau (Mira), menos em Maio, porque «raia em Maio, tumba à porta», e a faneca com três fff – fresca, fria e frita. Cada peixe tem a sua época: «a solha, no tempo do milho, come-a com o teu amigo», a sardinha antes da desova e o próprio caranguejo só lá para Agosto é que, assado na casca, atinge a perfeição. Mas todo o peixe regala quando sai da rede para o lume: tem um sabor único a mar, e até a reluzente savelha e o horrível cação, lavados e amanhados na maré, se tornam toleráveis. Quanto ao linguado, ao goraz, à corvina, à gordíssima sarda, à pescada e à saborosa sardinha, para não falar dos peixes hoje quase desaparecidos, do rodovalho, do peixe-rei, ignora-lhes o sabor e o delicado perfume quem os não trouxe do barco para casa, ainda a escorrer dentro do cabaz, sobre uma cama de algas e de limos. São então esplêndidos assados, fritos, de caldeirada, com um fio de azeite, ou preparados pelo próprio pescador sobre umas brasas. 
       Quando a maré vaza, os pescadores procuram a serrada para iscar os espinéis, e a praia fica a descoberto: as poças de água são joias cheias de reflexos entre o lodo, e cada penedo com a sua cabeleira escura de sargaço – verde húmido e translúcido – é um ser vivo. Em todas as poças faíscam as enguias que se metem nos aloques, o caranguejo traiçoeiro e voraz, que espera a presa na sua clausura de pedra, as mantas de pequenos peixes por criar, reluzindo quando, num movimento brusco, mostram ao mesmo tempo o ventre esbranquiçado, e um bicho mole como a lesma que se arrasta pelo limo. Há fragas enormes, roídas, veneráveis, cobertas de lapas aderentes, de mexilhões aos cachos que, sentindo gente, fecham logo a casa, e onde o azul empoça em buracos que refletem o universo: cabem lá dentro o céu, a luz e as estrelas.
 
       A toninha, que anda sempre atrás do banco da sardinha, afigura-se-me o ser mais feliz do mar. Tem a mesa sempre posta – e inesgotável. Folgam como um bando à solta de rapazes. Dão-me sempre uma impressão de liberdade e de vida deliciosa... Saltam, vê-se-lhes o dorso reluzente, mergulham e irrompem, com o costado azul a escorrer, quando menos se espera, lá ao fundo... Às vezes vêm pela barra dentro, na onda e na espuma, no jorro impetuoso, quando o mar, como um seio que cresce com volúpia e se dilata, se mete pela terra. Setembro – marés vivas.
       – As toninhas! – Alarido na Cantareira: os homens saltam nos barcos. Um à proa leva o arpão, espera o momento e joga-lho. Aquela morre, as outras fogem logo para o mar.
       Entre estes bichos e outros que conheço, pavorosos, há um salto enorme de pesadelo.
       Vi as tremelgas nos fundos espessos e lívidos entre os grandes penedos do Baleal, onde as águas têm a cor horrível das morgues. Pior que podridão – e lá para o fundo um remexer de vida misteriosa. Reparo, e de repente levanta-se de baixo uma revoada de pavor, panos vivos que arfam sacudidos, asas moles e disformes de morcegos que palpitam, dum verde indistinto e elétrico. São as tremelgas, que vêm aos milhares à superfície, não sei como nem para quê, vida que faz cismar e mete medo. Suponho o contacto com aquelas peles viscosas, com aquela vida obscura, nos subterrâneos esverdeados onde a luz não penetra – e fujo! fujo!...


Raul Brandão (18671930), em Os Pescadores, 1923.



Jan van Kessel, the Elder, 'Still Life with Fish and Marine Creatures in a Costal Landscape', 1661,
Städel Museum



"O primeiro homem que percebeu a analogia entre um grupo de sete peixes e um grupo de sete dias trouxe um notável avanço à história de pensamento."

Alfred North Whitehead
(18611947),
 in Alfred North Whitehead: An Anthology‎ - Página 381,
Filmer Stuart Cuckow Northrop - Macmillan, 1953 - 928 páginas.
 

Jan van Kessel, the Elder, 'Fighting dog and cat with a still life of marine animals and vegetables', c.1665.
 

"Contaram-me que os peixes não se importam de serem pescados, pois têm o sangue frio e não sentem dor. Mas não foi um peixe que me contou isso."


Heywood Broun
 (1888–1939), Sitting on the World‎ - Página 17,
Publicado por G. P. Putnam's sons, 1924 - 276 páginas.
 
 
Jan van Kessel, the Elder, 'Cats with a still life of marine animals, fruit and vegetables', c.1665.
 
 

domingo, 25 de agosto de 2024

"Ode ao Ar" - Poema de Pablo Neruda

 


Jan van Kessel, the Elder
(Flemish painter, 1626–1679), 'Allegory of air', c. 1661.



Ode ao Ar


Andando por um caminho
encontrei o ar
cumprimentei-o e disse
respeitosamente:
"me alegro
pois, uma vez, pelo menos,
abandonas tua transparência
conversemos, então".

Ele, incansável,
dançou, revolveu as folhas
espanou com o sorriso
o pó dos meus sapatos
e içando todo
o azul de seu mastro,
seu esqueleto de vidro,
suas pálpebras de brisa,
imóvel como um cão
ficou me ouvindo.
Eu beijei seu manto
de rei do céu,
me enrolei em sua bandeira
de seda celestial
e disse:
monarca ou camarada,
fio, corola ou pássaro
não sei quem és. Mas
uma coisa te peço,
não te vendas.
A água se vendeu
e nos encanamentos
do deserto
eu tinha visto
extinguirem-se as gotas
e o mundo pobre, o povo
andar sedento
cambaleando na areia.

Vi a luz da noite
racionada,
a luz fulgurante da casa
dos ricos.
Tudo é aurora nos
novos jardins suspensos,
tudo é escuridão
na terrível
sombra do beco.
Daí, a noite,
mãe madrasta,
sai
com um punhal entre
os olhos de coruja,
e um grito, um crime,
se erguem e se apagam
engolidos pela sombra.

Não, ar,
não te vendas,
que não te canalizem,
que não te entubem,
que não te encaixotem
nem te comprimam,
que não te estraçalhem,
que não te engarrafem.
Cuidado!
Me chama
quando precisares de mim,
eu sou o poeta, filho
de pobres, pai, tio,
primo, irmão de carne
e cunhado
dos pobres, de todos,
de meu país e dos outros,
dos pobres que vivem perto do rio,
e dos que nas alturas
da cordilheira vertical
quebram pedra,
pregam tábuas,
costuram roupas,
cortam lenha,
aram a terra,
e por isso
eu quero que eles respirem,
tu és o único que eles têm,
por isso és
transparente,
para que vejam
o que virá amanhã
por isso existes,
ar,
deixa-te respirar,
não te aprisiones,
não confies em ninguém
que venha de automóvel
para te investigar,
deixa-os,
ria deles,
faça os chapéus deles voarem,
não aceites
suas propostas,
vamos juntos
dançando pelo mundo,
arrancando as flores
da macieira
entrando pelas janelas,
assoviando juntos,
assoviando
melodias
de ontem, de amanhã.

Há de vir o dia
em que libertaremos
a luz e a água,
a terra, o homem,
e tudo para todos
será, como tu és.
Então, agora
Cuidado!
E vem comigo
ainda nos resta muito
a dançar e a cantar.
Vamos
ao longo do mar,
ao pico dos montes,
vamos
aonde veremos florescer
a nova primavera
e um sopro de vento
e de canto
compartilharemos as flores,
o aroma, os frutos,
o ar
de amanhã.
 

Pablo Neruda
,
in 'Odes Elementares', 1954
Tradução de Roberto Medina

quinta-feira, 21 de março de 2024

"Peço Silêncio" - Poema de Pablo Neruda


Édouard Manet (French modernist painter, 1832–1883), Spring (Jeanne Demarsy), 1881,


Peço Silêncio


AGORA me deixem tranquilo.
Agora se acostumem sem mim.

Eu vou cerrar os meus olhos.

Somente quero cinco coisas,
cinco raízes preferidas.

Uma é o amor sem fim.

A segunda é ver o outono.
Não posso ser sem que as folhas
voem e voltem à terra.

O terceiro é o grave inverno,
a chuva que amei, a carícia
de fogo no frio silvestre.

Em quarto lugar o verão
redondo como uma melancia.

A quinta coisa são teus olhos,
Matilde minha, bem-amada,
não quero dormir sem teus olhos,
não quero ser sem que me olhes:
eu mudo a primavera
para que me sigas olhando.
Amigos, isso é quanto quero.
É quase nada e quase tudo.

Agora se querem, podem ir.

Vivi tanto que um dia
terão de por força me esquecer,
apagando-me do quadro negro:
Meu coração foi interminável.

Porém, por que peço silêncio
não creiam que vou morrer:
passa comigo o contrário:
sucede que vou viver.

Sucede que sou e que sigo.

Não será, pois lá bem dentro
de mim crescerão cereais,
primeiro os grãos que rompem
a terra para ver a luz,
porém, a mãe-terra é escura:
e dentro de mim sou escuro:
sou como um poço em cujas águas
a noite deixa suas estrelas
e segue sozinha pelo campo.

Sucede que tanto vivi
que quero viver outro tanto.

Nunca me senti tão sonoro,
nunca tive tantos beijos.

Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.

Me deixem só com o dia.
Peço licença para nascer. 
 
1957

Pablo Neruda
, em “Presentes de um Poeta”
Tradução de Thiago de Mello
[Publicado no livroEstravagario, 1958]
 
 
Pablo Neruda,“Presentes de um Poeta”,
Editor: ArtePlural.


Resumo
“Presentes de um Poeta”
 
Aqui reunidos estão alguns dos mais inesquecíveis poemas de Pablo Neruda, "o cronista de todas as coisas", como ele próprio se chamou. Cantando o amor, a humanidade, a terra e a poesia, as suas belíssimas palavras são adornadas nestas páginas com encantadoras e luminosas pinturas. A tradução, do poeta Thiago de Mello, amigo de Neruda, preserva para o português o toque mágico da sua intuição poética. (daqui)
 
 

domingo, 3 de março de 2024

"Ode à Pobreza" - Poema de Pablo Neruda


Émile Friant (Peintre, graveur, illustrateur et sculpteur naturaliste français, 1863–1932),
'Les Buveurs' ou 'Le Travail du lundi', 1884, Musée des Beaux-Arts de Nancy.


 Ode à Pobreza 


Quando eu nasci,
seguiste-me,
pobreza,
olhavas-me
através
das tábuas carcomidas
pelo agreste inverno.
Subitamente
eram os teus olhos
que espreitavam pelas frinchas.
As goteiras,
de noite,
repetiam
o teu nome e apelido
ou às vezes
o saleiro quebrado,
o fato roto,
os sapatos descosidos,
advertiam-me.
Ali estavas
espiando-me
com os teus dentes de caruncho,
com os teus olhos de pântano,
com a tua língua cinzenta
que corrompe
a roupa, a madeira,
os ossos e o sangue,
ali estavas,
procurando-me,
seguindo-me
pelas ruas
desde o meu nascimento.
Quando aluguei um pequeno
quarto, nos subúrbios,
sentada numa cadeira
esperava por mim
e ao desdobrar os lençóis
num obscuro hotel,
quando adolescente,
da rosa nua
não foi a sua fragrância o que senti,
mas somente o frio silvo
da tua boca.
Pobreza,
seguiste-me,
por quartéis e hospitais,
em tempo de paz e de guerra.
Quando adoeci bateram
à porta:
não era o médico, era
uma vez mais a pobreza que chegava.
Vi como atiravas os móveis
para a rua:
os homens
deixavam-nos cair como se fossem pedregulhos.
Tu, com execrável amor,
ias fazendo
dum amontoado de solitárias coisas
no meio da rua e à chuva,
um desmantelado trono
e olhando os pobres
levavas-me
o último prato transformando-o em diadema.

Agora,
sigo-te,
pobreza.
E assim foste implacável,
implacável sou.
Junto
de cada pobre
encontrar-me-ão cantando,
debaixo
de cada lençol
de sombrio hospital
no meu canto encontrarás.
Sigo-te,
pobreza,
vigio-te,
cerco-te,
disparo sobre ti,
isolo-te,
corto-te as unhas rentes,
quebro-te
os dentes que te restam.
Estou
em todas as partes:
no oceano com os pescadores,
na mina
os homens
ao limparem a fronte,
enxugando-se do negro suor,
encontram
os meus poemas.
Todos os dias saio
com a operária têxtil.
Tenho as mãos brancas
de dar o pão nas padarias.
Estejas onde estiveres,
pobreza,
o meu canto
estará cantando,
a minha vida
estará vivendo,
o meu sangue
estará lutando.
Arriarei
as tuas pálidas bandeiras
onde quer que se levantem.
Outrora outros poetas
te chamaram
santa,
veneraram o teu manto,
alimentaram-se de fumo
e desapareceram.
Mas
eu desafio-te,
com os duros versos te machuco o rosto,
embarco-te e desterro-te.
Eu e muitos mais,
expulsar-te-emos
da terra para a lua
onde ficarás fria
e encharcada
olhando com um só olho
o pão e os frutos
que cobrirão a terra
de amanhã.

 in "Odes Elementares", 1954
Tradução de José Bento


domingo, 4 de fevereiro de 2024

"Ode ao Homem Simples" - Poema de Pablo Neruda


Carlo Carrà (Italian painter, 1881–1966), 'Pescatori', 1935.
Óleo sobre tela, coleção particular.

Ode ao Homem Simples


Vou contar-te em segredo
quem sou eu,
assim, em voz alta
dir-me-ás quem és,
quanto ganhas,
em que fábrica trabalhas,
em que mina,
em que farmácia,
tenho uma obrigação terrível:
e é saber,
saber tudo,
dia e noite saber
como te chamas,
é esse o meu ofício,
conhecer uma vida
não basta,
nem conhecer todas as vidas,
é necessário,
verás,
há que desentranhar,
raspar profundamente
e como numa tela
as linhas ocultaram,
com a sua cor, a trama
do tecido,
eu apago as cores
e busco até achar
o tecido profundo,
assim também encontro
a unidade dos homens,
e no pão
busco
para além da forma:
gosto do pão, mordo-o,
e então
vejo o trigo
os trigais temporões,
a verde forma que tem a Primavera,
as raízes, a água,
por isso
para além do pão,
vejo a terra,
e a sua unidade,
a água,
o homem,
e tudo provo assim
buscando-te
em tudo,
ando, nado, navego,
até encontrar-te,
e pergunto-te então
como te chamas,
a rua e o número,
para que recebas
as minhas cartas,
para que te diga
quem sou e quanto ganho,
onde vivo,
e como era o meu pai.

Vês como sou simples,
e como és simples,
não se trata
de nada complicado,
eu trabalho contigo,
tu vives, vais e vens,
de um lado para o outro,
é muito simples:
és a vida,
és transparente
como a água,
e sou assim também,
o meu dever é esse:
ser transparente,
todos os dias
me educo,
todos os dias me penteio
a pensar como pensas,
e ando
como andas,
como, como tu comes,
tenho nos braços o meu amor
como tens a tua namorada,
e então
quando isto está provado,
quando somos iguais
escrevo,
escrevo com a tua vida e com a minha,
com o teu amor e com os meus,
com todas as tuas dores
e então
já somos diferentes,
porque, com a mão sobre o teu ombro,
como velhos amigos
digo-te ao ouvido:
não sofras,
está perto o dia,
vem,
vem comigo,
vem
com todos
os que se parecem contigo,
os mais simples,
vem,
não sofras,
vem comigo,
porque, embora o não saibas,
isso, sim, sei-o eu:
sei para onde vamos,
e esta é a palavra:
não sofras
pois venceremos,
havemos de vencer,
ou mais simples, nós,
venceremos,
mesmo que não o creias,
venceremos.


Pablo Neruda (1904–1973),
in "Odes Elementares", 1954
Tradução de José Bento


Carlo Carrà, 'Il cavaliere dello spirito occidentale' (Western Horseman), 1917,
 52 x 67 cm, private collection.


"É verdade quando a filosofia diz que a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás. No entanto, esqueceram de outra frase: que ela só pode ser vivida olhando-se para a frente."

"Es ist wahr, was die Philosophie sagt, dass das Leben rückwärts verstanden werden muss. Aber darüber vergisst man den andern Satz, dass vorwärts gelebt werden muß."
 
Søren Kierkegaard, Die Tagebücher: 18341855.


Søren Kierkegaard, by Luplau Janssen, 1902.

Søren Kierkegaard, filósofo religioso e crítico do racionalismo, é considerado o fundador do existencialismo, que se assumiu como uma das mais profundas e renovadoras correntes filosóficas do século XX. Dinamarquês, nasceu em Copenhaga em 1813 e morreu nesta cidade em 1855. Segundo Kierkegaard, o homem tem que renunciar a si mesmo para superar as limitações que a realidade lhe impõe e assim aceder ao transcendente, a Deus e à verdadeira individualidade. Neste sentido, realçou o existir concreto de um homem que anseia pela transcendência focando, consequentemente, os sentimentos de angústia e desespero inerentes a tal condição. (daqui)
 

sábado, 20 de janeiro de 2024

"Ode ao Dia Feliz" - Poema de Pablo Neruda


 
Edvard Munch (Norwegian painter, 1863–1944), 'Dance on the Shore', 1900.
 

Ode ao dia feliz


Desta vez deixai-me
ser feliz,
não aconteceu nada a ninguém,
não estou em nenhum sítio,
acontece somente
que sou feliz,
de coração pleno, quer
andando, dormindo ou escrevendo.

Que hei de eu fazer, sou
feliz,
sou mais vasto
do que a erva
nas planícies,
sinto a pele como uma árvore rugosa,
a água em baixo,
os pássaros em cima,
o mar como um anel
à roda da minha cintura,
a terra feita de pão e de pedra
e o ar cantando como uma guitarra.

Ao meu lado na areia
tu és areia,
cantas e és canto,
o mundo
é hoje a minha alma,
canto e areia,
o mundo
é hoje a tua boca,
deixa-me ser feliz
na tua boca e na areia,
ser feliz porque se eu respiro
é a ti que o devo,
ser feliz porque acaricio
os teus joelhos
e é como se acariciasse
a pele azul do céu
e a sua frescura.

Hoje deixai-me
ser feliz
sozinho,
com todos e ninguém,
ser feliz
com a erva
e a areia,
ser feliz
com o ar e a terra,
ser feliz,
contigo, com a tua boca,
ser feliz.


Pablo Neruda
, in 'Odes Elementares',
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977.
Tradução de Luis Pignatelli 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

"Ode ao Inverno" - Poema de Pablo Neruda



Edvard Munch
 (Norwegian painter, 1863–1944), 'Building Workers in the Snow', 1920.
Óleo sobre tela, 71 x 100 cm, Munch Museum, Oslo, Noruega.


Ode ao Inverno 


Inverno, algo entre nós
existe,
colinas sob a chuva,
galopes
no vento,
janelas
onde se amontoaram as tuas vestes,
a tua camisa de ferro,
as tuas calças molhadas,
o teu cinturão de couro transparente. 

Inverno,
para alguns
és neblina
sobre as represas,
clamorosa clâmide,
rosa branca,
corola de neve,
mas para mim, Inverno,
és
um cavalo,
sobe-te do focinho a névoa,
gotas de chuva caem-te
da cauda,
rajadas elétricas
são as tuas crinas,
galopas
desenfreadamente
salpicando de lama
o viandante,
olhamos
e já passaste,
não te vemos a cara,
não sabemos
se são de água de mar
ou de cordilheira
os teus olhos, passaste
como a cabeleira
de um relâmpago,
não ficou ilesa uma árvore sequer,
as folhas
amontoaram-se
no solo,
os ninhos
ficaram esgarçados
no cimo das copas,
enquanto tu galopavas
na luz moribunda do planeta. 

És frio, inverno,
e os teus cachos
de neve negra e água
no telhado
perfuram
as casas
como agulhas,
ferem como facas oxidadas.
Nada te detém. 

Começam
os ataques de tosse, saem as crianças
com os sapatos encharcados,
nas camas a febre
é como
a vela dum navio
incendiada,
a cidade dos pobres
navegando para a morte,
a mina
escorregadia,
a batalha do vento.

Desde então,
inverno, passei a conhecer
a tua esburacada roupa
e o silvo
da tua buzina entre as araucárias
quando clamas
e choras,
cavaca na chuva louca,
desatado trovão
ou coração de neve.

O homem
na areia agigantou-se,
cobriu-se de tormenta,
o sal e o sol vestiram
de seda salpicada
o corpo da nova nadadora. 

Mas
quando chega o inverno
o homem
transforma-se num pequeno novelo
que caminha
com funerário guarda-chuva,
cobre-se
com asas impermeáveis,
torna-se húmido
e mole
como uma papa, refugia-se
nas igrejas,
ou lê notícias necrológicas. 

Entretanto,
em cima,
entre os carvalhos,
na cabeça das nevadas,
no litoral,
tu reinas
com a tua espada,
com o teu gelado violino,
com as plumas que esvoaçam
do teu peito indomável. 

Qualquer dia
encontrar-nos-emos,
quando
a grandeza
da tua formosura
não se abater
sobre o homem,
quando
deixares de perfurar
o teto
do meu irmão,
quando
puder amparar a mais alta
brancura do teu espaço
sem ser mordido,
passarei saudando
a tua majestade desatada. 

Descobrirei a cabeça
sob a mesma chuva
da minha infância
porque confiarei
nas tuas águas:
elas lavam o mundo,
arrastam os papéis,
trituram a pequena
imundice dos dias,
lavam
o rosto da terra,
as tuas mãos lavam,
e descem até ao fundo
lá onde
a primavera
dorme. 

Tu fá-la estremecer, feres
as suas pernas transparentes,
desperta-la, molha-la,
começa a trabalhar,
varre as folhas mortas,
reúne a sua fragrante
mercadoria,
sobe as escadas
das árvores
e de repente vemo-la
no cimo
com o seu novo vestido
e os seus antigos olhos verdes.
 

Pablo Neruda (1904–1973)
in "Odes Elementares", 1954.
Tradução de José Bento
 
 
Edvard Munch, 'From Saxegårdsgate', c. 1882, oil on canvas, 
Lillehammer Art Museum, Lillehammer 


"Que fogo poderia se igualar a um raio de sol num dia de inverno?"
 
"What fire could ever equal the sunshine of a winter's day [...]"

Henry David Thoreau
, Excursions - Página 115 - Ticknor and Fields, 1863
 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

“Cantiga de Amor” - Poema de Eduarda Chiote


Almada Negreiros (Artista multidisciplinar português, 18931970),
Bailarina
, c. 1948. Guache e grafite sobre papel, 53 × 37 cm.


Cantiga de Amor

 
Ó rosa dos sete ventos, por sete ventos
rodada,
defende-me
dos ladrões,
dos espantos doidos,
dos ventos,
e de mim. De mim também
e dos meus ventos
chorados.

Ó rosa dos sete espinhos
e no rochedo
cravados,
limpa o mar de todo o sangue, 
limpa a praia marinheira
das ondas do meu
pecado.

Limpa o coração deserto e a inocência do menino
trespassada pelo vidro da garrafa
arremessada
por veleiro sobre areia
adormecida,
por soltos cabelos
de água.

Ó rosa dos sete espinhos, por sete espinhos
rodada, traz-me o frio do céu limpo,
as nuvens da trovoada,
nos olhos do meu amor
e nas ruínas
abertas
de uma casa destelhada.

Ó rosa dos sete estrelos, por sete estrelos
rodada,
traz contigo todo o luto
desta música
inventada
no seu boné de marujo
ou no corpo não impresso de uma nota
descuidada.

Ó rosa dos sete estrelos, ó silêncio enevoado,
leva contigo
o poema, leva contigo
a palavra.
Leva contigo
o poeta
numa pérola de neve
e pela dor
fustigada
ó rosa clara de morte
ó nome do meu
amado.


Eduarda Chiote
, A Musa ao Espelho: Pathos
Pequena antologia quase inédita de poesia contemporânea portuguesa
(livro+cd), Gailivro, 2007



Descrição

A Musa ao Espelho
apresenta um espetáculo intenso e eclético. Os poemas são interpretados por José Carlos Tinoco, acompanhado por Juca Rocha (piano), Ianina Khmélik (violino), Vanessa Pires (violoncelo) e Fátima Santos (acordeão). Os temas compostos ou adaptados para cada um dos poemas acentuam a ambiência do texto, transportando o espetador através de uma viagem imaginária, visitando diferentes espaços físicos e emocionais. Obra constituída por livro com os poemas, CD audio e DVD do espetáculo em caixa.
Poemas de Ana Luísa Amaral, António Maria Lisboa, Bénedicte Houart, Carlos Poças Falcão, Daniel Jonas, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Eduarda Chiote, Filipa Leal, Helga Moreira, Humberto R., João Luís Barreto Guimarães, João Rios, Manuel António Pina, Rosa Alice Branco e Rui Lage.
 
 
Almada NegreirosSem título, s. d. Grafite e tinta da China sobre papel.
Coleção particular em depósito no Museu Calouste Gulbenkian – 
Coleção Moderna.


"Sobre a terra, antes da escrita e da imprensa, existiu a poesia." 
 
Pablo Neruda (1904–1973)
 
 

domingo, 3 de dezembro de 2023

"Ode ao Pão" - Poema de Pablo Neruda


Albert Anker (Swiss painter and illustrator, 18311910), 'Still-Life with Coffee, 
Bread and Potatoes', c. 1896, Kunstmuseum Bern.


Ode ao Pão


Pão,
com farinha
água
e fogo
te levantas.

Espesso e leve,
reclinado e redondo,
repetes
o ventre
da mãe,
equinocial
germinação
terrestre.

Pão,
que fácil
e que profundo tu és:
no tabuleiro branco
da padaria
estendem-se as tuas filas
como utensílios, pratos
ou papéis,
e de súbito a onda
da vida,
a conjunção do germe
e do fogo,
cresces, cresces
de súbito
como
cintura, boca, seios,
colinas da terra,
vidas,
sobre o calor, inunda-te
a plenitude, o vento
da fecundidade,
e então
imobiliza-se a tua cor de oiro,
e quando já estão prenhes
os teus pequenos ventres
a cicatriz escura
deixou sinal de fogo
em todo o teu doirado
sistema de hemisférios.

Agora,
intacto,
és
ação de homem,
milagre repetido,
vontade da vida.

Ó pão de cada boca
não
te imploraremos,
nós, os homens,
não somos
mendigos
de vagos deuses
ou de anjos obscuros:
do mar e da terra
faremos pão,
plantaremos de trigo
a terra e os planetas,
o pão de cada boca
de cada homem,
em cada dia
chegará porque fomos
semeá-lo
e fazê-lo,
não para um homem, mas
para todos,
o pão, o pão
para todos os povos
e com ele o que possui
forma e sabor de pão
repartiremos:
a terra,
a beleza,
o amor,
tudo isso
tem sabor de pão,
forma de pão,
germinação de farinha,
tudo
nasceu para ser compartilhado,
para ser entregue,
para se multiplicar.

Por isso, Pão,
se foges
da casa do homem,
se te escondem,
se te negam,
se o avarento
te prostitui,
se o rico
te armazena,
se o trigo
não procura sulco e terra,
pão,
não rezaremos
pão,
não mendigaremos,
lutaremos por ti com outros homens,
com todos os famintos,
por todos os rios, pelo ar
iremos procurar-te,
a terra toda repartiremos,
para que tu germines,
e connosco
avançará a terra:
a água, o fogo, o homem
lutarão junto a nós,
iremos coroados
de espigas,
conquistando
terra e pão para todos,
e então
também a vida
terá forma de pão,
será simples e profunda,
inumerável e pura.

Todos os seres
terão direito
à terra e à vida,
e assim será o pão de amanhã,
o pão de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será o produto
da mais longa e dura
luta humana.

Não tem asas
a vitória terrestre:
tem pão sobre os seus ombros,
e voa corajosa
libertando a terra
como uma padeira
levada pelo vento.


Pablo Neruda
, in "Antologia Breve".
Publicações Dom Quixote, Lisboa. 1974.
Tradução e seleção de Fernando Assis Pacheco



Albert Anke, 'Still Life: Wine and Bread', 1896, oil on canvas, 
 Private Collection.
 

"Todas as formas de governo caem diante da necessidade por pão. Para o homem com uma família faminta, o pão passa em primeiro lugar - antes de seu sindicato, de sua pátria, de sua religião".
 
"All forms of government fall when it comes up to the question of bread — bread for the family, something to eat. Bread to a man with a hungry family comes first— before his union, before his citizenship, before his church affiliation. Bread!"

John L. Lewis
(1880–1969), lider trabalhista norte-americano, citado em Federal Food Programs.
(daqui)
 

sábado, 2 de setembro de 2023

"A Infinita" - Poema de Pablo Neruda

 

José Malhoa (Pintor, desenhista e professor português, 1855–1933),
Vindima - Figueiró dos Vinhos, Portugal (Sétimo Mandamento), 1905.


A Infinita

Vês estas mãos? Mediram
a terra, separaram
os minerais e os cereais,
fizeram a paz e a guerra,
derrubaram as distâncias
de todos os mares e rios
e, no entanto,
quando te percorrem
a ti, pequena,
grão de trigo, calhandra,
não conseguem abarcar-te,
fatigam-se ao agarrar
as pombas gémeas
que repousam ou voam no teu peito,
percorrem as distâncias das tuas pernas,
enrolam-se na luz da tua cintura.
Para mim tu és tesouro mais rico
de imensidade do que o mar e seus cachos
e és branca e azul e extensa como
a terra nas vindimas.
Nesse território,
desde os pés à fronte,
andando, andando, andando,
passarei a vida.


Pablo Neruda,
in "Os Versos do Capitão" (Los versos del capitán).
Tradução de Albano Martins




Pablo Neruda, "Os Versos do Capitão".
Tradução de Albano Martins,
Editora: Campo das Letras.



Os Versos do Capitão

E vou contar-lhes agora a história deste livro, um dos mais controvertidos daqueles que escrevi. Foi durante muito tempo um segredo, durante muito tempo não ostentou o meu nome na capa, como se o renegasse ou o próprio livro não soubesse quem era o pai. Tal como os filhos naturais, filhos do amor natural, «Los versos del capitán» eram, também, um «libro natural». Os poemas que contém foram escritos aqui e ali, ao longo do meu desterro na Europa. Foram publicados anonimamente em Nápoles, em 1952. O amor por Matilde Urrutia, a nostalgia do Chile, as paixões cívicas, recheiam as páginas desse livro, que teve muitas edições sem trazer o nome do autor.

Para a 1ª edição, o pintor Paolo Ricci conseguiu um papel admirável e antigos tipos de imprensa «bodonianos», bem como gravuras extraídas dos vasos de Pompeia. Com fraternal fervor, Paolo elaborou também a lista dos assinantes. Em breve apareceu o belo volume, com tiragem limitada a cinquenta exemplares. Festejámos largamente o acontecimento, com mesa florida, «frutti di mare», vinho transparente como água, filho único das vinhas de Capri. E com a alegria dos amigos que amaram o nosso amor.
Alguns críticos suspicazes atribuíram a motivos políticos a publicação anónima do livro. «O partido opôs-se, o partido não o aprova», disseram. Mas não era verdade. Felizmente, o meu partido não se opõe a nenhuma expressão da beleza.
A única verdade é que não quis, durante muito tempo, que aqueles poemas ferissem Delia, de quem estava a separar-me. Delia del Carril, passageira suavíssima, fio de aço e mel que me atou as mãos nos anos sonoros, foi para mim durante dezoito anos uma companheira exemplar. O livro, de paixão brusca e ardente, atingi-la-ia como uma pedra atirada à sua terna compleição. Foram estas, e não outras, as razões profundas, pessoais e respeitáveis do meu anonimato.
O livro tornou-se depois, ainda sem nome e apelido, num homem, homem natural e valoroso. Abriu caminho na vida e eu tive, por fim, de o reconhecer. Andam agora pelos caminhos, quer dizer, pelas livrarias e as bibliotecas, os «versos do capitão» assinados pelo capitão genuíno.

Pablo Neruda (1904–1973), in "Confesso que Vivi"

 
Pablo Neruda, "Confesso que Vivi", 2ª Edição,
1976, editora: Publicações Europa-América.

"Confesso que Vivi" é um livro de cariz autobiográfico, escrito ao longo de vários anos pelo autor chileno Pablo Neruda e publicado postumamente no ano de 1974.
Em Portugal, foi publicado pela primeira vez, em abril de 1975, pelas Publicações Europa-América e, no Brasil, foi publicado como "Confesso que Vivi — Memórias", pela Difel — Difusão Editorial em 1978.


Sinopse
 
«Estas memórias ou recordações são intermitentes e por vezes fugidias na memória, porque a vida é precisamente assim. É a intermitência do sono que nos permite aguentar os dias de trabalho. Muitas das minhas recordações desvaneceram-se ao evocá-las, ficaram em pó como um vidro irremediavelmente ferido.
As memórias do memorialista não são as memórias do poeta. Aquele viveu talvez menos, mas fotografou muito mais, recreando-nos com a perfeição dos pormenores. Este entrega-nos uma galeria de fantasmas sacudidos pelo fogo e pela sombra da sua época.
Não vivi, talvez, em mim mesmo; vivi, talvez, a vida dos outros. De quanto nestas páginas deixei escrito se desprenderão sempre — como nos arvoredos de Outono, como no tempo das vindimas — as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado.
A minha vida é uma vida feita de todas as vidas - as vidas do poeta.»Pablo Neruda