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domingo, 2 de agosto de 2020

"Cartas a Ophélia Queiroz" - Fernando Pessoa


Carolina Zambrano Enriquez, Fernando Pessoa y Heterónimos



Carta a Ophélia Queiroz  - 1 Mar. 1920


Ophelinha:

Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo. Assim, entendo da mesma maneira, mas dói-me mais.

Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação — creio eu — de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.

Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as coisas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».

Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal — nem a si, nem a ninguém —, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.

Reconheço que tudo isto é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu.

Eu-próprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra coisa que não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim...

Aí fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva.

1.3.1920

Fernando Pessoa

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994) - 1.


Ophélia Queiroz


Ophélia Queiroz
nasceu em Lisboa, na Rua das Trinas, no dia 14 de junho de 1900.

Filha de pais algarvios, de Lagos, é a mais nova de oito irmãos. Concluiu o primeiro grau da instrução, embora desejasse ser professora de matemática, mas procurou estar sempre atualizada estudando Francês e Inglês.

Gostava de ler, de ir ao teatro e de conviver. Passava muitas horas em casa do sobrinho, o poeta Carlos Queirós, a conviver com grandes artistas como Carlos Botelho, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, Olavo d'Eça Leal, Teixeira de Pascoaes, José Régio e outros.

Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de maio a 29 de novembro de 1920 e de 11 de setembro de 1929 a 11 de janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta.

A primeira fase, marcada por uma paixão sincera, termina com uma carta em que Pessoa afirma que o seu destino pertence a outra lei.

O reencontro, motivado por uma fotografia do Poeta a beber no Abel Pereira da Fonseca, oferecida a Carlos Queirós, inicia-se quando esta mostra vontade de possuir uma igual e ele lhe envia uma com a dedicatória: "Fernando Pessoa em flagrante delitro". Nesta segunda fase, nota-se uma enorme confusão de sentimentos e perturbação psíquica.

A partir de 1936 até 1955, Ophélia Queiroz trabalhou no SNI (Secretariado Nacional da Informação). Nesse ano, na Tobis, conhece Augusto Soares, um homem de Teatro, com quem casa em 1938. (Daqui)


Fernando Pessoa em 1914 


Carta a Ophélia Queiroz - 29 Nov. 1920

Ophelinha:

Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas coisas fazem sempre pena; alívio, porque, na verdade, a única solução é essa — o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade?

Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se atribuíssem.

O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.

Estas coisas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?

Na sua carta é injusta para comigo, mas compreendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com mágoa, mas, a maioria da gente — homens ou mulheres — escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um feitio óptimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. Quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.

Quanto a mim...

O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca — nunca, creia — nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse.

Não sei o que quer que lhe devolva — cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão.

Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.

Que isto de «outras afeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ophelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.

Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

 29-11-1920

Fernando Pessoa

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994) - 36.


 
Fernando Pessoa em 1928


Cartas a Ophélia


Ler a correspondência alheia é, alerta-nos a autoridade, atividade criminosa. Que o leitor amigo aceite, portanto, o saboroso convite a um ilícito voyeurismo: trata-se de desvendar as cartas amorosas de um dos maiores poetas do século passado, o português Fernando Pessoa. Se todo homem é um universo de percepções, sonhos e experiências, a alma multiforme de Pessoa cindiu-se numa miríade de galáxias, desveladas pela esquizofrenia literária da heteronímia. O poeta são poetas, e é esse parnaso pessoal, composto por filósofos panteístas, médicos aristocráticos, engenheiros futuristas, escrivães misantropos, que constitui um dos maiores desafios ao entendimento desse pequeno funcionário português, desse cultor da astrologia e do ocultismo, do homem metódico dado ao vício do álcool, da carne que se fez verbo, coerente com a troca de sinal da mensagem do evangelho que representou seu projeto de existência.

Nas cartas, endereçadas por Fernando Pessoa a sua amada Ophélia, é impossível não reconhecer os ecos de outra célebre epistolografia literária, aquela trocada por Franz Kafka e sua noiva, Felice Bauer; ambos, Kafka e Pessoa, foram burocratas medíocres, que consumiram a vida no processo monomaníaco de encontrar o sumo da existência, transmutada na obra (talvez não fosse de todo incorreto afirmar que, para Pessoa e Kafka, parodiando os versos do primeiro, escrever é preciso, viver não é preciso), ambos vivendo paixões fadadas ao fracasso, repletas de extremado apego e de obsessões neuróticas.

Como apontará o romancista italiano Antonio Tabucchi, estudioso dos labirintos de Pessoa, na notável introdução ao volume, devemos enfrentar as desventuras epistolares do poeta português com olho armado, e uma saudável dose de perspicaz ceticismo. Quem era tantos (ou um outro, na formulação famosa de outro poeta, Rimbaud, que no exercício de sua clarividência percebeu uma das fraturas mais fundamentais da modernidade) não pode mesmo se expressar com a naturalidade inocente de um colegial apaixonado, ou ainda: é justamente a expressão, pouco apaixonada, por vezes quase infantil, do amor de Pessoa, que nos deve fazer desconfiar que, sob a camada de gelo fino da paixão sem erotismo, reverbera um oceano de complexidade gigantesca, quase insondável. “Fausto em gabardina”, dirá Tabucchi, ao traduzir a odisseia moral do poeta e de sua Ophelia, e é mesmo isso.

Assombrado pela obsessão dos relógios, dos documentos, da confirmação de seu amor, Pessoa (Qual deles? Todos? Quem?) parece, angustiosamente, ao narrar seus pequenos acidentes domésticos, seus contratempos diários, suas indisposições físicas, perseguir um sentido de normalização, uma via de tranquilização através do Outro, a plena realização de si por intermédio do ordálio amoroso. E não é de surpreender que, tendo tornado a si mesmo personagem, e metamorfoseado sua vida em construção literária, a própria compreensão do amor, seja, para Pessoa, a de uma página artística.

Se a vida desimporta – no sentido mais pedestre que se possa atribuir a uma palavra tão eivada de sentido quanto “vida” – e se no lance de dados só a obra seja o próprio sentido das coisas, o amor só interessa, ele mesmo, como objeto poético. Daí que o amor de Pessoa seja tão casto, tão inocente, tão platonizante, tão despido de sexualidade e de carne: aqui, todo gozo se localiza no campo da palavra e da ideia: “O amor é que é essencial/ O sexo é só um acidente”, segundo a ascética formulação expressa nos versos do ortónimo.

A leitura da correspondência alheia não é atividade inocente. Muito menos se o signatário das cartas intitular-se Fernando Pessoa. (Daqui)



 
Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. Correspondência Amorosa Completa



Correspondência Amorosa Completa
1919-1935


Este volume reúne toda a correspondência amorosa trocada entre Fernando Pessoa e sua única namorada, Ofélia Queiroz, de 1919 a 1935, com 156 cartas inéditas. Foi uma história de amor discreta, que poderia ter permanecido totalmente esquecida se Fernando e Ofélia não tivessem guardado por toda a vida as quase 350 cartas, cartões-postais, bilhetes e telegramas trocados entre eles.

Ofélia tem 19 anos e Fernando, 31, quando o namoro começa. Ela é uma moça inteligente e viva, apaixonada pelo poeta, de quem espera uma proposta de casamento. A jovem lisboeta o afoga em cartas, e chega a assinar - Ofélia ´Pessoa´ (quem me dera). Mas também sabe se prestar ao jogo dos heterónimos de Pessoa - A. A. Crosse e Álvaro de Campos são presenças recorrentes nas cartas, e Campos até mesmo assina uma das cartas de Pessoa. A forma epistolar é fundamental nessa relação, com ruptura em 1920 e curta retomada em 1929.

Para os admiradores de Fernando Pessoa, a leitura deste livro, no qual todas as imagens dos escritos na sua letra são reproduzidos pela primeira vez, faz reviver cada etapa deste episódio marcante de sua biografia, que humaniza o poeta. (Daqui)


"Fernando Pessoa em flagrante delitro": dedicatória na fotografia
 que ofereceu a Ophélia Queiroz em 1929.
 

Um dia, um conhecido disse a Fernando Pessoa (1888-1935): 
"O senhor bebe como uma esponja!"

O autor de O Livro do Desassossego terá respondido: 
"Como uma esponja, não. Como uma loja de esponjas, e com armazém anexo."

Sentado à mesa do Martinho da Arcada ou de outros cafés da Baixa lisboeta, Pessoa fumava cerca de 80 cigarros por dia e bebia - vinho, sim; whisky, em ocasiões especiais; absinto, por influência do amigo Mário de Sá-Carneiro; mas, sobretudo, bagaço e aguardente. Até trazia sempre consigo, na pasta de cabedal, uma garrafinha preta com essa bebida. Mas sem perder a compostura.

Mesmo na fotografia que enviou à namorada Ofélia, "apanhado em flagrante delitro", como ele próprio escreveu, no depósito da casa Abel Pereira da Fonseca, ali está, impecável, de copo na mão e chapéu na cabeça. (Daqui)


Fernando Pessoa na Baixa de Lisboa


“Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores.” 

Fernando Pessoa – Livro do Desassossego


"Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma mas para não ter que desabotoar o casaco.

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se na minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não incarna a substância de milhares de vozes, a fome de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha no destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência… Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, sinto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que esquecido estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui eu assim!…"

 Fragmento do "Livro do Desassossego", a obra-prima em prosa escrita por Fernando Pessoa, através do seu semi-heterónimo Bernardo Soares. Segundo assim o definiu Fernando Pessoa, Bernardo Soares era ajudante de guarda-livros e vivia e trabalhava na Rua dos Douradores, em Lisboa.

Fonte:
Livro do Desassossego. Vol.II. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1990. - 33,34. 



Estátua de Fernando Pessoa da autoria de Lagoa Henriques, no café A Brasileira, no Chiado, Lisboa.


Em 29 de Novembro de 1935, Fernando Pessoa foi internado com o diagnóstico de cólica hepática. A sua última frase, escrita em inglês, dizia: "I know not what tomorrow will bring".

Morreu no dia 30, com 47 anos, deixando grande parte da sua obra ainda inédita.

Fernando Pessoa é considerado universalmente um dos maiores poetas de sempre. 


sábado, 6 de maio de 2017

"Poema da pedra lioz" - António Gedeão


Costa Motta (1862-1930), Túmulo de Vasco da Gama, Mosteiro dos Jerónimos, em BelémLisboa, feito de lioz.



Poema da pedra lioz 


Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na brutidão dos calcários. 
 
Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um truca...truca...
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada romântica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Góis,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de surrobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso, largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um Cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.
Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes,
o gozo da salvação.
Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaros celestes,
entre cometas e sóis.
Mulheres e homens, sem paz,
esgazeados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás. 
 
Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se entende o truca...truca...
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande senhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.
 
 
Filipe Lobo, Vista do Mosteiro dos Jerónimos e Praia de Belém, 1657Museu Nacional de Arte Antiga.
O Mosteiro dos Jerónimos, em Belém (Lisboa), feito de lioz.


Lioz ou pedra lioz é um tipo raro de calcário que ocorre em Portugal, na região de Lisboa e seus arredores (norte e noroeste), nomeadamente no concelho de Sintra, sendo aqui extraído nos arredores da vila de Pero Pinheiro.
Os seus depósitos foram formados no período Cenomaniano-Cretácico em um ambiente de mar pouco profundo, de águas quentes e límpidas, propícias à proliferação de organismos de esqueleto carbonatado, construtores de bancos de recifes. A rocha caracteriza-se por ser um calcário bioclástico e calciclástico compacto, rico em biosparite e microsparite, geralmente de cor bege, embora existam variedades com coloração que vai do cinza-claro ao rosado e ao esbranquiçado.
Foi muito utilizada em Portugal como rocha ornamental e para a construção de elementos estruturais, como padieiras e ombreiras. Elementos arquitectónicos construídos nesta pedra, nomeadamente padieiras ornamentais, arcos e pelourinhos, foram transportados para diversas regiões do Império Português.

Além de igrejas, palácios e chafarizes, espalhados por Portugal e seus antigos territórios, o lioz foi empregue em importantes monumentos, como por exemplo, em Lisboa, no:

Em Coimbra:



Pintura (autor desconhecido) da fachada principal e a envolvente do Convento de Mafra
aproximadamente a meio do século XVIII, antes do Terramoto de Lisboa de 1755.

sábado, 15 de novembro de 2014

"O mistério da palavra" - Poema de Adolfo Simões Müller


 
 
 
O mistério da palavra


Porque será que uma palavra aflora
correspondendo logo ao nosso apelo,
com a medida justa, o justo emprego,
enquanto noutras vezes se demora
(rimmel, bâton, um jeito no cabelo…)
e chega em voo cego de morcego?

Porque será que uma palavra quase
vai buscar outra dentre a multidão,
e esta segunda, uma terceira e quarta,
e assim nasce de súbito, uma frase,
um belo verso, a quadra ou a canção,
a sentença de morte, a tua carta?

Porque será que uma palavra, impávida,
resiste aos séculos e fica jovem,
ou morre (cancro, enfarte, dor reumática),
enquanto outra, novinha, surge grávida,
e aos nove meses os filhinhos chovem
que é um louvar a Deus e à gramática?

Porque será que a rima atrai a rima,
e a rima nova é como o vinho novo
que salta e espuma e baila na garganta?
E outra rima! Outras rimas! A vindima
das palavras não pára… E, no renovo,
o poema é estrela que alumia e canta!

Porquê este mistério, Poesia?
És tal e qual a eletricidade:
existe mas nem sempre a gente a vê.
Porque foges um ano e mais um dia
e voltas, alta noite, claridade?
Porquê? Porque será? Porquê? Porquê? 
 
Busto de Adolfo Simões Müller, 1991, Bronze
por Anjos Teixeira (filho)


Adolfo Simões Müller (Lisboa, 18 de Agosto de 1909 - 17 de Abril de 1989) foi um escritor e jornalista português.
Frequentou a Faculdade de Medicina mas abandonou o curso. Foi secretário de redação do jornal Novidades, fundador e diretor até 1941 do jornal infantil O Papagaio e diretor do Diabrete, e do semanário juvenil o Foguetão  (1961) e da revista de banda desenhada Cavaleiro Andante. Também colaborou na Mocidade Portuguesa Feminina: boletim mensal (1939-1947).
Foi ainda diretor do gabinete de estudos de programas da Emissora Nacional e produtor de programas para a rádio. Inclusivamente foi o autor do primeiro folhetim de rádio As Pupilas do Senhor Reitor.
Estreou-se na literatura com o volume de poemas Asas de Ícaro (1926). No entanto, foi a literatura infantil que o celebrizou, tendo escrito obras como Caixinha de Brinquedos (1937, Prémio Nacional de Literatura Infantil) e O Feiticeiro da Cabana Azul (1942, galardoado com o mesmo prémio). 
Para o público juvenil escreveu, entre outros, os livros constantes da coleção Gente Grande para Gente Pequena, onde em cada livro romanceou a vida de personalidades como Madame Curie (A Pedra Mágica e a Princesinha Doente), Robert Scott (O Capitão da Morte), Camões (As Aventuras do Trinca-Fortes), Thomas Edison (O Homem das Mil Invenções), Gago Coutinho (O Grande Almirante das Estrelas do Sul), Wagner (O Piloto do Navio Fantasma), Gutenberg (O Exército Imortal), Florence Nightingale (A Lâmpada que Não se Apaga), Infante Dom Henrique (O Príncipe do Mar), Cervantes (O Fidalgo Engenhoso), Serpa Pinto (Através do Continente Misterioso), Marco Polo (O Mercador da Aventura), Fernão de Magalhães (A Primeira Volta ao Mundo - Prémio Nacional de Literatura em 1971), Baden-Powell (A Pista do Tesouro) ou Hans Christian Andersen (O Contador de Histórias).
Entre outras obras, adaptou para a juventude Os Lusíadas (1980), A Peregrinação (1980), A Morgadinha dos Canaviais (1982) e As Pupilas do Senhor Reitor (1984)
Em 1982, recebeu o Grande Prémio da Literatura Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua obra, onde também se incluem livros como Meu Portugal, Meu Gigante (1931), Jesus Pequenino (1934), A Última Varinha de Condão (1941), Historiazinha de Portugal (1944), A Última História de Xerazade (1944), Dona Maria de Trazer por Casa (1947), O Livro das Fábulas (1950) e A Viagem Maravilhosa de Comboio (1956), num total com mais de 70 obras.
Outras das suas obras são Tejo Rio Universal, Sola Sapato Rei Rainha, Douro: Rio das Mil Aventuras, Histórias do Arco da Velha, Moço Bengala e Cão ou a adaptação juvenil das Mil e Uma Noites.(daqui)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

"O Segredo do Mar" - Poema de Afonso Lopes Vieira


Adamastor, da colecção de painéis de azulejos do mestre Jorge Colaço, evocando Os Lusíadas, 



O Segredo do Mar


A “Flor do Mar” avançando
Navegava, navegava,
Lá para onde se via
O vulto que ela buscava.

Era tão grande, tão grande
Que a vista toda tapava. 

E Bartolomeu erguido
Aos marinheiros bradava
Que ninguém tivesse medo
Do gigante que ali estava.

E mais perto agora estão
Do que procurando vão!

Bartolomeu que viu?
Que descobriu o valente?
- Que o gigante era um penedo
que tinha forma de gente?

Que era dantes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir.


Obra Poética (séc. XX)




Jorge Colaço (Tânger, 26 de Fevereiro de 1868 — Caxias, 23 de Agosto de 1942) foi um pintor português.
Nasceu no Consulado de Portugal em Tânger, Marrocos, filho de um diplomata. Estudou arte em Lisboa, Madrid e Paris. Exímio desenhador destacou-se na caricatura, na pintura e no azulejo, aqui com capacidades inovadoras de processos e de técnicas. Foi proprietário e diretor artístico da revista O Thalassa (1913-1915) e colaborou nas duas edições, seguidas, do periódico Branco e Negro existente entre 1896 e 1898, e O Branco e Negro editado apenas em Março e Abril de 1899, e ainda na revista Illustração portugueza iniciada em 1903. Era primo da atriz Amélia Rey Colaço.


Adamastor, escultura de Júlio Vaz Júnior no miradouro de Santa Catarina, Lisboa, Portugal
inaugurada em 1927


Júlio Alves de Sousa Vaz Júnior (Lisboa, 1877-1963) foi um escultor português.
Em 1893 ingressa na Academia Portuense de Belas Artes onde é discípulo de Teixeira Lopes e Marques de Oliveira.
Enquanto estudante da Academia de Belas Artes do Porto, Júlio Vaz abraça a vida académica da cidade invicta, integrando a geração de 1897 do corpo de músicos da Tuna Universitária do Porto enquanto violinista.
A sua formação passa por Paris no fim do século XIX, onde tem como Mestre Jean-Antoine Injalbert na Académie de la Grand-Chaumiere.
Em 1904 integra os quadros enquanto docente da Escola Industrial Dr. Bernardino Machado e mais tarde o corpo de docentes da Escola Industrial Machado de Castro em Lisboa.
Enquanto escultor, Júlio Vaz Júnior possui uma carreira de perto de 70 anos, trabalhando a par com a Sociedade Nacional de Belas Artes, saliento-se as seguintes obras: "Adamastor" (Miradouro de Santa Catarina - 1922/1927); "Octogenário" (2º prémio na Exposição no Rio de Janeiro em 1908); "Austera", peça produzida em 1911, vencedora do 3º Prémio atribuído no concurso aberto pela Câmara Municipal de Lisboa; "A Eloquência", peça produzida em 1915, Sala dos Deputados da Assembleia da República, Palácio de S. Bento; "Receosa", peça produzida em 1924, apresentada na XXIIª Exposição da SNBA; "Dr. José Leite de Vasconcelos", peça produzida em 1932, apresentada na Exposição da SNBA no ano de 1937; "Monumento aos Mortos da Grande Guerra de 1914-1918", Lamego; "Simplicidade", Ministério das Finanças, Lisboa; "Fidelidade", Avenida Gomes Pereira, Benfica, Lisboa; "Ad Meliora"; "Viriato"; "Lusitânia"; "A Vaga"; "Ignota Dea"; "Família". 


Adamastor
 (Mitologia)

Adamastor é um mítico gigante baseado na mitologia greco-romana, referido por Luís de Camões em Os Lusíadas, também referido por Fernando Pessoa no poema O Mostrengo, chamando-lhe Mostrengo. Representa as forças da natureza contra Vasco da Gama sob a forma de uma tempestade, ameaçando a ruína daquele que tentasse dobrar o Cabo da Boa Esperança e penetrasse no Oceano Índico, os alegados domínios de Adamastor.

É o nome atribuído a um dos gigantes, filhos de Gaia, que se rebelaram contra Zeus. Fulminados por este, ficaram dispersos e reduzidos a promontórios, ilhas e fraguedos. O seu nome surge, certamente, pela primeira vez com Sidónio Apolinário. O gigante foi listado por Rabelais, em Gargantua e Pantagruel.

Foi popularizado ao ser usado com verdadeira mestria pelo poeta português Luís de Camões, no Canto V da epopeia portuguesa Os Lusíadas, como o gigante do Cabo das Tormentas, que afundava as naus, e cuja figura se desfazia em lágrimas, que eram as águas salgadas que banhavam a confluência dos oceanos Atlântico e Índico. O episódio do Adamastor representa, assim, em figuração grandiosa e comovida, a sua oposição à audácia dos navegadores portugueses e a predição da história trágico-marítima que se lhe seguiria.


Wonderful Chill Out Music - The Ocean



  • "Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida." - José Saramago