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domingo, 30 de abril de 2023

"Desmantelamento de um rio" - Poema de José Luís Peixoto


Marius Borgeaud (Swiss Post-Impressionist painter, 1861–1924), La Chambre Blanche, 1924.
Huile sur toile, collection privée
 

Desmantelamento de um rio


Arranco os autocolantes da parede do quarto do nosso filho,
como se a faca elétrica da cozinha me atravessasse o braço.
Sou eu que apago os seus desenhos na parede. Não são riscos,
são desenhos. Há lápis de cera espalhados e partidos pelo chão.
Depois de nós, esta morada terá outros nomes e chegarão cartas
pacientes à caixa do correio. Agora, são impossíveis de imaginar,
como o nosso ontem será impossível de imaginar. Foi aos poucos
que ficou apenas o sofá e as recusas e os armários esventrados.
Foi muito demoradamente que chegaram as noites em que durmo
no sofá, sob um cobertor oferecido pela minha mãe ou pela tua.
Por fim, tenho tempo para habituar os olhos às sombras e avaliar
a devastação, acordar com o frio da madrugada, o esquecimento,
e assistir àquela hora azul em que já não é de noite, mas em que
ainda falta tanto para ser de dia. Despejo no fundo de um saco
tudo o que está naquela gaveta que nunca ninguém arrumou.
À minha volta, há caixotes que servem para guardar os livros,
já estão divididos. Escolho o lugar para pousar os pés. Fizemos
coisas nesta sala vazia, tivemos pensamentos, aprendemos
alfabetos. Resta-me agora o que sempre tive e, como se caísse
desamparado na banheira, prossigo e continuo o meu trabalho,
como se batesse com a cabeça na esquina de uma gaveta,
prossigo e continuo o meu trabalho.


José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis
 

Marius Borgeaud, Window, 1924


"A janela: não é onde a casa sonha ser mundo?"

Mia Couto
, in  Estórias Abensonhadas,
7. ed. Lisboa: Caminho, 2003.


sábado, 18 de março de 2023

"Não é um gato" - Poema de José Luís Peixoto


Marius Borgeaud (Swiss Post-Impressionist painter, 1861–1924),
«Intérieur aux deux verres», 1923, Huile sur toile (97 cm X 130 cm).
Musée cantonal des Beaux-Arts, Lausanne
 
 
Não é um gato

 
Não é um gato, é uma gata.
Compreendo que seja mais fácil
reduzir todos os gatos a gatos,
mas peço-lhe que, por fineza,
abra uma exceção. É uma gata,
não amamentou gatinhos,
ou porque não teve escolha,
ou, mais provavelmente,
porque não quis. É uma gata,
aluada em certas noites,
a lamber-se sem vergonha,
a desfrutar do seu próprio cio.
Compreendo que seja mais fácil,
sei que não fez por mal, nunca
ninguém faz por mal, já reparou?
Mas peço-lhe que preste atenção
e, no futuro, não volte a cometer
esse erro tão comum. É uma gata,
não é um gato, é uma gata. 
 
 
Marius Borgeaud, «Intérieur au chat», 1918 (62 cm X 53 cm).


"Gatos não pertencem às pessoas. Eles pertencem aos lugares."


"Cats don't belong to people. They belong to places."
 
Wright Morris
Collected Stories, 1948-1986‎ - Página 53,
Publicado por Harper & Row, 1986