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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

"Poema para minha filha" - Aires de Almeida Santos


Felice Casorati (Italian painter, sculptor, and printmaker, 1883–1963), 
"Bambina che gioca su tappeto rosso", 1912.
 
 

 Poema para minha filha

Para ti, querida
Rosas e mel
E estrelas rutilantes,
Risos gritantes,
Muita ternura e carinho

E o Sol
Brilhando muito
Em frente ao teu caminho.

Deixa comigo o fel,
A dor, o desespero
Deixa que eu fira a pele
Nos ásperos abrolhos
Da vida.

Deixa chorar meus olhos
Deixa comigo
O peso do sonho tão antigo.

Para ti, querida
Paz, amor, ternura
Estrelas rutilantes,
Rosas e Mel…


 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

"Meu amor da Rua Onze" - Poema de Aires de Almeida Santos



Marie-Guillemine Benoist (French neoclassical, historical, and genre painter, 1768 –1826),
Portrait d'une négresse, now known as Portrait de Madeleine, 1800,
Paris, Musée du Louvre.



Meu amor da Rua Onze


Tantas juras nós trocámos,
Tantas promessas fizemos,
Tantos beijos nos roubámos,
Tantos abraços nós demos.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais mentir.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais fingir.

Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor
Que ainda sinto o calor
Das juras que nós trocámos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar
Que ainda pairam no ar
As promessas que fizemos.

Nossa maneira de amar
Era tão doida, tão louca
Qu'inda me queimam a boca
Os beijos que nos roubámos.

Tanta loucura e doidice
Tinha o nosso amor desfeito
Que ainda sinto no peito
Os abraços que nós demos.

E agora
Tudo acabou.
Terminou
Nosso romance.

Quando te vejo passar
Com o teu andar
Senhoril,
Sinto nascer
 E crescer
Uma saudade infinita
Do teu corpo gentil
De escultura
Cor de bronze,
Meu amor da Rua Onze.


Aires de Almeida Santos,
do livro "Meu Amor da Rua Onze"



"Meu Amor da Rua Onze" de Aires de Almeida Santos

 
Da autoria do poeta benguelense Aires de Almeida Santos, "Meu Amor da Rua Onze" foi editado pela União de Escritores Angolanos.
Compilação preparada por alguns amigos, "Meu Amor da Rua Onze" é o fruto de uma pesquisa e reunião do conjunto de poemas do autor que, por força dos condicionalismos políticos anteriores ao 25 de abril de 1974, se encontravam dispersos. Na verdade, dispondo já, nesta altura, de uma obra admirável, embora escassa, que continha em si mesma a génese da angolanidade, tornava-se imprescindível a sua organização.
Embora reunidos apenas depois da independência de Angola, alguns destes poemas foram, no entanto, escritos durante a década de quarenta, período caracterizado por uma fecunda criação literária associada ao aprofundamento da mensagem política de nacionalismo e liberdade. Respondendo ao apelo desta consciência revolucionária, o autor, através de uma escrita "subtil", desenvolve uma poesia de pendor africano perpassada por um lirismo profundamente telúrico, onde as cores, os sons e os cheiros apelam aos sentidos: 
"(...) No quintal de minha casa/Vestido de prata nas noites de luar,/As sombras das mangueiras/Eram rendas/Espalhadas/Pelo chão".
Reflexo de uma incondicional paixão pela terra adotiva - a cidade de Benguela - os seus poemas constituem-se numa permanente evocação de um espaço e de um tempo que é o da infância, onde se respira, enquanto manifestação da saudade, os ares da sua velha cidade, com as suas acácias e mulembas, os seus bairros típicos e a sua praia morena: 
"(...) Onde está o meu quintal/Vestido de prata nas noites de luar,/Com rendas de sombras espalhadas pelo chão?/Onde estão esses meninos/Que riam chorando/Dalgum trambulhão?"
Contendo os dezanove poemas escritos pelo autor, esta antologia teve e continua a ter uma grande aceitação nos meios literários nacionais e internacionais, destacando-se, pela sua popularidade, os seguintes textos: "A mulemba secou"; "Quem tem o canhé?" e "Meu Amor da Rua Onze" que simbolicamente deu origem ao título do livro. (daqui)
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

"Quando os meus irmãos voltarem " - Poema de Aires de Almeida Santos


Horace Pippin (American painter, 1888–1946), Sunday Morning Breakfast, 1943.
 
 
 
 Quando os meus irmãos voltarem


Quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver
para a estrada de Catete.

Havemos de construir com as nossas mãos
uma casita de adobe
bonita,
onde caberemos todos.
será vermelha,
toda coberta de capim.

Vai ser fácil amassar
porque o barro já está tinto
de tanto, de tanto sangue
há tanto tempo a correr.

Terá também um jardim
com rosas e buganvílias.

Vai ser fácil
pois mesmo que a chuva tarde
serão regadas
com lágrimas caídas
dos olhos de todos nós.

Quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver
para a estrada de Catete.

E jantaremos mufete...
e beberemos quissângua
que vos virá do Bié.

E dormiremos na esteira
embalados pela brisa
que soprará no Musseque. 

Descansaremos
do longo caminho andado.
Descansaremos
pra mais longa caminhada...

Ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos
será pequena a nossa casa bonita
(que eu tenho milhões de irmãos!)

Quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos,
iremos varrer
as cinzas dos que partiram à frente,
e cantar,
espalhar
a nossa alegria
pelas vertentes das serras,
pelas areias das dambas,
pelos vales,
pelos montes,
pela beirinha dos rios
junto às fontes.

Havemos de cantar!...

Ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos,
arderá uma fogueira
à beira
de cada trilho
e o brilho
de cada estrela
será maior...

Mãezinha, ouve o teu filho.

Não tardes, mãe,
vem depressa... 


Aires de Almeida Santos
 

Aires de Almeida Santos

Poeta e jornalista angolano, Aires de Almeida Santos, nascido em 1922, no Planalto Central, no Chinguar, Bié (Angola), viveu, contudo, a sua infância junto do mar, na cidade de Benguela, entre o Bairro do Benfica e a Escola da Liga, onde fez a escola primária, e a adolescência na cidade do Huambo.
Concluído o ensino liceal, Aires de Almeida Santos possuía já o gosto pela escrita literária, sendo desta época alguns dos primeiros textos que foram, posteriormente, compilados no livro Meu Amor da Rua Onze.
Ideologicamente empenhado e comprometido com os valores da liberdade e da independência, o autor foi "deportado" para Luanda, nos anos 50, pela polícia colonial, onde mais tarde acabou por ser preso até finais da década de 60.
Quando saiu da prisão, a sua obra era já objeto de consagração e de análise.
Dedicando-se ao jornalismo, colaborou em vários jornais, nomeadamente Jornal de Benguela, Jornal de Angola e A Província de Angola.
Poeta da "geração da Cultura", retomou a vertente temática da anterior "geração da mensagem", cuja revista fora proibida e extinta pelas autoridades repressivas coloniais. Assim, a sua poesia centrou-se em preocupações profundamente nacionalistas e, na procura de elementos do passado remoto, encontrou formas que permitiam fazer, simultaneamente, a catarse da escravidão e a denúncia da miséria do tempo presente.
Recorrendo a uma linguagem eufemística, os textos de Aires de Almeida Santos remetem o leitor para momentos conotativos de denúncia da exploração e da repressão, associados a espaços de esperança que decorrem da implementação e projeção dos movimentos independentistas, enquanto plataformas revolucionárias e geradoras de PAZ.
Tendo vivido grande parte da sua vida em Benguela, única cidade, para além de Luanda, com alguma atividade cultural, a sua obra poética reflete uma profunda ligação a esta cidade que ele tão bem conhece física e afetivamente e que foi alicerce arquitetónico do seu imaginário infantil e "naif": "Tenho saudades do tempo/Em que corria descalço/Pelas areias do rio;/Comigo, os meus companheiros/Também descalços, correndo,/A correr ao desafio. (...)"
De cariz profundamente descritivo, a poesia de Almeida Santos permite um olhar quase fotográfico que regista, com clareza e precisão, os espaços físicos, psicológicos e sociais de uma cidade que o poeta elegeu incondicionalmente como "a sua": " (...) O Macuto da Ximinha/Que cantava todo o dia/Já não canta./O Zé Camilo, coitado,/Passa o dia deitado/A pensar em muitas coisas.(...)".
Através de uma escrita cheia de subtilezas formais, o autor entabula um colorido diálogo com a natureza, enformando temáticas que vão permitir engrossar as correntes da esperança da libertação nacional.
Aos 53 anos de idade, a exercer a profissão de jornalismo e a de guarda-livros, pôde viver o tão esperado momento da declaração da independência.
É então que toda a sua poesia, espalhada por um sem número de "mochilas clandestinas do exílio", é recolhida com o apoio do poeta David Mestre.
A sua obra poética, escassa mas de qualidade, está reunida no livro a que simbolicamente chamou Meu Amor da Rua Onze.
Morreu em Benguela em 1991. (daqui)