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sábado, 11 de abril de 2026

"As curvas aparentes da memória" - Poema de Ana Luísa Amaral


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926), 
The Sheltered Path. 1873.


As curvas aparentes da memória

I

Mais: o tempo não teima, não se alonga,
antes ondeia como mar doente
e aceita ventos. Os caminhos que o fazem:
fio de seda tecida sem cuidado.

Depois de tantos anos, a memória
rompida de um anel,
mas nesse anel ver cheiros,
neles fulgirem coisas,
os alfabetos fáceis de brinquedo.

Mas, seda pelo meio:
feita de bichos leves, sonolentos,
de um perigo de ruir marés e luas.
Anel como das fadas,
dedos de carne firme, os seus poros abertos
a tudo, a tudo, a tudo.

A rouquidão de amor do meu avô,
rosas de mais cheirar e tudo em chamas:
uma curva de vento, o cobertor em verde e em castanho
onde sonhava até romper olhar,
até romper os sonos e os muros,
jardim forrado a prímulas e luz
e esse banco de pedra, acompanhando
o verão.

Como pilar de sol era o anel,
como pilar de sol era esse tempo
de bordar e forrar o fundo às coisas,
de ter em superfície o mais dourado,
o que parecia ser copas e ouros, um longo ás
de espadas.

II

Macio: aquele muro tão rugoso,
de cimento amarelo e muito quente,
as histórias faladas em voz rouca,
e eu sem saber como falar de amor.

E eu sem saber como prever as coisas,
e as coisas já sem ser como as pensava.
Bastando alguns segundos, algum sol
infinitesimal, e o já sem ser.

O cimento amarelo: um pó tão fino,
e o calor como fio insidioso.
Bastando alguns segundos, algum frio,

e o muro mais rugoso que macio,
e o cheiro do caramanchão de rosas:
um cheiro a números e a letras mortas.

III

Mas: se o tempo se alongasse?
Se o tempo: um cavalo intenso
e de infinito mistério,
trazendo de novo agosto,
um cheiro a sério de rosas,
o caramanchão bordado,
o meu avô outra vez,
o pão que ele preparava,
a ternura nos seus dedos,
e o seu anel de uma pedra
que eu não consigo lembrar,
mas que a textura me lembra,
e que a sua cor por força
me ajudaria a lembrar?
Se ele trouxesse outra vez
as letras mortas e lentas,

IV

agora, graças ao fácil dom de teimar desse tempo,
cintilando novamente, no seu mais justo lugar,
habitando como gente o quintal feito de estrelas,
o banco de cheiro ameno, o cobertor em castanho.

E a noite que, por justiça seria fria, não era:
antes de um calor de sol, de rosas de primavera
minúsculas, redundantes de roda ao caramanchão,
acumulando-se em nuvens cor de rosa, cor de sol.

E a seda: um campo minado de meiguice e de agasalho,
tecida em tanto cuidado, num tão mais puro cuidado,
que Deus, se aí existisse e quisesse controlar
o tempo agora perfeito, de um dom de teimar tão grande,

capaz de tal se alongar sobre a vida e a memória,
que Deus, se aí existisse, havia de desistir,
havia de se juntar ao verde do cobertor.
E havia de descansar no banco desse jardim.

E usaria o anel. E teria com certeza
uma voz rouca.


Ana Luísa Amaral
 (1956–2022)
 

  
Claude Monet, Path through the Poppies, Île Saint-Martin, Vétheuil, 1880.
Metropolitan Museum of Art
, New York, USA.



"Existe um caminho que vai dos olhos ao coração sem passar pelo intelecto."


G. K. Chesterton, The Defendant, 1901.
 
 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"Ano Novo" - Poema de Ferreira Gullar

 


Charles Conder (English-born painter, lithographer and designer, 1868-1909),
Watching the Fireworks at 
Saint-Cloud, France, c. 1893,
Sheffield Galleries and Museums Trust.



Ano Novo


Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).


Ferreira Gullar, in "Toda poesia",
Companhia das Letras, 2021.
 
 

Charles Conder, Night in the Garden in Spain, c. 1900,
 Art Gallery of Western Australia.


"Quem acende uma luz é o primeiro a beneficiar-se da claridade."