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terça-feira, 21 de maio de 2024

"O que é para ela a minha consciência?" - Poema de Rainer Maria Rilke


Christoffer Wilhelm Eckersberg (Danish painter, 1783 – 1853),
View north towards Kronborg Castle, Denmark, c. 1810.


O que é para ela a minha consciência?


Depois, quando souber já muitas coisas, quero ainda
simplesmente contemplar os animais, para que algo
da sua mutação se introduza nas minhas
articulações; quero ter uma existência breve
nos seus olhos que me seguram
e lentamente me soltam, serenamente,
 sem me julgarem.
Quero que os jardineiros me digam
muitas flores para que eu aos cacos
dos belos nomes próprios acrescente
um resto das centenas de perfumes.
E quero comprar frutos, frutos onde por dentro
se encontra de novo o país, até ao céu.
Pois isto tu compreendias: os frutos plenos.
Os que em taças punhas à tua frente
equilibrando com as cores todo o seu peso.
E, como os frutos também, vias as mulheres
e vias as crianças, de dentro
impelidas para as formas da sua existência.
E por fim viste-te a ti própria como um fruto,
despojaste-te dos teus vestidos, levaste-te
para diante do espelho, deixaste-te entrar
até ao teu olhar; isto ficou grande, à tua frente,
e não dizia: isto sou eu; não, antes: isto é.
Tão sem curiosidade era por último o teu olhar
e tão despossuído, tão verdadeiramente pobre,
que nem a ti te desejava: sagrado.
Assim te quero recordar, tal como te
colocavas dentro do espelho, a fundo
e longe de tudo. Porque vens diferente?
Porque te contradizes? Porque me queres
convencer de que naquelas contas de âmbar
que trazias ao pescoço ainda havia algum peso
daquele peso que no Além
nunca pertence a imagens apaziguadas? 
Porque me mostras
na tua atitude um mau pressentimento?
Quem te mandou ler os contornos
do teu corpo como as linhas da mão,
de modo que eu já não os possa ver sem destino?
Aproxima-te da luz da vela. Não tenho medo
de olhar os mortos. Quando vêm
têm direito a permanecer
no nosso olhar como as outras coisas.
Aproxima-te; fiquemos por momentos em silêncio.
Olha para esta rosa sobre a minha a mesa;
não é a luz que a rodeia tão tímida
como a que brilha sobre ti? Também ela não devia estar aqui.
No jardim lá fora, não misturada comigo,
devia ter ficado ou partir, -
agora dura assim: o que é para ela a minha consciência?

Rainer Maria Rilke (1875–1926), "Requiem por uma Amiga",
As Elegias de Duíno, Assírio & Alvim, 2002
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado

 

domingo, 25 de novembro de 2018

"Anunciação a Maria" - Poema de Rainer Maria Rilke



Abbott Handerson Thayer (American painter, naturalist, and teacher,
1849–1921), 'Angel', 1887, Smithsonian American Art Museum.
 

Anunciação a Maria


Não foi a aparição de um Anjo (reconhece)
que a assustou. Nem de outros, quando
um raio de sol ou de luar à noite
os refletem no quarto desfilando,
se inquieta ela com a forma que um Anjo
possa ter assumido; mal suspeitando que
esta presença pudesse para o Anjo ser incómoda.
(ah se soubéssemos como ela era pura. Certa vez,
avistando uma gazela a repousar na floresta,
de tal modo a penetrou com o seu olhar que
mesmo sem acasalamento nela se gerou o unicórnio,
a criatura de luz, a pura criatura -).
Que ele entrasse, o Anjo, e com um rosto de adolescente
se debruçasse e a fixasse de tal modo que o olhar dela
e o seu se confundissem, como se de repente lá fora
tudo se esvaziasse, e o que era visto, procurado, levado
por milhões de homens nela se concentrasse: só ela e ele.
Contemplação e contemplado, olhar e prazer de ver,
em nenhum outro lugar a não ser neste - : repara,
é assustador! E ambos se assustaram.

Foi então que o Anjo cantou a sua melodia.


Rainer Maria Rilke, in 'A vida de Maria'
Trad. Yvette K. Centeno
 
 


Abbott Handerson Thayer, 'An Angel', 1893, 
Milwaukee Art Museum (United States).



Anunciação


Não foi por um Anjo ter entrado (faz essa ideia tua)
que ela se sobressaltou. Tão pouco como outras, quando
um raio de sol ou à noite a lua
nos seus quartos se vão instalando,
se sobressaltam, ela não tinha o hábito de se indignar
à vista da figura que um Anjo assumia;
ela mal sabia que este ali ficar
para os Anjos é laborioso. (Oh, se fosse possível saber
como ela era pura. Não foi uma cerva que, a salvo,
deitada na floresta, dela se apercebeu,
equivocando-se de tal modo que concebeu,
sem sequer ser coberta, o Licorne mais alvo
o animal feito de luz, o mais puro de conceber.)
Não por ele entrar, mas por o Anjo inclinar
para ela, tão de perto, o rosto com que vinha anunciar,
tão jovem; e que de ambos o olhar se entrechocasse
quando um no outro se encontrasse,
como se em volta tudo vazio parecesse
e o que milhões de seres olhavam, faziam, suportavam,
nela se concentrasse: ela e ele apenas ali se encontravam;
Olhar e ser olhado; olhos e deleite para a vista
em mais nenhum lugar senão aquele: repara,
isso sobressalta. E o susto de ambos era coisa prevista.

Então entoou o Anjo a sua melodia clara.


Rainer Maria Rilke, in 'A vida de Maria', 
Trad. Maria Teresa Dias Furtado