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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

"Velhas Árvores" - Poema de Olavo Bilac


George Goodwin Kilburne (British painter, 1839-1924), The Picnic, c. 1900 (watercolour) 
 

Velhas Árvores



Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 
Olavo Bilac, in “Poesias”
Editora Martin Claret, S.P., 2003, p. 138.


George Goodwin Kilburne, The family picnic (watercolour)


"Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registar todo o nosso vazio." 
 
(Khalil Gibran)

Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo nosso vazio.

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/602952-khalil-gibran-arvores-sao-poemas-que-a-terra-escreve-para-o-ceu/

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

"Névoa" - Poema de Fernando Pessoa


Mar de nuvens visto da Montanha Jhushan em Taiwan. (Daqui)



Névoa


A névoa envolve a montanha,
Húmido, um frio desceu.
O que é esta mágoa estranha
Que o coração me prendeu?

Parece ser a tristeza
De alguém de quem sou ator,
Com fantasiada viveza
Tornada já minha dor.

Mas, não sei porquê, me dói
Qual se fora eu a ilusão;
E há névoa em tudo o que foi
E frio em meu coração.


Fernando Pessoa
 


 


Desce a névoa da montanha


Desce a névoa da montanha,
Desce ou nasce ou não sei quê...
Minha alma é a tudo estranha,
Quando vê, vê que não vê.
Mais vale a névoa que a vida...
Desce, ou sobe: enfim, existe.
E eu não sei em que consiste
Ter a emoção por vivida,
E, sem querer, estou triste.

2-9-1935

Fernando Pessoa



 
 

domingo, 5 de outubro de 2014

"O Sapo" - Poema de Afonso Lopes Vieira


Bufotes balearicus female (Bufo viridis)


Sapos num amplexo.


Bufo viridis




O Sapo-comum ou sapo-europeu (Bufo bufo) é uma espécie de sapo 
da família Bufonidae.


O Sapo 


Não há jardineiro assim, 
Não há hortelão melhor 
Para uma horta ou jardim, 
Para os tratar com amor. 

É o guarda das flores belas, 
da horta mais do pomar; 
e enquanto brilham estrelas, 
lá anda ele a rondar... 

Que faz ele? Anda a caçar 
os bichos destruidores 
que adoecem o pomar 
e fazem tristes as flores. 

Por isso, ficam zangadas 
as flores, se se faz mal 
a quem as traz tão guardadas 
com o seu cuidado leal. 

E ele guarda as flores belas, 
a horta mais o pomar; 
brilham no céu as estrelas, 
e ele ronda, a trabalhar... 

E ao pobre sapo, que é cheio 
de amor pela terra amiga, 
dizem-lhe que é feio 
e há quem o mate e persiga 

Mas as flores ficam zangadas, 
choram, e dizem por fim: 
- «Então ele traz-nos guardadas, 
e depois pagam-lhe assim?» 

E vendo, à noite, passar 
o sapo cheio de medo, 
as flores, para o consolar, 
chamam-lhe lindo, em segredo... 


Afonso Lopes Vieira,
in 'Animais Nossos Amigos'




Poeta e ficcionista português, Afonso Lopes Vieira, nasceu a 26 de janeiro de 1878, em Leiria, e morreu a 25 de janeiro de 1946, em Lisboa. 
Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, chegou a praticar a advocacia. Foi, entre 1900 e 1919, redator da Câmara dos Deputados, e, a partir de 1916, dedicou-se exclusivamente à literatura e à ação cultural. 
Retirou-se na sua casa de São Pedro de Muel onde recebia vários amigos, também escritores, e viajou por Espanha, França, Itália, Bélgica, Norte de África e Brasil, tendo decidido "reaportuguesar Portugal, tornando-se europeu".
Levou a cabo inúmeras tentativas de reabilitação junto do grande público (inclusivamente infantil) de um património nacional, nomeadamente clássico e medieval, esquecido, seja pela tradução (Romance de Amadis) ou divulgação de obras de autores basilares da cultura nacional (edição de Os Lusíadas; a promoção de uma Campanha Vicentina). 
Integrado no grupo da "Renascença Portuguesa", colaborou em publicações como A Águia, Nação Portuguesa ou Contemporânea
A sua poesia, próxima do saudosismo, inscreve-se num filão tradicional que, fazendo a transição entre a poesia neorromântica de fim-de-século e correntes nacionalistas e sebastianistas do início do século XX, recuperam métricas, formas etemas tanto inspirados na literatura clássica como nos romanceiros ou na literatura popular. 
Com uma faceta de anarquista, que inspirará, por exemplo, a obra ficcional Marques (História de um Perseguido), as inúmeras ações de renascimento cultural de Portugal que promoveu, mantiveram-se num plano da consciência individual, sem aderirem a programas com ideais em parte coincidentes, como o integralismo, representando, antes, no início do século, a persistência de um neorromantismo que fora encetado com o neogarrettismo de Alberto de Oliveira.
Destacam-se na sua produção: Para quê, Náufragos: Versos Lusitanos, O Encoberto, Bartolomeu Marinheiro, Arte Portuguesa, Ilhas de Bruma e Onde a Terra Acaba e o Mar Começa.

Afonso Lopes Vieira. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. 


Tito Paris - Mar Azul (Live) 

Tito Paris é um músico, compositor e cantor cabo-verdiano, nascido em 30 de Maio de 1963, na cidade do Mindelo, na Ilha de São Vicente. Radicado em Lisboa, ele é um dos responsáveis pela divulgação da música das ilhas da Morabeza pelo mundo além de uma figura de relevo da comunidade africana na capital.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

"Diálogo" - Poema de Albano Martins


Os alunos atravessam uma ponte suspensa danificada, Lebak, Indonésia
 
 

Diálogo


Levarás 
pela mão 
o menino 
até ao rio. Dir-lhe-ás 
que a água é cega 
e surda. Muda, 
não. Que o digam 
os peixes, que em silêncio 
com ela sustentam 
seu diálogo 
líquido, de líquidas 
sílabas 
de submersas 
vogais. 


Albano Martins, 
in "Castália e Outros Poemas"


 Lebak, Indonésia


Os mais perigosos e bizarros caminhos do mundo para ir para a escola

  • Para deleite de alguns e desespero de outros, o novo ano letivo está prestes a começar para milhões de crianças em todo o mundo. Se para muitas crianças ir para a escola é uma banalidade para outros é um grande luxo.

Delhi, India


  • São muitas as crianças que todos os dias têm de percorrer caminhos bastante perigosos e bizarros, muitas vezes em transportes sobrelotados, para conseguirem chegar à escola e receber a educação que muitas outras crianças dão por garantida.

Sri Lanka

  • De acordo com a UNESCO, o progresso de ligação entre as crianças e as escolas abrandou nos últimos cinco anos, o que torna ainda mais difícil a muitas crianças deslocarem-se para os locais de aprendizagem, escreve o Bored Panda

Pili, China

  • Os caminhos perigosos que todos os dias têm de atravessar são um dos principais motivos para a grande taxa de abandono escolar nos países mais desfavorecidos ou nas regiões isoladas.

Gulu, China

  • A solução pode parecer simples: construam-se pontes e estradas, comprem-se autocarros e contratem-se motoristas. Contudo, a falta de dinheiro e os desastres naturais que frequentemente destroem as construções que permitem às crianças ir à escola tornam difícil o acesso à educação que muitos necessitam.

Zhang Jiawan Village, Southern China


"Tenho de procurar nas estrelas aquilo que me é negado na Terra."

 

Padang, Sumatra, Indonesia


"Qual é o sentido da nossa vida em especial, e qual o sentido da vida de todos os seres em geral? Saber responder a esta pergunta equivale a ser-se religioso. Hão-de perguntar: fará sentido pôr-se esta questão? Respondo: Quem considere a sua própria vida e a dos seus semelhantes como desprovida de sentido, não é somente infeliz, como ainda incapaz de viver."
Albert Einstein
 
Padang, Sumatra, Indonesia


"Dificuldades e obstáculos são fontes valiosas de saúde e força para qualquer sociedade."

Albert Einstein

Rio Negro, Colômbia


"Deus é a lei e o legislador do Universo."

Albert Einstein

Rio Negro, Colômbia


"O comportamento ético do homem deve basear-se eficazmente na compaixão, na educação e nos laços sociais, e não necessita de base religiosa. Triste seria a condição humana se os homens precisassem de ser refreados pelo temor do castigo ou pela esperança da recompensa depois da morte."

Albert Einstein

Gulu, China


"Feliz aquele que atravessou a vida ajudando o seu semelhante, que não conheceu o medo e se manteve alheio à agressividade e ao ressentimento! É dessa madeira que são esculpidas as figuras ideais, que consolam a Humanidade nas situações de sofrimento que ela própria criou."


Albert Einstein

Gulu, China


"Tudo quanto o espírito inventivo do homem criou nos últimos cem anos, poderia assegurar-nos uma vida despreocupada e feliz se o progresso em matéria de organização tivesse caminhado a par do progresso técnico. Mas, assim, tudo quanto se conseguiu à custa de muito esforço, lembra, nas mãos da nossa geração, uma lâmina de barbear na mão duma criança de três anos. A aquisição de maravilhosos meios de produção não nos trouxe a liberdade, mas sim a preocupação e a fome."

Albert Einstein

Cilangkap Village, Indonesia

"Só quando se suprimir a guerra, se conseguirá também realizar a educação da juventude no espírito de conciliação, de alegre afirmação da vida e de amor para com todos os seres vivos. Nem é de desejar que, precisamente os moços mais valorosos, sejam entregues à destruição, levada a cabo pela engrenagem, atrás da qual se erguem três potências formidáveis: a estupidez, o medo e a avidez."


Albert Einstein

A girl riding a bull to school, Myanmar


"O trabalho esforçado e a contemplação da natureza de Deus são os anjos que, conciliadores, fortificadores e, contudo, impiedosamente severos, me guiarão através do tumulto da vida."

Albert Einstein, Correspondência (1897), a um amigo 
 

Riau, Indonésia


"A comodidade de vida, o conforto, têm nos Estados Unidos um papel predominante. A eles se sacrifica o sossego, a despreocupação e a segurança. O Americano vive mais para um objectivo, para o futuro, que o Europeu. A vida é um evoluir constante e nunca um estado. Nesse sentido é menos parecido ainda com o Russo e o Asiático do que o Europeu."


Albert Einstein

The Root Bridge, India


"Aquilo que considero verdadeiramente valioso na engrenagem da Humanidade não é o Estado, mas sim o indivíduo criador e emotivo, a personalidade: só ela é capaz de criar aquilo que é nobre e sublime, enquanto o povo em si permanece embotado no pensar e frígido no sentir."

Albert Einstein

Zanskar, Indian Himalayas


"A interrupção do treino intelectual nos anos decisivos do desenvolvimento, deixa fácilmente, atrás de si, uma lacuna que dificilmente poderá ser depois preenchida."

Albert Einstein

Rizal Province, Philippines


"A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro."

Albert Einstein


Rizal Province, Philippines


"A vontade, dominada por uma firme convicção, é mais forte que a força material aparentemente invencível."

Albert Einstein


Rizal Province, Philippines


"Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe por provar o contrário."

 
Albert Einstein

Rizal Province, Philippines


"O ensino deve ser de modo a fazer sentir aos alunos que aquilo que se lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação."

Albert Einstein

Beldanga, India

Fontes:
Green Savers
Bored Panda


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"Sobre outros lábios" - Poema de Eugénio de Andrade


 



Sobre outros lábios


Eu crescia para o verão 
para a água 
antiquíssima da cal 
crescia violento e nu. 

Podiam ver-me crescer 
rente ao vento 
podiam ver-me em flor, 
exasperado e puro. 

À beira do silêncio, 
eu crescia para o ardor 
calcinado dos cardos 
e da sede. 

Morre-se agora 
entre contínuas chuvas, 
os lábios só lembrados 
de um verão sobre outros lábios.


Eugénio de Andrade
 




“As palavras não significam nada se não forem recebidas como um eco da vontade de quem as ouve.”


(Agustina Bessa-Luís)





“O que é um poeta, afinal? Uma intacta opressão da alma.”

(Agustina Bessa-Luís)





“A melhor impressão que a poesia nos pode dar é esta: ficar de coração vagabundo, deixando a vareja estalar na janela as asas grossas, e não dar por isso, como um cão surdo.”

(Agustina Bessa-Luís)





“Nada se aprende das recordações; são um manjar frio que só os gulosos devoram.”
 
(Agustina Bessa-Luís)


Agustina Bessa-Luís
Foto: Adriano Miranda ("Público")


Escritora portuguesa, Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa-Luís nasceu a 15 de outubro de 1922, em Vila Meã, Amarante. O Douro, onde viveu a sua infância e aonde, durante a adolescência, volta durante as férias escolares, marcará indelevelmente o seu imaginário romanesco. Começou a escrever muito cedo, ainda na adolescência, mas publicou a sua primeira obra de ficção, a novela Mundo Fechado, apenas em 1948. Nessa altura já estava casada e a viver em Coimbra. A partir de 1950 fixou residência no Porto, onde publica o seu primeiro romance, os Super-Homens.
Embora sempre ligada à produção literária, exerceu o cargo de Diretora do jornal O Primeiro de janeiro e depois de Diretora do Teatro Nacional D. Maria II. Pertenceu à Academia de Ciências de Lisboa, Classe das Letras, tornou-se membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social, da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres de Paris e da Academia Brasileira de Letras.
As suas obras revelam uma profunda reflexão sobre a condição humana. É o caso do romance A Sibila (1954), que obteve um êxito considerável, tendo sido objeto de sucessivas edições e vários prémios, como o Prémio Delfim Guimarães (1953) e o Prémio Eça de Queirós (1954), que a consagra como nome cimeiro da novelística contemporânea.
Tendo merecido desde as suas primícias o reconhecimento de autores e críticos como José Régio, Óscar Lopes, Eugénio de Andrade, Vitorino Nemésio ou Jorge de Sena, a sua obra viria a ser distinguida com os mais importantes prémios literários nacionais: Prémio Nacional de Novelística, em 1967; Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, em 1966 e em 1977, Prémio PEN Clube e D. Dinis, em 1980, Grande Prémio do Romance e da Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 1984 e Prémio Cidade do Porto. Os vários romances publicados por Agustina entre os anos cinquenta e oitenta, onde, predominantemente, a terra duriense, espaço mítico e cosmogónico, serve de palco para o desnovelar de "gestos e histórias de criaturas que a romancista colhe sempre em estado de autodestruição" e onde só "as criaturas apoiadas no obscuro e no indisputável de tradições ou carácter, gémeas da presença opaca da Terra, conservam o dom de resistir ao lento esfarelamento da sua realidade" (LOURENÇO, Eduardo, op. cit., pp. 170-171), e ao longo dos quais se afina a acuidade com que se compraz "em destruir as mil máscaras que permitem existir", num "furor de julgar e surpreender até o avesso das intenções" (id. ibi., pp. 166-167), dificulta qualquer tentativa de divisão da sua vastíssima obra romanesca em "fases" ou "momentos".
Entre os caracteres definidores que têm vindo a ser atribuídos à torrencial obra romanesca de Agustina Bessa-Luís, o de neorromantismo talvez seja o mais recorrente, epíteto, aliás, inaugurado por Eduardo Lourenço, ao considerar que "pela poderosa vaga de fundo que agita ao integrar-se de corpo e alma a um mais geral movimento da imaginação a braços com riquezas e terrores que são, em parte, os da vida, pela espécie de viagem no mundo interior de mundos mais visivelmente iluminados por uma luz crepuscular que pelos "amanhãs que cantam", pela busca ou contemplação de realidades extáticas no coração do que muda ou de guardiães do que é sempre igual, estas novas terras romanescas entreabertas pela passagem de Sibila bem podem receber o nome de neorromânticas." (LOURENÇO, Eduardo, op. cit., p. 162). Abrindo uma grande linhagem na novelística da segunda metade do século XX, para Silvina Rodrigues Lopes, "A especificidade do romance de Agustina Bessa-Luís pertence à afirmação decisiva da impureza do romance, que é o romance como crise permanente, desencadeada pela manifestação de uma avalancha incontrolada de acontecimentos e reflexões que o indivíduo não domina mas recebe, das múltiplas realizações da linguagem, literárias e orais", ao mesmo tempo que, "na relação com uma essência da épica, que é a memória, não admira que o ritmo desta escritora seja um ritmo pessoal, determinável pela memória própria e por uma relação com a memória dos outros, através de uma atenção ao saber, hábitos, ritos ou lendas da tradição, e de uma atenção ao memorizável, cuja condição é, no entanto, o esquecimento, a possibilidade de repetir em interpretações inéditas." (LOPES, Silvina Rodrigues - Agustina Bessa-Luís - As Hipóteses do Romance, Porto, Asa, s/l, 1992, p. 21).
Prosseguindo a rota desconcertante encetada no início dos anos 50, ao longo de uma obra com já mais de cinco dezenas de títulos, e que se multiplica, de forma multímoda, entre a ficção, o teatro, a crónica, os guiões, a literatura infantil, a bibliografia ficcional de Agustina integra ainda uma série de ensaios romanescos de inspiração histórico-biográfica, como Santo António, Florbela Espanca, Fanny Owen (resultado de um trabalho de pesquisa, fundado em montagens sobre textos de Camilo), Sebastião José, Longos Dias Têm Cem Anos - Presença de Vieira da Silva, Adivinhas de Pedro e Inês, Um Bicho da Terra, A Monja de Lisboa, Martha Telles ou As Meninas, tendo este último sido escrito juntamente com Paula Rego.
Publicou ainda, entre muitos outros títulos, O Manto (1966), Canção diante de Uma Porta Fechada (1966), As Fúrias (1977), O Mosteiro (1981), que ganhou o prémio D. Dinis da Casa de Mateus, e Os Meninos de Ouro (1983), que recebeu o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores. O conjunto da sua obra mereceu o Prémio Nacional de Novelística, em 1967, e o Prémio União Latina, em 1997. Vários dos seus romances (entre eles Fanny Owen, de 1979) foram adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira. Em maio de 2002, recebeu pela segunda vez o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores relativo ao ano de 2001, atribuído à obra Joia de Família (2001). Esta sua obra também foi adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira, dando origem ao filme O Princípio da Incerteza. Na sequência da triologia literária iniciada com esta obra, a autora, em 2002, editou um novo romance, desta vez com o título A Alma dos Ricos.
Agustina Bessa-Luís foi distinguida com os prémios Vergílio Ferreira 2004, atribuído pela Universidade de Évora, pela sua carreira como ficcionista, e o Prémio Camões 2004. Nesse mesmo ano, 2004, editou mais uma obra, com o título Antes do Degelo.
A 22 de março de 2005 foi distinguida, juntamente com o poeta Eugénio de Andrade, com o doutoramento "Honoris Causa", atribuído pela Universidade do Porto durante a cerimónia do 94.º aniversário da sua fundação.

Agustina Bessa-Luís. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-10].

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

"A Maravilha da Vida é tudo nela ter justificação" - Texto de Miguel Torga




A Maravilha da Vida é tudo nela ter justificação


Desabafo dum amigo, que não encontra justificação para o seu pecado mortal, que é viver. Viver ao sol, gratuitamente, como um lagarto. Respondi-lhe que a maravilha da vida é tudo nela ter justificação. É, da mais rasteira erva ao mais nojento bicho, não haver presença no mundo que não seja necessária e insubstituível. Que, do contrário, era faltar na terra esta admirável plurivalência, que faz de uma tarde de sol, de trigo e de cigarras o mais assombroso espetáculo que se pode ver. O medir depois a distância que vai da formiga ao leão, da urtiga ao castanheiro, de Nero a S. Francisco de Assis, é uma casuística que não tem nada que ver com a torrente de seiva que inunda o mundo de polo a polo.
Foi-se, e à tarde apareceu-me com um belo poema.

Miguel Torga, in "Diário (1938)"

Vida Selvagem